sábado, 11 de maio de 2013

Álbum de família...

ÁLBUM DE FAMÍLIA... Numa cidade não longe do mar, perto de um majestoso rio de águas cristalinas e da verdejante mata muitas coisas estranhas acontecem. São tantas histórias antigas, envoltas em segredos inconfessáveis. Tantas arapucas armadas pelo destino, tantos desacertos escondidos nas grossas paredes de velhos casarões. Choro de crianças que nunca chegaram a nascer. Riso de mocinhas donzelas que secaram e se transformaram em amargas lembranças. Sou descendente desses bravos, dessa gente que chegou junto com o descobridor. Meus antepassados exterminaram os índios. Participaram das “Entradas e Bandeiras”, prenderam os selvagens e os transformaram em cativos na terra da liberdade. Meus ancestrais foram senhores de escravos, donos de engenhos e plantações de arroz. Minhas tataravós espalhavam ouro em pó nos cabelos, esbofeteavam as mucamas servis e espancavam negros fujões no Pelourinho... Umas santas! Minhas remotas raízes fazem parte desse chão. Os pilares de nossas vidas são profundos e seguros. Estamos entre os primeiros a carregar o andor do santo protetor. Todas as decisões políticas que marcaram o rumo do progresso na comunidade têm um dedo familiar. Temos dois álbuns de família. Um de capa dourada e um de capa negra. O dourado, mostramos ao mundo e contamos as virtudes dos fotografados. O negro, escondemos a sete chaves e negamos a sua existência. Toda a família que se preza tem suas ovelhas negras, os lobos vestidos de cordeiros, os tarados e os seus loucos. Ainda a pouco estava espiando o Álbum Negro. Vi a foto de minha tia-avó Dona Maria Emerenciana... Tia Merê foi por muito tempo a vergonha da família. Foi pega com a boca na botija roubando as ofertas pecuniárias feitas ao santo protetor... Vovô Brandino passou anos dando os melhores brindes para as quermesses de outros santos da cidade e pedindo a Deus que esquecesse a ofensa... O dinheiro nunca devolveu! Tio Hilário roubava placas comemorativas de bronze e as colocava em quadros de madeira pelas paredes da casa... Uma vergonha! Vovó Zenóbia as escondia no porão junto com imagens sacras rapinadas das velhas igrejas, objetos de ouro surrupiados da casa de amigos, anjos barrocos e adornos de túmulos antigos. O fim de tio Hilário foi muito triste. O confundiram com um reles ladrão noturno e levou um tiro no coração... Virou nome de rua e a placa com seu nome nunca foi roubada... Os objetos furtados jamais foram devolvidos! Ontem tirei mais uma foto... É de meu filho Welson, o menino é muito sortudo! Em apenas uma semana ganhou na rifa um computador, um notebook, uma moto, cinco cartões de crédito em nome de amigos e algumas correntes de ouro... Parabéns ao meu garoto! Vou colar sua foto no Álbum Negro... Nunca se sabe! Amanhã é outro dia e o guri tem a quem puxar. Gastão Ferreira/2013

quarta-feira, 1 de maio de 2013

OS GAVIÕES

OS GAVIÕES Gavião é o nome popular dado a várias espécies de aves falconiformes pertencentes às famílias Acipitrídea e Falconídea, em particular dos gêneros Leucoptemis, Buteo e Buteogallus. São aves geralmente identificadas pelo tamanho, de médio a pequeno porte, em relação a outras aves de rapina. Dotadas de asas curtas, são adaptadas à predação em espaços fechados. Esta designação não corresponde a nenhuma classe taxonômica e pode acontecer que dentro do mesmo gênero haja espécies chamadas gavião e outras com o nome de águia. De uma forma geral, os gaviões têm uma distribuição bastante vasta, que inclui todos os continentes com exceção da Antártica. (Wikipédia) Existem mais de sessenta espécies de Gaviões e dentre elas algumas com nomes bem sugestivos; - Gavião-branco, Gavião-belo, Gavião-caboclo, Gavião-caipira, Gavião de pé curto, Gavião da cara preta, Gavião de pescoço branco, Gavião de sobrancelha, Gavião do mangue, Gavião-miúdo, Gavião-preto, Gavião-real, Gaviãozinho, Gavião-rapina e muitos mais. Em nosso país predomina a espécie Gavião-rapina. Esse gavião adora participar de maracutaias e desviar dinheiro de obras públicas. A classe Gavião-branco também se faz presente, tais gaviões roubam descaradamente os cofres públicos e acabam expulsos de seus ninhos por improbidade administrativa. O Gavião-belo é aquele gaviãozinho que se acha! Aquele que quer se passar por águia e não passa de um passarinho conhecido como Vira-bosta ou Chupim. Gavião do mangue é o famoso gavião que superfatura obras lacustres, seja repaginação de alguma orla ou comportas de barragens hídricas. O Gavião-miúdo é aquele que rapina coisas pequenas, seja uma nota de almoço alem do preço real, alguns litros de gasolina ou uma reforma escolar inexistente. Os gaviões sempre tentam tirar partido (?) de tudo e esquecem que por definição têm asas curtas, são predadores em ambientes fechados, tipo salas e gabinetes. Não existem na Antártica e o motivo de não nidificarem no frio é que preferem locais mais aprazíveis e com ar condicionado. Exterminar gaviões é um trabalho árduo e deveras cansativo. A única arma realmente mortal se chama voto. Não esqueçam que gaviões costumam comprar votos! Não podem ver um eleitor em potencial que já vão passando a mão, dando tapinhas nas costas e fazendo mil promessas irrealizáveis... Não entre nessa! É uma fria. Ao conquistar a confiança do pacato eleitor, a primeira coisa que farão depois de conseguir o intento é esquecer o prometido e ficam nervosinhos com qualquer crítica ou cobrança. Caso você, atento leitor, tenha ojeriza a gaviões, a maneira correta de agir é denunciar esse pássaro corrupto. Não aplauda seu superego, negue-lhe alimento e pratique conscientemente a cidadania. Não obteve sucesso? O gaviãozinho mequetrefe o está perseguindo? Então, o jeito é mudar para o Polo Sul ou sua vida vai se transformar em um inferno... Boa viagem! Gastão Ferreira/2013

RAUL...

RAUL... No primeiro semestre de 1936, Raul completara dezoito anos e merecia um presente especial. Seu padrinho Nhonhô Euzébio, dono de engenho às margens do Rio Ribeira, lá para as bandas de Registro, satisfez o sonho do afilhado trazendo-o para uma Festa do Bom Jesus. A famosa Festa ocorria anualmente na cidade de Iguape, litoral sul do Estado de São Paulo e era tida como um dos maiores eventos religiosos do sul do país. Pessoas vindas de Santa Catarina, Paraná e de muitos outros Estados passeavam pela cidade, frequentavam bailes, compravam artigos nas barraquinhas de bambus. Os rapazes namoravam. As senhoras rezavam, o povão se divertia e os romeiros pagavam suas promessas ao santo protetor. Nhonhô Euzébio tinha parentes na cidade, seu irmão possuía uma casa na Rua da Palha onde acolhia amigos e conhecidos durante as poucas visitas à cidade. Naquela época nos hotéis ficavam apenas os turistas endinheirados. A maioria dos visitantes se hospedava em casa de famílias e ali mesmo faziam suas refeições. Romeiros chegavam de navios, barcas, bateras e a cavalos. Os ribeirinhos vinham da vasta zona rural em canoas. As estradas inexistiam e um trem vindo da cidade de Santos fazia a última parada em Miracatu. Os turistas seguiam de ônibus até Registro e depois pelo Rio Ribeira atingiam Iguape. Um passeio inesquecível para guardar na memória. Raul era um pacato sitiante, muito tímido, de pouca conversa e trabalhador. Estava tremendamente agradecido ao padrinho, o generoso presente de aniversário. Duas semanas na famosa Iguape, Princesa do Litoral e capital do Vale do Ribeira não era para qualquer um! Chegaram perto do meio dia. Raul almoçou e logo após a refeição resolveu dar uma volta e conhecer ao vivo e a cores a afamada festa. Vestiu a melhor roupa, calçou as alpargatas, separou algum dinheiro e foi passear. As barracas estavam montadas no Largo do Rosário, um imenso descampado frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Raul caminhava extasiado, nunca vira tanta gente na vida! Acanhado, mal levantava os olhos do chão... Pudores de moço criado no mato! De repente uma gritaria; - “Pega o ladrão! Pega o ladrão!”, haviam assaltado uma barraca que vendia xícaras e tralhas para a cozinha. Raul apavorado começa a correr... A polícia vendo o rapaz fugindo vai a seu encalço... Levam Raul para a delegacia, dão-lhe uns bons tabefes e se dirigem a casa onde o mesmo estava hospedado a fim de recuperarem o produto do roubo. Nhonhô Euzébio foi categórico; - “Afilhado meu, não rouba!”... Os policiais não deram moleza, invadiram a moradia e vasculharam todas as dependências, nada encontrando. Raul aterrorizado tremia e chorava no fundo do quintal; - “Que vergonha, meu Bonje! Que vergonha!”... Explicou que correra por medo, que nem notara a tal barraca que vendia xícaras. O padrinho tentou consolá-lo dizendo que em cidade grande era assim mesmo, que estava tudo nos conformes, que esquecesse a estripulia e fosse dormir... À noitinha, Raul pegou a batera e foi embora para o sitio e nunca mais voltou à Iguape. Os tempos eram outros, as pessoas tinham vergonha na cara! Raul jamais esqueceu que foi confundido com um ladrão e que levou alguns safanões das autoridades... Hoje a polícia revista educadamente um menor suspeito de delito e ouve palavrões do meliante durante a vistoria. Os policiais ficam calados e encabulados... O suspeito se comporta como um herói! Realmente os tempos mudaram e mudaram para pior. Gastão Ferreira/2013 Observação; História real contada por Benedita Saporito ao autor do texto... O padrinho de Raul era tio de Ditinha.