domingo, 30 de dezembro de 2012

Fim de ano...

ADEUS!... MEUS AMORES A Princesa do Litoral resolveu passar o final de ano na cidade. Josephus, seu secretário particular, descarregou as malas numa pousada no Centro Histórico. - “Josephus! Olha que gracinha... Quantas plantinhas verdes na beira das calçadas.” Mostrou a nobre senhora. - “Majestade, não são plantinhas verdes! É o mato que cresceu e não foi retirado.” Disse o secretário. - “Não sei o porquê de tanta maldade de sua parte com a rainha reinante? Há quatro anos que você só vê o lado ruim da atual administração!” Choramingou a princesa. - “É que a senhora só lê as informações da imprensa oficial, eu converso com a plebe para saber das coisas que ocorrem...” - “A plebe vil! Sempre a plebe vil! Troca o voto por churrasco de gato e depois quer comer Robalo... Veja Josephus! Uma multidão com nariz de palhaço despedindo-se do ano que termina... Há quanto tempo não via gente tão feliz!” - “São professores que ainda não receberam o sofrido salário que estão seguindo em passeata em direção ao Paço Real, minha Princesa...” Informou Josephus. - “Nem tudo é perfeito na vida, meu amigo! A rainha tem tantos problemas sérios para solucionar, quem sabe esqueceu momentaneamente de pagar aos mestres...” - “E também se esqueceu de pagar os fornecedores... Está vendo aquela fila Majestade? São cobradores de dívidas desesperados em busca de pagamento de antigos débitos...” - “Pobre filha! Ser honesto nunca foi fácil...” - “Rárárárá....” - “Está rindo do quê? Você acha que a Rainha não é honesta, Josephus?” - “Nem pensar! Jamais passou pela governança de seu vetusto reino uma pessoa tão íntegra, ética, transparente, sensível ao clamor público como essa que nos deixa...” - “Concordo plenamente! Jamais o prédio do Correio Velho foi tão mimado, abraçado, fogueteado como nesse reinado que termina...” - “É verdade! Pena que continua a ruína de sempre...” - “Josephus, Josephus! O que importa é a intenção...” - “Espero que Vossa Majestade não adoeça! Saiba que desde a semana natalina até o final do ano na Unidade Mística só funciona a emergência...” - “Finalmente uma boa notícia, nada como um povo saudável que não necessita de médicos a toda a hora... Minha filha foi uma guerreira, está aí a Repaginação da Beira do Valo para provar...” - “Qual a Repaginação? Aquela que está cheia de rachaduras?” - “Detalhes, Josephus! Detalhes... Viu o magnífico Velório Municipal? Que obra fantástica! Ficará para a história...” - “É verdade Majestade! Pena que não tem cadeiras para os familiares sentar e velarem seus mortos...” - “Detalhes, Josephus! Detalhes... A primeira mulher a me representar na longa história desse reino...” - “A plebe espera que também seja a última...” - “Que palavreado é esse? Preconceito contra uma liderança forte, sensível, feminina?” - “Nada disso, Alteza! É que mais uma igual e Iguape nunca mais se levanta...” - “Que bom! Assistirei sentada a chegada do futuro...” - “Só por Deus! A senhora é fã de carteirinha da rainha...” - “Sou sim! Já governei e sei o fardo que representa... Cobrar honestidade de cada assessor... Zelar pelo patrimônio comum... Manter a cidade limpa... Não permitir politicagem... Tratar com dignidade quem deu um voto de confiança... Essa menina foi tudo de bom!” - “É verdade! Algumas pessoas pensam igual à senhora... Agora tudo passou, vamos aguardar a posse de Coração Vermelho e torcer por mudanças... Vou guardar as malas e arrumar uma condução para a Ilha Comprida, afim de que Vossa Majestade possa curtir a passagem do final de ano assistindo a um grande show...” - “Nem tudo é perfeito, Josephus!... Detalhes, detalhes.” Gastão Ferreira/2012

domingo, 2 de dezembro de 2012

Conto macabro...

MARIA MADALENA... Meu nome é Maria Madalena, o mesmo nome da melhor amiga de Nosso Senhor... Quando eu era uma garotinha ganhei duas bonecas, uma chamava-se Maria e a outra Madalena. Algo que nunca contei é que elas se detestavam. Maria começou por arrancar o cabelo da Madá, alguns dias depois Madalena quebrou as perninhas de Maria e no final da desavença restou um monte de cacos despedaçados. Faz um bom tempo que estou nessa sala, hoje conversarei com um psicólogo... Coisas estranhas aconteceram na escola, na verdade nem sei de nada! Semana passada um garoto desapareceu, acho que foi sequestrado... Encontraram o coitado no mato, pernas quebradas, escalpelado, sem os dois bracinhos. Meu primeiro e único animal de estimação foi um cão chamado Satã, um nome terrível para alguém que dormia aos pés de minha cama... Cortaram o rabo de Satã, depois as orelhas e também as patinhas. Morreu olhando para mim e eu acabara de completar quatro aninhos. Escutei vovó contar a uma tia que quem fez a judiação com o Satã foi eu... Que mentira! Ainda bem que vovó caiu da escada e morreu. Finou-se olhando dentro dos meus olhos... Fui à igreja rezar e na volta encontrei mamãe desesperada; - “Que bom que você não estava em casa Madalena, aconteceu uma coisa horrível... Vovó Matilde tombou da escada, bateu com a cabeça e faleceu sem ninguém para socorrê-la... Você tão criança ficaria traumatizada para o resto da vida se tivesse presenciado a queda... Pobre mamãe!” Tia Glória, a tia fofoqueira, que ficava dando atenção às falsas acusações de vovó ficou desconfiada, fomos tomar um lanche e ela me crivou de perguntas... Chorei e ela foi ao banheiro buscar um papel toalha para secar minhas lágrimas, quando voltou mal acabou de tomar o seu suco de laranja, caiu durinha... O suco continha veneno para ratos! A lanchonete foi multada e fecharam suas portas, a família ganhou uma fortuna de indenização. Juca, o garoto esquartejado, não era meu amigo... É verdade que sempre conversávamos, dizia que era meu namorado, queria um beijo, pegar na minha mão... Sou uma menina correta, rezo muito, quero ir para o céu... Jamais cometi um pecado... Conheço o local onde encontraram o corpo mutilado do Juca. É o mesmo onde enterraram os pedaços de meu amado cãozinho Satã e o vidro com o veneno de ratos. Fui a última pessoa a ver Juca com vida. No recreio ele tentou me beijar, levou um tapa na cara... Na saída da escola me acompanhou, pediu desculpas... Contei que eu tinha um segredo... Conhecia um lugar secreto na mata onde havia uma pequena cachoeira... Quis conhecer, pediu, por favor! Suplicou. O matagal fica bem atrás de minha casa, é meu refugio, o local onde escondo meus brinquedos velhos, a navalha que encontrei nos pertences de vovô Honório, uma faca bem afiada, cordas, tesouras, restos dos remédios de mamãe, seus medicamentos para insônia... Passatempos de menina! Como os meninos são curiosos! Meu nome é Maria Madalena, o mesmo nome da melhor amiga de Nosso Senhor, juro que sou incapaz de cometer um deslize... Li que ela foi uma pecadora, arrependeu-se, está junto de Deus... Tenho dez anos e uma longa vida pela frente, não será um psicólogo que desvendará meus poucos segredos, alias, nem sei o que faço aqui a esperá-lo, ele não virá! Quando passei frente a sua casa notei que um desconhecido mexia no freio de seu carro, com tanta subida e descida, acho que ele sofrerá um acidente fatal, coitado do psicólogo! Tão moço e tão preocupado comigo. M. Madalena Gastão Ferreira/2012