quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Quando ele anuncia...

ALÔ... ATENÇÃO! “Alô, atenção...”. É nesse momento que a cidade para e a curiosidade abre suas asas sobre toda a população; - “Meu Bonje! Quem será dessa vez?” se pergunta a velhinha que se faz de surda. “Faleceu aos 47 anos...”. “Meu Deus! Tão jovem. Quem será? Será que é alguém que se afogou? Casado? Pela idade deve ter filhos pequenos! Pobres crianças...” Se indaga dona Zéfinha Catita, apurando o ouvido. “Na cidade de Tricana...”, “Tricana? E isso é nome de cidade que presta? Onde será que fica tal cidade? Quem será o falecido? Filho de quem? Tanta gente vai tentar a vida fora... Estudar fora... Passear por lugares longínquos... Fala logo quem é seu desgraçado!” A moto acelerou com o escapamento aberto... Um caminhão deu uma brecada feroz... Um rojão explodiu e lá se foi parte da notícia... “Seu sepultamento será hoje às 16 horas, no cemitério do Rocio, passando pela Basílica local.” A garota da melhor idade, dona Zéfinha, permanece atenta aguardando o repeteco... “Alô... Atenção! Faleceu aos 47 anos, na cidade de Tricana a senhora Aparecida Cecília Santos... Seu sepultamento será hoje às 16 horas no cemitério do Rocio, passando o corpo pela Basílica local.”... “Cidinha Lilica! Filha de dona Dita Manjuba e neta de Maria Guilhermina Antunes de Azevedo Marcondes Oliveira Santos, a famosa Maria Catatau... Nossa! Lilica conheceu um turista rico no “Boi” e se mandou... Quer dizer que o tal turista era dessa cidade de Tricana... Que vergonha! Dita Manjuba afirmando aos quatro cantos que a filha morava no exterior e agora todo o povo descobre que a coitada vivia em Tricana... Vou perguntar ao Zeca Gado sobre essa história!” “ Cidinha Lilica, dona Zéfinha! A senhora não ficou sabendo? O homem era um alcoólatra e não foi no “Boi” e sim no “Litrão” que ela conheceu a figura... O casamento não deu certo! Se largaram e ela foi tentar a vida numa boate no interior de Mato Grosso do Sul, numa cidadezinha pobre de nome Tricana... Só não foi enterrada como indigente porque um político aqui da nossa cidade tem uma fazenda por lá e fez questão de trazer o corpo para o torrão natal.” “Opa! Quem foi o político que prestou tão abençoado serviço, seu Zeca Gado?” Perguntou a Catita. “Não posso revelar o nome dona Zéfinha, apenas afirmo que não foi aquele que construiu uma mansão em São Paulo, nem aquele que comprou vários apartamentos em Santos e muito menos o que adquiriu uma confortável casa em Curitiba...” Respondeu Zeca Gado. “Que homem bom, esse político!... Gostei do que ele fez! Na próxima eleição já tem meu voto garantido e nem é precisa pagar minha conta de luz... Obrigada seu Zeca, vou passar no velório e dar meu último adeus a sapeca da Lilica.” Falou dona Zéfinha com os olhos marejados de tanta emoção. No Velório Municipal todos queriam ver o rosto de Cidinha Lilica e confirmarem se ela tinha ou não cara de santa, os comentários eram os de sempre; - “Morreu na flor da idade, com tudo para dar na vida...”, “Fique calma dona Dita Manjuba! Deus sabe o que faz...”, “Pelo menos voltou aos braços da mãe que a criou com desvelado amor...”, “É como dizem! Bebeu água da Fonte, volta...” Vamos aguardar o próximo “Alô, atenção...” e saber mais sobre quem parte. É isso aí, morrendo e fofocando. Gastão Ferreira/2013 Observação;- Esse texto é pura ficção... Não conheço nenhum político local que possua fazendas, mansões, apartamentos, etc e etc... O texto não é carapuça. Sem traumas!

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