quarta-feira, 24 de abril de 2013

Noites de Saraus...

NOITES DE SARAUS... Um Sarau era um dos eventos mais importante do século XIX. Acontecia nas casas mais abastadas, geralmente à tardinha ou logo após o anoitecer. O termo se origina do latim, seranus, de onde se conclui que desde a antiguidade os amantes das artes, da poesia, da música, da literatura aproveitavam tal ocasião para mostrarem sua criatividade. Em 1835 em nossa cidade, os que possuíam eiras e beiras costumavam reunir a fina flor da sociedade em flor para curtirem um bom Sarau. As gentis dondocas se perfumavam, colocavam ouro em pó nos cabelos, colares de pérolas no alvo colo de cor trigueira, brincos de diamantes nos devidos lugares e após dar uns bons tabefes na mucama de plantão se dirigiam castamente ao palacete onde ocorreria a festinha. As donzelas, assim chamadas por serem mini-dondocas em constante aprendizado na arte de caçar maridos ricos, também se enfeitavam para a solene apresentação. Passavam o dia todo treinando lânguidos suspiros, olhares marotos, caras e bocas e chistes graciosos para impressionarem as possíveis vitimas de sua estonteante beleza espiritual e física. Usavam espartilhos, anquinhas, longos vestidos que as cobriam até o tornozelo. O grande lance da noite era mostrarem, sem querer querendo, um pedacinho da perna, um dedinho do pé... Os mancebos, os pós-adolescentes da época, se babavam com a pequena amostra do produto, coisas do século XIX! O Sarau de Dona Mariquita Bernardes Souza e Silva era o mais concorrido, alem dos ricaços da cidade, os mandachuvas sempre compareciam e era um beija mão constante. Um rapapé esnobe com direito até a visitante de outras freguesias, desde que fosse político, chefe de alguém da localidade ou um futuro cabide de emprego. Nesse Sarau quem brilhava era Leonice de Oliveira Sampaio, viúva emérita do Coronel Bento Benedito Sampaio, apelidado Seu Bembem, por que possuía muitos bens e muitos amores. Sinhá Nice, também conhecida na alta sociedade como a Voz de Ouro, Cotovia Solitária e pela ralé como Viúva Negra, Lábios de Mel e Loba Faminta era um tanto fanhosa, mas sua grana a tornava uma pessoa maravilhosa e sem defeitos para os puxas sacos de plantão. No Sarau em questão se apresentavam violeiros, cantores, sanfoneiros, capoeiristas, trovadores e menestréis... Um vate não pode apresentar sua poesia, estava mal vestido. Pediram para a Voz de Ouro declamar o verso singelo. A Loba Faminta analisou o texto e do alto de sua fina educação informou à plateia que na verdade um texto não tem importância. O que interessa é a voz de quem declama... Um gaiato pediu que a diva então declamasse palavras do dicionário e jogasse o texto no lixo. Outro menos satírico concordou e solicitou que a Cotovia Solitária declamasse com sua maravilhosa voz uma quadrinha que estava fazendo o maior sucesso, conhecida como; - “Batatinha quando nasce...” O Sarau de Dona Mariquita Bernardes nunca mais foi o mesmo. Quem entendia do riscado deixou de mandar seus escritos. Os violeiros não mais permitiram que Voz de Ouro interpretasse suas canções. Foi assim que acabou a “Era dos Saraus” e mais uma vez a arrogância e a burrice venceram. Na segunda década do nosso século os Saraus Literários estão resurgindo com força total... Os poetas, os escritores, os músicos e os violeiros mostram em público e ao público sua criatividade. Fruto de muito suor, muito pensar, muito trabalho intelectual. Tomara que nenhuma Voz de Ouro, Cotovia Solitária ou Loba Faminta jogue merda no ventilador e acabe novamente com tudo. Os tempos são outros, as pessoas evoluíram... Aplaudem e vaiam... Coisas do século XXI! Gastão Ferreira/2013

Complexo de Pomba-gira

COMPLEXO DE POMBA-GIRA... Cynara Madalena nasceu em berço de ouro. Filha de Teodoro Aparecido Gomes Magalhães e Etelvina Maria das Dores Costa Souza Magalhães. Os pais de Madalena possuíam bens de raízes, ou seja, muitas terras griladas pelo bisavô de seu Téo, o famoso Coronel Pancrácio Magalhães, apelidado Seu Cracrá. Da parte materna herdara alem do esnobismo, a empáfia e o nariz empinado, marca registrada de quem perdeu muitos privilégios e não se conforma. A garota cresceu crente de que era a última Manjuba do Rio Ribeira. Da mãe, Dona Vina, possuía os negros cabelos um tanto rebeldes devido à mistura ancestral de sangue indígena, africano e lusitano. Dona Etelvina, leitora voraz de romances, só se referia a filha como; - “Minha princesa de cabelos cor das asas da Graúna!” Nunca vira uma Graúna na vida, mas mãe é mãe! Muito seletiva, Cynara, completou seus estudos na cidade grande. Namoradeira comprovou e provou de todos os atributos de Venus, a deusa do amor... Não casou, mas fez um belo pé de meia. Aos cinquenta anos ficou órfã e voltou ao aconchego do lar para gerenciar os negócios da família, era formada em Administração de Empresas. Os credores levaram quase tudo. Cynara não sabia, mas seu papai era um jogador inveterado e na velhice perdera praticamente todo o patrimônio, incluindo as incríveis joias falsas de Dona Vina. Madalena não perdeu a pose, ninguém poderia suspeitar que fosse uma pobre de maré, maré... Foi aos poucos dilapidando sua riqueza pessoal, conquistada com tanto suor, perfumes e suspiros. Ao completar setenta e cinco anos estava de mal com a vida, sozinha e com amigos interesseiros. Gastava o pouco que possuía em plásticas, botox e cremes antirrugas... Orgulhosa, não dava o braço a torcer! Dizem que só o coração não envelhece! O cabelo encanece, os dentes caem, o espelho mente se a mente consente. Cynara tinha um sonho! Não era um sonho secreto, pois mal conhecia uma nova pessoa e em cinco minutos de conversa já o contava; - “Meu maior desejo é conhecer alguém especial! Um senhor distinto em plena melhor idade, aí pelos oitenta anos... Rico, charmoso, saudável... Não é pelo sexo, é por companheirismo, sei que esse homem existe e vai me levar para conhecer o mundo, curtir os melhores restaurantes de Paris, Roma, Xangai... Vamos passear de Limusine, andar de mãos dadas ao entardecer em Londres... Viver loucamente, mas nada de sexo!” Cynara Madalena nunca encontrou esse cavalheiro. Os velhos milionários estão muito ocupados com festinhas de embalo em seus luxuosos iates, com escolher a dedo suas companhias entre a mocidade em flor, com a qualidade do Viagra e do vinho importado... O sonho de Cynara tem um nome, Complexo de Pomba-gira... Tadinha! Gastão Ferreira/2013 Observação; - Quem não tem uma amiga velhusca, da terceira idade, e que volta e meia fala isso? Complexo de Pomba-gira não é exclusividade de dondocas decadentes.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Mini conto - Uma luz no fim do túnel...

Pedro caminhava por um túnel. De repente avistou uma claridade e pensou; - “Oba! Uma luz no fim do túnel.” Coitado! Era um trem e o estraçalhou. (Fim) Gastão Ferreira/2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

Para pessoas sensíveis...

O LOBO... Era uma vez um Lobo muito, muito mau... Extremamente mau.Ele se achava o animal mais lindo do mundo, um verdadeiro gato. Quando um caçador entrou na cova em que dormia,o Lobo em vez de uivar, miou!... Levou um tiro bem no meio da testa... Fim. Moral da história;- "Seja sempre você mesmo ou irá cedo ou tarde se ferrar." Autor: Gastão Ferreira/Iguape/2013

Final Feliz...

ADOÇÃO... FINAL FELIZ! Todos conhecem a história de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau. A vida para Chapeuzinho não foi nada fácil, ficou marcada definitivamente. Rotulada como alguém fútil e digamos assim, um tanto oferecidinha... Na época foi um verdadeiro escândalo, pois pouquíssimas pessoas escapavam incólumes de um encontro com um lobo. A menina cresceu sem amigos, era mal vista na sociedade, tornou-se uma garota solitária, uma moça ingênua, uma mulher mal amada, uma velha ranzinza... Só não passou maiores apuros porque herdou a casa da floresta, era a única neta da vovó. Viveu esquecida de todos. Amargurada e sem amigos. Quando completou oitenta anos de idade, ou melhor, quando chegou a melhor idade, cheia de dores reumáticas, um caquinho de gente, resolveu adotar um amiguinho de quatro patas e acabar de vez com sua imensa solidão. Colocou o famoso chapéu vermelho e dirigiu-se ao Canil Municipal... Foi atendida pela doutora Camila, a famosa protetora de toda a fauna da floresta, tipo assim, uma Marina Silva daquela época longínqua. - “Gostaria de fazer uma adoção, querida!” Disse a senhora de chapéu vermelho. - “Um felino ou um canídeo? Ou talvez um porquinho da Índia, uma capivara, uma preá, um pássaro canoro, um papagaio? Temos mil opções.” Informou a doutora Camila. - “Estou pensando em adotar um canídeo. Vivo sozinha na floresta e nessa altura da vida, alguém para me proteger é fundamental.” Complementou a garota da melhor idade. - “Creio que a melhor opção será um cão de porte pequeno, dócil e fácil de cuidar. A senhora não tem mais idade para ficar se preocupando...” Falou a doutora Camila. - “Como assim? Não tem mais idade! Está me chamando de velha, mocinha?” Exaltou-se a do chapéu. - “Não! De maneira nenhuma minha senhora. Uma pessoa tão bem conservada! Queira desculpar se a ofendi.” Disse uma encabulada doutora Camila. - “Obrigada querida! Hoje estou completando oitenta anos de vida e o seu elogio me deixa tão feliz... Não são todas as que chegam nessa idade vendendo saúde como eu... Vamos escolher o cachorrinho?” Solicitou Chapeuzinho Vermelho. Adentraram o Canil e a doutora Camila foi mostrando cada animal recolhido das ruas e matas pela municipalidade. - “Aqui ficam trancafiados muitas espécies de nosso ecossistema, a maioria abandonada pelos donos. Temos desde filhotes nascidos na instituição, até velhos e solitários animais que tem como último refugio esse abrigo... Repare naquele velho lobo!” Mostrou uma emocionada doutora. - “Meu Bonje! Um lobo. Desde criança que não avisto um lobo... Vamos chegar mais perto!” Solicitou a mocinha da terceira idade. - “Ora, ora! Mas não é a Chapeuzinho Vermelho que vejo a minha frente. A que devo a honra de sua visita após tão longo tempo?” Exclamou o caquético lobo. - “Meu Deus! O lobo que quase comeu minha vovó! Nossa amigo! Você está bem acabadinho...” Disse a senhora. - “Pois é estou chegando aos cem anos de vida. Quando nos conhecemos eu tinha vinte anos de idade e você uma menininha muito sapeca de oito aninhos...” Babou o lobo, olhando eroticamente para Chapeuzinho Vermelho. - “Tolinho! Não fale assim que eu me envergonho. Jamais consegui te esquecer!” Suspirou a senhora de chapéu vermelho. - “Nem eu! Você foi o único ser humano que eu amei realmente...” Choramingou o velho lobo. - “Vou levar você para morar comigo na floresta, só nos dois... Temos tanto para conversar... Eu tenho uma vida inteira para te contar... Nossa! Setenta e dois anos sem nos vermos. Quanto tempo!” Lembrou a do chapéu. A doutora Camila tentou impedir a adoção. O lobo também estava na melhor idade e não duraria muito... Era um tanto selvagem... Poderia talvez até comer a adotante!... Não, isso não! Já passara da idade de comer alguém. A doutora ficou impressionada... Junto à velha senhora de chapéu vermelho, o lobo era dócil e a olhava com aquele olhar de adoração com o qual os cães costumam presentear seus donos... Enfim que sejam felizes! Foi assim que Chapeuzinho Vermelho reencontrou o Lobo Mau... Ambos cheios de experiências, cansados das armadilhas da vida, já não ligam mais para o quê os outros pensam... Só querem ser felizes e com certeza foram, agora sim, felizes para sempre! Gastão Ferreira/2013

segunda-feira, 15 de abril de 2013

OS SONHOS NUNCA MORREM

OS SONHOS NUNCA MORREM... Local estranho! Muita neblina. O rapaz de olhar tristonho tinha um quê de velho conhecido. Puxei conversa; - “Tenho a impressão de que já nos vimos em algum lugar!” - “Sim! Conhecemos-nos há muito tempo, não estás lembrando?” Perguntou lacônico. - “Você é muito jovem! Acho que não te conheço...” - “Quando garoto, o teu maior devaneio era a medicina, não era?” Indagou o moço. - “Realmente! Mas como você sabe disso?” Inquiri. - “Eu sou o teu sonho não realizado! Reparou no jaleco branco? Eu sou você estudante...” - “Para com isso! Que loucura. Eu nem sei como entrei nessa sala enfumaçada...” - “ Isso aqui não é uma sala, é a tua mente...” - “Minha mente? E todos esses vultos estão fazendo o quê dentro da minha mente?” - “São as tuas fantasias não realizadas! Você nos deu vida, nos alimentou... Somos o teu fracasso personalizado! Somos parte de você.” - “Caramba! Tem muita gente por aqui...” - “Observa aquela criança! Tem cinco anos de idade e está à espera da tão sonhada bicicleta que ficou na promessa...” - “É verdade! Aos cinco anos meu maior desejo era possuir uma bicicleta. Meu pai era pobre, família numerosa, a “baike” foi só uma fantasia que morreu!” - “Não fale assim! Os sonhos nunca morrem... Adormecem.” - “Mas por que é assim? Não morrem?” - “Imaginas a dor de carregar um sonho morto! Deve ser algo assustador... Angustiante... Macabro! Um peso imenso para se carregar.” - “O que eu não entendo é o que fazem vocês dentro da minha mente? Por que não foram morar com outro alguém? Com alguém que pudesse concretizar o sonho...” - “Não podemos! Você nos criou... Somos uma parte de você. A parte nunca consolidada... Aquelas outras ideias, as que se realizaram ganharam vida própria, elas nasceram! Nós somos os que ficaram e repare na quantidade de sonhos aqui presentes...” Sim! Foi tantos sonhares. Sonhos de uma vida inteira, sonhos de menino, sonhos de adolescente, sonhos de moço, sonhos de velho. Todos eles me espiavam, me cercavam... Não me acusavam, mas em seus olhos eu notava uma tristeza sem nome, uma fome que foi minha fome, uma angustia que foi minha companheira... Uma dor tão antiga... Saudade de coisas abandonadas pela metade! Acordei banhado em lágrimas, lágrimas dos meus sonhos trancados dentro de mim... Pedaços esquecidos, largados, abandonados, órfãos de mim... Lavo o rosto, olho-me no espelho e meus olhos são os mesmos olhos do menino sem bicicleta, do jovem que não estudou medicina e tenho a certeza de que os sonhos nunca morrem. Mesmo não realizados, eles foram a melhor parte de mim... Gastão Ferreira/2013

terça-feira, 9 de abril de 2013

Odeio Fadas...

A FADA SAFADA----------------- Uma senhora aparentando mais de setenta anos de idade, desceu de um caríssimo carro importado, caminhou em direção à recepção do estrelado restaurante. Encostado a parede do prédio, um garoto de onze anos chorava... A madame chamou o menino e perguntou docemente;- “Por que choras, criança?” O guri olhou assustado para a velhota. Notou o anel de brilhantes, o colar de esmeralda e a bolsa Louis Vitton... “Estou feito!” pensou... “Ganhei o dia.” “Qual o problema que te aflige meu filho?” insistiu a meiga matrona. “Tenho fome... Muita fome!” respondeu o garoto. “Oh, quanta tristeza vejo refletida em teu olhar! Venha comigo até o automóvel... No veículo tenho uma roupa que servirá em você, alem de um tênis maneiro e novinho. E também serás meu convidado para o almoço nesse restaurante super chique.” disse maternalmente a vetusta senhora. O moleque estava encantado, nunca chegara perto de uma Limusine... Notou um frigobar, tevê via satélite, doces que nem sabia que existiam. Muitas notas verdes dentro de um cofre que estava aberto... ”Dólares! Muitos Dólares. Tenho que ganhar a confiança dessa mulher! Vai ser fácil assaltá-la” ponderou o pequeno meliante. Escolheram a melhor mesa, comeram do bom e melhor. O garoto escolheu a sobremesa mais cara, repetiu duas vezes... Já no final da refeição a velhinha não se conteve e perguntou a queima roupa; - “Você acredita em Fadas, meu filho?”. O guri caiu na risada e respondeu; - “Nem em Fadas, nem em Cegonhas, Coelho da Páscoa ou Papai Noel”... “Que pena!” disse a anciã, “Vou à toalete e já volto para pagar a conta, me aguarde!”. Retirou os brincos e o anel de diamantes, colocou-os numa pequena bolsinha, deixou em cima da mesa e se afastou em direção ao banheiro feminino. O menino passou a mão na bolsinha... Com muito cuidado a abriu... Dentro uma meia folha de papel ordinário e escrito nele; - “Sou uma Fada, se lascou malandro!” O garçom chamou os seguranças, ninguém notara a madame rica entrando no restaurante. Realmente havia uma moça com o garoto, uma cúmplice talvez! Bebeu do melhor vinho, saboreou uma excelente lagosta... Não podiam ficar no prejuízo nem chamar a polícia... Estava na cara que o guri era menor de idade e se safaria numa boa... Levaram o safado para os fundos do prédio, deram-lhe uns bons cascudos, o moleque teve que deixar a veste nova e o tênis maneiro como pagamento da comilança... Foi descalço e com uma roupa esfarrapada para a casa... Só uma coisa mudara em sua vida... Passou a acreditar em fadas e a odiar todas elas. Gastão Ferreira/2013

sábado, 6 de abril de 2013

A história de Amália...

O NOIVO INVISÍVEL............. Na noite que antecipou o nascimento de Amália, um meteorito caiu próximo à vila, as corujas piaram toda a noite e pela manhã alem de um Bem-te-vi, um Tucano sobrevoou o casebre. Ao findar o trabalho de parto, quando dona Bitoca anunciou; - “É uma menina!”, um papagaio desconhecido pousou na janela e corrupacou; - “Será Feliz! Será Feliz” e desapareceu na mata... Dona Madí desmaiou! Nunca existiu uma criança tão formosa quanto Amália, seu único problema era que não falava com estranhos. Todos a julgavam uma mudinha. Não era esta a verdade, pois até os doze anos de idade fora muito comunicativa. Dona Madí lembra com disfarçada emoção um fato bizarro. Estavam mãe e filha naquela tardinha as margens do rio, Amália prestava atenção na história que mãe Madí lhe contava; - “Tá vendo aquele buraco? Foi ali que caiu uma pedra do céu, na noite antes de você nascer. Dizem que uma luz azul saiu do meio do fumacê e entrou na mata e desapareceu... Depois ninguém sabe de onde veio o papagaio que afirmou que você seria muito feliz!” Continuavam entretidas com a conversa quando um forte vento vindo da mata as assustou. Uma luz de um intenso azul saiu do matagal em direção as duas e nessa hora dona Madí perdeu os sentidos. Quando voltou a si notou que Amália estava sentada próxima à entrada da mata com um vistoso papagaio assentado em seu ombro. Correu em direção à filha perguntando; - “Que aconteceu Mália? Fala filha! O que aconteceu?”, Amália respondeu e foram às penúltimas palavras que alguém ouviu dos seus lábios; - “Meu noivo veio me ver!” Amália continuou a crescer normalmente, transformou-se em linda moça. É verdade que não falava, mas seu papagaio se comunicava muito bem, numa linguagem clara e precisa. Com o tempo, Ramires, esse era o nome do louro, começou a encantar a vizinhança... Nem bem alguém se aproximava da dupla Amália e Ramires e o papagaio já anunciava; - “Tá com problemas nos rins! Vai pra casa e toma chá de quebra-pedra.”, “Seu estômago está reclamando! Losna é um bom remédio.”, “ Tem um encosto do seu lado! Procure um pai de santo.” Foi assim que a fama de curandeiro de Ramires se espalhou. Também dava conselhos sobre direito penal, educação, cultura, agronomia e pecuária... Um gênio de asas!... Com Amália era diferenciado, a conversa girava sobre robótica, espaço-tempo, extraterrestres, naves espaciais, física quântica e teoria gravitacional. Os rapazes das cercanias estavam todos alvoroçados. Quem conquistaria Amália? Nas horas em que Ramires dava consulta, costumavam estarem presentes para uma paquera e aparentemente a bela Mália nem se tocava das caras e bocas, das piadinhas tolas, dos olhares, das caretas e das mil artimanhas das quais os adolescentes se utilizam para se fazerem notados. Maéco era o líder da garotada e o mais apaixonado por Amália, quando ouviu a história de dona Madí sobre a luz na mata e o aparecimento de Ramires, teve certeza de que o papagaio era um feiticeiro, um bruxo que precisava exterminar para libertar sua amada e começou a fazer planos. No pequeno Bairro Rural, anualmente ocorria o “Festival da Primavera”. A vila se enchia de desconhecidos, violeiros, tocadores de sanfonas, dançarinos, pescadores, agricultores, meeiros e sitiantes. Maéco achou que o ajuntamento era propício ao assassinato de Ramires... Preparou um pequeno dardo envenenado e escondido entre a multidão disparou contra o louro. Quando Ramires foi alcançado pela seta mortal, soltou um brado alucinante; - “Fui atingido! Vou partir.”, formou-se uma clareira em volta de Amália e Ramires... O papagaio pendeu a cabeça, olhou para Amália e murmurou; - “ Serás feliz... Serás feliz.” O povo estava estupefato! Amália chorava, o louro agonizava... Uma luz azul, surgida ninguém sabe de onde, envolveu a dupla... Amália gritou; - “Meu noivo!”... Foram suas últimas palavras... Uma tênue claridade anilada a encobriu e foi desaparecendo lentamente e transportando consigo quem estava dentro do globo luminoso. Era o noivo que ao saber que o guardião deixado para proteger sua amada fora assassinado, veio buscá-la. Gastão Ferreira/2013