quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Olho no olho...

O OLHAR DA MEDUSA Medusa era uma das Górgonas (Esteno, Euríale, Medusa), a única mortal entre as três irmãs filhas das divindades marinhas Fórcis e Ceto. Fora outrora uma belíssima donzela, que se orgulhava principalmente de seus cabelos, mas se atreveu em competir em beleza com Palas Atenas, a deusa privou-a de seus encantos e transformou as lindas madeixas em hórridas serpentes. Medusa tornou-se um monstro tão cruel, de aspecto tão horrível que nenhum ser vivo podia fitá-la sem se transformar em pedra. Ao ser decapitada por Perseu, de seu sangue nasceram Pégaso, o cavalo alado, e, o gigante dourado Crisaor. Medusa faz parte do mito, odiava o homem mortal simplesmente por ser ele o que era. A Medusa está entre nós... Espia-nos nas festas, nos bares, nas igrejas, nas calçadas, nos carnavais da vida. Lança sobre nós seu desamor, seu pensamento destrutivo, sua própria dor. A Medusa moderna não suporta ver gente feliz, tem seus olhos voltados para a escuridão moral e sempre encontra motivo para críticas entre os eventos humanos. O sonho de Dona Maria Marola era que a filha Tayanna Crislaine fosse destaque na Escola de Samba “Sereia do Mar Pequeno”... Era um desejo acalentado desde os tempos de mocinha, naquela época quase foi a principal atração da famosa Escola, mas o amor que sentia por Teodobaldo impediu a realização de sua maior fantasia e Tay já estava a caminho... Coisas de Festa de Agosto! Crislaine foi criada desde o berço para realizar o intento da mãe. Aprendeu a dançar “na boquinha da garrafa” antes de falar papai e mamãe... Cantava com entusiasmo as belas e complicadas letras dos famosos blocos carnavalescos “o Boi”, “o Litro”, “os Cachorrões”, “o Gato Preto”, “o Tatu” e dos famigerados e bagunceiros “Filhos da Béti”, um bloco onde os participantes repetem o estranho refrão; - “Quem mamou, mamou! Quem quer mamar, não vou deixar.”... O único problema era que Tayanna Crislaine era pobre e Francine Adrielle rica... Quem era Fran Adrielli? Francine Adrielli era filha de dois semideuses locais. O pai Dito Preguiça, funcionário de carreira municipal e a mãe Joana Fogueteira, a responsável pelo imenso estoque de fogos de artifícios que explodiam na cidade. Gente importante! Sem a assinatura de Preguiça ninguém conseguia uma cesta básica e sem a autorização da Fogueteira, nada de rojões grátis. Francine e Tayanna eram rivais desde o prézinho... Nunca combinavam em nada, se uma usava roupa vermelha, a outra usava branco. Eram assim tipo Cocho e Berne, sempre brigando pelas sobras do banquete, mas sempre se entendendo no escurinho da senzala. Ambas resolveram disputar o posto de destaque na gloriosa “Escola de Samba Sereia do Mar Pequeno” Adrielle e Crislaine foram exemplares em seus esforços... Corrida matinal na Orla Repaginada do Valo, subida sem parada na escadaria do Cristo, caiaque entre o matagal do lagamar... Malhação, dieta e natação diária... No final a diretoria da Escola de Samba foi justa e criou dois destaques para conter e mostrar ao público o ego e outras coisinhas das duas garotas... Quem não gostou foi Maria Marlene! Maria Marlene já nasceu com nariz empinado e cara de dona do pedaço. Achava-se a “última Manjuba do Ribeira”, no dizer popular “uma coco cheirosa”... O mundo fora criado apenas para ela e para ninguém mais... Graças ao dindim de papai e a dondoquice de mamãe se considerava a mais bela flor da sociedade em flor... Uma Medusa! Seu intento? Destruir as belas e gostosas Francine e Tayanna. Odiava profundamente as garotas, como gostaria de se chamar Brenda Priscila e não Maria Marlene, nome de pobre. Maria Marlene esperou pacientemente a chegada do carnaval. Comprou um tubo de spray e substituiu o liquido por um produto altamente inflamável... Adorou e copiou a fantasia de uma amiga tão bacana quanto ela. Uma vasta cabeleira negra com uma rosa vermelha e um longo vestido dourado que rodopiava sem maldade no bloco “Meu Tijolinho a Vista” e o povão delirando e perguntando; - “O travéco é daqui?”. Na apresentação da Escola, Maria Marlene com sua fantasia de Pomba-gira caiçara lançou o produto inflamável no carro alegórico onde sambavam Adrielle e Crislaine... Um fumante que passava afirmou que viu apenas um clarão antes da explosão que transformou a exótica Pomba-gira numa tocha e que a moça tinha olhos vermelhos iguais aos da Medusa. Não falei que a Medusa está entre nós! Ao falar com estranhos olhe sempre nos olhos... Caso não o transformar em pedra instantaneamente, a pessoa não é uma Medusa! No escuro das danceterias, nas apresentações noturnas, nos grandes festivais, fique esperto! Olho no olho. Gastão Ferreira/2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Nossas lendas urbanas....

A MOÇA DA CORTINA Na década de 1870 vivia na Praça da Matriz um rico senhor de engenho. Seus numerosos escravos se referiam ao patrão como “Nosso amo e senhor” e os bajuladores da época diziam apenas “nosso mestre”. Seus devedores o chamavam “o escroque”, o populacho de Seu Zinho e os mais esclarecidos de tirano, corrupto, sacripanta, aproveitador, amoral e outros apelidos menos carinhosos. Seu Zinho, diziam, tinha parte com o Tinhoso. Seu tataravô fez um pacto com Satanás, todos os componentes da família teriam do bom e do melhor enquanto vivos, mas depois de mortos seus espíritos permaneceriam na casa para atraírem desatentos turistas para as hostes infernais. O casarão estava lotado de almas penadas. Nos grandes festejos anuais sempre desaparecia alguém misteriosamente... Ninguém atinava o porquê de uma pessoa sumir sem deixar rastro e então, aconteceu que um rapaz muito casto e correto afirmou em confissão que uma donzela acenava eroticamente para ele da janela de um casarão. O padre ficou horrorizado com o aceno erótico e ordenou de imediato, ao jovem mancebo, um banho de água benta. Após o banho, quando o moço passou frente à janela, notou que por trás da cortina de renda uma caveira o fitava com olhos flamejantes; - Morreu na hora! O padre descreveu a estranha história ao sacristão e pediu sigilo. O sacristão narrou à esposa e pediu segredo absoluto. A esposa contou a costureira e costureira espalhou para toda a cidade. Quem passava alcoolizado frente da casa, depois da meia noite, ouvia gritos de escravos sendo espancados... Via figuras por trás da cortina fazendo gestos chamativos e sensuais... Um vulto acenava e mostrava ao incauto a porta de entrada do casarão, era a famosa assombração da “moça da cortina”. Com o passar do tempo e com a chegada de algumas novidades, tais como luz elétrica, fogão a gás, água encanada, geladeira, rádio, gramofone, vitrola, rua asfaltada, poste de iluminação pública, bicicleta, telefone, carro, moto, fita cassete, gravador, máquina fotográfica, filmadora, televisão, forno de micro-ondas, computador, as lendas urbanas perderam a vez. Quem ficaria inventando histórias de assombração? Melhor assistir uma novela, um filme alugado, fofocar no Face Book. No carnaval de 2013, um jovem turista de nome Wilson, desconhecedor de nossas lendas urbanas, após milagrosamente se livrar de três “boa noite cinderela”, dois sequestros relâmpagos, uma surra dos componentes do mini-bloco carnavalesco “ Os sobrinhos machos da tia Dorothéa” e alguns sopapos dos integrantes do bloco “Litraço amigo”, jura que viu por entre as cortinas do velho casarão, o vulto de uma mulher... Uma mulher fantasiada de alma penada... Uma madame a espera de um beijo de um desconhecido... Uma dama a procura de uma aventura passageira e inconsequente... Ao contar a história, foi perguntado o porquê de não dar atenção à moça da janela e o turista respondeu; - “Com tantas minas bonitas eu jamais daria chance para alguém da melhor idade me abusar! Tá loco... Ei quero mais é sair no bloco do Tatu... Eu hein!” Assim acabou mais uma lenda urbana... Satã botou seu bloco na rua e o preço de uma alma baixou no mercado... Uma cerveja em lata, um cigarro, um sorriso, um brilho no olhar... A promessa de um amor passageiro... São mil opções. Gastão Ferreira/2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Quando ele anuncia...

ALÔ... ATENÇÃO! “Alô, atenção...”. É nesse momento que a cidade para e a curiosidade abre suas asas sobre toda a população; - “Meu Bonje! Quem será dessa vez?” se pergunta a velhinha que se faz de surda. “Faleceu aos 47 anos...”. “Meu Deus! Tão jovem. Quem será? Será que é alguém que se afogou? Casado? Pela idade deve ter filhos pequenos! Pobres crianças...” Se indaga dona Zéfinha Catita, apurando o ouvido. “Na cidade de Tricana...”, “Tricana? E isso é nome de cidade que presta? Onde será que fica tal cidade? Quem será o falecido? Filho de quem? Tanta gente vai tentar a vida fora... Estudar fora... Passear por lugares longínquos... Fala logo quem é seu desgraçado!” A moto acelerou com o escapamento aberto... Um caminhão deu uma brecada feroz... Um rojão explodiu e lá se foi parte da notícia... “Seu sepultamento será hoje às 16 horas, no cemitério do Rocio, passando pela Basílica local.” A garota da melhor idade, dona Zéfinha, permanece atenta aguardando o repeteco... “Alô... Atenção! Faleceu aos 47 anos, na cidade de Tricana a senhora Aparecida Cecília Santos... Seu sepultamento será hoje às 16 horas no cemitério do Rocio, passando o corpo pela Basílica local.”... “Cidinha Lilica! Filha de dona Dita Manjuba e neta de Maria Guilhermina Antunes de Azevedo Marcondes Oliveira Santos, a famosa Maria Catatau... Nossa! Lilica conheceu um turista rico no “Boi” e se mandou... Quer dizer que o tal turista era dessa cidade de Tricana... Que vergonha! Dita Manjuba afirmando aos quatro cantos que a filha morava no exterior e agora todo o povo descobre que a coitada vivia em Tricana... Vou perguntar ao Zeca Gado sobre essa história!” “ Cidinha Lilica, dona Zéfinha! A senhora não ficou sabendo? O homem era um alcoólatra e não foi no “Boi” e sim no “Litrão” que ela conheceu a figura... O casamento não deu certo! Se largaram e ela foi tentar a vida numa boate no interior de Mato Grosso do Sul, numa cidadezinha pobre de nome Tricana... Só não foi enterrada como indigente porque um político aqui da nossa cidade tem uma fazenda por lá e fez questão de trazer o corpo para o torrão natal.” “Opa! Quem foi o político que prestou tão abençoado serviço, seu Zeca Gado?” Perguntou a Catita. “Não posso revelar o nome dona Zéfinha, apenas afirmo que não foi aquele que construiu uma mansão em São Paulo, nem aquele que comprou vários apartamentos em Santos e muito menos o que adquiriu uma confortável casa em Curitiba...” Respondeu Zeca Gado. “Que homem bom, esse político!... Gostei do que ele fez! Na próxima eleição já tem meu voto garantido e nem é precisa pagar minha conta de luz... Obrigada seu Zeca, vou passar no velório e dar meu último adeus a sapeca da Lilica.” Falou dona Zéfinha com os olhos marejados de tanta emoção. No Velório Municipal todos queriam ver o rosto de Cidinha Lilica e confirmarem se ela tinha ou não cara de santa, os comentários eram os de sempre; - “Morreu na flor da idade, com tudo para dar na vida...”, “Fique calma dona Dita Manjuba! Deus sabe o que faz...”, “Pelo menos voltou aos braços da mãe que a criou com desvelado amor...”, “É como dizem! Bebeu água da Fonte, volta...” Vamos aguardar o próximo “Alô, atenção...” e saber mais sobre quem parte. É isso aí, morrendo e fofocando. Gastão Ferreira/2013 Observação;- Esse texto é pura ficção... Não conheço nenhum político local que possua fazendas, mansões, apartamentos, etc e etc... O texto não é carapuça. Sem traumas!