sexta-feira, 10 de abril de 2015

A Princesa e os terroristas

A Princesa e os terroristas Tudo começou silenciosamente; pedintes oriundos dos mais diversos lugares achacavam turistas e moradores indefesos, lajotas de calçamento desapareceram da noite para o dia sem deixarem rastros; túmulos antigos foram saqueados e ninguém sabe dos profanadores. Tudo começou na maior zoeira; carros com som no volume máximo acordavam na madrugada os sonolentos cidadãos; pré-adolescentes seminuas gritavam histéricas na calada da noite, disputando admiradores. Casais mal resolvidos se estapeavam pelas esquinas; jovens olheiros espiavam as rondas policiais em ruas desertas; drogados assaltavam desavisados e os muitos alcoólatras brigavam entre si desrespeitando a lei do silêncio noturno; milhares de rojões assustavam quem estava posto em sossego; cães ganiam apavorados, gatos se escondiam e pássaros perdiam o rumo na cidade tombada e tomada pelo barulho infernal. Quando os bandidos detonaram um caixa eletrônico e os restos de um homem-bomba foram encontrados no local do crime, a suspeita de que terroristas islâmicos estavam homiziados na cidade se espalhou... Câmeras de monitoramento foram estrategicamente posicionadas e durante três semanas filmaram a tudo e a todos. Um carro de som convocou a população; - “Domingo à noite na Praça da Matriz as descobertas da câmera de monitoramento serão reveladas” e assim aconteceu... - “Olha só! Ditinha Coruja, uma santa criaturinha e filha da irmã Cleyde... Nossa! Andando quase nua na madrugada.” - “Caramba! Naquele carro preto, com o som de arrebentar, não é o filho do seu Antenor?... É o Junior sim! Três da madruga e ele zoando... Nem carta de motorista possui, eu hein!” - “Meu Bonje! Quanta gente pulando o muro do antigo prédio do correio... Ajam pedras!” - “Dito Grilo passando droga nos embalos de sábado à noite atrás da igreja... Quem diria!” - “Gente! Pai Fulano saiu do armário; demoro!... Chocante!” - “Bem diz aquele velho ditado; à noite, todos os gatos são pardos...” Foi assim até o final das filmagens; filhos, netos, primos, tios, amigos e inimigos, comadres e compadres, casos e descasos, vizinhos e colegas, perdidos e achados... Todos conhecidos... Todos expostos no telão da Praça da Matriz... Todos de alma nua e corpos bem vestidos... Os reclamantes pararam de reclamar e a cidade fez de conta que ninguém foi filmado; um bafão para ser esquecido e jamais mencionado. Melissa Dickson, musa de tantos carnavais e rainha do Boitatá por quinze anos consecutivos e recém convertida, se achando no divino direito de esculachar os não crentes, postou no facebook; - “q as pás do senhor abram as vossas mentes, como é bom ter pás na vida... Amem.” Thelminha Furacão, a que matou a avó a pauladas, também postou; - “Família é tudo de bom! Como é sublime saber amar... Quem curtir vai direto para o céu.” Dito Trezoitão, um ex-drogado, ex-gigolô, ex-presidiário e ex- assaltante; - “Nada como ser puro e honesto...” Marly Oncinha; - “Tenho onse anus, munta esperiencia di vida e procuro a otra metadi da melancia...” Na Princesa o dia amanheceu ensolarado; quem tem trampo foi trabalhar, quem não tem foi à praia ou a Fonte, crianças continuam a gazear aulas para pular da passarela ou saltar na água bem na frente de quem está pescando. Na orla, depois das vinte horas, continua impossível passear; os meninos do bem tomaram conta e os moradores de rua, mesmo com as padarias fechadas, prosseguem pedindo “um reau” para comprarem pão... Todas as filas em Bancos, lotéricas e supermercados continuam quilométricas, os bebês a nascerem em Pariquera e a Ilha lotada de turistas... Terroristas! Quem precisa de terrorista na Princesa? Não vamos exagerar... Gastão Ferreira/2015

Nenhum comentário: