segunda-feira, 15 de abril de 2013

OS SONHOS NUNCA MORREM

OS SONHOS NUNCA MORREM... Local estranho! Muita neblina. O rapaz de olhar tristonho tinha um quê de velho conhecido. Puxei conversa; - “Tenho a impressão de que já nos vimos em algum lugar!” - “Sim! Conhecemos-nos há muito tempo, não estás lembrando?” Perguntou lacônico. - “Você é muito jovem! Acho que não te conheço...” - “Quando garoto, o teu maior devaneio era a medicina, não era?” Indagou o moço. - “Realmente! Mas como você sabe disso?” Inquiri. - “Eu sou o teu sonho não realizado! Reparou no jaleco branco? Eu sou você estudante...” - “Para com isso! Que loucura. Eu nem sei como entrei nessa sala enfumaçada...” - “ Isso aqui não é uma sala, é a tua mente...” - “Minha mente? E todos esses vultos estão fazendo o quê dentro da minha mente?” - “São as tuas fantasias não realizadas! Você nos deu vida, nos alimentou... Somos o teu fracasso personalizado! Somos parte de você.” - “Caramba! Tem muita gente por aqui...” - “Observa aquela criança! Tem cinco anos de idade e está à espera da tão sonhada bicicleta que ficou na promessa...” - “É verdade! Aos cinco anos meu maior desejo era possuir uma bicicleta. Meu pai era pobre, família numerosa, a “baike” foi só uma fantasia que morreu!” - “Não fale assim! Os sonhos nunca morrem... Adormecem.” - “Mas por que é assim? Não morrem?” - “Imaginas a dor de carregar um sonho morto! Deve ser algo assustador... Angustiante... Macabro! Um peso imenso para se carregar.” - “O que eu não entendo é o que fazem vocês dentro da minha mente? Por que não foram morar com outro alguém? Com alguém que pudesse concretizar o sonho...” - “Não podemos! Você nos criou... Somos uma parte de você. A parte nunca consolidada... Aquelas outras ideias, as que se realizaram ganharam vida própria, elas nasceram! Nós somos os que ficaram e repare na quantidade de sonhos aqui presentes...” Sim! Foi tantos sonhares. Sonhos de uma vida inteira, sonhos de menino, sonhos de adolescente, sonhos de moço, sonhos de velho. Todos eles me espiavam, me cercavam... Não me acusavam, mas em seus olhos eu notava uma tristeza sem nome, uma fome que foi minha fome, uma angustia que foi minha companheira... Uma dor tão antiga... Saudade de coisas abandonadas pela metade! Acordei banhado em lágrimas, lágrimas dos meus sonhos trancados dentro de mim... Pedaços esquecidos, largados, abandonados, órfãos de mim... Lavo o rosto, olho-me no espelho e meus olhos são os mesmos olhos do menino sem bicicleta, do jovem que não estudou medicina e tenho a certeza de que os sonhos nunca morrem. Mesmo não realizados, eles foram a melhor parte de mim... Gastão Ferreira/2013

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