segunda-feira, 29 de julho de 2013

O BISTRÔ

O BISTRÔ... Estranhos são os caminhos do Senhor! Ele lança as sementes no coração dos homens e cada qual cultiva a planta de sua preferência... O coração é um imenso canteiro. O certo é ficar atento, reservar um espaço, regar com humildade, retirar a erva daninha do preconceito, da vaidade, do egoísmo, do desamor... Ninguém é totalmente mau nem inteiramente bom, eis a razão do espaço do plantio ser tão pequeno. O santo tem o coração iluminado por todas as virtudes, porém o pecador não é tão feio quanto dizem. Em seu coração sempre sobra um cantinho para semear alguma fugidia virtude, era esse o caso de Madame Charlote e Dona Dete. Charlote nasceu em berço de ouro, mas de uma humildade escandalosa... Escandalosa! Sim, sua gargalhada contagiava, sempre de bem com a vida, honesta, batalhadora, prestativa. Nunca foi tímida! Encarava a vida de frente, dava murro em ponta de faca e corria atrás do prejuízo sem reclamação... Dete era pobre de maré, maré... Seu aprendizado foi na rua. Não era má pessoa, ao perder a mãe ainda na infância, a vida foi sua madrasta e que madrasta! Aprendeu a valorizar cada centavo, vendia beijinhos para turistas quando criança e na juventude vendia outras coisas, mas sempre resevou em seu coração aquele pequeno espaço sagrado onde teimava em germinar a semente do bem... Caiu... Levantou... Sacudiu a poeira e deu a volta por cima... Casou e foi morar ao lado da casa de Charlote. Cidade festeira, onde muitos eventos reunindo turistas ocorriam anualmente. Era fato inegável que todos os moradores, desde tempos imemoriais, tiravam uma casquinha dos visitantes. Tanto os ricos quanto os pobres alugavam seus quartos, suas cozinhas, suas salas, seus banheiros, seus pátios, suas garagens e até mesmo a calçada frente a suas casas aos visitantes. Vendiam comes e bebes e a disputa por fregueses era feroz. As propagandas enganosas e a busca por clientes causavam muitas desavenças, picuinhas e bate bocas desaforados... Nesses eventos Madame Charlote e Dona Dete viravam inimigas e caprichavam na captura da clientela. Madame Charlote alugava toalete e Dona Dete banheiro, uma vendia “Petite gatô” a outra casadinho de manjuba. Dete fornecia prato-feito e marmitas, Charlote executive-repast... Enfim uma copiava a outra e aja bate boca... Os vizinhos espiavam por trás das janelas, mas não interferiam. Também eles tinham seus negócios e não podiam perder tempo com briga alheia. Nesse ano, o bicho pegou feio. Madame Charlote exagerou... Uma semana antes da grande festa mandou entalhar uma placa e nela estava escrito “BISTRÔ” e Dona Dete ficou arrasada; - “ Meu Bonje! Que será que a sirigaita da Carlota está aprontando? Bistrô? Como vou saber o que é esse tal de “bistrô”! Comida? Bebida? Tenho que descobrir e fazer melhor... Os fregueses merecem o melhor e o melhor tem nome;- Dete!” Quem passou pela rua onde mora nossas personagens estranhou as duas placas... Na de Madame Charlote;- BISTRÔ CHARLOTE si vous plais e na de dona Dete;- BAIUCA DA DETE, comida caseira... O mais estranho é que a comida era a mesma, numa “poule avec petite pois” e na outra “galinha com ervilha”. Estranhos são os caminhos do Senhor! Ele semeia no coração dos homens e cada qual a seu modo cuida do próprio jardim... Alguns plantam árvores frutíferas, outros, hortaliças e muitos outros plantam amizade e paz... Existem os que não cultivam nem regam as minúsculas sementes e têm aqueles, como Madame Charlote e Dona Dete, que cuidam e vigiam seus canteiros com unhas e dentes, suas pequenas desavenças dão um sabor a vida, passada a breve competição, ambas voltam a antiga amizade e a troca de receitas para a próxima festa... São estranhos os caminhos do Senhor! Gastão Ferreira/2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O PLEBISCITO...

O PLEBE-CIRCO... Os habitantes da floresta andam macambúzios... É tempo de passeatas, de cobranças e muita mudança na selva... Enfezado, o novo rei alegando compromissos de campanha, quer porque quer desalojar um grupo de Bichos-carpinteiros de um galpão que fica na orla da mata. Todos sabem que bicho tem memória curta e esquece fácil até o caminho de casa. Num passado recente o armazém serviu de ponto de reunião aos animais cachaceiros, aos Bichos Preguiça que não queriam trabalhar, aos filhotes abandonados que não tinham o que comer em suas tocas, aos animais sem tetos que dormiam em qualquer lugar... Foi devido a essa súcia que o aprazível local foi perecendo lentamente e um belo dia faleceu de morte morrida e ninguém deu a mínima importância ao fatídico fato. Quando da eleição, em campanha, o candidato ao trono fez múltiplas promessas. Construir um hospital, um porto fluvial, uma pista de esqui, um aeroporto, uma faculdade de letras e outra sem letra... A bicharada bateu palmas e pediu mais promessas mirabolantes e impossíveis de serem realizadas. O pretendente a realeza empolgou-se e prometeu a volta triunfal do antigo armazém de saudosa memória... Foi eleito na hora. Sabem como é! Promessa de candidato a cargo eletivo é coisa muito séria. Já ocupando o trono, o rei esqueceu-se do hospital, da faculdade, do aeroporto e das outras novecentas e noventa e nove promessas, mas para mostrar que era um mandatário de palavra e que palavra de rei não volta atrás, ordenou que os Bichos-carpinteiros abandonassem o antigo galpão e que o velho depósito voltasse a ser o maravilhoso armazém do passado... Estava armado o circo! Os saudosistas, os aproveitadores, os especuladores, os que de alguma forma imaginam lucrar com o retorno do falecido galpão, aplaudem delirantemente o jovem monarca. Cinquenta famílias tiram seu ganho do que vendem no local e não se conformam com a decisão real... O bondoso rei quer deixar a ver canoas meia centenas de pais e mãe com um monte de filhotes para sustentar, e, alojar no depósito um Macaco rico, possuidor de várias moradas, para que possa vender bananas e outras frutas, no grande galpão, aos romeiros que visitam o santuário de Tupã... Também duas Ariranhas matreiras e seus pescados poderão usufruir do espaço público gratuitamente... Três súditos escolhidos a dedo em troca de cinquenta famílias? Nem pensar majestade!... O barraco está armado e um “plebe-circo” se faz necessário. O bafafá foi apelidado de “plebe-circo” porque é um jogo de cartas marcadas... Um circo para engambelar a plebe. Alguns animais não podem votar... O urubu, a cambacica, o porco espinho querem recorrer ao Rei Leão, o rei que manda em todas as florestas de todos os reinos e pedir ao grande soberano que dê um cala boca no jovem reizinho que pensa ser um reizão... A raposa, a oncinha, o pardal, a andorinha, o tateto compraram a briga real, já antevendo algum lucro na espúria jogada. O bicho vai pegar! Macaco velho não põe a mão em cambucá. Por enquanto penso em votar pela permanência dos Bichos-carpinteiros e suas cinquenta famílias no ex-velho galpão, mas também penso em negociar meu voto em troca de algum cargo comissionado ou prestação de serviço bem remunerado... Brincadeirinha! Eu respeito todos os animais e temo a ira de Tupã, nosso pai, que nos manda a chuva, o vento, o dia e a noite... Vá que ele me castigue por querer ser venal e resolva mandar um raio bem na minha cabeça! Eu hein... To fora! Assinado; - Um Bem-te-vi Gastão Ferreira/2013 Observação; - Esse texto é uma sátira... Não existe “Plebe-circo” na floresta, alias, do jeito que detonam com as árvores, logo nem floresta existirá nesse reino imaginário.

Memórias de Iguape - O Circo Mambembe

SUA MAJESTADE... O CIRCO. Respeitável público!... Senhoras e senhores!... Orgulhosamente convidamos a todos, na noite de hoje, a prestigiarem mais um fenomenal espetáculo do formidável... Grandioso e inesquecível “Grande Circo Teatro Irmãos Silva”. Os garotos que não conseguiam alguns trocados para a compra de um ingresso espiavam através dos muitos buracos da velha e gasta lona, alguns moleques serelepes tentavam passar despercebidos por debaixo da grande tenda. Nas arquibancadas de madeira se acomodavam as crianças e, nas cadeiras, na boca do picadeiro, o respeitável público. Independente da situação financeira, todos comiam pipoca e independente de idade ou bens materiais todos se transportavam automaticamente para o fascinante e maravilhoso... Mundo do circo. O palhaço Tampinha arrancava gargalhadas com sua picardia. As três filhas do dono do circo, as irmãs Neuza, Neiva e Neide, arrebatavam suspiros dos corações juvenis, eram as musas dos adolescentes sonhadores... Como não ser! Viviam naquele mundo fantástico, no mundo do faz de conta. Tão jovens e conheciam tantas cidades! O circo fazia um tour anual, percorrendo todo o Estado de São Paulo... Meu Bonje! Que vida a dessas garotas. Na plateia, as mocinhas sensíveis, choravam copiosamente nas encenações dos grandes dramalhões... Quem não soluçou com o melodrama “O céu uniu dois corações”? Quem não se comoveu com “Três almas para Deus”? Qual a mãe que não verteu lágrimas furtivas ao assistir “O direito de nascer”? Qual o católico fervoroso que não se extasiou com “A vida de Santa Bernadete”?... Assim funcionava a magia do circo e assim se comportavam as pessoas de Iguape no inicio dos anos sessenta, em meados do século XX. Eis algo que a juventude atual jamais conhecerá! A pureza, a expectativa, a alegria contagiante de compartilhar a grande mágica do circo. De encantar-se com o malabarista, a trapezista, a contorcionista... De torcer pelo mocinho caricato, cobiçar a donzela melosa, detestar o bandido canalha, olhar cara a cara o pecador, a santa, o tinhoso... Saber de antemão como é o céu e o inferno... Ouvir a voz de Deus entre relâmpagos e trovões produzidos por bater de latas velhas na ribalta. As crianças ficavam comentando por semanas as peças teatrais; - “Mas Dito, o punhal acertou o bandido bem no coração! Eu vi! Eu estava pertinho... Saiu um monte de sangue...”, “Tudo mentira Toninho! Meu pai contou que não é sangue de verdade, é framboesa... O punhal tem um cabo falso e a lamina entra por dentro dele... É tudo enganação.”, “Sabe Dito! Notei que aquela santa Bernadete tinha a mesma cara daquela pecadora do “Direito de nascer”... Que coisa estranha.”, “É, eu também reparei! Mas isso eu não sei explicar, vou perguntar ao meu pai...”. Se foi o tempo do circo mambembe, do esfarrapado e singelo circo de lona, da Monga, da Mulher Macaco, da luta livre, dos Mágicos que não enganavam ninguém, das tampinhas que escondiam algo nunca encontrado... Hoje é tempo dos grandes festivais, de peças teatrais com enredo complicado, de cantores que cobram fortunas por uma única apresentação. Respeitável público!... Senhoras e senhores!... Todos vocês que foram criança e espiaram através dos buracos da velha lona do cirquinho mambembe, que se apresentava anualmente em Iguape como “O grande Circo Teatro Irmãos Silva”... Todos vocês que sabiam de cor que “o palhaço é o que é?”, “É ladrão de muié!”... Vocês que acreditavam que toda a donzela bobinha merecia o marido que conquistou com muitas lágrimas e sofrimento... Vocês que viveram esses dias inesquecíveis! Bem vindos ao Grande Circo da vida! A magia ainda persiste e não acabou. Gastão Ferreira/2013

domingo, 21 de julho de 2013

Uma Cigarra...

UMA CIGARRA CONTOU... Contam às lendas que num tempo muito remoto, quando a raça dos homens ainda não existia, os animais se falavam entre si e viviam alegremente em harmonia na densa floresta. No princípio eram todos inocentes, seguiam as sagradas leis de Tupã, não roubavam, não matavam, não valorizavam o ouro. Alimentavam-se frugalmente, desconheciam a inveja, a ganância, a arrogância e a prepotência. O primeiro sinal de decadência veio com a perda do respeito devido a Tupã. Só os puros de coração podiam carregar o santo andor de Tupã, nas longas procissões anuais. Jamais um pecador, ladrão, corrupto, pervertido, pedófilo, mentiroso, se aventurou a quebrar a regra... Foi assim até o dia em que o povo descobriu estarrecido que o honesto rei, em conluio com os parentes, os amigos e afilhados, roubavam descaradamente tudo o que podiam e achavam o máximo da esperteza tal pratica. Nos primeiros tempos não existiam mandatários, era cada um por si e a vida era leve e solta. Cada bicho sobrevivia do próprio suor na cata da alimentação diária. Quem não se virava se lascava! O Bicho Preguiça era um destes, não colocava a mão na massa, possuía muitos filhos e vivia das esmolas do Senhor Raposa, um mequetrefe habitante da floresta. Seu Raposa era tão sabido que inventou a monarquia. Pobre de maré, maré... Herdou do pai a esperteza no trato com a ralé da mata. Arquitetou a eleição e o voto de cabresto. Saiu comprando eleitores de toca em toca, prometeu mundos e fundos, formou um partido e desde então passou a viver de nariz empinado, peito estufado e ouro surrupiado... Adorava carregar o andor de Tupã. Alguns reis ficaram famosos, dentre tantos, o rei Quati, o rei Tamanduá, o rei Formiga, o rei Lobo Guará, o rei Raposa, e, uma única rainha, Dona Anta, de infeliz Lembrança!... Apesar de serem de espécies diferentes, se consideravam irmãos entre si e representantes de Tupã na Terra, assim diziam e assim agiam... Quem não era da família só se ferrava. Em época de eleição tudo mudava. Os candidatos a rei eram inimigos mortais uns dos outros... Nesse breve período todos os podres, os segredos guardados a sete chaves, taras e particularidades negativas vinham à tona... Passado o pleito, os laços familiares falavam mais alto e o esquecimento das ofensas era acompanhado de gordos cargos comissionados. Tudo era perdoado e esquecido, incluindo os eleitores e as promessas de campanha. A coisa estava para lá de feia... A maior parte da bicharada tinha o rabo preso com o rei e seus escudeiros, devido aos pequenos grandes favores solicitados na hora do aperto... E, como tinham! A oncinha, o tateto, o veado, o jacaré, a coruja, o urubu, o bem-te-vi, o pardal, o gavião, a andorinha... Bichos, peixes, anfíbios, qualquer animal com rabo estava lascado! O rei comprava e ninguém reclamava. Quem detonou com o esquema foi a Cigarra... Como gostava de cantar! Cantou para quem queria ouvir e para quem não estava nem aí... Contou os podres, as maracutaias, os conchavos ao vento, às árvores, ao sol, à lua, à tempestade... O canto da Cigarra chegou aos ouvidos de Tupã... Tupã despertou! Não gostou das novidades e retirou o dom da fala de todos os animais e desde então nenhum bicho consegue se expressar corretamente. Foi assim que acabou a idade da lenda em que os animais falavam e se entendiam entre si. A última coisa de que se lembram, é de Tupã a margem de um grande rio, retirando com as próprias mãos um pouco de barro e moldando um ser semelhante a ele mesmo... Isto aconteceu há muito e muito tempo. Tomara que essa nova criação honre Tupã e transforme o mundo em algo melhor. Gastão Ferreira/2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

A neblina...

A NEBLINA... Como uma branca nuvem ela desceu da montanha. Lentamente comeu as casas, as praças, as árvores e se apossou da cidade. Aos poucos dominou o ambiente... Nem os cães de rua, nem os gatos namoradores, nem os avoantes pássaros ousaram romper o nevoeiro. As crianças espiavam pelas frestas das janelas fechadas... Ninguém nas ruas! Todos procuravam um abrigo seguro. A névoa era pegajosa e úmida, seu gosto causava enjoo e seu cheiro lembrava algas marítimas. Um fato estranho era que a neblina cobriu completamente a cidade, mas não adentrou as casas de moradia. No entorno das praças os moradores ouviam murmúrio de vozes... Vultos, mal definidos, dentro da cerração berravam palavras de ordem; - “Abaixo os captores de índios! Fora com os senhores de engenhos! Pelourinhos nunca mais! Mais pão e menos chibata! Queremos médicos não pajés!” O arrastar de correntes, os gritos de dor, as gargalhadas dos loucos, se juntavam aos lânguidos suspiros dos que morreram por um amor impossível, dos assassinados nos becos escuros, dos enforcados, dos suicidas, dos algozes de corpos e das mentes. No calçamento secular do Centro Histórico, as escravas do passado arrastavam pelas madeixas sinhás e sinhazinhas... Negros fujões chicoteavam valentes Capitães da mata... Eleitores rondavam os alcaides corruptos exigindo a devolução de inúmeras rapinas, mostravam suas vidas roubadas pela falta de melhorias na saúde pública... Os políticos e nepotistas que engambelaram o povo eram apedrejados. Os fantasmas do passado clamavam por justiça. Cercavam os politiqueiros, os ladrões do bem comum, os corruptos, os religiosos que usaram o nome de Deus em proveito próprio, os pedófilos que destruíram no nascedouro a inocência infantil, os que pediam esmolas por esperteza, os filhos das trevas que plantaram vingança, ódio, desamor. Frente a Basílica os espectros seculares juntaram-se aos mortos recentes, os que faleceram por erro médico, nos assaltos, nos atropelamentos, os que partiram pela fome e pelo descaso das autoridades ao negarem melhorias na Saúde, na Educação, no saneamento básico. O sussurro dos fantasmas, levados pelo vento, entraram em todas as casas... As pessoas não tinham como evitar que as vozes penetrassem em suas mentes. Os omissos, os apadrinhados, os aproveitadores, sentiram na alma o drama dos desfavorecidos, dos mortos em vida, dos sem sonhos e dos sem futuro... Entenderam que a vida continua, que o que aqui se faz aqui se paga... Que o homem colhe da árvore que plantou. Na madrugada a neblina se dissipou, o sono invadiu todas as casas... O amanhecer foi radiante! Nada lembrava os estranhos fatos da noite. As pessoas acordaram sabendo que deveriam organizar uma grande passeata, exigindo seus direitos quanto cidadãos, mais qualidade de vida e menos promessas, melhorias na cidade. O momento de uma faxina geral era chegado... Que sem dignidade, transparência, respeito à ordem e a lei, honestidade, a vida não vale a pena... Não estavam dispostos a serem mais um na neblina... A hora da renovação chegou! Gastão Ferreira - (06/07/2013)

Espionagem...

ESPIONAGEM NORTE-AMERICANA EM IGUAPE O fato passaria despercebido se não fosse por Dona Zica Mironga, aquela simpática senhora que dia e noite não sai da janela a espiar o que ocorre na vizinhança, ter reparado num urubu voando em zigue-zague por sobre a cidade. Contou ao filho Jawilson sobre a ocorrência e o garoto passou a seguir atentamente o voo do abutre. Aquela ave não agia em conformidade com as outras do bando, não abria com as garras e o bico os sacos de lixo, não perseguia cães e gatos, ao anoitecer não voltava para as montanhas. Plainava altaneira nas alturas e num piscar de olhos locomovia-se de um lugar para outro como um corisco. Jawilson, muito esperto e observador, notou que o urubu tinha algumas preferências... Planava sobre o Paço Municipal, sobre a egrégia Câmara Municipal no decorrer das sessões semanais... Era como se espiasse algo. A noite se empoleirava no alto da torre da igreja matriz e seus olhos brilhavam nas trevas, pareciam filmar o que ocorria no entorno da praça. Com os preparativos para a grande festa do santo protetor, cavalos e cavaleiros, motos e motoqueiros, romeiros e pedintes, barraqueiros e pessoas desconhecidas vagavam pela cidade... Muitos rojões anunciavam a proximidade do evento, cada grupo soltavam foguetes marcando sua presença frente à basílica. Jawilson mirou no abutre e disparou o rojão, acertou a ave em cheio... Sorrateiramente subiu pela escadaria que conduzia ao campanário, jogou dentro de uma sacola o que restou do urubu e foi correndo para sua casa examinar o exótico pássaro que parecia ser feito de plástico. Dona Zica Mironga, acostumada com fatos inusitados vistos de sua janela, jamais imaginou um avoante sem penas, sem carne. Assustou-se com a quantidade de molas e parafusos, a bateria de lítio que movia a estranha máquina feita à semelhança de um urubu... Jawilson explicou que o objeto era um robô e mostrou para sua mãe um pequeno pen-driver embutido por trás dos olhos da criatura... Boa coisa não devia ser! Que será que o bicho gravara? O rapaz introduziu o pen-driver no computador... Que pena! O rojão havia danificado o sensível equipamento; - “Repara mãe! Esse ali não é o senhor...”, “Meu Bonje! Ele está carregando uma pasta negra na calada da noite... Olha! Olha! Está distribuindo dinheiro para aquelas pessoas em volta da mesa... Que droga! A imagem desapareceu...”, “Mãe! Repara na nota de prestação de serviço... Parece aquela que apareceu na internet...”, “Qual? Aquela sobre limpeza de caixas d’água ou poda de árvores?”, “Não acredito! O quê Tigrinho, tão honesto, está pondo no bolso? Parece dindim...”, “Calma mamãe! Esqueceu que a senhora é crente e que não devemos julgar para não ser julgado? Aquele ali não é o senhor Sabiá? O arrependido!... Porcaria de filmagem mal feita que não deixa reconhecer quem foi filmado...”, “Repara filho! São imagens da famosa passeata... Repara na garota fotografando os participantes e anotando seus nomes num papel...Quem será a dita cuja?” Dona Zica Mironga e seu filho Jawilson viram coisas jamais imaginadas. O arquivo abrangia vinte anos de paciente filmagem... Muita gente se achando o máximo, muita gente se perdendo, se corrompendo, se vendendo, se alugando, sofrendo perseguições, lambendo feridas e não aprendendo nada de edificante sobre honestidade, ética, moralidade... Mãe e filho descobriram que o urubu era simplesmente uma máquina de espionagem do governo norte-americano... Sacana esses americanos! Pena que o equipamento esteja tão danificado, tornando impossível um reconhecimento dos envolvidos nas maracutaias filmadas... Meu Bonje! Gastão Ferreira/2013

A fruteira...

A FRUTEIRA Estudo na sétima serie... Dona Yara, minha professora de língua portuguesa, deu como tema um texto sobre frutas; - Uma chatice! O quê pode escrever relativo a uma simples fruta um garoto como eu? Eu hein! De tanto esquentar a cabeça deu-me uma soneira e adormeci na mesa da cozinha. Tive um sonho muito estranho! Minha mãe faz questão de manter uma linda e sortida fruteira sobre a mesa de refeições... Ouvi uma voz e levei um baita susto! Uma maçã falava com uma goiaba. - “Sou do sul, nasci em Santa Catarina, um lugar muito frio onde cai neve durante o inverno”, disse a maçã. - “Eu sou de Pariquera”, informou a goiaba, “amadureci a margem de um regato, lembro dos sabiás, sanhaços, tiés que tentavam bicar minha casca... O dono do sitio colocou uma capinha em volta de cada uma de nós e ela evitava que pássaros e insetos se alimentassem de mim e de minhas irmãs.” - “Nasci e cresci rente ao chão”, confidenciou uma melancia, “ a grama era verde e conheci muitos animais... Um dia um tatu cavou uma toca ao meu lado, seus filhotes brincavam comigo...” - “Eu vivi numa fazenda” disse a mexerica, “sou do sul e por lá me chamam de bergamota... Percorri centenas de quilômetros até aqui. Andei de trator, caminhão... Conheci o mundo...” - “Eu recordo de um grande rio”, sou uma banana... “lembro de pescadores lançando redes, de um menino que caçava passarinhos... Fui colhida verde e fiquei fechada em um depósito para amadurecer...” - “Não reparem no meu sotaque” disse o côco... “Sou do norte e cresci frente ao mar sentindo o cheiro da maresia, o som dos ventos, o calor do sol... A viagem foi longa e me sinto um tanto aperreado...” - “Acho que sou a que veio de mais longe” falou a pêra chinesa... “Nasci no outro lado do mundo, num país que possui mais de um bilhão de habitantes... Vim de navio e avistei uma baleia no mar...” - “Eu sou um abacate, cresci no quintal dessa casa... Conheço esse pessoal, sou amigo do gato e do cachorro... Tem um menino que gosta de subir nas árvores, espiar ninhos de passarinhos, pedalar uma bicicleta... Um garoto curioso aprendendo a viver... O que ele não sabe é que tudo o que existe está contido nos livros... Os livros são a memória dos homens! Proporcionam viagens incríveis sem sair do lugar... Contam a história do mundo, as grandes descobertas, os inventos, os sonhos, falam da natureza das coisas... Como eu gostaria que esse menino pegasse gosto pela leitura! Opa!... Vamos silenciar! Ele não sabe que as frutas se comunicam entre si e parece que já vai acordar...” Ainda não sei o que posso escrever sobre uma simples fruta! Minhas notas estão baixas, acho que vou descrever o sonho que tive... Amanhã passarei na biblioteca e pedirei um livro sobre frutas tropicais, depois quero ler sobre o planeta Terra, conhecer os oceanos, a história universal, mitologia grega, folclore brasileiro... Pensando bem! O abacate estava certo. A leitura abre todas as portas e está na hora de eu ficar esperto. Gastão Ferreira/2013