domingo, 11 de novembro de 2012

O SONHO DE GAYA Faz-de-conta era um mundo imaginário. Gaya sua deusa nutriz, a Natureza personificada, que ordenou o caos e deu forma a vida planetária. Na solidão da eternidade Gaya sonhou. Retirou de uma negra caixa muitas figuras, personagens de suas fantasias. Catou o pó das estrelas, forjou um imenso globo girando em torno de um sol vivificante. Conhecedora dos elementos associou dois átomos de hidrogênio a um de oxigênio e criou a água, assim começou a vida e a estranha história de Faz-de-conta. Quando um macaco desceu do alto das árvores e descobriu a planície, Gaya sonhou o homem. Retirou de sua caixa os reis, os soldados, os feiticeiros, a multidão dos pobres, os poucos nobres e cada personagem vinha com seu próprio destino já traçado. No início eram demônios sedentos de poder, depois heróis a procura de um destino glorioso, homens comuns cultivando campos e alimentando multidões. Sacerdotes queimando incenso na compra do divino, guerras devastadoras, incêndios, calamidades... Gaya acordou! Fora um sonho que se transformara em pesadelo. Destruiu sua criação, abandonou Faz-de-conta e se refugiou no universo infinito. O que Gaya nunca imaginou foi que alguns humanos sobreviveram em cavernas sombrias, descobriram como se reproduzir e recriaram o sonho de Gaya. Muitos séculos se passaram, os homens eram persistentes, criaram cidades, fundaram reinos, formaram nações. Com muita paciência desvendaram os segredos da vida, inventaram máquinas, dominaram a tecnologia, conquistaram as estrelas e se apossaram dos céus. A nave espacial pousou silenciosamente em um verdejante planeta nos confins da bilionésima galáxia visitada. Os instrumentos indicaram vida inteligente. A mulher de formas perfeitas, jovem, dormia em um abandono de silêncios, quando acordou era refém de autômatos dos quais ignorava o controle. Estava presa dentro de um globo de energias desconhecidas. A espaçonave retornou a Faz-de-conta, Gaya reconheceu sua própria criação. Levada a presença das autoridades, passou fome, sede e frio. Desconhecia a linguagem dos captores e levou tempo a aprendê-la. Contou em minúcias a sua história, na qual não acreditaram; - Era uma espiã de um mundo desconhecido, uma provável inimiga... Foi torturada. Acorrentada nos porões do palácio imperial, reconheceu que os homens fugiram de seu controle, transformaram-se em deuses e que ela era apenas mais uma entre milhares de seus iguais que andavam entre as estrelas do céu... Nesse instante entre a descoberta e o espanto, Gaya chorou! Nunca mais estaria só. Gastão Ferreira/2012

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