terça-feira, 26 de março de 2013

Pelos deuses!... Uma visita.

A VISITA DE CASSANDRA... Cassandra foi uma princesa troiana, filha de Príamo e Hécuba, irmã de Heitor e de Paris o raptor de Helena. A moça era de uma beleza extraordinária e bastou Apolo, o deus da luz, da música, da medicina e de outras coisinhas insignificantes vê-la para se apaixonar perdidamente... A donzela não deu a mínima ao poderoso deus e ele por vingança e por ter sido desprezado em sua paquera, dotou Cassandra com o dom oracular... Um oráculo na antiguidade clássica ocupava o mesmo espaço que na atualidade ocupa a nossa Unidade Mística... Qualquer dor de cabeça, sintoma de Dengue, dor nas costas, pressão alta e milhares de outros sintomas e tome lá uma consulta ao oráculo... A vingança de Apolo, que era muito sacana, foi terrível... Ao maravilhoso dom de conhecer o futuro, dado à bela e insensível Cassandra, acompanhava o seu aviltamento total; - “Ninguém acreditará em uma só previsão sua!” Cassandra fez milhares de profecias, apesar do descrédito de seus consulentes, todas se realizaram... Quando Tróia foi incendiada e saqueada, e quase toda a família imperial assassinada, apenas a princesa Cassandra, seu decrépito tio Anquíses com alguns de seus filhos escaparam... Entre os descendentes de Anquíses estava Enéias, fruto de um ardente romance entre o jovem Anquíses e a deslumbrante Vênus, deusa do amor e da beleza. Enéias futuramente se envolveria com a feiticeira Dido e num tempo ainda por vir, dois garotos gêmeos, Rômulo e Remo, seus descendentes fundariam uma cidade chamada Roma, mas isso é outra história... Cassandra, sem pai, sem mãe, sem palácios, vagou pelo mundo... Ganhava seu sustendo fazendo previsões, lendo cartas, interpretando sonhos e consultando o tarô, os búzios, as estrelas do céu... Seus clientes não gostavam das respostas do oráculo, pois desde que o mundo é mundo, poucos são os que realmente não temem a verdade... Num tempo impreciso, a profetisa passou frente à Ilha Comprida, que era puro mato e da sua nau avistou alguns vultos peladões e tascou uma profecia; - “Que bela ilha! Tão comprida... É habitada há milênios... Os primeiros a explorarem a sua riqueza foram os formadores de sambaquis... Foram assimilados por outros povos... Homens de cor vermelha se apossarão da região... Vejo muitas batalhas... Indivíduos vindos da Europa dizimarão todos os habitantes desse local... Pelos deuses! Uma cidade surgirá não longe da formosa e comprida ínsula... Por Tupã!... Quem é Tupã? Sei lá! Não importa... Quanto ouro! Quanto arroz!... Que será arroz? Nem sempre sei o que interpreto! Simplesmente traduzo o que os imortais permitem que eu veja... Que gente feliz! Que gente infeliz!... Pestes, conchavos, politicagens, Boitatá, desavenças... Belos casarões desmoronando... Uma cidade “lá tinha”... Tão bela e tão mal amada!... Pelos deuses do Olimpo! Afaste-se de mim essa visão!... Tudo para dar certo e tudo desperdiçado! Por Zeus! Não... Não e não!” Os companheiros de viagem caíram na risada; - “Essa Cassi! Parece uma louca... Dessas matas jamais sairão coelhos... Kakakaká.”... A nau afastou-se lentamente e os selvagens que a observavam da areia da praia nem desconfiaram da visita da profetisa amada de Apolo, como sempre, o que o deus determinou aconteceria num futuro ainda ausente... “Cassandra nunca mentirá, mas a ninguém é dado crer no divino oráculo”... Foi assim que há muito e muito tempo Cassandra nos visualizou no contexto atual. Gastão Ferreira/2013

A poesia é um vento... Monólogo.

A POESIA É UM VENTO... O vento vinha ventando pelos caminhos do mundo... Espiava sobre os telhados, sobre velas de jangadas... Cantava pelas esquinas, ventava pelas estradas. O vento perdeu o rumo numa noite sem luar e dormiu feita criança sonhando com o seu ventar... Acordou na madrugada ouvindo um galo a cantar e lá no alto do monte o vento ficou espiando a cidade despertar... Viu o povo batalhando na procura do melhor, professor professorando, pedreiro a pedrejar, o pastor pastoreando, a criança a estudar, o rio sereno buscando as águas azuis do mar... E o vento encantado, com tudo o que ele via, da cidade, enamorado pelas esquinas corria... Viu a velha na janela espiando o fim da rua... Ouviu riso de menina, ouviu prantos e canções... Viu na mesa de quem come o que no prato restou, viu mendigo mendigando que com fome despertou. Viu amor e abandono... Viu tristeza e solidão, viu o pobre e o rico, viu o doente e viu o são. Viu pessoa trabalhando em diversa profissão... O amor abrindo portas, ódio fechando em prisão... Viu um dedo apontando a beleza e a podridão. Muita gente se encontrando, outros perdendo a razão... Viu olhares de incertezas, viu desprezo e safadeza em quem nunca se amou... Viu orgulho, viu pobreza, viu bondade e viu horror... Viu maldade gratuita, coração enganador, viu gentinha se achando ser de tudo o senhor... Viu sonhos desencantados, ouviu gritos de agonia. Amantes desesperados vivendo de fantasias... O vento quedou-se mudo... Só ventar é o que sabia... O vento nunca pensou que essa cidade existia! Soprou no banco da praça uma brisa de alegria e os casais enamorados os seus beijos ali sentiam... Soprou no adro da igreja e o rezador se benzia... Soprou no supermercado, nos bares e padarias, no varejo e no atacado, na porta do cemitério... Soprou por todos os lados, soprou por sobre mistérios... Na cidade já desperta, o povo se perguntava:-“ Que será que acontecia que o vento tanto ventava?” O vento sabia tudo, tudo o que se passava... Corria de casa em casa e a tudo espiava... Passou pelos gabinetes dos mandantes do local... Ouviu risos e palpites, viu o bem e viu o mal. Leu na banca de revistas as notícias no jornal... Viu ladrão e viu polícia, viu os barcos no canal... O vento ventou mansinho, pois de tudo ele entendia, em sua vida de vento ventava todos os dias... Afastou-se da cidade... Sobre a montanha dançou... E depois seguiu ventando e de tristeza... Chorou! GASTÃO FERREIRA/Iguape/2009

Um olhar sobre Iguape... Monólogo.

GUIA TURÍSTICO – (MONÓLOGO) Boa noite meus senhores... O meu nome é Josemar E sou o seu guia turístico... Por favor! Acompanhem no telão Um pouco da nossa história... Saibam os ouvintes Que a Princesinha do Litoral Foi fundada em 1538... Sua origem perde-se no tempo ... Há dez mil anos Esse chão já era habitado... Gente de baixa estatura... Os formadores de sambaquis Morriam antes dos 30 anos... Valentes! Pescavam Tubarões Viviam em pequenas comunidades Bem aqui! Onde nós estamos... Temos dezenas de ostreiros Para provar o que informo... Deles herdamos a canoa, o arpão, a esteira... Ninguém sabe o que ocorreu Esse povo inteiro desapareceu Lá por três mil antes de Cristo... Por falar em Cristo!... Os índios tupis-guaranis Chegaram por aqui depois que ele nasceu... Vieram do Planalto Central... Do Paraguai, da Venezuela, do Peru... Os Incas fizeram uma estrada; - O Peabiru! Esse caminho vinha dos Andes... Passava por São Vicente, Iguape, Cananéia E seguia em direção ao Paraguai... Temos trechos preservados dessa estrada Em nossa região... Reparem no telão! Aquela Serra se chama Juréia... A terra sagrada dos Tupis-guaranis... Foi um presente de Tupã, nosso pai!... Espero não estar cansando vocês!... Nossa história é longa... Muita gente passou por aqui... Quando o Brasil foi descoberto... Demos guarida ao estrangeiro Que se apossou de nosso chão... Lugar de muito ouro... El Dourado, Registro, Sete Barras, A comarca era imensa, meu senhor!... Aprearam os índios... Chegou a escravidão... Tupã se afastou... Ouro nos cabelos... Moveis europeus... Tudo isso se perdeu!... Recebemos um presente! Era de nosso Salvador... Está ali na Matriz, sai no andor... Fazedor de milagres... Tomou um banho Nas águas que levam o seu nome... A Fonte do Senhor!... Reparem no telão!... Notem dentro da redoma... É a pedra que cresce... Dessa fonte vinha a água Para cinco chafarizes... Só restou esse aqui!... Está na Praça São Benedito... Bem em frente à igreja Erguida por mãos escravas... Apreciem os velhos casarões... Prova da riqueza... Que outrora nos marcou... Calçadas centenárias... Casa do Ouro, pelourinho... A igreja da Matriz... Tenho tanto a mostrar... Tanto se perdeu... Tanto se levou... Temos uma Fonte da Saudade... Que uma índia apaixonada Com seu pranto formou... No alto da montanha... Alguém zela por nós... Ele é o Cristo Redentor!... Nessas verdes matas Que nos cercam... Currupira sonhou... Boitatá passou... Nossa terra é terra sagrada... Terra de Tupã!... Da qual Anhangá se apoderou... Vamos sair? Conhecer de perto a cidade Beber água da Fonte... Desfrutem a nossa amizade... Bem-vindos a Iguape... Meus senhores! Gastão Ferreira/Março/2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

Aconteceu na cidade... "É a mãe!"

BOM SAMARITANO... “É A MÃE!” Dona Myrriam era uma alma de escol e também de Itaipava, Kaiser e Boêmia... Era uma abstêmia. Seu Nicolau, o marido, conhecido como “O Bom Samaritano” era um santo em carne e osso, mais osso do que carne devido a um regime alimentar severo e caro. O santo casal defendia tudo o que respirasse... “Vivemos num ecossistema e devemos respeitar todas as criaturas criadas por Tupã, menos o Pernilongo da Dengue que picou Myrriam quando num gesto de bravura socorreu uma ratazana grávida em trabalho de parto na margem do Valo Grande.” afirmava seu Lalau. Tiozinho Nicolau vivia penalizado com a situação dos cães sem donos que vagavam pelas ruas da cidade, com os cavalos que pastavam em logradouros públicos e ajudavam a municipalidade na limpeza das calçadas, com os gatos que vagavam pela Orla do Mangue e principalmente com os pedintes sem tetos que infestavam o centro da cidade. Os sem moradia fixa eram seres desconhecidos, chegavam sorrateiramente de algum lugar também ignorado e se apossavam de praças, calçadas, frente de comercio e outros locais públicos... Eram intocáveis! Podiam fazer nhéconhéco em banco de jardim, defecar na rua, achacar passantes, falar palavrão, ofender qualquer cidadão, possuíam todos os direitos e nenhum dever de civilidade para com a população em geral. Não eram maus, alguns guardavam carros. Todos contavam a mesma lenga-lenga; - “Eu podia estar roubando, eu podia estar assaltando, eu podia estar me prostituindo... Só estou pedindo uma “Reau” para matar a fome.” Pai Nicolau apiedou-se dos pedintes. Seres humanos que optaram por nada terem de seu, simples como os Lírios do Campo, inocentes como a Bela Adormecida a espera de um beijo salvador... Conversou com a esposa a respeito do assunto e resolveram contribuir para a salvação de tantas almas carentes de amor, de afeto, de carinho, de futuro. Criaram até uma frase de efeito “We Love Beggars”... “Nós amamos os mendigos”... Um compositor e poeta fez alguns versinhos sobre o tema... Um sucesso que foi musicado em um Sarau Literário na cidade, por um excelente arranjador e violeiro. A Dengue deixou sequelas em dona Myrriam, não era mais aquela exuberante dondoca capaz de escalar montanhas, navegar pelos canais do Mar Pequeno estapeando muriçocas, mergulhar da Passarela, tomar banho nua na Fonte do Senhor... Resolveram mudar para uma cidade com mais recursos na área da saúde. Permitiram que alguns sem teto ficassem morando em sua bela casa que ficaria fechada na ausência do simpático casal. “O exemplo nasce em casa”, diziam... “Então vamos exemplificar!” Tiozinho Nicolau voltou à cidade após cinco meses e foi vistoriar a casa deixada em comodato aos sem tetos... Que horror! Sem portas, sem janelas, sem fiação elétrica e sem encanamentos, sem móveis e sem telhas... Apenas quatro paredes. Quase teve um saricotico! Procurou seus amigos sem moradia fixa e exigiu explicações; - “Nóis vendeu para comprar comida... Nóis podia tá roubando, assaltando, se prostituindo... Nóis é muito honesto, vendemo pra pude comê! Qual a bronca tiozinho?” Seu Nicolau virou uma Arara, um Porco-espinho, um Baiacu, um bicho sem nome e esta curtindo na pele a perda da casa... Ao ser chamado de “Bom Samaritano”, agora responde nervozinho; - “ É a mãe!” Vivendo e aprendendo... Qual a moral da história? Não sei! Gastão Ferreira/2013

sábado, 9 de março de 2013

Na cidade grande...

OMISSO... UM CÃO FELIZ. Meu nome é Omisso. Um apelido estranho para um cão criado no sitio, se bem que meu pai, o Senhor Hideu Okubo encantou-se por tal nome, ainda bem que ele não colocou seu sobrenome como minha alcunha. Pai Okubo planta maracujá, aipim, abóboras, couve, caqui, cheiro-verde e muitas hortaliças... É um pequeno sitiante e todo Domingo participa da “feirinha rural” na Praça da Matriz. Nessa semana completei cinco meses de idade, já sou um garoto esperto e muito sapeca e pela primeira vez vim conhecer a cidade grande. Enquanto papai vendia seus produtos eu dei uma escapulida para conhecer os arredores, confesso que quase me perdi. Cidade grande é uma coisa muito confusa. Pai Hideu nunca derrubou um pé de palmito, desmatamento é crime ambiental, fiquei pasmo com o que um grupo de indígenas vendia! Alem dos palmitos, orquídeas, bromélias... Só não fiquei mais indignado porque ganhei um pedaço de bolo de um curumim que estava pedindo moedas aos passantes. Papai sempre comentava sobre o Mar Pequeno. Meu Bonje! Como é estreito. Só capim e um filete de água. É bem menor que o córrego do sitio e bem sujinho... Garrafas pets, sacolas plásticas e muito lixo na margem... Chocante! Também conheci a famosa Orla do Valo Grande, a obra faraônica que custou milhões e está surucando... Uma afronta ao bom senso e a cidadania! Coisa de gente esperta e não de um tolo cachorro ignorante que nem eu. Na cidade grande tem muitos prédios velhos pedindo socorro, estão desmoronando e vi alguns turistas batendo fotos e elogiando a antiga arquitetura... Fiquei imaginando todos eles reformados. Que belezoca! Por meu gosto, meu nome seria Faro-fino, fui bem longe e não me perdi... Voltei à praça e fiquei vigiando a barraca de pai Okubo. Tem um monte de jovens em situação de rua, nome bonito para quem não quer batalhar o próprio sustento e que ficam pedindo um “Reau” para comprar pão. Dizem que roubam os feirantes... Que vergonha! Sou apenas um cachorrinho e ganho honestamente meu sustento... Espanto o Gavião quando quer roubar um pintainho, corro atrás da Raposa quando vem roubar galinhas, aviso a chegada de estranhos... Trabalho feito cachorro grande e gosto do que faço... Sou um cão feliz. Não vejo a hora de voltar para o sossego do sitio. Um senhor disse a papai Hideu que uma senhora de nome Dengue está na cidade... Falou tão mal da madame que estou apavorado... Quem a conhece fica dengoso, sente dor nos olhos, perde o apetite, tem febre e pode sofrer hemorragia e ficar com sequelas para o resto da vida... Macabro! Gostei da “feirinha rural”, ganhei muitos afagos, conheci um montão de gente... Espero voltar outras vezes e contar para todos os amigos do sitio as novidades... Meu nome é Omisso, mas não sou omisso! Sou apenas um filhote de cachorro tentando entender os humanos... Como são complicados! Um dia eles aprenderão que para ser feliz basta ser simples. Fui. Omisso, um cão feliz. Gastão Ferreira/2013