quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

 


Por detrás da cortina

 

         Naquela casa antiga de paredes seculares algo estranho acontecia; mesmo com todas as janelas, e portas fechadas persistia um vento encanado vindo de lugar nenhum. Dona Joviana se aproximando dos cem anos, muito bem vividos, lembrava de uma velha história contada por sua avó, Maria Emerenciana Pontes de Albuquerque.

 

         Existe no casarão uma parede que ostenta uma bela cortina de veludo, o inusitado é que a cortina não está escondendo uma janela, um vão, um cofre, mas apenas uma parte descascada da parede, e nesse local tem-se a impressão de que alguém nos espiona em silêncio.

 

         Todas as cenas trágicas que de alguma forma marcaram a longa história dos Pontes de Albuquerque aconteceram frente à cortina de veludo; pedidos de casamentos, ataques cardíacos, assassinatos, ofensas, dramas e comédias que fazem parte do dia a dia de uma família tradicional, todas sem exceção ocorreram neste mesmo local.

 

         Maria Emerenciana Pontes de Albuquerque, vovó Merê, filha mais nova do lendário coronel Ervandro de Albuquerque assistiu de camarote o desenrolar dos atos que marcaram a negra sina da sua família; Merê estava com cinco anos de idade, e ninguém prestava atenção numa criança brincando com a sua boneca de pano.

 

         O coronel Ervandro amava o poder acima de tudo, no dia em que comprou um escravo que se dizia grande feiticeiro em seu país de origem, tirou a sorte grande; Malic, o feiticeiro, fez uma conjugação das forças do mal, juntou ao sangue de uma inocente criança, o veneno da jaracuçu, a esperteza do lobo, a força jovem de um cativo, invocou um demônio da escuridão, e criou na parede da casa senhoril um portal para o desconhecido, o local foi coberto por uma cortina de veludo.

 

         Os espíritos dos mortos eram invocados frente à cortina, um vento gelado anunciava as aproximações, Malic era o oráculo, o encarregado das mensagens do além. Várias vezes a criança Merê, as escondida presenciou as conjurações... Joviano deteve o poder, o mando, a juventude por muitos anos, mas um dia a conta chegou, e tanto ele quanto o feiticeiro foram tragados pelas sombras que habitavam por detrás da cortina de veludo.

 

         O filho mais velho do coronel Ervandro herdou o domínio das sombras, e assim sucessivamente todos os primeiros filhos usufruíam do poder, o pai de Joviana morreu muito jovem, recém casado, e nem sequer conheceu a primeira filha; o poder só passava para os homens, nunca para as mulheres... A cortina de veludo permaneceu calada por décadas esperando pelo nascimento de um herdeiro com a genética de Ervandro de Albuquerque.

 

         Pedro Paulo, bisneto de Joviana atendeu ao chamado das sombras; foi o último dos Albuquerque a obter os favores da escuridão, morreu solteiro e de overdose. Por detrás da cortina de veludo o portal permaneceu aberto, um vento gelado vindo de lugar nenhum ainda se desprende da velha parede, sombras sussurram nas trevas, chamam por um novo mestre, necessitam de sangue jovem, e de almas revoltadas para compartilharem os dois planos da existência.

 

         A última bisneta de Joviana nasceu estéril, adotou um menino de nome Jairo; guri serelepe, destemido, alegre e brincalhão, uma tarde ele se escondeu atrás da cortina de veludo. Uma voz macia vinda de tempos imemoriais segredou em seu ouvido; - “Bem vindo, Jairo! Jamais nos esquecemos de você, Malic, nosso oráculo.”

 

Gastão Ferreira/2020   

             

        

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

 


Ao redor da fogueira

 

                Jamais esquecerei meu último acampamento, foi para os lados dos Itatins, a terra sagrada dos tupis-guaranis, diz a lenda urbana que Tupã e Anhangá ali lutaram pela posse das águas e matas da Juréia.

 

         Acampar na Juréia era um sonho antigo, como é uma Reserva Ambiental tivemos que arrumar uma permissão, um passe de entrada; o Rio Verde é um rio de águas cristalinas e você enxerga os cardumes de robalos, pescadas, vivócas e outros peixes nadando sem medo de ser feliz, é proibido pescar no rio.

 

         Lugar montanhoso tem muitas cachoeiras e lagos... Ah, sim! Mutucas, pernilongos, mosquito pólvora, antas, cobras venenosas, onças, raposas, e toda a fauna da Mata Atlântica.

 

         Éramos seis amigos, todos velhos camaradas, nos conhecíamos desde o pré-escolar. Fomos pela Barra da Ribeira, atravessamos a montanha do Costão da Barra, contornamos a primeira cachoeira e armamos as barracas numa belíssima praia totalmente deserta.

 

         Não contem para ninguém, mas Pedro Gaivota e Lúcio Manditinga fisgaram alguns peixes para a janta; juntamos gravetos e muitos ramos secos, armamos uma bela fogueira... Mario Corruíra era o nosso “El cantador”, o menino fazia miséria com um violão.

 

         Os peixes foram assados na folha da bananeira, batata doce era o acompanhamento, caipirinha sem gelo, e muita história de assombração para por medo nos caros ouvintes... Joel Batata avistou uma luz se movendo na praia, quem será? Um extraterrestre a procura de alguém para abduzir? Um caiçara? Um pescador solitário?

 

         A figura se aproximou, era um rapaz, falou ser um morador do Rio Das Pedras, um bairro de Iguape que fica no meio da mata, e junto a Juréia, disse estar voltando para a casa, e que tinha o hábito de andar à noite, conhecia a região como a palma de sua mão. 

 

         Oferecemos a comida e a bebida, aceitou um pedaço de batata doce, continuamos a contar nossas histórias macabras, em volta da fogueira estavam sete pessoas, e quando chegou à vez da visita, ela não se negou a narrar um causo:- “Como vocês sabem a Juréia é habitada há séculos, bem antes do descobrimento do Brasil já havia humanos perambulando por essas matas; correu muito sangue neste chão, sangue de índio contra índio, de português contra índios, de negros contra brancos. Brigas horríveis, carnificinas, até os deuses tomaram partido nas escaramuças...”

 

         - “É bom ficar atento, fechar bem a barraca na hora de dormir, e não saiam para fora de maneira alguma, muitas visagens ainda vagam no silêncio da noite. Conta uma lenda muito antiga que jamais depois do escurecer se devem juntar sete pessoas, ou três, ou cinco... Números ímpares atraem os demônios da floresta, e um do grupo sempre é levado para se unir aos seres das trevas, Anhangá ainda é o senhor deste mundo cruel...” 

 

         - “Então, todo o cuidado é pouco, e eu me sinto culpado, pois não reparei que ao me juntar a vocês formamos um grupo de sete pessoas, peço licença para me retirar...”

 

         O moço levantou-se e saiu em direção ao mar sem se despedir, olhamos uns para os outros e quando voltamos à atenção para a praia o rapaz tinha sumido; impossível!Como pode ter desaparecido assim no ar, será que a caipirinha sem gelo detonou a nossa razão? Resolvemos nos recolher e esquecer o ocorrido.

 

         Devia ser umas três horas da manhã, Lúcio Manditinga saiu da barraca para urinar... O seu grito foi apavorante, todos acordaram na hora; um grupo de selvagens seminus cercava as barracas, Lúcio estava sendo arrastado para longe, ficamos impotentes perante tantos guerreiros indígenas...

 

         Um homem forte, muito alto, com um pequeno cocar de plumas na cabeça se aproximou de nós; - “Não deviam ter capturado os peixes, a Iara, a senhora das águas não gostou e Anhangá usou a lei dos “sete juntos” para punir a falta de vocês.”

 

         Quando a figura se afastou todos os guerreiros baixaram a cabeça, e numa só voz disseram; - “Salve o Curupira, o protetor de nossa caça, de nossa pesca, de nossas matas, salve!”

 

         Nunca mais tivemos notícia de nosso amigo de infância, Lúcio Manditinga desapareceu para sempre; os guardas florestais acharam uma carcaça humana na mata, pensam que um viajante solitário foi atacado por uma onça, mandaram fazer um teste de DNA, estamos torcendo que não seja o Manditinga, no local foi achado os restos de uma fogueira, e no passado os indígenas que habitavam a região eram todos canibais... Nunca mais acampei na vida.

 

Gastão Ferreira/2020

 

 

 

 

 


O cão fantasma

 

         Na rodovia que liga a cidade de Iguape à cidade de Pariquera, na altura do bairro rural de Ilha Grande, existe um sitio onde nenhum vivente costuma passar após as vinte horas; no local, diz que aparece um cachorro de olhos brilhantes, a claridade é tanta que chega a iluminar a estradinha de terra batida.

 

         Muitos motoristas de ônibus, que trafegam no horário noturno entre as duas cidades, afirmam que já notaram a presença de um estranho cão, e que ele costuma atravessar a pista asfaltada e seguir em direção ao sítio de seu Antenor Guaxica, um dos moradores mais antigos do lugar, pois sua família habita estas terras há mais de trezentos anos.

 

         Nhá Margoti, esposa de nhô Guaxica, conta que sua bisavó que passou dos cem anos dizia que aquele cão estava zanzando pela região desde a época das Entradas e Bandeiras, e que segundo a lenda urbana o cachorro era de um curumim que foi vendido para um engenho de uma freguesia distante.

 

         Quando aprisionaram o indiozinho, o cão tentou defender o curumim, e acabou sendo morto a pauladas, e desde então toda a vez que algo estranho está para acontecer ele é visto pelas redondezas, as pessoas se pelam de medo quando cruzam com o cão fantasma, pois é morte na certa de alguém da família.

 

         O menino Roberval estava pescando traíras, depois do escurecer na lagoa perto de sua casa, ouviu um barulho na mata, e quando espiou notou dois olhos verdes chamejantes. O guri saiu em disparada, e no dia seguinte ficou sabendo que Mané Sabiá, seu colega de escola, foi atacado por um lobisomem bem próximo da lagoinha onde também estava pescando, se o cão não tivesse aparecido a vitima era para ser o Roberval.

 

         Normalmente quando o cão aparecia para uma criança, ou adolescente, era sempre um aviso de perigo iminente, mas se a visagem surgisse frente a um adulto, o bicho pegava feio... Muitas pessoas não acreditavam, elas acabaram pagando um preço amargo pela descrença; Dona Mirthes e sua comadre Nhá Zileide estavam num descampado colhendo plantas medicinais a luz do luar, o cão apareceu do nada, Nhá Zileide escafedeu-se e foi parar na rodovia asfaltada... Dona Mirthes debochou da amiga; - Vorta, muié! É só um cachorro abandonado na estrada. Vorta abobada!

 

         Foram suas últimas palavras, foi picada por uma jaracuçu e meia hora depois estava mortinha da silva. O mesmo aconteceu com Seu Januário Crente; o homem estava caminhando pela rodovia e avistou o cão vindo em sua direção, era um aviso para que ele saísse da avenida, ele nem ligou! Foi atropelado por um caminhão e passou desta para outra de vez.

 

         Meu primo Paulo, e tia Clarisse foram a Pariquera ontem à noite; Paulo foi levar a mãe na emergência do Hospital Regional, e naquele trecho da rodovia, próximo ao bairro Ilha Grande eles cruzaram com o cão fantasma, o cachorro estava sentado no acostamento...

 

         Estamos ansiosos para saber como está tia Clarisse, ela ficou internada... Paulo voltou sozinho, mas ficou parado na rodovia um bom tempo, aconteceu um acidente horrível às 23 horas, e bem naquele local onde o cão fantasma estava de vigia, Paulo e tia Clarisse passaram pelo local exatamente às 22 horas e 55 minutos; escaparam por pouco, espero que não sobre para a tia Clarisse, estamos aguardando notícias.

 

 

Gastão Ferreira/2020  

 

        

 

 

Eulália

 

         No Ano do Senhor de 1879 o Engenho Itaguá era referência na produção de farinha de mandioca, arroz, peixe defumado, situado a dois quilômetros do


centro da cidade, a única via de acesso era pelo lagamar; o local possuía seu próprio porto de escoamento da produção agrícola.

 

         Sobrado imponente, todo construído com grandes pedras assentadas com óleo de baleia e ostreiros moídos, ampla cozinha, diversos quartos, salão de festa, dispensa no subsolo, paredes com meio metro de espessura, a senzala ficava à parte, e próxima a margem do lagamar, um pouco distante da casa senhoril.

 

         O edifício da senzala era baixo, dividido em alguns cômodos. Um deles chamava a atenção; correntes presas a parede, ferros de marcar, tornozeleiras de ferro fundido, grilhões, máscaras de ferro, chicotes de couro trançado... Não muito distante da moradia um pelourinho.

 

         O casarão era magnífico, uma pequena cascata movia um moinho, água pura da montanha canalizada para a cozinha e banheiros, frente ao sobrado o imenso Mar Pequeno, berçário de robalos, pescadas, camarões e mariscos.

 

         A menina escrava Eulalia foi comprada no Porto Grande de Iguape, a cidade abrigava o segundo maior porto negreiro do país, e milhares de cativos por ali passaram a caminho das lavouras e a cata de ouro nos rios da região.

 

         Eulalia fugiu do cativeiro e escondeu-se na vila de Nossa Senhora das Neves de Iguape, provavelmente embrenhou-se na mata, quiçá havia uma trilha entre o engenho e a freguesia; seus donos achavam que ela estava oculta no povoado.

 

         A história oral conta que os proprietários do Engenho Itaguá eram extremamente severos, possuíam dezenas de escravos, e em breve todos os senhores seriam trucidados pelos cativos, apenas uma criança escapou da carnificina, sua ama de leite, uma escrava da casa se refugiou na mata com o pequeno, e levou dois dias para chegar até a vila e contar da rebelião...

 

         O causo que estou relatando é real, li no jornal que o dono da escrava estava a sua procura, isto no ano de 1879... Não sei se Eulalia foi encontrada, e fico imaginando... Se foi devolvida à seus donos, com certeza, passou dias acorrentada na senzala e provavelmente experimentou o chicote de couro trançado.

 

         Se ela nunca foi encontrada, que vida dura teve Eulalia! O que será que lhe aconteceu? Casou, teve filhos, morreu de morte matada, morreu de morte morrida? 141 anos se passaram e parece ser uma eternidade, mas são apenas seis gerações que nos separam...

 

         Iguape guarda muitos segredos, cidade antiga, próxima de meio milênio de história real, seus sobrados, suas calçadas centenárias escondem gritos e lamentos, risos e sonhos, alegria e dor. Iguape é apenas um cenário, um magnífico cenário em meio à vegetação da Mata Atlântica, aos rios cristalinos, ao imenso e piscoso lagamar... Nós fazemos a nossa história, e aqui cada um de nós encena o seu drama, a sua comédia, a sua tragédia.

 

         Eulalia partiu para o esquecimento, se não tivesse fugido para a liberdade, jamais saberíamos de sua existência; que onde você estiver triste Eulalia, todos os teus sonhares sejam sonhos felizes.  

 

Gastão Ferreira/2020

 


O espelho de bronze

 

         Os antigos diziam que alguns espelhos são portais para outros mundos, outras dimensões. No decorrer das grandes tempestades eles eram cobertos, o que também acontecia na véspera do Dia de Finados, e na Sexta-feira Santa, dia em que o Nosso Senhor desceu aos infernos e o demônio ficou solto no mundo.

 

         Minha intenção era passar alguns dias a beira-mar, num lugar isolado, longe da civilização; assim aluguei uma suíte numa pousada próxima à praia, casa antiga com quase trezentos anos de histórias, e com a terrível fama de ser mal assombrada.

 

         A proprietária, Nhá Zidora, parecia uma personagem saída de um conto de horror da Idade Média; só aparecia após o escurecer, usava um vestido a moda cigana, uma bandana nos brancos cabelos, esquelética, unhas compridas, seu nariz era adunco, ela estava sempre acompanhada de Zartan, seu gato preto de olhar brilhante.

 

         A pousada ficava em uma ilha, um lugar praticamente deserto, e uma única vez por semana uma lancha vinda do continente trazia víveres e novidades, pois nem eletricidade havia no albergue.

 

         Só eu de hóspede, Nhá Zidora avisou que após o anoitecer os lampiões permaneceriam acesos até as vinte horas. Lembrou que o quarto deveria ser chaveado e que era apenas sua a responsabilidade pela minha segurança física e emocional, então nada de perambular pelos corredores da pousada depois das vinte e duas horas.

 

         O café da manhã, a moda caiçara, era servido por Lenora, uma jovem e bela morena, risonha e simpática, o gato Zartan parecia vigiar a serviçal. Não notei mais nenhum empregado na casa...

 

         Na terceira noite acordei com um ruído no corredor, contrariando as ordens da proprietária, abri uma fresta da porta e espiei para fora; Nhá Zidora estava parada frente a um espelho e parecia retirar Zartan de dentro do objeto, depois cobriu com um pano escuro o espelho. Gelei! Será que a casa era realmente mal assombrada?

 

         Pela manhã a primeira coisa que fiz foi vistoriar o espelho; era muito antigo, feito de bronze, com detalhes artísticos. Quando olhei para o espelho fiquei arrepiado por inteiro, Zartan soltou um miado assustador... Lenora correu ao meu encontro, e muito pálida sussurrou; - “Não pode descobrir o espelho! Se o demônio que o controla enxergar o senhor, o senhor estará perdido para sempre...”

 

         - Que é isso, Lenora! Quer me assustar?

 

         - Não senhor! Quando voltar para a sua casa, se conseguir voltar pesquise a minha história; meu nome é Eleonora de Alencar Cordeiro, e desapareci no ano de 1910...

 

         - Brincadeira! Você aparenta ter uns vinte anos de idade, e estamos em 2020, 110 anos após o seu desaparecimento e você continua jovem...

 

         - Não estou brincando! Vim aqui passar féria com minha família, eles na época acharam que eu fora raptada, ou me afogado na praia... Meu corpo nunca foi encontrado.

 

         - Impossível! Mas como pode ter acontecido isso?

         - Nhá Zidora já estava por aqui, ela é uma bruxa, alguém vindo de outra realidade... Só pode aparecer à noite, de dia ela tem outra vida em outra dimensão, eu sei por que andei por lá.

 

         - E por que não foge, por que não abandona a ilha?

 

         - Eu não existo fora desta casa, o senhor está aqui tem três dias e nunca me viu do lado de fora da pousada, Zartan é um dos demônios vindo da outra dimensão, é ele quem controla o espelho, tenha cuidado...

 

         Óbvio que não acreditei nas lorotas da moça Lenora, contava uma lenda urbana para atrair novos hóspedes, mas que algo estava errado estava... Nhá Zidora me olhava de modo estranho, Zartan me seguia o tempo todo, resolvi tirar a limpo o mistério.

 

         Fiquei postado junto à porta do quarto e prestando atenção nos ruídos do corredor por uma minúscula fresta; Lenora em silêncio apagou os lampiões, o último estava frente ao espelho e permaneceu aceso. Uma estranha claridade azulada saia do espelho, a figura de Lenora começou a se desfazer no ar, e Nhá Zidora se materializou, e a luz do espelho se tornou opaca... Nhá Zidora apagou o último lampião e os olhos de Zartan brilharam na escuridão.

 

         Não preguei olho o resto da noite, era o dia em que a lancha viria me buscar, o ancoradouro ficava a 100 metros da pousada; tomei apressado o café da manhã, deixei a bolsa de viagem próxima à porta de saída, dentro dela o espelho de bronze e fiquei na espera da embarcação aportar.

 

         Quando ela chegou chamei Lenora para me despedir, e de supetão arrastei a moça para fora da casa, ela simplesmente se desfez no ar, e eu corri para a lancha... Atrás de mim, Zartan quase voava, mas não me alcançou...

 

         Em casa pesquisei sobre Eleonora de Alencar Cordeiro; realmente a menina moça era herdeira das indústrias Cordeiro & Alencar, desaparecida aos 18 anos em uma ilha deserta, seu corpo nunca foi encontrado, nenhum resgate foi pedido, tudo leva à crer que ela se afogou e o mar levou o seu corpo para o desconhecido.

 

         Nunca contei essa história, ninguém acreditaria em mim, o espelho está trancado num cofre, não tive coragem para quebrar, e da última vez em que me olhei nele, senti que Zartan me buscava através do espaço tempo... Agora eu acredito, e sei que espelhos são portais para outras dimensões, outros mundos.

 

 

Gastão Ferreira/2020 

 

        

 


O gato Francês

 

         Estava vovó Filomena numa conversa muito séria com a netinha Eldora Maria; -“Dora, minha querida, como você teve a coragem de tomar um chá receitado por uma índia velha?”

 

         -“Jandira foi namorada de um pajé na juventude, vovó...”

 

         -“E o que tem isso à ver com o remédio? Sua tia avó Engracia, quando era mocinha, se envolveu com um padre sacana e teve um filho com ele, e nem por isso ficava ensinando as beatas a rezarem missa...”

 

         -“Tia Engracia, aquela que não podia ver um gato sem teto que já corria a arrumar um lar para o bichano?”

 

         - “Esta mesma, minha irmã Gracinha Fuzarca...”

 

         - “Que apelido estranho, vovó! Por que Fuzarca, ela devia gostar de uma festa...”

 

         - “Até que não! Tirando a parte sórdida do romance com o jovem padre, ela era uma moça tímida, prestativa, de poucas palavras, uma sonsa, meio abobadinha, hoje diríamos uma semi-analfabeta funcional...”

 

         - “Se era tão apagadinha, o porquê do apelido fuzarca?”

 

         - “Depois do caso com o padre, tadinha! Ficou tão mal afamada... As amigas se afastaram, perdeu o emprego na loja de madame Eufrozina Andrade de Medeiros Albuquerque, e começou a cuidar de animais sem teto, sem dono, gatos abandonados, pois também ela foi abandonada pelo amante...”

 

         - “Que tragédia, hem vovó!”

 

         - “Gracinha se apegou a um filhote de gato e lhe deu o nome de Francês... Francês era o seu xodó; dormia aos seus pés, seguia Engracia pela casa, muito educado, quase nem miava...”

 

         - “Para de me enrolar, vovó! Conta logo o porquê de Fuzarca...”

 

         -“Benedita Esmeralda, a famosa Dita Jóia, era a melhor amiga de Gracinha, e minha irmã pediu à amiga que levasse o gato Francês para castrar... Dita Jóia fez o favor solicitado e o gato Francês nunca mais voltou para casa...”

 

         - “Meu Bom Jesus! Esmeralda roubou o gato da amiga?”

 

         - “Não, não! De jeito nenhum...”

 

         - “Então foi o veterinário que desapareceu com o Francês?”

 

         - “Ninguém sabe, a coisa foi feia; Engracia quase matou Dita Jóia de pancada, o veterinário doutor Athayde Pantera foi embora da cidade, pois cada vez que cruzava o caminho de Engracia era uma briga na certa, e foi devido a essas tantas escaramuças que Engracia passou a ser conhecida como Gracinha Fuzarca...”

 

         - “Ah, entendi! Fuzarca também pode significar bagunça, briga ou muvuca...”

 

         - “Então, Eldora Maria, essa foi a história do gato Francês, esse fuzuê marcou época na cidade...”

 

         - “Que bobagem! Uma história banal...”

 

         - “Sim, banal... Esqueci de te contar que o padre safado era um francês, ainda bem que mana Gracinha Fuzarca escapou por pouco de virar mula sem cabeça, mas essa é uma outra história...”

 

 

Gastão Ferreira/2020

 


A outra casa

 

         Desde que se conhecia por gente, Maria Inês que até os dezoito anos morou na zona rural, tinha estranhos sonhos; ela se via num belo casarão, um palacete com eiras e beiras e três sacadas. Na calçada um rapaz, de olhar apaixonado, lhe fazia uma seresta...

 

         Centrada nos estudos, Maria Inês era uma moça educada,

tranquila, um tanto sonhadora, é verdade! Nada de namoricos, estava se guardando para um grande amor, que tinha a certeza, apareceria na sua vida; ela queria ser professora.

 

         Aos dezoitos anos estava cursando magistério na capital do Vale do Ribeira e a sua família veio morar em Iguape, uma cidade com quase quinhentos anos, famosa pela preservação de dezenas de antigos solares, e velhos casarios com mais de trezentos anos.

 

         Inês ficou encantada com um casarão da Praça da Matriz, era o palacete de seus sonhos infantis; ele era real, ele existia, e ela precisava conhecê-lo por dentro, ver com os próprios olhos os móveis antigos, o sótão, o porão, a senzala.

 

         Na condução que levava e trazia estudantes da faculdade, conheceu Sônia Regina, e a moça morava com o pai e um irmão no casarão da Praça da Matriz; ficou amiga, Maria Inês contou de seus sonhos infantis e da necessidade que tinha de conhecer por dentro a casa de Sônia. O convite para uma futura visita chegou rápido.

 

         Festinha de estudantes, canapés, licores, vinhos e cervejas; Maria Inês não apreciava alcoólicos, mas para não fazer desfeita aceitou um cálice de cataia, e cataia é dose para leão, ficou tonta na hora, e foi levada para um dos terraços a fim de pegar um ar...

 

         Ela se chamava Eleonora, estava com quinze anos, e casada com o coronel Raul, um homem rude de quase setenta anos de idade; dada como um objeto em troca de um pequeno sítio na zona rural era infeliz, mas o mundo era cheio de gente infeliz... Ainda bem que existia Heitor, o entregador de peixe; somente ele para fazê-la sorrir e esquecer a vidinha de prisioneira de luxo.

 

         Heitor era um jovem pescador, corpo sarado, definido pelo árduo lançar de redes no lagamar; metido a fazer versos e rimas, era exímio violeiro, um poeta caiçara, e curtindo um amor proibido, o famoso amor fatal, coisa de almas gêmeas, coisa de quem pode ser morto por um marido ciumento, e a paixão de Heitor tinha um nome; Eleonora.

 

         O coronel Raul estava cabreiro, uma escrava da casa, uma que prestava favores ao coronel contou sobre Heitor e a troca de olhares entre a sinhá e o mancebo. Eleonora negou, mas foi trancada no porão, a pão e água, por cinco dias... O coronel viajou a negócios e a esposa ficou só no palacete, mas vigiada pela jovem mucama.

 

         Heitor ficou sabendo da viagem do coronel e a noite, juntou alguns amigos e foi fazer uma seresta na praça, e bem debaixo da sacada do palacete de Eleonora, e foi na noite em que o coronel retornou da viagem; à noite em que Eleonora foi estrangulada, e enterrada no porão do palacete.

 

         Eleonora ficou séculos presa ao casarão, o velho prédio passou por muitos donos... Um dia Eleonora voltou à vida física para um novo aprendizado, mas a dor veio junta, e junto com a dor as lembranças do palacete e de Heitor.

 

         As amigas abanavam Maria Inês, a moça realmente estava passando mal, Sônia Regina chamou o seu irmão Honório, que era estudante de medicina para socorrer a rapariga... Honório, o melhor partido da cidade, futuro doutor, mestre de viola caiçara, sonho de consumo de onze entre dez mocinhas da cidade.

 

         Honório tomou Maria Inês nos braços, tinha que levá-la até a Unidade Mista de Saúde para aplicação de glicose. Ao descerem os degraus da escada frente ao palacete, Maria Inês despertou, abriu os olhos, passou os braços no pescoço de Honório, e sorrindo lhe falou; Heitor, eu voltei...

 

 

Gastão Ferreira/2020 

                                                                              

 


Depois da meia noite

 

                Quando Maria Lambisgóia saiu do baile de viola às três horas da madrugada, ela sabia muito bem o que poderia lhe acontecer; Cidinha Borogodó, Nelson Escangalhado e Ditinho Desmilinguido, seus acompanhantes eram pessoas da pá virada, sacripantas, gente do balacobaco, péssima companhia para uma moça de família.

 

         Cidinha Borogodó, chapada, bêbada, alcoolizada, resolveu ter um siricutico bem numa encruzilhada que ficava ao lado de um cemitério. Seu colega de farra, Ditinho Desmilinguido, avisou; - Borogodó, encruzilhada não é um bom lugar para um faniquito...

 

         - Vai cuidar da tua vida, Desmilinguido! Não tenho medo de urucubaca, não ligo necas de pitibiriba para essas visagens que costumam aparecer nas horas tardias; o piripaque é meu e ninguém manda em mim...

 

         - “Não é bem assim, Cidinha! Lembra de nossa amiga Zenaide Ziriguidum? Desapareceu misteriosamente nesta mesma encruzilhada, então vamos respeitar os seres que caminham na escuridão.”, disse Nelson Escangalhado.

 

         Maria Lambisgóia ficou apavorada, lembrava muito bem de Zenaide Ziriguidum, foi sua colega de escola, uma sirigaita dando uma de pudica, escafedeu-se no mundo, dizem que foi abduzida por um espírito das trevas. Quanta imaginação deste povo abestado! Raptada por um ser da escuridão; me poupe!

 

         O homem vestia uma capa vermelha e preta, negros cabelos muito bem aparados, barba escanhoada, olhos azuis contrastando com a pele morena, ele parecia flutuar, talvez efeito da capa que arrastava no chão; - “Sou o guardião desta rua, lembre-se que estão frente a um campo santo, e as almas dos mortos merecem respeito...”

 

         - “Olha aqui, oh fantasiado!”, falou Cidinha Borogodó, “ vai cuidar da tua vida, que conversa estapafúrdia é esta; campo santo, guardião da rua, querendo dar uma de Tranca Rua das Almas, cai fora, xará!”

 

         - “Hora de aprender a respeitar o desconhecido!”, o homem cobriu Borogodó com sua negra capa, Cidinha deu um grito e desmaiou. O homem simplesmente sumiu, o homem desapareceu. Os colegas arrastaram e sentaram Borogodó na calçada; quando ela voltou a si, arregalou os olhos, fez cara de poucos amigos e perguntou; - Quem são vocês?

 

         - Somos os seus amigos, Cidinha! Estamos acompanhando Maria Lambisgóia até em casa...

 

         - Maria Lambisgóia vai sozinha para casa, e vocês me sigam, vamos visitar Zenaide Ziriguidum que está se sentido muito solitária; ah, sim... Meu nome é Maria Padilha, podem esquecer a Cidinha Borogodó...

 

         Um vento gelado, vindo ninguém sabe de onde, soprou, a luminária pública apagou, a lua foi encoberta por uma grande nuvem, por um breve momento a escuridão foi total. Quando a ventania passou e a luz voltou ao normal, Maria Lambisgóia estava só frente ao cemitério, nenhum sinal de seus colegas, colegas que ela nunca mais encontrou.

 

         Esta história foi testemunhada por irmã Maria de Jesus, uma serva do Senhor, aquela que um dia foi apelidada de Maria Lambisgóia, mas que não pertence mais à este mundo perdido; paz do Senhor, irmãos!

 

Gastão Ferreira/2020

 

 

 


Àquela tarde fagueira

 

                Ninguém poderia imaginar que aquele encontro seria a penúltima vez em que todos estaríamos juntos, e saudáveis; os moleques da nossa rua costumavam à tardinha ficarem de convercê, jogando conversa fora, bolando brincadeiras, inventando histórias do arco da velha naquela esquina mágica, todos nós sentados no meio fio da calçada num desbunde feliz.

 

         Naquela tarde fagueira ainda não conhecíamos a dor da perda de um cupincha, a saudade de alguém que partiu para sempre; não existia a inveja, a ingratidão, a urucubaca do desprezo, as marcas duradouras de uma paixão escangalhada... Nosso pequeno mundo era inocente, e a vida era bela, e cheia de sonhos.

 

         Separamos-nos, hora do banho e depois jantar, amanhã a nova aventura combinada; ir até a margem do rio para observar as águas da enchente, e armar algumas arapucas na mata...Felizes, cada um de nós foi para a sua própria casa; naquela noite a barragem se rompeu e alagou a pequena cidade.

 

         Todas as famílias perderam alguém, centenas de corpos soterrados, vários desaparecidos na lama; meninas que nunca se transformarão em moças, mulheres, mães. Garotos que nunca chegarão à homens feitos, todos para sempre crianças, presos  em fotografias, esquecidos num canto perdido da memória, jamais envelhecerão.

 

         O luto durou semanas, cinco moleques da nossa rua perderam a vida; o mais velho do nosso grupo tinha apenas doze anos, éramos pré-adolescentes, o nosso antigo mundo era do balacobaco, um lugar estapafúrdio, desenxabido, do borocoxó e pouco se sabia da vida e das muitas dores que ela contém, mas a realidade chegou e nos marcou para sempre; o medo nos acompanhou, e a tristeza se instalou em nossas jovens almas, e nossos olhos já não possuíam aquele estranho brilho da pureza infantil...

 

         Dez anos se passaram, os sinais da tragédia foram se apagando lentamente, e naquela noite, sem ninguém marcar o encontro, fomos se achegando um a um na esquina de nossos ajuntamentos de criança. Já não éramos os mesmos, alguns sem pais, sem mães, sem irmãos, todos com poucos amigos...

 

         Ficamos sentados em silêncio, cada qual com a sua dor, a sua saudade, suas lembranças... Era inverno, tempo de neblina, e quando ela comeu a esquina onde estávamos, todos nós escutamos os risos vindos do nada; vozes de gente feliz. Ruídos chegando de muito longe, sussurros.

 

         Vultos de garotos perdidos na névoa, latidos de nossos dogues que a enxurrada matou; os meninos que permaneceram crianças, sem maldade, sem medo, sem futuro... Eles, nossos amigos de infância, acenaram com suas mãos de nuvens, e com os seus olhos luminosos; eles nos sorriram e passaram através de nós, seus corpos feitos de bruma foram subindo no ar e desaparecendo, e esta foi realmente a última vez em que todos nós estivemos juntos depois daquela tarde fagueira.

 

 

Gastão Ferreira/2020 

          

 


A NEBLINA...

 

 Como uma branca nuvem ela desceu da montanha. Lentamente comeu as casas, as praças, as árvores e se apossou da cidade. Aos poucos dominou o ambiente... Nem os cães de rua, nem os gatos namoradores, nem os avoantes pássaros ousaram romper o nevoeiro.

 As crianças espiavam pelas frestas das janelas fechadas... Ninguém nas ruas! Todos procuravam um abrigo seguro. A névoa era pegajosa e úmida, seu gosto causava enjoo e seu cheiro lembrava algas marítimas. Um fato estranho era que a neblina cobriu completamente a cidade, mas não adentrou as casas de moradia.

 No entorno das praças os moradores ouviam murmúrio de vozes... Vultos, mal definidos, dentro da cerração berravam palavras de ordem; - “Abaixo os captores de índios! Fora com os senhores de engenhos! Pelourinhos nunca mais! Mais pão e menos chibata! Queremos médicos não pajés!”

 O arrastar de correntes, os gritos de dor, as gargalhadas dos loucos, se juntavam aos lânguidos suspiros dos que morreram por um amor impossível, dos assassinados nos becos escuros, dos enforcados, dos suicidas, dos algozes de corpos e das mentes.

 No calçamento secular do Centro Histórico, as escravas do passado arrastavam pelas madeixas sinhás e sinhazinhas... Negros fujões chicoteavam valentes Capitães da mata... Eleitores rondavam os alcaides corruptos exigindo a devolução de inúmeras rapinas, mostravam suas vidas roubadas pela falta de melhorias na saúde pública... Os políticos e nepotistas que engambelaram o povo eram apedrejados.

 Os fantasmas do passado clamavam por justiça. Cercavam os politiqueiros, os ladrões do bem comum, os corruptos, os religiosos que usaram o nome de Deus em proveito próprio, os pedófilos que destruíram no nascedouro a inocência infantil, os que pediam esmolas por esperteza, os filhos das trevas que plantaram vingança, ódio, desamor.

 Frente a Basílica os espectros seculares juntaram-se aos mortos recentes, os que faleceram por erro médico, nos assaltos, nos atropelamentos, os que partiram pela fome e pelo descaso das autoridades ao negarem melhorias na Saúde, na Educação, no saneamento básico.

 O sussurro dos fantasmas, levados pelo vento, entraram em todas as casas... As pessoas não tinham como evitar que as vozes penetrassem em suas mentes. Os omissos, os apadrinhados, os aproveitadores, sentiram na alma o drama dos desfavorecidos, dos mortos em vida, dos sem sonhos e dos sem futuro... Entenderam que a vida continua, que o que aqui se faz aqui se paga... Que o homem colhe da árvore que plantou.

 Na madrugada a neblina se dissipou, o sono invadiu todas as casas... O amanhecer foi radiante! Nada lembrava os estranhos fatos da noite. As pessoas acordaram sabendo que deveriam organizar uma grande passeata, exigindo seus direitos quanto cidadãos, mais qualidade de vida e menos promessas, melhorias na cidade. O momento de uma faxina geral era chegado... Que sem dignidade, transparência, respeito à ordem e a lei, honestidade, a vida não vale a pena... Não estavam dispostos a serem mais um na neblina... A hora da renovação chegou!

 

Gastão Ferreira - (06/07/2013)

 


Das janelas do Palácio Real

 

         Coisas estranhas sempre aconteceram no reino, as conversas de alcova, tidas pela santa madre como secretas e sagradas, se espalhavam, sem mais nem menos, por todos os becos, barbearias, bocas de fumo, antros de perdição, conventos, igrejas e salões de festas, e foi assim que a plebe vil ficou sabendo da reunião, quase sigilosa, da Princesa do Litoral com seus colaboradores mais próximos.

         Os colaboradores mais próximos, eram todos aqueles que podiam se utilizar das carruagens Reais para lazer e trabalho, maltratar os cocheiros, xingar os pedestres, dar carteiraço no zé povinho, comer, beber e se divertir à custa dos impostos dos pobres, pobres de maré, maré, e se sentir a última tainha com ova do Mar Pequeno.

         Todos os súditos sabem que o sagrado lema de nossa amada e honestíssima Princesa, foi, é, e será sempre; - “Não roubar e não deixar roubar.”, aconteceu que um desconhecido pichou no muro externo do palácio, em letras garrafais; - “Não! Roubar? Não! Deixar roubar?”, quando a Princesa estava vistoriando a propriedade Real e anotando os estragos causados pelas chuvas, viu a pichação e teve um saricoticos; - “Josephus! Josephus! Congregue o conselho imediatamente, e mande Odalisca aprontar a sala de reuniões.”

         No palácio foi grande a azafama, a apressada preparação dos quitutes, dos comes e bebes, da tábua de frios & quentes, dos vinhos, das catáias, das caipirinhas, e demais aperitivos; as carruagens chegavam com os altos mandatários do reino, algumas das excelências faziam questão que a plebe vil, sempre querendo bajular um poderoso, beijasse as suas mãos, e teve uma excelência que se achando mais excelência do que as demais excelências exigiu que um cortesão se ajoelhasse e osculasse seus dois pés; das janelas do Palácio Real, a Princesa observava e anotava tudo o que ocorria.

         Já no início da reunião o bicho pegou; madame Nini, esposa do encantador mancebo, “el cantante”, quebrou o protocolo e num acesso de puro puxa-saquismo, pediu à seu adorável marido que saudasse a Princesa com a linda melodia “Saudades da Princesa”, de sua autoria, no que Odalisca, a famosa “cachinhos quase dourados”, e amada dama de companhia da Soberana, se sentiu humilhada e não gostando de ser passada para trás, bem na frente dos demais conselheiros, tascou uma cotovelada em madame Nini, que acabou derrubando um lindo arranjo de Lagostas Imperiais importadas.

         Madame Carolaine, proprietária da casa de pastos & repastos, amicíssima da Princesa e da charmosa Odalisca, era a responsável pelos rega-bofes, bota-fora, e comilanças Reais, e de puro susto, pois era extremamente sensível, deu um horrendo grito. Tão horrível que os cento e vinte servidores do palácio, que tentavam ouvir as conversas da sala de reunião, por detrás das portas trancadas, ficaram mudos de espanto. 

         A Princesa estava fula da vida, e todos sabiam que ela era a única dona da caneta que assinava o cheque mensal de pagamento das mordomias, e que garantia a boa vida na corte; que ela era poderosa, que possuía inúmeros espiões, puxa-sacos, lambe mão, e lambe outras coisas. Então era melhor ficarem calados, ouvir em silêncio a bronca, fazer cara de nuvem, pois no reino tudo é possível de acontecer, tudo é normal e tudo passa, e tudo se esquece rapidamente... Foi quando a amada e idolatrada Princesa falou; - “Quem foi o infeliz que escreveu no muro do Palácio Real que eu roubo e deixo roubar? Quem foi?”

         Odalisca, a dama dos cachinhos quase dourados, ficou lívida; - “Como assim? Logo Vossa Majestade, a alma viva mais honesta do reino! Eu li a pichação e não vi nenhum motivo para apreensão...”

         - “Como não viu, sua apedeuta! Não sabe interpretar um simples texto? A pichação diz sim, que nossa líder rouba e deixa roubar, uma afronta a coroa! E você, Odalisca, é a plebeia mais próxima do trono, está escondendo algo, sabe de algo?”, perguntou Josephus, o poderoso secretário da Princesa.

         O silêncio era quase palpável, até mesmo a respiração ofegante dos cento e vinte servos que escutavam a muvuca por detrás das portas, podia ser ouvida... E foi então que alguém apagou as luzes, e gritou em alto e bom som; - “Rouba, sim! Eu sei e posso provar.”

(Fim da primeira parte)

 

Gastão Ferreira/2019