terça-feira, 26 de março de 2013

A poesia é um vento... Monólogo.

A POESIA É UM VENTO... O vento vinha ventando pelos caminhos do mundo... Espiava sobre os telhados, sobre velas de jangadas... Cantava pelas esquinas, ventava pelas estradas. O vento perdeu o rumo numa noite sem luar e dormiu feita criança sonhando com o seu ventar... Acordou na madrugada ouvindo um galo a cantar e lá no alto do monte o vento ficou espiando a cidade despertar... Viu o povo batalhando na procura do melhor, professor professorando, pedreiro a pedrejar, o pastor pastoreando, a criança a estudar, o rio sereno buscando as águas azuis do mar... E o vento encantado, com tudo o que ele via, da cidade, enamorado pelas esquinas corria... Viu a velha na janela espiando o fim da rua... Ouviu riso de menina, ouviu prantos e canções... Viu na mesa de quem come o que no prato restou, viu mendigo mendigando que com fome despertou. Viu amor e abandono... Viu tristeza e solidão, viu o pobre e o rico, viu o doente e viu o são. Viu pessoa trabalhando em diversa profissão... O amor abrindo portas, ódio fechando em prisão... Viu um dedo apontando a beleza e a podridão. Muita gente se encontrando, outros perdendo a razão... Viu olhares de incertezas, viu desprezo e safadeza em quem nunca se amou... Viu orgulho, viu pobreza, viu bondade e viu horror... Viu maldade gratuita, coração enganador, viu gentinha se achando ser de tudo o senhor... Viu sonhos desencantados, ouviu gritos de agonia. Amantes desesperados vivendo de fantasias... O vento quedou-se mudo... Só ventar é o que sabia... O vento nunca pensou que essa cidade existia! Soprou no banco da praça uma brisa de alegria e os casais enamorados os seus beijos ali sentiam... Soprou no adro da igreja e o rezador se benzia... Soprou no supermercado, nos bares e padarias, no varejo e no atacado, na porta do cemitério... Soprou por todos os lados, soprou por sobre mistérios... Na cidade já desperta, o povo se perguntava:-“ Que será que acontecia que o vento tanto ventava?” O vento sabia tudo, tudo o que se passava... Corria de casa em casa e a tudo espiava... Passou pelos gabinetes dos mandantes do local... Ouviu risos e palpites, viu o bem e viu o mal. Leu na banca de revistas as notícias no jornal... Viu ladrão e viu polícia, viu os barcos no canal... O vento ventou mansinho, pois de tudo ele entendia, em sua vida de vento ventava todos os dias... Afastou-se da cidade... Sobre a montanha dançou... E depois seguiu ventando e de tristeza... Chorou! GASTÃO FERREIRA/Iguape/2009

3 comentários:

ROMARIO MACHADO disse...

Gastão, nesse poema, você nos obriga carinhosamente a fazer essa viagem levados pelo vento.

ROMARIO MACHADO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ROMARIO MACHADO disse...

maravilhoso.