domingo, 18 de agosto de 2013

Ao gato Léo... Obrigado

Gato Léo... Obrigado! Os bichos têm alma, sentimentos, preferências... São anjos de Deus, disfarçados em animais. Nossos acompanhantes nessa jornada existir. Aceitam-nos sem impor condições. Ciumentos, possessivos, adoram um carinho e o retribuem sem nada exigir. O gato Léo foi embora, Léo foi namorar e desapareceu, Léo foi assassinado. Mais um amigo que se vai, mais um ser vivo para lembrar. Era apenas um gato! Alguém pode pensar. Um gato, um cão, um passarinho... Tudo é vida! Qual a diferença entre matar um homem ou um animal de estimação? Somos todos oriundos da mesma fonte divina... Quem não respeita um bicho, não respeita uma criança, um velho, um deficiente físico. O homem se diz rei da criação! Mas, que rei é esse que agride gratuitamente, corrompe, rouba, mata, estupra, danifica? Soberano na inveja, na maledicência, no egoísmo, na maldade gratuita. Morre a matéria, a alma se liberta. Nada acaba em definitivo. O espírito do homem sonha com um futuro paraíso e a alma do animal, com que sonha? Animal não mente, não semeia nem colhe, somente existe e compartilha do medo, da fome, da vilania, da indiferença ou do amor humano. Gatos não morrem jamais! Ficam por aí arranhando sofás de nuvens, perseguindo ratos de vento, caçando passarinhos invisíveis em invisíveis árvores, namorando a lua, espiando nos aquários de neblina, miando nos telhados da noite, espreitando os ninhos. Gatos não se transformam em retratos nas paredes. Falecem, mas, continuam esfolando nossas lembranças. Ficam na saudade, nas fotos, numa lágrima furtiva... Gatos não desaparecem da memória de seus donos! Ficam deitados invisíveis nas soleiras das portas num ditoso abandono. Dormem felizes em sofás feitos de sonho, passeiam entre nossas pernas como acariciante aragem, nos vigiam e nos amam... Não com o amor humano! E sim, com aquele amor incondicional. Com o apego total, com o qual somente os animais são capazes de demonstrar o seu intenso afeto. Gato Léo, seu safado! Léo assassinado... Perdoa a vilania que habita o coração do homem que se diz civilizado e sapiens... Agora teu nome é saudade, eu continuarei a sentir a tua silenciosa presença muitas e muitas vezes, nas nuvens, no vento, na calma lembrança das tardes compartilhadas no terraço de casa, no ronronar suave da memória, nas fotos, nos beija-flores que me visitam... Olhos de luz! Breve miado... Pelo macio... Brisa passageira, que por um breve momento compartilhou de minha existência e espantou para longe de mim a solidão... Obrigado! Gastão Ferreira/2013

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O BISTRÔ

O BISTRÔ... Estranhos são os caminhos do Senhor! Ele lança as sementes no coração dos homens e cada qual cultiva a planta de sua preferência... O coração é um imenso canteiro. O certo é ficar atento, reservar um espaço, regar com humildade, retirar a erva daninha do preconceito, da vaidade, do egoísmo, do desamor... Ninguém é totalmente mau nem inteiramente bom, eis a razão do espaço do plantio ser tão pequeno. O santo tem o coração iluminado por todas as virtudes, porém o pecador não é tão feio quanto dizem. Em seu coração sempre sobra um cantinho para semear alguma fugidia virtude, era esse o caso de Madame Charlote e Dona Dete. Charlote nasceu em berço de ouro, mas de uma humildade escandalosa... Escandalosa! Sim, sua gargalhada contagiava, sempre de bem com a vida, honesta, batalhadora, prestativa. Nunca foi tímida! Encarava a vida de frente, dava murro em ponta de faca e corria atrás do prejuízo sem reclamação... Dete era pobre de maré, maré... Seu aprendizado foi na rua. Não era má pessoa, ao perder a mãe ainda na infância, a vida foi sua madrasta e que madrasta! Aprendeu a valorizar cada centavo, vendia beijinhos para turistas quando criança e na juventude vendia outras coisas, mas sempre resevou em seu coração aquele pequeno espaço sagrado onde teimava em germinar a semente do bem... Caiu... Levantou... Sacudiu a poeira e deu a volta por cima... Casou e foi morar ao lado da casa de Charlote. Cidade festeira, onde muitos eventos reunindo turistas ocorriam anualmente. Era fato inegável que todos os moradores, desde tempos imemoriais, tiravam uma casquinha dos visitantes. Tanto os ricos quanto os pobres alugavam seus quartos, suas cozinhas, suas salas, seus banheiros, seus pátios, suas garagens e até mesmo a calçada frente a suas casas aos visitantes. Vendiam comes e bebes e a disputa por fregueses era feroz. As propagandas enganosas e a busca por clientes causavam muitas desavenças, picuinhas e bate bocas desaforados... Nesses eventos Madame Charlote e Dona Dete viravam inimigas e caprichavam na captura da clientela. Madame Charlote alugava toalete e Dona Dete banheiro, uma vendia “Petite gatô” a outra casadinho de manjuba. Dete fornecia prato-feito e marmitas, Charlote executive-repast... Enfim uma copiava a outra e aja bate boca... Os vizinhos espiavam por trás das janelas, mas não interferiam. Também eles tinham seus negócios e não podiam perder tempo com briga alheia. Nesse ano, o bicho pegou feio. Madame Charlote exagerou... Uma semana antes da grande festa mandou entalhar uma placa e nela estava escrito “BISTRÔ” e Dona Dete ficou arrasada; - “ Meu Bonje! Que será que a sirigaita da Carlota está aprontando? Bistrô? Como vou saber o que é esse tal de “bistrô”! Comida? Bebida? Tenho que descobrir e fazer melhor... Os fregueses merecem o melhor e o melhor tem nome;- Dete!” Quem passou pela rua onde mora nossas personagens estranhou as duas placas... Na de Madame Charlote;- BISTRÔ CHARLOTE si vous plais e na de dona Dete;- BAIUCA DA DETE, comida caseira... O mais estranho é que a comida era a mesma, numa “poule avec petite pois” e na outra “galinha com ervilha”. Estranhos são os caminhos do Senhor! Ele semeia no coração dos homens e cada qual a seu modo cuida do próprio jardim... Alguns plantam árvores frutíferas, outros, hortaliças e muitos outros plantam amizade e paz... Existem os que não cultivam nem regam as minúsculas sementes e têm aqueles, como Madame Charlote e Dona Dete, que cuidam e vigiam seus canteiros com unhas e dentes, suas pequenas desavenças dão um sabor a vida, passada a breve competição, ambas voltam a antiga amizade e a troca de receitas para a próxima festa... São estranhos os caminhos do Senhor! Gastão Ferreira/2013

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O PLEBISCITO...

O PLEBE-CIRCO... Os habitantes da floresta andam macambúzios... É tempo de passeatas, de cobranças e muita mudança na selva... Enfezado, o novo rei alegando compromissos de campanha, quer porque quer desalojar um grupo de Bichos-carpinteiros de um galpão que fica na orla da mata. Todos sabem que bicho tem memória curta e esquece fácil até o caminho de casa. Num passado recente o armazém serviu de ponto de reunião aos animais cachaceiros, aos Bichos Preguiça que não queriam trabalhar, aos filhotes abandonados que não tinham o que comer em suas tocas, aos animais sem tetos que dormiam em qualquer lugar... Foi devido a essa súcia que o aprazível local foi perecendo lentamente e um belo dia faleceu de morte morrida e ninguém deu a mínima importância ao fatídico fato. Quando da eleição, em campanha, o candidato ao trono fez múltiplas promessas. Construir um hospital, um porto fluvial, uma pista de esqui, um aeroporto, uma faculdade de letras e outra sem letra... A bicharada bateu palmas e pediu mais promessas mirabolantes e impossíveis de serem realizadas. O pretendente a realeza empolgou-se e prometeu a volta triunfal do antigo armazém de saudosa memória... Foi eleito na hora. Sabem como é! Promessa de candidato a cargo eletivo é coisa muito séria. Já ocupando o trono, o rei esqueceu-se do hospital, da faculdade, do aeroporto e das outras novecentas e noventa e nove promessas, mas para mostrar que era um mandatário de palavra e que palavra de rei não volta atrás, ordenou que os Bichos-carpinteiros abandonassem o antigo galpão e que o velho depósito voltasse a ser o maravilhoso armazém do passado... Estava armado o circo! Os saudosistas, os aproveitadores, os especuladores, os que de alguma forma imaginam lucrar com o retorno do falecido galpão, aplaudem delirantemente o jovem monarca. Cinquenta famílias tiram seu ganho do que vendem no local e não se conformam com a decisão real... O bondoso rei quer deixar a ver canoas meia centenas de pais e mãe com um monte de filhotes para sustentar, e, alojar no depósito um Macaco rico, possuidor de várias moradas, para que possa vender bananas e outras frutas, no grande galpão, aos romeiros que visitam o santuário de Tupã... Também duas Ariranhas matreiras e seus pescados poderão usufruir do espaço público gratuitamente... Três súditos escolhidos a dedo em troca de cinquenta famílias? Nem pensar majestade!... O barraco está armado e um “plebe-circo” se faz necessário. O bafafá foi apelidado de “plebe-circo” porque é um jogo de cartas marcadas... Um circo para engambelar a plebe. Alguns animais não podem votar... O urubu, a cambacica, o porco espinho querem recorrer ao Rei Leão, o rei que manda em todas as florestas de todos os reinos e pedir ao grande soberano que dê um cala boca no jovem reizinho que pensa ser um reizão... A raposa, a oncinha, o pardal, a andorinha, o tateto compraram a briga real, já antevendo algum lucro na espúria jogada. O bicho vai pegar! Macaco velho não põe a mão em cambucá. Por enquanto penso em votar pela permanência dos Bichos-carpinteiros e suas cinquenta famílias no ex-velho galpão, mas também penso em negociar meu voto em troca de algum cargo comissionado ou prestação de serviço bem remunerado... Brincadeirinha! Eu respeito todos os animais e temo a ira de Tupã, nosso pai, que nos manda a chuva, o vento, o dia e a noite... Vá que ele me castigue por querer ser venal e resolva mandar um raio bem na minha cabeça! Eu hein... To fora! Assinado; - Um Bem-te-vi Gastão Ferreira/2013 Observação; - Esse texto é uma sátira... Não existe “Plebe-circo” na floresta, alias, do jeito que detonam com as árvores, logo nem floresta existirá nesse reino imaginário.

Memórias de Iguape - O Circo Mambembe

SUA MAJESTADE... O CIRCO. Respeitável público!... Senhoras e senhores!... Orgulhosamente convidamos a todos, na noite de hoje, a prestigiarem mais um fenomenal espetáculo do formidável... Grandioso e inesquecível “Grande Circo Teatro Irmãos Silva”. Os garotos que não conseguiam alguns trocados para a compra de um ingresso espiavam através dos muitos buracos da velha e gasta lona, alguns moleques serelepes tentavam passar despercebidos por debaixo da grande tenda. Nas arquibancadas de madeira se acomodavam as crianças e, nas cadeiras, na boca do picadeiro, o respeitável público. Independente da situação financeira, todos comiam pipoca e independente de idade ou bens materiais todos se transportavam automaticamente para o fascinante e maravilhoso... Mundo do circo. O palhaço Tampinha arrancava gargalhadas com sua picardia. As três filhas do dono do circo, as irmãs Neuza, Neiva e Neide, arrebatavam suspiros dos corações juvenis, eram as musas dos adolescentes sonhadores... Como não ser! Viviam naquele mundo fantástico, no mundo do faz de conta. Tão jovens e conheciam tantas cidades! O circo fazia um tour anual, percorrendo todo o Estado de São Paulo... Meu Bonje! Que vida a dessas garotas. Na plateia, as mocinhas sensíveis, choravam copiosamente nas encenações dos grandes dramalhões... Quem não soluçou com o melodrama “O céu uniu dois corações”? Quem não se comoveu com “Três almas para Deus”? Qual a mãe que não verteu lágrimas furtivas ao assistir “O direito de nascer”? Qual o católico fervoroso que não se extasiou com “A vida de Santa Bernadete”?... Assim funcionava a magia do circo e assim se comportavam as pessoas de Iguape no inicio dos anos sessenta, em meados do século XX. Eis algo que a juventude atual jamais conhecerá! A pureza, a expectativa, a alegria contagiante de compartilhar a grande mágica do circo. De encantar-se com o malabarista, a trapezista, a contorcionista... De torcer pelo mocinho caricato, cobiçar a donzela melosa, detestar o bandido canalha, olhar cara a cara o pecador, a santa, o tinhoso... Saber de antemão como é o céu e o inferno... Ouvir a voz de Deus entre relâmpagos e trovões produzidos por bater de latas velhas na ribalta. As crianças ficavam comentando por semanas as peças teatrais; - “Mas Dito, o punhal acertou o bandido bem no coração! Eu vi! Eu estava pertinho... Saiu um monte de sangue...”, “Tudo mentira Toninho! Meu pai contou que não é sangue de verdade, é framboesa... O punhal tem um cabo falso e a lamina entra por dentro dele... É tudo enganação.”, “Sabe Dito! Notei que aquela santa Bernadete tinha a mesma cara daquela pecadora do “Direito de nascer”... Que coisa estranha.”, “É, eu também reparei! Mas isso eu não sei explicar, vou perguntar ao meu pai...”. Se foi o tempo do circo mambembe, do esfarrapado e singelo circo de lona, da Monga, da Mulher Macaco, da luta livre, dos Mágicos que não enganavam ninguém, das tampinhas que escondiam algo nunca encontrado... Hoje é tempo dos grandes festivais, de peças teatrais com enredo complicado, de cantores que cobram fortunas por uma única apresentação. Respeitável público!... Senhoras e senhores!... Todos vocês que foram criança e espiaram através dos buracos da velha lona do cirquinho mambembe, que se apresentava anualmente em Iguape como “O grande Circo Teatro Irmãos Silva”... Todos vocês que sabiam de cor que “o palhaço é o que é?”, “É ladrão de muié!”... Vocês que acreditavam que toda a donzela bobinha merecia o marido que conquistou com muitas lágrimas e sofrimento... Vocês que viveram esses dias inesquecíveis! Bem vindos ao Grande Circo da vida! A magia ainda persiste e não acabou. Gastão Ferreira/2013

domingo, 21 de julho de 2013

Uma Cigarra...

UMA CIGARRA CONTOU... Contam às lendas que num tempo muito remoto, quando a raça dos homens ainda não existia, os animais se falavam entre si e viviam alegremente em harmonia na densa floresta. No princípio eram todos inocentes, seguiam as sagradas leis de Tupã, não roubavam, não matavam, não valorizavam o ouro. Alimentavam-se frugalmente, desconheciam a inveja, a ganância, a arrogância e a prepotência. O primeiro sinal de decadência veio com a perda do respeito devido a Tupã. Só os puros de coração podiam carregar o santo andor de Tupã, nas longas procissões anuais. Jamais um pecador, ladrão, corrupto, pervertido, pedófilo, mentiroso, se aventurou a quebrar a regra... Foi assim até o dia em que o povo descobriu estarrecido que o honesto rei, em conluio com os parentes, os amigos e afilhados, roubavam descaradamente tudo o que podiam e achavam o máximo da esperteza tal pratica. Nos primeiros tempos não existiam mandatários, era cada um por si e a vida era leve e solta. Cada bicho sobrevivia do próprio suor na cata da alimentação diária. Quem não se virava se lascava! O Bicho Preguiça era um destes, não colocava a mão na massa, possuía muitos filhos e vivia das esmolas do Senhor Raposa, um mequetrefe habitante da floresta. Seu Raposa era tão sabido que inventou a monarquia. Pobre de maré, maré... Herdou do pai a esperteza no trato com a ralé da mata. Arquitetou a eleição e o voto de cabresto. Saiu comprando eleitores de toca em toca, prometeu mundos e fundos, formou um partido e desde então passou a viver de nariz empinado, peito estufado e ouro surrupiado... Adorava carregar o andor de Tupã. Alguns reis ficaram famosos, dentre tantos, o rei Quati, o rei Tamanduá, o rei Formiga, o rei Lobo Guará, o rei Raposa, e, uma única rainha, Dona Anta, de infeliz Lembrança!... Apesar de serem de espécies diferentes, se consideravam irmãos entre si e representantes de Tupã na Terra, assim diziam e assim agiam... Quem não era da família só se ferrava. Em época de eleição tudo mudava. Os candidatos a rei eram inimigos mortais uns dos outros... Nesse breve período todos os podres, os segredos guardados a sete chaves, taras e particularidades negativas vinham à tona... Passado o pleito, os laços familiares falavam mais alto e o esquecimento das ofensas era acompanhado de gordos cargos comissionados. Tudo era perdoado e esquecido, incluindo os eleitores e as promessas de campanha. A coisa estava para lá de feia... A maior parte da bicharada tinha o rabo preso com o rei e seus escudeiros, devido aos pequenos grandes favores solicitados na hora do aperto... E, como tinham! A oncinha, o tateto, o veado, o jacaré, a coruja, o urubu, o bem-te-vi, o pardal, o gavião, a andorinha... Bichos, peixes, anfíbios, qualquer animal com rabo estava lascado! O rei comprava e ninguém reclamava. Quem detonou com o esquema foi a Cigarra... Como gostava de cantar! Cantou para quem queria ouvir e para quem não estava nem aí... Contou os podres, as maracutaias, os conchavos ao vento, às árvores, ao sol, à lua, à tempestade... O canto da Cigarra chegou aos ouvidos de Tupã... Tupã despertou! Não gostou das novidades e retirou o dom da fala de todos os animais e desde então nenhum bicho consegue se expressar corretamente. Foi assim que acabou a idade da lenda em que os animais falavam e se entendiam entre si. A última coisa de que se lembram, é de Tupã a margem de um grande rio, retirando com as próprias mãos um pouco de barro e moldando um ser semelhante a ele mesmo... Isto aconteceu há muito e muito tempo. Tomara que essa nova criação honre Tupã e transforme o mundo em algo melhor. Gastão Ferreira/2013

terça-feira, 16 de julho de 2013

A neblina...

A NEBLINA... Como uma branca nuvem ela desceu da montanha. Lentamente comeu as casas, as praças, as árvores e se apossou da cidade. Aos poucos dominou o ambiente... Nem os cães de rua, nem os gatos namoradores, nem os avoantes pássaros ousaram romper o nevoeiro. As crianças espiavam pelas frestas das janelas fechadas... Ninguém nas ruas! Todos procuravam um abrigo seguro. A névoa era pegajosa e úmida, seu gosto causava enjoo e seu cheiro lembrava algas marítimas. Um fato estranho era que a neblina cobriu completamente a cidade, mas não adentrou as casas de moradia. No entorno das praças os moradores ouviam murmúrio de vozes... Vultos, mal definidos, dentro da cerração berravam palavras de ordem; - “Abaixo os captores de índios! Fora com os senhores de engenhos! Pelourinhos nunca mais! Mais pão e menos chibata! Queremos médicos não pajés!” O arrastar de correntes, os gritos de dor, as gargalhadas dos loucos, se juntavam aos lânguidos suspiros dos que morreram por um amor impossível, dos assassinados nos becos escuros, dos enforcados, dos suicidas, dos algozes de corpos e das mentes. No calçamento secular do Centro Histórico, as escravas do passado arrastavam pelas madeixas sinhás e sinhazinhas... Negros fujões chicoteavam valentes Capitães da mata... Eleitores rondavam os alcaides corruptos exigindo a devolução de inúmeras rapinas, mostravam suas vidas roubadas pela falta de melhorias na saúde pública... Os políticos e nepotistas que engambelaram o povo eram apedrejados. Os fantasmas do passado clamavam por justiça. Cercavam os politiqueiros, os ladrões do bem comum, os corruptos, os religiosos que usaram o nome de Deus em proveito próprio, os pedófilos que destruíram no nascedouro a inocência infantil, os que pediam esmolas por esperteza, os filhos das trevas que plantaram vingança, ódio, desamor. Frente a Basílica os espectros seculares juntaram-se aos mortos recentes, os que faleceram por erro médico, nos assaltos, nos atropelamentos, os que partiram pela fome e pelo descaso das autoridades ao negarem melhorias na Saúde, na Educação, no saneamento básico. O sussurro dos fantasmas, levados pelo vento, entraram em todas as casas... As pessoas não tinham como evitar que as vozes penetrassem em suas mentes. Os omissos, os apadrinhados, os aproveitadores, sentiram na alma o drama dos desfavorecidos, dos mortos em vida, dos sem sonhos e dos sem futuro... Entenderam que a vida continua, que o que aqui se faz aqui se paga... Que o homem colhe da árvore que plantou. Na madrugada a neblina se dissipou, o sono invadiu todas as casas... O amanhecer foi radiante! Nada lembrava os estranhos fatos da noite. As pessoas acordaram sabendo que deveriam organizar uma grande passeata, exigindo seus direitos quanto cidadãos, mais qualidade de vida e menos promessas, melhorias na cidade. O momento de uma faxina geral era chegado... Que sem dignidade, transparência, respeito à ordem e a lei, honestidade, a vida não vale a pena... Não estavam dispostos a serem mais um na neblina... A hora da renovação chegou! Gastão Ferreira - (06/07/2013)

Espionagem...

ESPIONAGEM NORTE-AMERICANA EM IGUAPE O fato passaria despercebido se não fosse por Dona Zica Mironga, aquela simpática senhora que dia e noite não sai da janela a espiar o que ocorre na vizinhança, ter reparado num urubu voando em zigue-zague por sobre a cidade. Contou ao filho Jawilson sobre a ocorrência e o garoto passou a seguir atentamente o voo do abutre. Aquela ave não agia em conformidade com as outras do bando, não abria com as garras e o bico os sacos de lixo, não perseguia cães e gatos, ao anoitecer não voltava para as montanhas. Plainava altaneira nas alturas e num piscar de olhos locomovia-se de um lugar para outro como um corisco. Jawilson, muito esperto e observador, notou que o urubu tinha algumas preferências... Planava sobre o Paço Municipal, sobre a egrégia Câmara Municipal no decorrer das sessões semanais... Era como se espiasse algo. A noite se empoleirava no alto da torre da igreja matriz e seus olhos brilhavam nas trevas, pareciam filmar o que ocorria no entorno da praça. Com os preparativos para a grande festa do santo protetor, cavalos e cavaleiros, motos e motoqueiros, romeiros e pedintes, barraqueiros e pessoas desconhecidas vagavam pela cidade... Muitos rojões anunciavam a proximidade do evento, cada grupo soltavam foguetes marcando sua presença frente à basílica. Jawilson mirou no abutre e disparou o rojão, acertou a ave em cheio... Sorrateiramente subiu pela escadaria que conduzia ao campanário, jogou dentro de uma sacola o que restou do urubu e foi correndo para sua casa examinar o exótico pássaro que parecia ser feito de plástico. Dona Zica Mironga, acostumada com fatos inusitados vistos de sua janela, jamais imaginou um avoante sem penas, sem carne. Assustou-se com a quantidade de molas e parafusos, a bateria de lítio que movia a estranha máquina feita à semelhança de um urubu... Jawilson explicou que o objeto era um robô e mostrou para sua mãe um pequeno pen-driver embutido por trás dos olhos da criatura... Boa coisa não devia ser! Que será que o bicho gravara? O rapaz introduziu o pen-driver no computador... Que pena! O rojão havia danificado o sensível equipamento; - “Repara mãe! Esse ali não é o senhor...”, “Meu Bonje! Ele está carregando uma pasta negra na calada da noite... Olha! Olha! Está distribuindo dinheiro para aquelas pessoas em volta da mesa... Que droga! A imagem desapareceu...”, “Mãe! Repara na nota de prestação de serviço... Parece aquela que apareceu na internet...”, “Qual? Aquela sobre limpeza de caixas d’água ou poda de árvores?”, “Não acredito! O quê Tigrinho, tão honesto, está pondo no bolso? Parece dindim...”, “Calma mamãe! Esqueceu que a senhora é crente e que não devemos julgar para não ser julgado? Aquele ali não é o senhor Sabiá? O arrependido!... Porcaria de filmagem mal feita que não deixa reconhecer quem foi filmado...”, “Repara filho! São imagens da famosa passeata... Repara na garota fotografando os participantes e anotando seus nomes num papel...Quem será a dita cuja?” Dona Zica Mironga e seu filho Jawilson viram coisas jamais imaginadas. O arquivo abrangia vinte anos de paciente filmagem... Muita gente se achando o máximo, muita gente se perdendo, se corrompendo, se vendendo, se alugando, sofrendo perseguições, lambendo feridas e não aprendendo nada de edificante sobre honestidade, ética, moralidade... Mãe e filho descobriram que o urubu era simplesmente uma máquina de espionagem do governo norte-americano... Sacana esses americanos! Pena que o equipamento esteja tão danificado, tornando impossível um reconhecimento dos envolvidos nas maracutaias filmadas... Meu Bonje! Gastão Ferreira/2013

A fruteira...

A FRUTEIRA Estudo na sétima serie... Dona Yara, minha professora de língua portuguesa, deu como tema um texto sobre frutas; - Uma chatice! O quê pode escrever relativo a uma simples fruta um garoto como eu? Eu hein! De tanto esquentar a cabeça deu-me uma soneira e adormeci na mesa da cozinha. Tive um sonho muito estranho! Minha mãe faz questão de manter uma linda e sortida fruteira sobre a mesa de refeições... Ouvi uma voz e levei um baita susto! Uma maçã falava com uma goiaba. - “Sou do sul, nasci em Santa Catarina, um lugar muito frio onde cai neve durante o inverno”, disse a maçã. - “Eu sou de Pariquera”, informou a goiaba, “amadureci a margem de um regato, lembro dos sabiás, sanhaços, tiés que tentavam bicar minha casca... O dono do sitio colocou uma capinha em volta de cada uma de nós e ela evitava que pássaros e insetos se alimentassem de mim e de minhas irmãs.” - “Nasci e cresci rente ao chão”, confidenciou uma melancia, “ a grama era verde e conheci muitos animais... Um dia um tatu cavou uma toca ao meu lado, seus filhotes brincavam comigo...” - “Eu vivi numa fazenda” disse a mexerica, “sou do sul e por lá me chamam de bergamota... Percorri centenas de quilômetros até aqui. Andei de trator, caminhão... Conheci o mundo...” - “Eu recordo de um grande rio”, sou uma banana... “lembro de pescadores lançando redes, de um menino que caçava passarinhos... Fui colhida verde e fiquei fechada em um depósito para amadurecer...” - “Não reparem no meu sotaque” disse o côco... “Sou do norte e cresci frente ao mar sentindo o cheiro da maresia, o som dos ventos, o calor do sol... A viagem foi longa e me sinto um tanto aperreado...” - “Acho que sou a que veio de mais longe” falou a pêra chinesa... “Nasci no outro lado do mundo, num país que possui mais de um bilhão de habitantes... Vim de navio e avistei uma baleia no mar...” - “Eu sou um abacate, cresci no quintal dessa casa... Conheço esse pessoal, sou amigo do gato e do cachorro... Tem um menino que gosta de subir nas árvores, espiar ninhos de passarinhos, pedalar uma bicicleta... Um garoto curioso aprendendo a viver... O que ele não sabe é que tudo o que existe está contido nos livros... Os livros são a memória dos homens! Proporcionam viagens incríveis sem sair do lugar... Contam a história do mundo, as grandes descobertas, os inventos, os sonhos, falam da natureza das coisas... Como eu gostaria que esse menino pegasse gosto pela leitura! Opa!... Vamos silenciar! Ele não sabe que as frutas se comunicam entre si e parece que já vai acordar...” Ainda não sei o que posso escrever sobre uma simples fruta! Minhas notas estão baixas, acho que vou descrever o sonho que tive... Amanhã passarei na biblioteca e pedirei um livro sobre frutas tropicais, depois quero ler sobre o planeta Terra, conhecer os oceanos, a história universal, mitologia grega, folclore brasileiro... Pensando bem! O abacate estava certo. A leitura abre todas as portas e está na hora de eu ficar esperto. Gastão Ferreira/2013

sábado, 11 de maio de 2013

Álbum de família...

ÁLBUM DE FAMÍLIA... Numa cidade não longe do mar, perto de um majestoso rio de águas cristalinas e da verdejante mata muitas coisas estranhas acontecem. São tantas histórias antigas, envoltas em segredos inconfessáveis. Tantas arapucas armadas pelo destino, tantos desacertos escondidos nas grossas paredes de velhos casarões. Choro de crianças que nunca chegaram a nascer. Riso de mocinhas donzelas que secaram e se transformaram em amargas lembranças. Sou descendente desses bravos, dessa gente que chegou junto com o descobridor. Meus antepassados exterminaram os índios. Participaram das “Entradas e Bandeiras”, prenderam os selvagens e os transformaram em cativos na terra da liberdade. Meus ancestrais foram senhores de escravos, donos de engenhos e plantações de arroz. Minhas tataravós espalhavam ouro em pó nos cabelos, esbofeteavam as mucamas servis e espancavam negros fujões no Pelourinho... Umas santas! Minhas remotas raízes fazem parte desse chão. Os pilares de nossas vidas são profundos e seguros. Estamos entre os primeiros a carregar o andor do santo protetor. Todas as decisões políticas que marcaram o rumo do progresso na comunidade têm um dedo familiar. Temos dois álbuns de família. Um de capa dourada e um de capa negra. O dourado, mostramos ao mundo e contamos as virtudes dos fotografados. O negro, escondemos a sete chaves e negamos a sua existência. Toda a família que se preza tem suas ovelhas negras, os lobos vestidos de cordeiros, os tarados e os seus loucos. Ainda a pouco estava espiando o Álbum Negro. Vi a foto de minha tia-avó Dona Maria Emerenciana... Tia Merê foi por muito tempo a vergonha da família. Foi pega com a boca na botija roubando as ofertas pecuniárias feitas ao santo protetor... Vovô Brandino passou anos dando os melhores brindes para as quermesses de outros santos da cidade e pedindo a Deus que esquecesse a ofensa... O dinheiro nunca devolveu! Tio Hilário roubava placas comemorativas de bronze e as colocava em quadros de madeira pelas paredes da casa... Uma vergonha! Vovó Zenóbia as escondia no porão junto com imagens sacras rapinadas das velhas igrejas, objetos de ouro surrupiados da casa de amigos, anjos barrocos e adornos de túmulos antigos. O fim de tio Hilário foi muito triste. O confundiram com um reles ladrão noturno e levou um tiro no coração... Virou nome de rua e a placa com seu nome nunca foi roubada... Os objetos furtados jamais foram devolvidos! Ontem tirei mais uma foto... É de meu filho Welson, o menino é muito sortudo! Em apenas uma semana ganhou na rifa um computador, um notebook, uma moto, cinco cartões de crédito em nome de amigos e algumas correntes de ouro... Parabéns ao meu garoto! Vou colar sua foto no Álbum Negro... Nunca se sabe! Amanhã é outro dia e o guri tem a quem puxar. Gastão Ferreira/2013

quarta-feira, 1 de maio de 2013

OS GAVIÕES

OS GAVIÕES Gavião é o nome popular dado a várias espécies de aves falconiformes pertencentes às famílias Acipitrídea e Falconídea, em particular dos gêneros Leucoptemis, Buteo e Buteogallus. São aves geralmente identificadas pelo tamanho, de médio a pequeno porte, em relação a outras aves de rapina. Dotadas de asas curtas, são adaptadas à predação em espaços fechados. Esta designação não corresponde a nenhuma classe taxonômica e pode acontecer que dentro do mesmo gênero haja espécies chamadas gavião e outras com o nome de águia. De uma forma geral, os gaviões têm uma distribuição bastante vasta, que inclui todos os continentes com exceção da Antártica. (Wikipédia) Existem mais de sessenta espécies de Gaviões e dentre elas algumas com nomes bem sugestivos; - Gavião-branco, Gavião-belo, Gavião-caboclo, Gavião-caipira, Gavião de pé curto, Gavião da cara preta, Gavião de pescoço branco, Gavião de sobrancelha, Gavião do mangue, Gavião-miúdo, Gavião-preto, Gavião-real, Gaviãozinho, Gavião-rapina e muitos mais. Em nosso país predomina a espécie Gavião-rapina. Esse gavião adora participar de maracutaias e desviar dinheiro de obras públicas. A classe Gavião-branco também se faz presente, tais gaviões roubam descaradamente os cofres públicos e acabam expulsos de seus ninhos por improbidade administrativa. O Gavião-belo é aquele gaviãozinho que se acha! Aquele que quer se passar por águia e não passa de um passarinho conhecido como Vira-bosta ou Chupim. Gavião do mangue é o famoso gavião que superfatura obras lacustres, seja repaginação de alguma orla ou comportas de barragens hídricas. O Gavião-miúdo é aquele que rapina coisas pequenas, seja uma nota de almoço alem do preço real, alguns litros de gasolina ou uma reforma escolar inexistente. Os gaviões sempre tentam tirar partido (?) de tudo e esquecem que por definição têm asas curtas, são predadores em ambientes fechados, tipo salas e gabinetes. Não existem na Antártica e o motivo de não nidificarem no frio é que preferem locais mais aprazíveis e com ar condicionado. Exterminar gaviões é um trabalho árduo e deveras cansativo. A única arma realmente mortal se chama voto. Não esqueçam que gaviões costumam comprar votos! Não podem ver um eleitor em potencial que já vão passando a mão, dando tapinhas nas costas e fazendo mil promessas irrealizáveis... Não entre nessa! É uma fria. Ao conquistar a confiança do pacato eleitor, a primeira coisa que farão depois de conseguir o intento é esquecer o prometido e ficam nervosinhos com qualquer crítica ou cobrança. Caso você, atento leitor, tenha ojeriza a gaviões, a maneira correta de agir é denunciar esse pássaro corrupto. Não aplauda seu superego, negue-lhe alimento e pratique conscientemente a cidadania. Não obteve sucesso? O gaviãozinho mequetrefe o está perseguindo? Então, o jeito é mudar para o Polo Sul ou sua vida vai se transformar em um inferno... Boa viagem! Gastão Ferreira/2013

RAUL...

RAUL... No primeiro semestre de 1936, Raul completara dezoito anos e merecia um presente especial. Seu padrinho Nhonhô Euzébio, dono de engenho às margens do Rio Ribeira, lá para as bandas de Registro, satisfez o sonho do afilhado trazendo-o para uma Festa do Bom Jesus. A famosa Festa ocorria anualmente na cidade de Iguape, litoral sul do Estado de São Paulo e era tida como um dos maiores eventos religiosos do sul do país. Pessoas vindas de Santa Catarina, Paraná e de muitos outros Estados passeavam pela cidade, frequentavam bailes, compravam artigos nas barraquinhas de bambus. Os rapazes namoravam. As senhoras rezavam, o povão se divertia e os romeiros pagavam suas promessas ao santo protetor. Nhonhô Euzébio tinha parentes na cidade, seu irmão possuía uma casa na Rua da Palha onde acolhia amigos e conhecidos durante as poucas visitas à cidade. Naquela época nos hotéis ficavam apenas os turistas endinheirados. A maioria dos visitantes se hospedava em casa de famílias e ali mesmo faziam suas refeições. Romeiros chegavam de navios, barcas, bateras e a cavalos. Os ribeirinhos vinham da vasta zona rural em canoas. As estradas inexistiam e um trem vindo da cidade de Santos fazia a última parada em Miracatu. Os turistas seguiam de ônibus até Registro e depois pelo Rio Ribeira atingiam Iguape. Um passeio inesquecível para guardar na memória. Raul era um pacato sitiante, muito tímido, de pouca conversa e trabalhador. Estava tremendamente agradecido ao padrinho, o generoso presente de aniversário. Duas semanas na famosa Iguape, Princesa do Litoral e capital do Vale do Ribeira não era para qualquer um! Chegaram perto do meio dia. Raul almoçou e logo após a refeição resolveu dar uma volta e conhecer ao vivo e a cores a afamada festa. Vestiu a melhor roupa, calçou as alpargatas, separou algum dinheiro e foi passear. As barracas estavam montadas no Largo do Rosário, um imenso descampado frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Raul caminhava extasiado, nunca vira tanta gente na vida! Acanhado, mal levantava os olhos do chão... Pudores de moço criado no mato! De repente uma gritaria; - “Pega o ladrão! Pega o ladrão!”, haviam assaltado uma barraca que vendia xícaras e tralhas para a cozinha. Raul apavorado começa a correr... A polícia vendo o rapaz fugindo vai a seu encalço... Levam Raul para a delegacia, dão-lhe uns bons tabefes e se dirigem a casa onde o mesmo estava hospedado a fim de recuperarem o produto do roubo. Nhonhô Euzébio foi categórico; - “Afilhado meu, não rouba!”... Os policiais não deram moleza, invadiram a moradia e vasculharam todas as dependências, nada encontrando. Raul aterrorizado tremia e chorava no fundo do quintal; - “Que vergonha, meu Bonje! Que vergonha!”... Explicou que correra por medo, que nem notara a tal barraca que vendia xícaras. O padrinho tentou consolá-lo dizendo que em cidade grande era assim mesmo, que estava tudo nos conformes, que esquecesse a estripulia e fosse dormir... À noitinha, Raul pegou a batera e foi embora para o sitio e nunca mais voltou à Iguape. Os tempos eram outros, as pessoas tinham vergonha na cara! Raul jamais esqueceu que foi confundido com um ladrão e que levou alguns safanões das autoridades... Hoje a polícia revista educadamente um menor suspeito de delito e ouve palavrões do meliante durante a vistoria. Os policiais ficam calados e encabulados... O suspeito se comporta como um herói! Realmente os tempos mudaram e mudaram para pior. Gastão Ferreira/2013 Observação; História real contada por Benedita Saporito ao autor do texto... O padrinho de Raul era tio de Ditinha.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Noites de Saraus...

NOITES DE SARAUS... Um Sarau era um dos eventos mais importante do século XIX. Acontecia nas casas mais abastadas, geralmente à tardinha ou logo após o anoitecer. O termo se origina do latim, seranus, de onde se conclui que desde a antiguidade os amantes das artes, da poesia, da música, da literatura aproveitavam tal ocasião para mostrarem sua criatividade. Em 1835 em nossa cidade, os que possuíam eiras e beiras costumavam reunir a fina flor da sociedade em flor para curtirem um bom Sarau. As gentis dondocas se perfumavam, colocavam ouro em pó nos cabelos, colares de pérolas no alvo colo de cor trigueira, brincos de diamantes nos devidos lugares e após dar uns bons tabefes na mucama de plantão se dirigiam castamente ao palacete onde ocorreria a festinha. As donzelas, assim chamadas por serem mini-dondocas em constante aprendizado na arte de caçar maridos ricos, também se enfeitavam para a solene apresentação. Passavam o dia todo treinando lânguidos suspiros, olhares marotos, caras e bocas e chistes graciosos para impressionarem as possíveis vitimas de sua estonteante beleza espiritual e física. Usavam espartilhos, anquinhas, longos vestidos que as cobriam até o tornozelo. O grande lance da noite era mostrarem, sem querer querendo, um pedacinho da perna, um dedinho do pé... Os mancebos, os pós-adolescentes da época, se babavam com a pequena amostra do produto, coisas do século XIX! O Sarau de Dona Mariquita Bernardes Souza e Silva era o mais concorrido, alem dos ricaços da cidade, os mandachuvas sempre compareciam e era um beija mão constante. Um rapapé esnobe com direito até a visitante de outras freguesias, desde que fosse político, chefe de alguém da localidade ou um futuro cabide de emprego. Nesse Sarau quem brilhava era Leonice de Oliveira Sampaio, viúva emérita do Coronel Bento Benedito Sampaio, apelidado Seu Bembem, por que possuía muitos bens e muitos amores. Sinhá Nice, também conhecida na alta sociedade como a Voz de Ouro, Cotovia Solitária e pela ralé como Viúva Negra, Lábios de Mel e Loba Faminta era um tanto fanhosa, mas sua grana a tornava uma pessoa maravilhosa e sem defeitos para os puxas sacos de plantão. No Sarau em questão se apresentavam violeiros, cantores, sanfoneiros, capoeiristas, trovadores e menestréis... Um vate não pode apresentar sua poesia, estava mal vestido. Pediram para a Voz de Ouro declamar o verso singelo. A Loba Faminta analisou o texto e do alto de sua fina educação informou à plateia que na verdade um texto não tem importância. O que interessa é a voz de quem declama... Um gaiato pediu que a diva então declamasse palavras do dicionário e jogasse o texto no lixo. Outro menos satírico concordou e solicitou que a Cotovia Solitária declamasse com sua maravilhosa voz uma quadrinha que estava fazendo o maior sucesso, conhecida como; - “Batatinha quando nasce...” O Sarau de Dona Mariquita Bernardes nunca mais foi o mesmo. Quem entendia do riscado deixou de mandar seus escritos. Os violeiros não mais permitiram que Voz de Ouro interpretasse suas canções. Foi assim que acabou a “Era dos Saraus” e mais uma vez a arrogância e a burrice venceram. Na segunda década do nosso século os Saraus Literários estão resurgindo com força total... Os poetas, os escritores, os músicos e os violeiros mostram em público e ao público sua criatividade. Fruto de muito suor, muito pensar, muito trabalho intelectual. Tomara que nenhuma Voz de Ouro, Cotovia Solitária ou Loba Faminta jogue merda no ventilador e acabe novamente com tudo. Os tempos são outros, as pessoas evoluíram... Aplaudem e vaiam... Coisas do século XXI! Gastão Ferreira/2013

Complexo de Pomba-gira

COMPLEXO DE POMBA-GIRA... Cynara Madalena nasceu em berço de ouro. Filha de Teodoro Aparecido Gomes Magalhães e Etelvina Maria das Dores Costa Souza Magalhães. Os pais de Madalena possuíam bens de raízes, ou seja, muitas terras griladas pelo bisavô de seu Téo, o famoso Coronel Pancrácio Magalhães, apelidado Seu Cracrá. Da parte materna herdara alem do esnobismo, a empáfia e o nariz empinado, marca registrada de quem perdeu muitos privilégios e não se conforma. A garota cresceu crente de que era a última Manjuba do Rio Ribeira. Da mãe, Dona Vina, possuía os negros cabelos um tanto rebeldes devido à mistura ancestral de sangue indígena, africano e lusitano. Dona Etelvina, leitora voraz de romances, só se referia a filha como; - “Minha princesa de cabelos cor das asas da Graúna!” Nunca vira uma Graúna na vida, mas mãe é mãe! Muito seletiva, Cynara, completou seus estudos na cidade grande. Namoradeira comprovou e provou de todos os atributos de Venus, a deusa do amor... Não casou, mas fez um belo pé de meia. Aos cinquenta anos ficou órfã e voltou ao aconchego do lar para gerenciar os negócios da família, era formada em Administração de Empresas. Os credores levaram quase tudo. Cynara não sabia, mas seu papai era um jogador inveterado e na velhice perdera praticamente todo o patrimônio, incluindo as incríveis joias falsas de Dona Vina. Madalena não perdeu a pose, ninguém poderia suspeitar que fosse uma pobre de maré, maré... Foi aos poucos dilapidando sua riqueza pessoal, conquistada com tanto suor, perfumes e suspiros. Ao completar setenta e cinco anos estava de mal com a vida, sozinha e com amigos interesseiros. Gastava o pouco que possuía em plásticas, botox e cremes antirrugas... Orgulhosa, não dava o braço a torcer! Dizem que só o coração não envelhece! O cabelo encanece, os dentes caem, o espelho mente se a mente consente. Cynara tinha um sonho! Não era um sonho secreto, pois mal conhecia uma nova pessoa e em cinco minutos de conversa já o contava; - “Meu maior desejo é conhecer alguém especial! Um senhor distinto em plena melhor idade, aí pelos oitenta anos... Rico, charmoso, saudável... Não é pelo sexo, é por companheirismo, sei que esse homem existe e vai me levar para conhecer o mundo, curtir os melhores restaurantes de Paris, Roma, Xangai... Vamos passear de Limusine, andar de mãos dadas ao entardecer em Londres... Viver loucamente, mas nada de sexo!” Cynara Madalena nunca encontrou esse cavalheiro. Os velhos milionários estão muito ocupados com festinhas de embalo em seus luxuosos iates, com escolher a dedo suas companhias entre a mocidade em flor, com a qualidade do Viagra e do vinho importado... O sonho de Cynara tem um nome, Complexo de Pomba-gira... Tadinha! Gastão Ferreira/2013 Observação; - Quem não tem uma amiga velhusca, da terceira idade, e que volta e meia fala isso? Complexo de Pomba-gira não é exclusividade de dondocas decadentes.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Mini conto - Uma luz no fim do túnel...

Pedro caminhava por um túnel. De repente avistou uma claridade e pensou; - “Oba! Uma luz no fim do túnel.” Coitado! Era um trem e o estraçalhou. (Fim) Gastão Ferreira/2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

Para pessoas sensíveis...

O LOBO... Era uma vez um Lobo muito, muito mau... Extremamente mau.Ele se achava o animal mais lindo do mundo, um verdadeiro gato. Quando um caçador entrou na cova em que dormia,o Lobo em vez de uivar, miou!... Levou um tiro bem no meio da testa... Fim. Moral da história;- "Seja sempre você mesmo ou irá cedo ou tarde se ferrar." Autor: Gastão Ferreira/Iguape/2013

Final Feliz...

ADOÇÃO... FINAL FELIZ! Todos conhecem a história de Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau. A vida para Chapeuzinho não foi nada fácil, ficou marcada definitivamente. Rotulada como alguém fútil e digamos assim, um tanto oferecidinha... Na época foi um verdadeiro escândalo, pois pouquíssimas pessoas escapavam incólumes de um encontro com um lobo. A menina cresceu sem amigos, era mal vista na sociedade, tornou-se uma garota solitária, uma moça ingênua, uma mulher mal amada, uma velha ranzinza... Só não passou maiores apuros porque herdou a casa da floresta, era a única neta da vovó. Viveu esquecida de todos. Amargurada e sem amigos. Quando completou oitenta anos de idade, ou melhor, quando chegou a melhor idade, cheia de dores reumáticas, um caquinho de gente, resolveu adotar um amiguinho de quatro patas e acabar de vez com sua imensa solidão. Colocou o famoso chapéu vermelho e dirigiu-se ao Canil Municipal... Foi atendida pela doutora Camila, a famosa protetora de toda a fauna da floresta, tipo assim, uma Marina Silva daquela época longínqua. - “Gostaria de fazer uma adoção, querida!” Disse a senhora de chapéu vermelho. - “Um felino ou um canídeo? Ou talvez um porquinho da Índia, uma capivara, uma preá, um pássaro canoro, um papagaio? Temos mil opções.” Informou a doutora Camila. - “Estou pensando em adotar um canídeo. Vivo sozinha na floresta e nessa altura da vida, alguém para me proteger é fundamental.” Complementou a garota da melhor idade. - “Creio que a melhor opção será um cão de porte pequeno, dócil e fácil de cuidar. A senhora não tem mais idade para ficar se preocupando...” Falou a doutora Camila. - “Como assim? Não tem mais idade! Está me chamando de velha, mocinha?” Exaltou-se a do chapéu. - “Não! De maneira nenhuma minha senhora. Uma pessoa tão bem conservada! Queira desculpar se a ofendi.” Disse uma encabulada doutora Camila. - “Obrigada querida! Hoje estou completando oitenta anos de vida e o seu elogio me deixa tão feliz... Não são todas as que chegam nessa idade vendendo saúde como eu... Vamos escolher o cachorrinho?” Solicitou Chapeuzinho Vermelho. Adentraram o Canil e a doutora Camila foi mostrando cada animal recolhido das ruas e matas pela municipalidade. - “Aqui ficam trancafiados muitas espécies de nosso ecossistema, a maioria abandonada pelos donos. Temos desde filhotes nascidos na instituição, até velhos e solitários animais que tem como último refugio esse abrigo... Repare naquele velho lobo!” Mostrou uma emocionada doutora. - “Meu Bonje! Um lobo. Desde criança que não avisto um lobo... Vamos chegar mais perto!” Solicitou a mocinha da terceira idade. - “Ora, ora! Mas não é a Chapeuzinho Vermelho que vejo a minha frente. A que devo a honra de sua visita após tão longo tempo?” Exclamou o caquético lobo. - “Meu Deus! O lobo que quase comeu minha vovó! Nossa amigo! Você está bem acabadinho...” Disse a senhora. - “Pois é estou chegando aos cem anos de vida. Quando nos conhecemos eu tinha vinte anos de idade e você uma menininha muito sapeca de oito aninhos...” Babou o lobo, olhando eroticamente para Chapeuzinho Vermelho. - “Tolinho! Não fale assim que eu me envergonho. Jamais consegui te esquecer!” Suspirou a senhora de chapéu vermelho. - “Nem eu! Você foi o único ser humano que eu amei realmente...” Choramingou o velho lobo. - “Vou levar você para morar comigo na floresta, só nos dois... Temos tanto para conversar... Eu tenho uma vida inteira para te contar... Nossa! Setenta e dois anos sem nos vermos. Quanto tempo!” Lembrou a do chapéu. A doutora Camila tentou impedir a adoção. O lobo também estava na melhor idade e não duraria muito... Era um tanto selvagem... Poderia talvez até comer a adotante!... Não, isso não! Já passara da idade de comer alguém. A doutora ficou impressionada... Junto à velha senhora de chapéu vermelho, o lobo era dócil e a olhava com aquele olhar de adoração com o qual os cães costumam presentear seus donos... Enfim que sejam felizes! Foi assim que Chapeuzinho Vermelho reencontrou o Lobo Mau... Ambos cheios de experiências, cansados das armadilhas da vida, já não ligam mais para o quê os outros pensam... Só querem ser felizes e com certeza foram, agora sim, felizes para sempre! Gastão Ferreira/2013

segunda-feira, 15 de abril de 2013

OS SONHOS NUNCA MORREM

OS SONHOS NUNCA MORREM... Local estranho! Muita neblina. O rapaz de olhar tristonho tinha um quê de velho conhecido. Puxei conversa; - “Tenho a impressão de que já nos vimos em algum lugar!” - “Sim! Conhecemos-nos há muito tempo, não estás lembrando?” Perguntou lacônico. - “Você é muito jovem! Acho que não te conheço...” - “Quando garoto, o teu maior devaneio era a medicina, não era?” Indagou o moço. - “Realmente! Mas como você sabe disso?” Inquiri. - “Eu sou o teu sonho não realizado! Reparou no jaleco branco? Eu sou você estudante...” - “Para com isso! Que loucura. Eu nem sei como entrei nessa sala enfumaçada...” - “ Isso aqui não é uma sala, é a tua mente...” - “Minha mente? E todos esses vultos estão fazendo o quê dentro da minha mente?” - “São as tuas fantasias não realizadas! Você nos deu vida, nos alimentou... Somos o teu fracasso personalizado! Somos parte de você.” - “Caramba! Tem muita gente por aqui...” - “Observa aquela criança! Tem cinco anos de idade e está à espera da tão sonhada bicicleta que ficou na promessa...” - “É verdade! Aos cinco anos meu maior desejo era possuir uma bicicleta. Meu pai era pobre, família numerosa, a “baike” foi só uma fantasia que morreu!” - “Não fale assim! Os sonhos nunca morrem... Adormecem.” - “Mas por que é assim? Não morrem?” - “Imaginas a dor de carregar um sonho morto! Deve ser algo assustador... Angustiante... Macabro! Um peso imenso para se carregar.” - “O que eu não entendo é o que fazem vocês dentro da minha mente? Por que não foram morar com outro alguém? Com alguém que pudesse concretizar o sonho...” - “Não podemos! Você nos criou... Somos uma parte de você. A parte nunca consolidada... Aquelas outras ideias, as que se realizaram ganharam vida própria, elas nasceram! Nós somos os que ficaram e repare na quantidade de sonhos aqui presentes...” Sim! Foi tantos sonhares. Sonhos de uma vida inteira, sonhos de menino, sonhos de adolescente, sonhos de moço, sonhos de velho. Todos eles me espiavam, me cercavam... Não me acusavam, mas em seus olhos eu notava uma tristeza sem nome, uma fome que foi minha fome, uma angustia que foi minha companheira... Uma dor tão antiga... Saudade de coisas abandonadas pela metade! Acordei banhado em lágrimas, lágrimas dos meus sonhos trancados dentro de mim... Pedaços esquecidos, largados, abandonados, órfãos de mim... Lavo o rosto, olho-me no espelho e meus olhos são os mesmos olhos do menino sem bicicleta, do jovem que não estudou medicina e tenho a certeza de que os sonhos nunca morrem. Mesmo não realizados, eles foram a melhor parte de mim... Gastão Ferreira/2013

terça-feira, 9 de abril de 2013

Odeio Fadas...

A FADA SAFADA----------------- Uma senhora aparentando mais de setenta anos de idade, desceu de um caríssimo carro importado, caminhou em direção à recepção do estrelado restaurante. Encostado a parede do prédio, um garoto de onze anos chorava... A madame chamou o menino e perguntou docemente;- “Por que choras, criança?” O guri olhou assustado para a velhota. Notou o anel de brilhantes, o colar de esmeralda e a bolsa Louis Vitton... “Estou feito!” pensou... “Ganhei o dia.” “Qual o problema que te aflige meu filho?” insistiu a meiga matrona. “Tenho fome... Muita fome!” respondeu o garoto. “Oh, quanta tristeza vejo refletida em teu olhar! Venha comigo até o automóvel... No veículo tenho uma roupa que servirá em você, alem de um tênis maneiro e novinho. E também serás meu convidado para o almoço nesse restaurante super chique.” disse maternalmente a vetusta senhora. O moleque estava encantado, nunca chegara perto de uma Limusine... Notou um frigobar, tevê via satélite, doces que nem sabia que existiam. Muitas notas verdes dentro de um cofre que estava aberto... ”Dólares! Muitos Dólares. Tenho que ganhar a confiança dessa mulher! Vai ser fácil assaltá-la” ponderou o pequeno meliante. Escolheram a melhor mesa, comeram do bom e melhor. O garoto escolheu a sobremesa mais cara, repetiu duas vezes... Já no final da refeição a velhinha não se conteve e perguntou a queima roupa; - “Você acredita em Fadas, meu filho?”. O guri caiu na risada e respondeu; - “Nem em Fadas, nem em Cegonhas, Coelho da Páscoa ou Papai Noel”... “Que pena!” disse a anciã, “Vou à toalete e já volto para pagar a conta, me aguarde!”. Retirou os brincos e o anel de diamantes, colocou-os numa pequena bolsinha, deixou em cima da mesa e se afastou em direção ao banheiro feminino. O menino passou a mão na bolsinha... Com muito cuidado a abriu... Dentro uma meia folha de papel ordinário e escrito nele; - “Sou uma Fada, se lascou malandro!” O garçom chamou os seguranças, ninguém notara a madame rica entrando no restaurante. Realmente havia uma moça com o garoto, uma cúmplice talvez! Bebeu do melhor vinho, saboreou uma excelente lagosta... Não podiam ficar no prejuízo nem chamar a polícia... Estava na cara que o guri era menor de idade e se safaria numa boa... Levaram o safado para os fundos do prédio, deram-lhe uns bons cascudos, o moleque teve que deixar a veste nova e o tênis maneiro como pagamento da comilança... Foi descalço e com uma roupa esfarrapada para a casa... Só uma coisa mudara em sua vida... Passou a acreditar em fadas e a odiar todas elas. Gastão Ferreira/2013

sábado, 6 de abril de 2013

A história de Amália...

O NOIVO INVISÍVEL............. Na noite que antecipou o nascimento de Amália, um meteorito caiu próximo à vila, as corujas piaram toda a noite e pela manhã alem de um Bem-te-vi, um Tucano sobrevoou o casebre. Ao findar o trabalho de parto, quando dona Bitoca anunciou; - “É uma menina!”, um papagaio desconhecido pousou na janela e corrupacou; - “Será Feliz! Será Feliz” e desapareceu na mata... Dona Madí desmaiou! Nunca existiu uma criança tão formosa quanto Amália, seu único problema era que não falava com estranhos. Todos a julgavam uma mudinha. Não era esta a verdade, pois até os doze anos de idade fora muito comunicativa. Dona Madí lembra com disfarçada emoção um fato bizarro. Estavam mãe e filha naquela tardinha as margens do rio, Amália prestava atenção na história que mãe Madí lhe contava; - “Tá vendo aquele buraco? Foi ali que caiu uma pedra do céu, na noite antes de você nascer. Dizem que uma luz azul saiu do meio do fumacê e entrou na mata e desapareceu... Depois ninguém sabe de onde veio o papagaio que afirmou que você seria muito feliz!” Continuavam entretidas com a conversa quando um forte vento vindo da mata as assustou. Uma luz de um intenso azul saiu do matagal em direção as duas e nessa hora dona Madí perdeu os sentidos. Quando voltou a si notou que Amália estava sentada próxima à entrada da mata com um vistoso papagaio assentado em seu ombro. Correu em direção à filha perguntando; - “Que aconteceu Mália? Fala filha! O que aconteceu?”, Amália respondeu e foram às penúltimas palavras que alguém ouviu dos seus lábios; - “Meu noivo veio me ver!” Amália continuou a crescer normalmente, transformou-se em linda moça. É verdade que não falava, mas seu papagaio se comunicava muito bem, numa linguagem clara e precisa. Com o tempo, Ramires, esse era o nome do louro, começou a encantar a vizinhança... Nem bem alguém se aproximava da dupla Amália e Ramires e o papagaio já anunciava; - “Tá com problemas nos rins! Vai pra casa e toma chá de quebra-pedra.”, “Seu estômago está reclamando! Losna é um bom remédio.”, “ Tem um encosto do seu lado! Procure um pai de santo.” Foi assim que a fama de curandeiro de Ramires se espalhou. Também dava conselhos sobre direito penal, educação, cultura, agronomia e pecuária... Um gênio de asas!... Com Amália era diferenciado, a conversa girava sobre robótica, espaço-tempo, extraterrestres, naves espaciais, física quântica e teoria gravitacional. Os rapazes das cercanias estavam todos alvoroçados. Quem conquistaria Amália? Nas horas em que Ramires dava consulta, costumavam estarem presentes para uma paquera e aparentemente a bela Mália nem se tocava das caras e bocas, das piadinhas tolas, dos olhares, das caretas e das mil artimanhas das quais os adolescentes se utilizam para se fazerem notados. Maéco era o líder da garotada e o mais apaixonado por Amália, quando ouviu a história de dona Madí sobre a luz na mata e o aparecimento de Ramires, teve certeza de que o papagaio era um feiticeiro, um bruxo que precisava exterminar para libertar sua amada e começou a fazer planos. No pequeno Bairro Rural, anualmente ocorria o “Festival da Primavera”. A vila se enchia de desconhecidos, violeiros, tocadores de sanfonas, dançarinos, pescadores, agricultores, meeiros e sitiantes. Maéco achou que o ajuntamento era propício ao assassinato de Ramires... Preparou um pequeno dardo envenenado e escondido entre a multidão disparou contra o louro. Quando Ramires foi alcançado pela seta mortal, soltou um brado alucinante; - “Fui atingido! Vou partir.”, formou-se uma clareira em volta de Amália e Ramires... O papagaio pendeu a cabeça, olhou para Amália e murmurou; - “ Serás feliz... Serás feliz.” O povo estava estupefato! Amália chorava, o louro agonizava... Uma luz azul, surgida ninguém sabe de onde, envolveu a dupla... Amália gritou; - “Meu noivo!”... Foram suas últimas palavras... Uma tênue claridade anilada a encobriu e foi desaparecendo lentamente e transportando consigo quem estava dentro do globo luminoso. Era o noivo que ao saber que o guardião deixado para proteger sua amada fora assassinado, veio buscá-la. Gastão Ferreira/2013

terça-feira, 26 de março de 2013

Pelos deuses!... Uma visita.

A VISITA DE CASSANDRA... Cassandra foi uma princesa troiana, filha de Príamo e Hécuba, irmã de Heitor e de Paris o raptor de Helena. A moça era de uma beleza extraordinária e bastou Apolo, o deus da luz, da música, da medicina e de outras coisinhas insignificantes vê-la para se apaixonar perdidamente... A donzela não deu a mínima ao poderoso deus e ele por vingança e por ter sido desprezado em sua paquera, dotou Cassandra com o dom oracular... Um oráculo na antiguidade clássica ocupava o mesmo espaço que na atualidade ocupa a nossa Unidade Mística... Qualquer dor de cabeça, sintoma de Dengue, dor nas costas, pressão alta e milhares de outros sintomas e tome lá uma consulta ao oráculo... A vingança de Apolo, que era muito sacana, foi terrível... Ao maravilhoso dom de conhecer o futuro, dado à bela e insensível Cassandra, acompanhava o seu aviltamento total; - “Ninguém acreditará em uma só previsão sua!” Cassandra fez milhares de profecias, apesar do descrédito de seus consulentes, todas se realizaram... Quando Tróia foi incendiada e saqueada, e quase toda a família imperial assassinada, apenas a princesa Cassandra, seu decrépito tio Anquíses com alguns de seus filhos escaparam... Entre os descendentes de Anquíses estava Enéias, fruto de um ardente romance entre o jovem Anquíses e a deslumbrante Vênus, deusa do amor e da beleza. Enéias futuramente se envolveria com a feiticeira Dido e num tempo ainda por vir, dois garotos gêmeos, Rômulo e Remo, seus descendentes fundariam uma cidade chamada Roma, mas isso é outra história... Cassandra, sem pai, sem mãe, sem palácios, vagou pelo mundo... Ganhava seu sustendo fazendo previsões, lendo cartas, interpretando sonhos e consultando o tarô, os búzios, as estrelas do céu... Seus clientes não gostavam das respostas do oráculo, pois desde que o mundo é mundo, poucos são os que realmente não temem a verdade... Num tempo impreciso, a profetisa passou frente à Ilha Comprida, que era puro mato e da sua nau avistou alguns vultos peladões e tascou uma profecia; - “Que bela ilha! Tão comprida... É habitada há milênios... Os primeiros a explorarem a sua riqueza foram os formadores de sambaquis... Foram assimilados por outros povos... Homens de cor vermelha se apossarão da região... Vejo muitas batalhas... Indivíduos vindos da Europa dizimarão todos os habitantes desse local... Pelos deuses! Uma cidade surgirá não longe da formosa e comprida ínsula... Por Tupã!... Quem é Tupã? Sei lá! Não importa... Quanto ouro! Quanto arroz!... Que será arroz? Nem sempre sei o que interpreto! Simplesmente traduzo o que os imortais permitem que eu veja... Que gente feliz! Que gente infeliz!... Pestes, conchavos, politicagens, Boitatá, desavenças... Belos casarões desmoronando... Uma cidade “lá tinha”... Tão bela e tão mal amada!... Pelos deuses do Olimpo! Afaste-se de mim essa visão!... Tudo para dar certo e tudo desperdiçado! Por Zeus! Não... Não e não!” Os companheiros de viagem caíram na risada; - “Essa Cassi! Parece uma louca... Dessas matas jamais sairão coelhos... Kakakaká.”... A nau afastou-se lentamente e os selvagens que a observavam da areia da praia nem desconfiaram da visita da profetisa amada de Apolo, como sempre, o que o deus determinou aconteceria num futuro ainda ausente... “Cassandra nunca mentirá, mas a ninguém é dado crer no divino oráculo”... Foi assim que há muito e muito tempo Cassandra nos visualizou no contexto atual. Gastão Ferreira/2013

A poesia é um vento... Monólogo.

A POESIA É UM VENTO... O vento vinha ventando pelos caminhos do mundo... Espiava sobre os telhados, sobre velas de jangadas... Cantava pelas esquinas, ventava pelas estradas. O vento perdeu o rumo numa noite sem luar e dormiu feita criança sonhando com o seu ventar... Acordou na madrugada ouvindo um galo a cantar e lá no alto do monte o vento ficou espiando a cidade despertar... Viu o povo batalhando na procura do melhor, professor professorando, pedreiro a pedrejar, o pastor pastoreando, a criança a estudar, o rio sereno buscando as águas azuis do mar... E o vento encantado, com tudo o que ele via, da cidade, enamorado pelas esquinas corria... Viu a velha na janela espiando o fim da rua... Ouviu riso de menina, ouviu prantos e canções... Viu na mesa de quem come o que no prato restou, viu mendigo mendigando que com fome despertou. Viu amor e abandono... Viu tristeza e solidão, viu o pobre e o rico, viu o doente e viu o são. Viu pessoa trabalhando em diversa profissão... O amor abrindo portas, ódio fechando em prisão... Viu um dedo apontando a beleza e a podridão. Muita gente se encontrando, outros perdendo a razão... Viu olhares de incertezas, viu desprezo e safadeza em quem nunca se amou... Viu orgulho, viu pobreza, viu bondade e viu horror... Viu maldade gratuita, coração enganador, viu gentinha se achando ser de tudo o senhor... Viu sonhos desencantados, ouviu gritos de agonia. Amantes desesperados vivendo de fantasias... O vento quedou-se mudo... Só ventar é o que sabia... O vento nunca pensou que essa cidade existia! Soprou no banco da praça uma brisa de alegria e os casais enamorados os seus beijos ali sentiam... Soprou no adro da igreja e o rezador se benzia... Soprou no supermercado, nos bares e padarias, no varejo e no atacado, na porta do cemitério... Soprou por todos os lados, soprou por sobre mistérios... Na cidade já desperta, o povo se perguntava:-“ Que será que acontecia que o vento tanto ventava?” O vento sabia tudo, tudo o que se passava... Corria de casa em casa e a tudo espiava... Passou pelos gabinetes dos mandantes do local... Ouviu risos e palpites, viu o bem e viu o mal. Leu na banca de revistas as notícias no jornal... Viu ladrão e viu polícia, viu os barcos no canal... O vento ventou mansinho, pois de tudo ele entendia, em sua vida de vento ventava todos os dias... Afastou-se da cidade... Sobre a montanha dançou... E depois seguiu ventando e de tristeza... Chorou! GASTÃO FERREIRA/Iguape/2009

Um olhar sobre Iguape... Monólogo.

GUIA TURÍSTICO – (MONÓLOGO) Boa noite meus senhores... O meu nome é Josemar E sou o seu guia turístico... Por favor! Acompanhem no telão Um pouco da nossa história... Saibam os ouvintes Que a Princesinha do Litoral Foi fundada em 1538... Sua origem perde-se no tempo ... Há dez mil anos Esse chão já era habitado... Gente de baixa estatura... Os formadores de sambaquis Morriam antes dos 30 anos... Valentes! Pescavam Tubarões Viviam em pequenas comunidades Bem aqui! Onde nós estamos... Temos dezenas de ostreiros Para provar o que informo... Deles herdamos a canoa, o arpão, a esteira... Ninguém sabe o que ocorreu Esse povo inteiro desapareceu Lá por três mil antes de Cristo... Por falar em Cristo!... Os índios tupis-guaranis Chegaram por aqui depois que ele nasceu... Vieram do Planalto Central... Do Paraguai, da Venezuela, do Peru... Os Incas fizeram uma estrada; - O Peabiru! Esse caminho vinha dos Andes... Passava por São Vicente, Iguape, Cananéia E seguia em direção ao Paraguai... Temos trechos preservados dessa estrada Em nossa região... Reparem no telão! Aquela Serra se chama Juréia... A terra sagrada dos Tupis-guaranis... Foi um presente de Tupã, nosso pai!... Espero não estar cansando vocês!... Nossa história é longa... Muita gente passou por aqui... Quando o Brasil foi descoberto... Demos guarida ao estrangeiro Que se apossou de nosso chão... Lugar de muito ouro... El Dourado, Registro, Sete Barras, A comarca era imensa, meu senhor!... Aprearam os índios... Chegou a escravidão... Tupã se afastou... Ouro nos cabelos... Moveis europeus... Tudo isso se perdeu!... Recebemos um presente! Era de nosso Salvador... Está ali na Matriz, sai no andor... Fazedor de milagres... Tomou um banho Nas águas que levam o seu nome... A Fonte do Senhor!... Reparem no telão!... Notem dentro da redoma... É a pedra que cresce... Dessa fonte vinha a água Para cinco chafarizes... Só restou esse aqui!... Está na Praça São Benedito... Bem em frente à igreja Erguida por mãos escravas... Apreciem os velhos casarões... Prova da riqueza... Que outrora nos marcou... Calçadas centenárias... Casa do Ouro, pelourinho... A igreja da Matriz... Tenho tanto a mostrar... Tanto se perdeu... Tanto se levou... Temos uma Fonte da Saudade... Que uma índia apaixonada Com seu pranto formou... No alto da montanha... Alguém zela por nós... Ele é o Cristo Redentor!... Nessas verdes matas Que nos cercam... Currupira sonhou... Boitatá passou... Nossa terra é terra sagrada... Terra de Tupã!... Da qual Anhangá se apoderou... Vamos sair? Conhecer de perto a cidade Beber água da Fonte... Desfrutem a nossa amizade... Bem-vindos a Iguape... Meus senhores! Gastão Ferreira/Março/2013

quarta-feira, 13 de março de 2013

Aconteceu na cidade... "É a mãe!"

BOM SAMARITANO... “É A MÃE!” Dona Myrriam era uma alma de escol e também de Itaipava, Kaiser e Boêmia... Era uma abstêmia. Seu Nicolau, o marido, conhecido como “O Bom Samaritano” era um santo em carne e osso, mais osso do que carne devido a um regime alimentar severo e caro. O santo casal defendia tudo o que respirasse... “Vivemos num ecossistema e devemos respeitar todas as criaturas criadas por Tupã, menos o Pernilongo da Dengue que picou Myrriam quando num gesto de bravura socorreu uma ratazana grávida em trabalho de parto na margem do Valo Grande.” afirmava seu Lalau. Tiozinho Nicolau vivia penalizado com a situação dos cães sem donos que vagavam pelas ruas da cidade, com os cavalos que pastavam em logradouros públicos e ajudavam a municipalidade na limpeza das calçadas, com os gatos que vagavam pela Orla do Mangue e principalmente com os pedintes sem tetos que infestavam o centro da cidade. Os sem moradia fixa eram seres desconhecidos, chegavam sorrateiramente de algum lugar também ignorado e se apossavam de praças, calçadas, frente de comercio e outros locais públicos... Eram intocáveis! Podiam fazer nhéconhéco em banco de jardim, defecar na rua, achacar passantes, falar palavrão, ofender qualquer cidadão, possuíam todos os direitos e nenhum dever de civilidade para com a população em geral. Não eram maus, alguns guardavam carros. Todos contavam a mesma lenga-lenga; - “Eu podia estar roubando, eu podia estar assaltando, eu podia estar me prostituindo... Só estou pedindo uma “Reau” para matar a fome.” Pai Nicolau apiedou-se dos pedintes. Seres humanos que optaram por nada terem de seu, simples como os Lírios do Campo, inocentes como a Bela Adormecida a espera de um beijo salvador... Conversou com a esposa a respeito do assunto e resolveram contribuir para a salvação de tantas almas carentes de amor, de afeto, de carinho, de futuro. Criaram até uma frase de efeito “We Love Beggars”... “Nós amamos os mendigos”... Um compositor e poeta fez alguns versinhos sobre o tema... Um sucesso que foi musicado em um Sarau Literário na cidade, por um excelente arranjador e violeiro. A Dengue deixou sequelas em dona Myrriam, não era mais aquela exuberante dondoca capaz de escalar montanhas, navegar pelos canais do Mar Pequeno estapeando muriçocas, mergulhar da Passarela, tomar banho nua na Fonte do Senhor... Resolveram mudar para uma cidade com mais recursos na área da saúde. Permitiram que alguns sem teto ficassem morando em sua bela casa que ficaria fechada na ausência do simpático casal. “O exemplo nasce em casa”, diziam... “Então vamos exemplificar!” Tiozinho Nicolau voltou à cidade após cinco meses e foi vistoriar a casa deixada em comodato aos sem tetos... Que horror! Sem portas, sem janelas, sem fiação elétrica e sem encanamentos, sem móveis e sem telhas... Apenas quatro paredes. Quase teve um saricotico! Procurou seus amigos sem moradia fixa e exigiu explicações; - “Nóis vendeu para comprar comida... Nóis podia tá roubando, assaltando, se prostituindo... Nóis é muito honesto, vendemo pra pude comê! Qual a bronca tiozinho?” Seu Nicolau virou uma Arara, um Porco-espinho, um Baiacu, um bicho sem nome e esta curtindo na pele a perda da casa... Ao ser chamado de “Bom Samaritano”, agora responde nervozinho; - “ É a mãe!” Vivendo e aprendendo... Qual a moral da história? Não sei! Gastão Ferreira/2013

sábado, 9 de março de 2013

Na cidade grande...

OMISSO... UM CÃO FELIZ. Meu nome é Omisso. Um apelido estranho para um cão criado no sitio, se bem que meu pai, o Senhor Hideu Okubo encantou-se por tal nome, ainda bem que ele não colocou seu sobrenome como minha alcunha. Pai Okubo planta maracujá, aipim, abóboras, couve, caqui, cheiro-verde e muitas hortaliças... É um pequeno sitiante e todo Domingo participa da “feirinha rural” na Praça da Matriz. Nessa semana completei cinco meses de idade, já sou um garoto esperto e muito sapeca e pela primeira vez vim conhecer a cidade grande. Enquanto papai vendia seus produtos eu dei uma escapulida para conhecer os arredores, confesso que quase me perdi. Cidade grande é uma coisa muito confusa. Pai Hideu nunca derrubou um pé de palmito, desmatamento é crime ambiental, fiquei pasmo com o que um grupo de indígenas vendia! Alem dos palmitos, orquídeas, bromélias... Só não fiquei mais indignado porque ganhei um pedaço de bolo de um curumim que estava pedindo moedas aos passantes. Papai sempre comentava sobre o Mar Pequeno. Meu Bonje! Como é estreito. Só capim e um filete de água. É bem menor que o córrego do sitio e bem sujinho... Garrafas pets, sacolas plásticas e muito lixo na margem... Chocante! Também conheci a famosa Orla do Valo Grande, a obra faraônica que custou milhões e está surucando... Uma afronta ao bom senso e a cidadania! Coisa de gente esperta e não de um tolo cachorro ignorante que nem eu. Na cidade grande tem muitos prédios velhos pedindo socorro, estão desmoronando e vi alguns turistas batendo fotos e elogiando a antiga arquitetura... Fiquei imaginando todos eles reformados. Que belezoca! Por meu gosto, meu nome seria Faro-fino, fui bem longe e não me perdi... Voltei à praça e fiquei vigiando a barraca de pai Okubo. Tem um monte de jovens em situação de rua, nome bonito para quem não quer batalhar o próprio sustento e que ficam pedindo um “Reau” para comprar pão. Dizem que roubam os feirantes... Que vergonha! Sou apenas um cachorrinho e ganho honestamente meu sustento... Espanto o Gavião quando quer roubar um pintainho, corro atrás da Raposa quando vem roubar galinhas, aviso a chegada de estranhos... Trabalho feito cachorro grande e gosto do que faço... Sou um cão feliz. Não vejo a hora de voltar para o sossego do sitio. Um senhor disse a papai Hideu que uma senhora de nome Dengue está na cidade... Falou tão mal da madame que estou apavorado... Quem a conhece fica dengoso, sente dor nos olhos, perde o apetite, tem febre e pode sofrer hemorragia e ficar com sequelas para o resto da vida... Macabro! Gostei da “feirinha rural”, ganhei muitos afagos, conheci um montão de gente... Espero voltar outras vezes e contar para todos os amigos do sitio as novidades... Meu nome é Omisso, mas não sou omisso! Sou apenas um filhote de cachorro tentando entender os humanos... Como são complicados! Um dia eles aprenderão que para ser feliz basta ser simples. Fui. Omisso, um cão feliz. Gastão Ferreira/2013

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Olho no olho...

O OLHAR DA MEDUSA Medusa era uma das Górgonas (Esteno, Euríale, Medusa), a única mortal entre as três irmãs filhas das divindades marinhas Fórcis e Ceto. Fora outrora uma belíssima donzela, que se orgulhava principalmente de seus cabelos, mas se atreveu em competir em beleza com Palas Atenas, a deusa privou-a de seus encantos e transformou as lindas madeixas em hórridas serpentes. Medusa tornou-se um monstro tão cruel, de aspecto tão horrível que nenhum ser vivo podia fitá-la sem se transformar em pedra. Ao ser decapitada por Perseu, de seu sangue nasceram Pégaso, o cavalo alado, e, o gigante dourado Crisaor. Medusa faz parte do mito, odiava o homem mortal simplesmente por ser ele o que era. A Medusa está entre nós... Espia-nos nas festas, nos bares, nas igrejas, nas calçadas, nos carnavais da vida. Lança sobre nós seu desamor, seu pensamento destrutivo, sua própria dor. A Medusa moderna não suporta ver gente feliz, tem seus olhos voltados para a escuridão moral e sempre encontra motivo para críticas entre os eventos humanos. O sonho de Dona Maria Marola era que a filha Tayanna Crislaine fosse destaque na Escola de Samba “Sereia do Mar Pequeno”... Era um desejo acalentado desde os tempos de mocinha, naquela época quase foi a principal atração da famosa Escola, mas o amor que sentia por Teodobaldo impediu a realização de sua maior fantasia e Tay já estava a caminho... Coisas de Festa de Agosto! Crislaine foi criada desde o berço para realizar o intento da mãe. Aprendeu a dançar “na boquinha da garrafa” antes de falar papai e mamãe... Cantava com entusiasmo as belas e complicadas letras dos famosos blocos carnavalescos “o Boi”, “o Litro”, “os Cachorrões”, “o Gato Preto”, “o Tatu” e dos famigerados e bagunceiros “Filhos da Béti”, um bloco onde os participantes repetem o estranho refrão; - “Quem mamou, mamou! Quem quer mamar, não vou deixar.”... O único problema era que Tayanna Crislaine era pobre e Francine Adrielle rica... Quem era Fran Adrielli? Francine Adrielli era filha de dois semideuses locais. O pai Dito Preguiça, funcionário de carreira municipal e a mãe Joana Fogueteira, a responsável pelo imenso estoque de fogos de artifícios que explodiam na cidade. Gente importante! Sem a assinatura de Preguiça ninguém conseguia uma cesta básica e sem a autorização da Fogueteira, nada de rojões grátis. Francine e Tayanna eram rivais desde o prézinho... Nunca combinavam em nada, se uma usava roupa vermelha, a outra usava branco. Eram assim tipo Cocho e Berne, sempre brigando pelas sobras do banquete, mas sempre se entendendo no escurinho da senzala. Ambas resolveram disputar o posto de destaque na gloriosa “Escola de Samba Sereia do Mar Pequeno” Adrielle e Crislaine foram exemplares em seus esforços... Corrida matinal na Orla Repaginada do Valo, subida sem parada na escadaria do Cristo, caiaque entre o matagal do lagamar... Malhação, dieta e natação diária... No final a diretoria da Escola de Samba foi justa e criou dois destaques para conter e mostrar ao público o ego e outras coisinhas das duas garotas... Quem não gostou foi Maria Marlene! Maria Marlene já nasceu com nariz empinado e cara de dona do pedaço. Achava-se a “última Manjuba do Ribeira”, no dizer popular “uma coco cheirosa”... O mundo fora criado apenas para ela e para ninguém mais... Graças ao dindim de papai e a dondoquice de mamãe se considerava a mais bela flor da sociedade em flor... Uma Medusa! Seu intento? Destruir as belas e gostosas Francine e Tayanna. Odiava profundamente as garotas, como gostaria de se chamar Brenda Priscila e não Maria Marlene, nome de pobre. Maria Marlene esperou pacientemente a chegada do carnaval. Comprou um tubo de spray e substituiu o liquido por um produto altamente inflamável... Adorou e copiou a fantasia de uma amiga tão bacana quanto ela. Uma vasta cabeleira negra com uma rosa vermelha e um longo vestido dourado que rodopiava sem maldade no bloco “Meu Tijolinho a Vista” e o povão delirando e perguntando; - “O travéco é daqui?”. Na apresentação da Escola, Maria Marlene com sua fantasia de Pomba-gira caiçara lançou o produto inflamável no carro alegórico onde sambavam Adrielle e Crislaine... Um fumante que passava afirmou que viu apenas um clarão antes da explosão que transformou a exótica Pomba-gira numa tocha e que a moça tinha olhos vermelhos iguais aos da Medusa. Não falei que a Medusa está entre nós! Ao falar com estranhos olhe sempre nos olhos... Caso não o transformar em pedra instantaneamente, a pessoa não é uma Medusa! No escuro das danceterias, nas apresentações noturnas, nos grandes festivais, fique esperto! Olho no olho. Gastão Ferreira/2013

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Nossas lendas urbanas....

A MOÇA DA CORTINA Na década de 1870 vivia na Praça da Matriz um rico senhor de engenho. Seus numerosos escravos se referiam ao patrão como “Nosso amo e senhor” e os bajuladores da época diziam apenas “nosso mestre”. Seus devedores o chamavam “o escroque”, o populacho de Seu Zinho e os mais esclarecidos de tirano, corrupto, sacripanta, aproveitador, amoral e outros apelidos menos carinhosos. Seu Zinho, diziam, tinha parte com o Tinhoso. Seu tataravô fez um pacto com Satanás, todos os componentes da família teriam do bom e do melhor enquanto vivos, mas depois de mortos seus espíritos permaneceriam na casa para atraírem desatentos turistas para as hostes infernais. O casarão estava lotado de almas penadas. Nos grandes festejos anuais sempre desaparecia alguém misteriosamente... Ninguém atinava o porquê de uma pessoa sumir sem deixar rastro e então, aconteceu que um rapaz muito casto e correto afirmou em confissão que uma donzela acenava eroticamente para ele da janela de um casarão. O padre ficou horrorizado com o aceno erótico e ordenou de imediato, ao jovem mancebo, um banho de água benta. Após o banho, quando o moço passou frente à janela, notou que por trás da cortina de renda uma caveira o fitava com olhos flamejantes; - Morreu na hora! O padre descreveu a estranha história ao sacristão e pediu sigilo. O sacristão narrou à esposa e pediu segredo absoluto. A esposa contou a costureira e costureira espalhou para toda a cidade. Quem passava alcoolizado frente da casa, depois da meia noite, ouvia gritos de escravos sendo espancados... Via figuras por trás da cortina fazendo gestos chamativos e sensuais... Um vulto acenava e mostrava ao incauto a porta de entrada do casarão, era a famosa assombração da “moça da cortina”. Com o passar do tempo e com a chegada de algumas novidades, tais como luz elétrica, fogão a gás, água encanada, geladeira, rádio, gramofone, vitrola, rua asfaltada, poste de iluminação pública, bicicleta, telefone, carro, moto, fita cassete, gravador, máquina fotográfica, filmadora, televisão, forno de micro-ondas, computador, as lendas urbanas perderam a vez. Quem ficaria inventando histórias de assombração? Melhor assistir uma novela, um filme alugado, fofocar no Face Book. No carnaval de 2013, um jovem turista de nome Wilson, desconhecedor de nossas lendas urbanas, após milagrosamente se livrar de três “boa noite cinderela”, dois sequestros relâmpagos, uma surra dos componentes do mini-bloco carnavalesco “ Os sobrinhos machos da tia Dorothéa” e alguns sopapos dos integrantes do bloco “Litraço amigo”, jura que viu por entre as cortinas do velho casarão, o vulto de uma mulher... Uma mulher fantasiada de alma penada... Uma madame a espera de um beijo de um desconhecido... Uma dama a procura de uma aventura passageira e inconsequente... Ao contar a história, foi perguntado o porquê de não dar atenção à moça da janela e o turista respondeu; - “Com tantas minas bonitas eu jamais daria chance para alguém da melhor idade me abusar! Tá loco... Ei quero mais é sair no bloco do Tatu... Eu hein!” Assim acabou mais uma lenda urbana... Satã botou seu bloco na rua e o preço de uma alma baixou no mercado... Uma cerveja em lata, um cigarro, um sorriso, um brilho no olhar... A promessa de um amor passageiro... São mil opções. Gastão Ferreira/2013

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Quando ele anuncia...

ALÔ... ATENÇÃO! “Alô, atenção...”. É nesse momento que a cidade para e a curiosidade abre suas asas sobre toda a população; - “Meu Bonje! Quem será dessa vez?” se pergunta a velhinha que se faz de surda. “Faleceu aos 47 anos...”. “Meu Deus! Tão jovem. Quem será? Será que é alguém que se afogou? Casado? Pela idade deve ter filhos pequenos! Pobres crianças...” Se indaga dona Zéfinha Catita, apurando o ouvido. “Na cidade de Tricana...”, “Tricana? E isso é nome de cidade que presta? Onde será que fica tal cidade? Quem será o falecido? Filho de quem? Tanta gente vai tentar a vida fora... Estudar fora... Passear por lugares longínquos... Fala logo quem é seu desgraçado!” A moto acelerou com o escapamento aberto... Um caminhão deu uma brecada feroz... Um rojão explodiu e lá se foi parte da notícia... “Seu sepultamento será hoje às 16 horas, no cemitério do Rocio, passando pela Basílica local.” A garota da melhor idade, dona Zéfinha, permanece atenta aguardando o repeteco... “Alô... Atenção! Faleceu aos 47 anos, na cidade de Tricana a senhora Aparecida Cecília Santos... Seu sepultamento será hoje às 16 horas no cemitério do Rocio, passando o corpo pela Basílica local.”... “Cidinha Lilica! Filha de dona Dita Manjuba e neta de Maria Guilhermina Antunes de Azevedo Marcondes Oliveira Santos, a famosa Maria Catatau... Nossa! Lilica conheceu um turista rico no “Boi” e se mandou... Quer dizer que o tal turista era dessa cidade de Tricana... Que vergonha! Dita Manjuba afirmando aos quatro cantos que a filha morava no exterior e agora todo o povo descobre que a coitada vivia em Tricana... Vou perguntar ao Zeca Gado sobre essa história!” “ Cidinha Lilica, dona Zéfinha! A senhora não ficou sabendo? O homem era um alcoólatra e não foi no “Boi” e sim no “Litrão” que ela conheceu a figura... O casamento não deu certo! Se largaram e ela foi tentar a vida numa boate no interior de Mato Grosso do Sul, numa cidadezinha pobre de nome Tricana... Só não foi enterrada como indigente porque um político aqui da nossa cidade tem uma fazenda por lá e fez questão de trazer o corpo para o torrão natal.” “Opa! Quem foi o político que prestou tão abençoado serviço, seu Zeca Gado?” Perguntou a Catita. “Não posso revelar o nome dona Zéfinha, apenas afirmo que não foi aquele que construiu uma mansão em São Paulo, nem aquele que comprou vários apartamentos em Santos e muito menos o que adquiriu uma confortável casa em Curitiba...” Respondeu Zeca Gado. “Que homem bom, esse político!... Gostei do que ele fez! Na próxima eleição já tem meu voto garantido e nem é precisa pagar minha conta de luz... Obrigada seu Zeca, vou passar no velório e dar meu último adeus a sapeca da Lilica.” Falou dona Zéfinha com os olhos marejados de tanta emoção. No Velório Municipal todos queriam ver o rosto de Cidinha Lilica e confirmarem se ela tinha ou não cara de santa, os comentários eram os de sempre; - “Morreu na flor da idade, com tudo para dar na vida...”, “Fique calma dona Dita Manjuba! Deus sabe o que faz...”, “Pelo menos voltou aos braços da mãe que a criou com desvelado amor...”, “É como dizem! Bebeu água da Fonte, volta...” Vamos aguardar o próximo “Alô, atenção...” e saber mais sobre quem parte. É isso aí, morrendo e fofocando. Gastão Ferreira/2013 Observação;- Esse texto é pura ficção... Não conheço nenhum político local que possua fazendas, mansões, apartamentos, etc e etc... O texto não é carapuça. Sem traumas!