domingo, 21 de julho de 2013

Uma Cigarra...

UMA CIGARRA CONTOU... Contam às lendas que num tempo muito remoto, quando a raça dos homens ainda não existia, os animais se falavam entre si e viviam alegremente em harmonia na densa floresta. No princípio eram todos inocentes, seguiam as sagradas leis de Tupã, não roubavam, não matavam, não valorizavam o ouro. Alimentavam-se frugalmente, desconheciam a inveja, a ganância, a arrogância e a prepotência. O primeiro sinal de decadência veio com a perda do respeito devido a Tupã. Só os puros de coração podiam carregar o santo andor de Tupã, nas longas procissões anuais. Jamais um pecador, ladrão, corrupto, pervertido, pedófilo, mentiroso, se aventurou a quebrar a regra... Foi assim até o dia em que o povo descobriu estarrecido que o honesto rei, em conluio com os parentes, os amigos e afilhados, roubavam descaradamente tudo o que podiam e achavam o máximo da esperteza tal pratica. Nos primeiros tempos não existiam mandatários, era cada um por si e a vida era leve e solta. Cada bicho sobrevivia do próprio suor na cata da alimentação diária. Quem não se virava se lascava! O Bicho Preguiça era um destes, não colocava a mão na massa, possuía muitos filhos e vivia das esmolas do Senhor Raposa, um mequetrefe habitante da floresta. Seu Raposa era tão sabido que inventou a monarquia. Pobre de maré, maré... Herdou do pai a esperteza no trato com a ralé da mata. Arquitetou a eleição e o voto de cabresto. Saiu comprando eleitores de toca em toca, prometeu mundos e fundos, formou um partido e desde então passou a viver de nariz empinado, peito estufado e ouro surrupiado... Adorava carregar o andor de Tupã. Alguns reis ficaram famosos, dentre tantos, o rei Quati, o rei Tamanduá, o rei Formiga, o rei Lobo Guará, o rei Raposa, e, uma única rainha, Dona Anta, de infeliz Lembrança!... Apesar de serem de espécies diferentes, se consideravam irmãos entre si e representantes de Tupã na Terra, assim diziam e assim agiam... Quem não era da família só se ferrava. Em época de eleição tudo mudava. Os candidatos a rei eram inimigos mortais uns dos outros... Nesse breve período todos os podres, os segredos guardados a sete chaves, taras e particularidades negativas vinham à tona... Passado o pleito, os laços familiares falavam mais alto e o esquecimento das ofensas era acompanhado de gordos cargos comissionados. Tudo era perdoado e esquecido, incluindo os eleitores e as promessas de campanha. A coisa estava para lá de feia... A maior parte da bicharada tinha o rabo preso com o rei e seus escudeiros, devido aos pequenos grandes favores solicitados na hora do aperto... E, como tinham! A oncinha, o tateto, o veado, o jacaré, a coruja, o urubu, o bem-te-vi, o pardal, o gavião, a andorinha... Bichos, peixes, anfíbios, qualquer animal com rabo estava lascado! O rei comprava e ninguém reclamava. Quem detonou com o esquema foi a Cigarra... Como gostava de cantar! Cantou para quem queria ouvir e para quem não estava nem aí... Contou os podres, as maracutaias, os conchavos ao vento, às árvores, ao sol, à lua, à tempestade... O canto da Cigarra chegou aos ouvidos de Tupã... Tupã despertou! Não gostou das novidades e retirou o dom da fala de todos os animais e desde então nenhum bicho consegue se expressar corretamente. Foi assim que acabou a idade da lenda em que os animais falavam e se entendiam entre si. A última coisa de que se lembram, é de Tupã a margem de um grande rio, retirando com as próprias mãos um pouco de barro e moldando um ser semelhante a ele mesmo... Isto aconteceu há muito e muito tempo. Tomara que essa nova criação honre Tupã e transforme o mundo em algo melhor. Gastão Ferreira/2013

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