terça-feira, 14 de abril de 2015

Lembrente

Tenho outros textos postados em; Face Book - Gastão Ferreira - Contos & Causos iguapenses - Obrigado pela atenção.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A revolta

Seu Sinfrônio, viúvo de Dona Bernadete, estava inconsolável. Aos setenta e seis anos de idade perdera a companheira de uma vida; dona Dete não tomou a vacina para idosos e bateu as chinelas de dedo. Todo o santo dia Seu Frônio visitava o túmulo da amada; o homem estava realmente arrasado; em uma sexta-feira treze, acompanhado de uma garrafa de Velho Barreiro, foi ao cemitério conversar com a defunta; contou da sua tristeza, sua saudade, das brigas com as netas que desapareceram com as poucas jóias da falecida e assim esvaziou a garrafa de pinga, e, adormeceu sobre a sepultura. Eram três horas da manhã quando despertou; sonolento avistou alguns vultos e prestou atenção no que diziam; - “Temos que decidir o que fazer Alphonsus! É uma vergonha o descaso com o qual é tratada a nossa última morada.” - Vosmecê está se referindo a esse matinho em volta das tumbas, Catherine?” - Nem prestei atenção nesse pormenor; de uns tempos para cá, o nosso sono eterno tem sido interrompido por gemidos e sussurros que nada tem a ver com possíveis assombrações... - São apenas casais enamorados procurando um cantinho para uma pega noturno... - Uma vergonha Alphonsus! Quantos anjinhos estão enterrados aqui... - Catherine! Catherine! Você sempre preocupada com o que os outros vão pensar... Já não somos mais desse mundo; deixe os vivos se divertirem... - Abriram o túmulo de madame Ephifania e roubaram seus dois dentes de ouro; parece que os garotos vão trocar por pedras... - Pedras? Que estranho, não? - No final de semana passa um carro com o som no volume máximo; Dona Cothinha nem sai mais da sepultura... Um ultraje aos antigos moradores dessa pacata cidade... - Tenha paciência mulher! Tantos alcaides estão enterrados por aqui... - Eles não tão nem aí! Apenas fazem apostas em qual dos oito candidatos subirá ao trono no final do próximo ano... - Homessa! Oito candidatos? Parece que tem uma mulher nessa disputa e também um animal silvestre com as garrinhas bem afiadas... - São assuntos dos vivos! Não nos interessam mais... - Nhãnhãnhã... Interessa sim! Precisamos assombrar a casa dessa gente para que prometam fazer uma limpeza total em nossa morada... - Pura perda de tempo! Você ainda acredita em promessa de político? Inocente... Nesse momento Seu Sinfrônio percebeu que presenciava algo assustador; muitas almas ficavam vagando pelo cemitério e não subiam aos céus... Grupinhos de espíritos fofocavam ao lado do jazigo de Dona Madá, a maior mexeriqueira que a cidade já teve; outros tocavam violas fazendo serenatas às amadas mortas. Alguns contavam moedas antigas e outros batiam em desafetos também finados... O espírito de Dona Bernadete saiu do sepulcro e foi logo desabafando; - “Velho safado! Pensa que eu não sei que me traiu com metade das galinhas da cidade! Estão todas enterradas aqui e me contaram tintim por tintim dos muitos chifres que levei... Chispa daqui! Se manda e nunca mais apareça, seu corno manso! Seu Frônio jamais voltou ao cemitério; um local de muita assombração e almas revoltadas. Anda pensando seriamente em comprar uma sepultura em outro bairro, outro cemitério, um lugar sossegado para o sono eterno. Gastão Ferreira/2015

A Princesa e os terroristas

A Princesa e os terroristas Tudo começou silenciosamente; pedintes oriundos dos mais diversos lugares achacavam turistas e moradores indefesos, lajotas de calçamento desapareceram da noite para o dia sem deixarem rastros; túmulos antigos foram saqueados e ninguém sabe dos profanadores. Tudo começou na maior zoeira; carros com som no volume máximo acordavam na madrugada os sonolentos cidadãos; pré-adolescentes seminuas gritavam histéricas na calada da noite, disputando admiradores. Casais mal resolvidos se estapeavam pelas esquinas; jovens olheiros espiavam as rondas policiais em ruas desertas; drogados assaltavam desavisados e os muitos alcoólatras brigavam entre si desrespeitando a lei do silêncio noturno; milhares de rojões assustavam quem estava posto em sossego; cães ganiam apavorados, gatos se escondiam e pássaros perdiam o rumo na cidade tombada e tomada pelo barulho infernal. Quando os bandidos detonaram um caixa eletrônico e os restos de um homem-bomba foram encontrados no local do crime, a suspeita de que terroristas islâmicos estavam homiziados na cidade se espalhou... Câmeras de monitoramento foram estrategicamente posicionadas e durante três semanas filmaram a tudo e a todos. Um carro de som convocou a população; - “Domingo à noite na Praça da Matriz as descobertas da câmera de monitoramento serão reveladas” e assim aconteceu... - “Olha só! Ditinha Coruja, uma santa criaturinha e filha da irmã Cleyde... Nossa! Andando quase nua na madrugada.” - “Caramba! Naquele carro preto, com o som de arrebentar, não é o filho do seu Antenor?... É o Junior sim! Três da madruga e ele zoando... Nem carta de motorista possui, eu hein!” - “Meu Bonje! Quanta gente pulando o muro do antigo prédio do correio... Ajam pedras!” - “Dito Grilo passando droga nos embalos de sábado à noite atrás da igreja... Quem diria!” - “Gente! Pai Fulano saiu do armário; demoro!... Chocante!” - “Bem diz aquele velho ditado; à noite, todos os gatos são pardos...” Foi assim até o final das filmagens; filhos, netos, primos, tios, amigos e inimigos, comadres e compadres, casos e descasos, vizinhos e colegas, perdidos e achados... Todos conhecidos... Todos expostos no telão da Praça da Matriz... Todos de alma nua e corpos bem vestidos... Os reclamantes pararam de reclamar e a cidade fez de conta que ninguém foi filmado; um bafão para ser esquecido e jamais mencionado. Melissa Dickson, musa de tantos carnavais e rainha do Boitatá por quinze anos consecutivos e recém convertida, se achando no divino direito de esculachar os não crentes, postou no facebook; - “q as pás do senhor abram as vossas mentes, como é bom ter pás na vida... Amem.” Thelminha Furacão, a que matou a avó a pauladas, também postou; - “Família é tudo de bom! Como é sublime saber amar... Quem curtir vai direto para o céu.” Dito Trezoitão, um ex-drogado, ex-gigolô, ex-presidiário e ex- assaltante; - “Nada como ser puro e honesto...” Marly Oncinha; - “Tenho onse anus, munta esperiencia di vida e procuro a otra metadi da melancia...” Na Princesa o dia amanheceu ensolarado; quem tem trampo foi trabalhar, quem não tem foi à praia ou a Fonte, crianças continuam a gazear aulas para pular da passarela ou saltar na água bem na frente de quem está pescando. Na orla, depois das vinte horas, continua impossível passear; os meninos do bem tomaram conta e os moradores de rua, mesmo com as padarias fechadas, prosseguem pedindo “um reau” para comprarem pão... Todas as filas em Bancos, lotéricas e supermercados continuam quilométricas, os bebês a nascerem em Pariquera e a Ilha lotada de turistas... Terroristas! Quem precisa de terrorista na Princesa? Não vamos exagerar... Gastão Ferreira/2015