sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Feliz aniversário Iguape (474 anos)

MAIS UM ANIVERSÁRIO – (474 ANOS) A Princesa do Litoral não cabia em si de contente; -“Não vejo a hora de adentrar a cidade, Josephus! Alem de mim, só Matusalém passou dos quatrocentos anos.” - “Sua festa será inesquecível Majestade! Será o coroamento de uma gestão marcada por grandes e admiráveis obras.” Disse Josephus. - “É verdade caro secretário! A repaginação da Orla do Valo, o novo Estádio de Esportes, o necrotério, a reforma do Correio Velho, a limpeza do manguezal, a Casa do Pedinte Feliz, a maternidade, a reforma da Fonte do Senhor, o fantástico e moderno monumento na Praça da Matriz...” - “Gente honesta é outra coisa!” Concluiu Josephus. - “Sim! Todos estão com uma mão atrás outra na frente... Um bom exemplo a ser seguido por todo aquele que se aproveita de cargos comissionados para enriquecimento ilícito... Estou contente! Minha representante está saindo de mãos limpas.” Proferiu a Princesa. - “Com certeza! Se honestidade tem nome e sobrenome é devido à probidade dessa moça...” Rematou Josephus. - “Repara Josephus! Estão construindo um Metrô na Vila Garcez...” - “É a nova galeria de águas Majestade! Estrutura moderna para aguentar o peso dos caminhões...” - “Nada como o progresso! Esse povinho deve estar rico. Note a quantidade de sacos de lixo empilhados na calçada... Se todo o dia jogam tantas sobras na rua é sinal de que estão gastando adoidado...” Comentou Sua Majestade. - “Realmente e pelo visto não param de reformarem suas moradias, veja Princesa! Quanto entulho.” - “Espia Josephus! Um pedinte com celular e notebook...” - “Pelo jeito a grana está correndo solta na cidade...” - “Sabe Princesa! Ouvi comentários que as crianças das escolas estão comendo do bom e melhor. Nada de lanches, só self-service... Coisa de primeiro mundo!” - “Que boa notícia! Criança bem alimentada estuda melhor...” - “Também estão vindo de taxi para o colégio, parece que ocorreu um pequeno problema com os ônibus escolares...” - “Eta mulher porreta essa minha filha! Pena que não quis concorrer novamente...” Disse emocionada a Princesa. - “É mesmo! O que é bom, dura pouco. Ela merece um longo e digno descanso... Como trabalhou essa criatura! Dizem que fazia hora extra diariamente e não cobrava dos contribuintes...” - “Um exemplo! Todos sentirão grande falta dessa pessoa tão íntegra, honesta, ética, educada e gentil... Eu a comparo a Madre Tereza de Calcutá!” Falou a Princesa do Litoral. - “É verdade! Dá para notar a cara de tristeza dos cidadãos... Parece aqueles a quem o salário atrasou!” - “Rarará... Imagina Josephus! Atrasar salários... Que bobagem!” - “Majestade! Acho que sua festa de aniversário não vai ocorrer... A Praça está completamente vazia!” - “Eu entendo Josephus! É o povo entristecido com o final do mandato de minha filha... Para não perder o passeio vamos passar na casa dela e deixar um abraço de agradecimento por tudo o que fez de bom por minha cidade...” Falou a Princesa com lágrimas nos olhos. - “Vamos sim Majestade! Vamos desejar do fundo do coração que ela receba em dobro tudo o que fez...” - “Com certeza receberá! O Bonje não esquece.” Concluiu a Princesa do Litoral. E assim mais um aniversário, esse dos 474 anos, passou... Que no próximo aja festa, alegria, risos e muitos bons motivos de comemoração. Gastão Ferreira/2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

XEQUE-MATE...

SATIM & SATUM... O bicho homem desde o inicio dos tempos se compraz em dar nome aos bois. Adão se divertia adoidado no paraíso; - “Aquele animal vou chamar de macaco! Não parece um macaco?”... Ficou meses nessa folia, mal acordava e já saia a dar mil apelidos à bicharada, também não tinha nada à fazer! Depois que foi expulso do Éden passou um bom tempo aprendendo coisas banais... Inventar tijolos para erguer uma casa. Cortar lenha, sem machado, para fazer uma fogueira. Pescar sem anzol, bolar armadilhas para apanhar caça... Uma canseira de dar dó, isso sem contar a obrigação de povoar o mundo, aguentar as brigas dos filhos e as crises existenciais de Eva, codinome “minha ex-costela”. Os descendentes de Adão mantiveram o costume e até hoje continuam a dar nomes e mais nomes a tudo e a todos. Sem nome ninguém sobrevive. Difícil é arrumar uma alcunha nova, parece que todos os apelidos já foram dados. Depois que inventaram as duplas caipiras, a coisa só piorou, aja criatividade! Ateu & Atoa, Cosme & Damião, Joio & Trigo, Papai & Noel, Erótico & Herético, Branco & Negrão, Alceu & Alçado, Cheiroso & Cheirado, Tom & Gerry, Nei & Béte, Almir & Oncinha, Santo & Pecador, Caim & Abel, Satim & Satum... Satim & Satum eram gêmeos idênticos, o que os diferenciava era uma pequena anomalia genética em um dedo do pé de Satim. Foi um grande erro de Seu Agenor ter dado esse nome as inocentes crianças, pois os nomes lembravam Satã, o pai de todos os demônios. Estapeavam-se desde o berço, se odiavam feito Cocho e Berne. O que um fazia o outro destruía e ajam foguetes para tantas maldades! Dona Minervina, uma mulher piedosa e mãe da dupla, nunca se conformou; - “Do mesmo pai! Da mesma mãe! Onde foi que eu errei, meu Bonje?” Na verdade foram as amizades que desencaminharam os pimpolhos. Satim era coleguinha de Junior, um moleque sem caráter, sem vergonha e sem eiras e beiras, que ensinou ao amigo todas as maldades possíveis e impossíveis. Satum era amigão de Atanásio, filho do sacristão Bento de Ogum, um amor de criança. Jamais falou um palavrão, gostava de cães e gatos, defensor dos oprimidos e da Mãe Natureza, um eco-chato de nascença... Quanta diferença! Com o passar do tempo as coisas pioraram. Satum foi estudar fora e Satim permaneceu no vilarejo tomando banho no riacho, roubando peças sacras, quebrando vidraças e perseguindo desafetos. Satum voltou doutor e casado com a maravilhosa Estrela, uma ex-atriz pornô arrependida. Quando Satim viu a bela cunhada, foi amor à primeira vista; - “Essa gata vai ser minha! Custe o que custar.” Seu Agenor e Dona Minervina estavam felizes da vida. A briga entre os filhos era coisa de crianças, agora eram amigos e Satim não saía da casa do irmão. Quando Estrela engravidou, Satim mostrou-se mais contente do que Satum e quando o bebê nasceu soltou foguetes. Satum se babava pelo filhote. Um dia deu uma geral no neném e descobriu que a cria não era sua, havia uma pequena anomalia genética num dedinho do pé, a marca de Satim! Fez o certo. Chamou linda Estrela e Satim, armou o maior barraco e foi embora para a cidade grande viver sua vida de doutor. Satim é um bom pai, assumiu o filho, juntou-se com a bela Estrela, ex-atriz pornô e vivem infelizes. Estrela voltou à antiga atividade as escondidas, apanha do marido, mas trás uma boa grana a cada escapadela. Não sei qual a moral dessa história! Só sei que a vida é igual a um jogo de xadrez em que não passamos de simples peças descartáveis. Os Peões vão à luta, os Cavalos saltam, os Bispos são poderosos, as Torres vigiam, a Rainha pode tudo e o Rei morre... Xeque-mate! Fim. Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

“O LIVRO DOS PIRATAS DA BARRA” - (12/12/2012) Os primeiros arcanos a relatarem o final dos tempos foram; - “O Calendário Maia”, sistema de calendários e almanaques distintos, usados pela Civilização Maia da meso-América pré-colombiana, datado do século VI a.C. onde a deidade Itzamna deu o conhecimento aos Maias ancestrais... “Os Livros Sibilinos”, que são uma declaração do oráculo de Cumas e continham todo o conhecimento do futuro, comprados da Sibila por Tarquínio, o Soberbo entre 535 a.C – 496 a.C ... “As Centúrias”, escritas por Nostradamus e que contém as previsões feitas por Michel de Nostredame (1503-1566)...” O Livro dos Piratas da Barra” manuscrito que prediz o futuro da cidade de Iguape, litoral sul do Estado de São Paulo, Brasil, encontrado no início do século XVII na Jureia. Foi seu Ditinho Caiçara, morador do bairro de Icapara, dono de um alambique e inventor da aguardente conhecida como Caa-chaça, quem encontrou no ano de 1630, junto a um tesouro pirata, o famoso manuscrito. Reuniu- se com os poderosos da época, isso é, um caçador de índios fujões, um vigário, um comerciante de secos e molhados, um minerador autônomo, um sargento de milícias, um representante da corte portuguesa, uma cartomante e um barqueiro, leu o manuscrito e o trancou em uma pequena arca, distribuindo nove chaves aos presentes no encontro secreto, eis o porquê de se dizer que o segredo foi trancado a nove chaves e que o fim do mundo chegará do Icapara. O que se sabe, não oficialmente, é que o livro conta o futuro de uma cidade que terá o nome de Iguape. Na época em que foi escrito, tal cidade não existia. Pelo que consta ninguém descobriu se o autor estava em transe, em contato com Tupã, ou, fumado um baseado. “Os Livros Sibilinos” são considerados o máximo em revelações do futuro, tanto é assim, que estão guardados no Vaticano e a proibição de consultá-los se mantém, mas, são tidos como simples panfletos se comparados ao “O Livro dos Piratas da Barra”. À Sibila de Cumas, o Oráculo descreveu o formidável futuro do incipiente Império Romano, suas lutas, suas conquistas, seu legado a humanidade... Os Piratas relatam tintim por tintim mil maracutaias, politicagem, sacanagens entre nobres e pobres, a luta entre o joio e o trigo, entre brancos e negrões, a rapinagem sem consequência de bens públicos, os conchavos politiqueiros, a chegada da dengue, o inicio e o fim de uma cidade que nasceu para dar certo e permaneceu estagnada no tempo. Os descendentes dos nove que ficaram com as chaves da arca, onde foi trancafiado o manuscrito, sempre se dão bem na vida. Sabem qual o terreno a ser grilado sem problemas, qual placa de bronze ou estátua sacra roubar, o nome do futuro prefeito, das autoridades, dos mandachuvas... São aqueles que mamam descaradamente nas tetas magras do erário municipal e atravancam o progresso. A cada quatro anos se reúnem e reveem seus objetivos consultando o manuscrito. Esse segredo passado de geração em geração é tão bem guardado que ninguém desconfia, se bem que toda a população sabe que são sempre as mesmas moscas a rodearem o velho bolo. A última reunião dos detentores das chaves foi gravada, dois amigos disputavam o mesmo cargo na nova administração e viraram inimigos e implodiram o esquema secular. O que se sabe apavorou a população! O grupo vendeu suas propriedades e está dando adeus a cidade. O livro dos piratas é claro e conciso em 12/12/2012 tudo termina! Os livros Sibilinos, as Centúrias e o Calendário Maia concordam e confirmam que o fim chegará através do Icapara. Salve-se quem puder! Gastão Ferreira/2012

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A origem do mito

A ORIGEM DO MITO... CRÔNICAS DE PINDAÍBA 1 – A ARCA DE NÃOÉ Nãoé despertou apavorado, pela centésima vez tivera o mesmo pesadelo. Tupã lhe aparecia em meio a raios e trovões e lhe ordenava construir uma ygara (jangada em Tupi-guarani) a qual salvaria da extinção alguns elementos da região. - Será que dormi novamente torrado? Não é possível acontecer logo comigo uma coisa dessas! Talvez meu nome atraia esses pesadelos! Como eu gostaria que minha alcunha fosse Ary Oswald, Magnólio, Agenor, Benedito ou até mesmo um inofensivo José... Mas não! Meu pai me colocou esse nome ridículo de Nãoé... Agora esse tal Tupã que não me deixa dormir sossegado, gritando a noite toda no meu sonho; - Nãoé! Construa uma ygara. Os tempos chegaram! A terra será alagada, tudo surucará. Salve pelo menos alguns de meus fiéis, amados, honestos, puros e dedicados filhos. Nãoé! Salve-os. Salve-os! Nãoé, sem querer querendo, contou seu sonho no bar do Dito Pelado e logo todo o povoado ficou sabedor. Formou-se uma multidão implorando uma vaga na ygara de Nãoé. Nãoé até que gostou do puxa-saquismo do povão e de improviso tascou um discurso; - “Meu povo do Valo Grande e minha póva do Valo Pequeno notem vocês que pelo reduzido tamanho da igara, ela não poderá levar a todos nessa jornada de salvação. Tupã foi claro e preciso, falou e disse; - “Só os meus fieis, os puros, os honestos e dedicados serão salvos do nefando perigo.” Todo o fofoqueiro, mensaleiro, nepotista, fdp, cuidadores da vida alheia, condenados por improbidade ou não, puxa sacos de carteirinha carimbada ou não, e, o escambau a quatro ou a cinco, eu, não levo! Eu não levo! Não levo.” O local ficou quase vazio. Um grupo de crentes que orava pelo final dos tempos, pediu vaga. Nãoé foi categórico; - “Crentes? Nem pensar. Não entram na minha ygara nem que Jeová tussa! Vocês não vivem dizendo que já estão salvos? Então, que palhaçada é essa? Só posso salvar os nãos salvos, os do mundo. Por favor! Parem com o histerismo. E, nada de pragas e traumas. Entendido? Ou, querem que eu desenhe?” Um grupo GLS solicitou agasalho... “GLS? Não posso! Se for levar toda a fauna da região a ygara afunda. Por favor! Segurem a franga. Por favor! Por favor. Cada um no seu quadrado.” O pessoal da terceira idade, digo, da melhor idade implorou uma vaguinha; - “O que é isso meus veios? Vocês estão no fim da picada, deem lugar para os jovens que terão um futuro garantido e depois não posso perder tempo fazendo sopinhas e papinhas para menininhos e menininhas decréptas. Eu hein!” Assim foram descartados todos os que o procuravam um lugar na ygara. Políticos, apolíticos, ateus, ameus, anossos, atôas, são e aleijados, santos e pecadores. Os habitantes do lugarejo estavam inconformados, prontos para linchar Nãoé, quando se formou a maior tempestade já vista... O céu escureceu... Raios e trovões... Pedras de gelo de cinco quilos... Vendaval e vendavinhos... O mundo ficou surdo e mudo perante o dantesco rebuliço, o toró começou. Tudo estava sendo alagado. As mansões, os casebres, as casas de cômodos e incômodos, as casas de tolerância e intolerância, os bares e botecos, as igrejas, as mesquitas e sinagogas, os terreiros de vodu e candomblé, em fim, o pequeno e insignificante vilarejo sem nome, pelo jeito jamais teria um nome, pois tudo estava sendo destruído. Os poucos que sobreviviam em cima das árvores, mas que logo pereceriam afogados, ainda notaram a ygara que flutuava nas águas revoltas, levando entre todas as criaturas vivas que habitavam o local, apenas Bilú, Margareth, Nolinho, Nãoé e um cachorro sarnento que jamais entendeu porque foi salvo. A Ygara vagou por oitenta noites e setenta e nove dias. Aportou em um local aprazível, um sitio cercado de verdes montanhas e um imenso e majestoso rio. Esse lugar, num futuro muito distante ficará conhecido como o fantástico e inacreditável reino de Pindaíba. Nãoé e os sobreviventes foram os primeiros a descobri-lo e habitá-lo. Gastão Ferreira/2009 2. ICAPARA Nãoé abandonou a ygara e imediatamente começou a erguer um povoado. Lembram que aportaram na localidade alem de Nãoé, um tal Bilú, Nolinho, Margareth e um cachorro sarnento? Nessa fase da vida, Nãoé já era um ancião, estava na melhor idade e nem se importou quando Nolinho e Bilú iniciaram uma aproximação, digamos mais íntima, com Margareth. Era uma graça de se ver... O melhor peixe, a maior banana da terra, o maracujá mais suculento, o Mico Leão mais bem moqueado, tudo era dado em sinal de amor à Margareth, que começou a engordar, engordar e não mais parou de engordar. Nãoé educadamente interferiu e acabou com o insipiente namorico; - Parem de alimentar essa mulher! Parece uma porca de gorda. Daqui pra frente só deem água da fonte e casadinho de manjuba. Se ela iniciar um regime, eu libero a indiada para vocês. Foi só Nãoé dar a notícia e Bilú e Nolinho ficaram ouriçados; - “Cadê? Cadê as índias?” - “Estão construindo um Sambaqui nas cercanias!” Disse Nãoé. - “Nossa! Vamos ter uma escola de samba no pedaço.” Falou uma deslumbrada e loira Margareth. - “Que escola de samba menina?” Perguntou Nãoé. - “Ué! Se tiver samba aqui, então tem uma escola de samba por perto.” Explicou Margareth. - “Aí meus neurônios!” Exclamou Nãoé. De comum acordo e também porque era muito trabalhoso construir um imenso e moderno povoado para apenas quatro pessoas, resolveram conhecer o local onde estava situada a tribo indígena. Caminharam... Caminharam... Caminharam uns doze quilômetros e avistaram as malocas. Nãoé ordenou:- “Aqui para!” Margareth, a dourada, exclamou boquiaberta; - “Que lindo nome! Icapara.” - “Quem colocou esse nome nesse belo e bucólico lugarejo?” Perguntou Nãoé. - “O senhor seu Nãoé! O senhor acabou de dizer Icapara.” - “Não, minha linda leitoa oxigenada! Eu disse, aqui para, mas podemos chamar esse aprazível local de Icapara. Tem tudo a ver com esse cheiro de mato, essas plantações de mandioca e esses índios peladões.” Chegaram os selvagens e cercaram os quatro caras pálidas. Após o estágio de reconhecimento, isso é, apalpa aqui, cheira ali, enfia o dedo lá, alá e acolá, começou a confraternização... Tudo prato típico, Bugio no espeto, Tainha na folha de bananeira, Quati grelhado, Parati e Paramim na brasa, suco de Maracujá, Araçá e Butiá na Cataia. Foi a maior festança. Margareth matou todas as suas fomes, só não transou com o cacique por respeito as suas cinco ferozes e ciumentas esposas. Nolinho e Bilú se aproveitaram tanto da Cataia quanto das belas, selvagens e nuas índias tropicais, aprendendo muitas sacanagens com elas. Foram convidados a se radicarem no local. Nãoé ganhou uma maloca só para si. Margareth ficou para lá e para cá, indo de oca em oca. Bilù e Nolinho se amocozaram na maloca dos solteiros e ninguém nunca soube o que aconteceu por lá. Nove meses após a chegada da gangue, digo, do grupo de Nãoé, Margareth teve dois lindos curumins. As vinte índias solteiras que cuidavam de Nolinho e Bilù continuaram solteiras, mas cada uma teve seu neném branquélo. Assim começou a mistura étnica chamada Caiçara. Foi em Icapara que tudo teve início e segundo o livro dos Piratas da Barra, será de lá que chegará o fim. Gastão Ferreira/2009 3. A DESCOBERTA DE PINDAÍBA “Os Últimos Filhos de Tupã dos Últimos Dias” estavam por aqui com os icaparanos que só pensavam em festas, festinhas e festões. Com a criação do polo turístico, de gente e gentinha entrando e saindo da vila, até os animais silvestres desapareceram, temerosos de virarem espetinho de gato assim que botassem a cara no povoado. Meio quilo de Mico Leão Dourado custava mais caro do que ova de Tainha em peixaria, e, um insignificante Tapir valia o preço de um bezerro desmamado. “Os Últimos...”, Que equivaliam aos crentes do futuro, diziam que não eram do mundo. O povinho ateu e atôa sorriam e comentavam; - “Pode ser que eles não sejam do mundo, mas as filhas são!” e ripa na chulipa. Esses atos e ditos obsceno constrangiam sobremaneira os “Últimos...”, os quais partiram para os finalmente. Fizeram uma reunião no terreiro (?) de Tupã e após o sacrifício de um Jacu preto (suas galinhas de macumba da época), tomaram diversas decisões. Venderiam seus bens móveis e imóveis. Os móveis eram os escravos porque se moviam seu burro! E, os imóveis os inúmeros prédios comerciais onde ocorriam as orgias, as bacanais, as cachaçada homéricas que tanto ofendiam a moral dos crentes, mas como dindim é dindim, nunca reclamaram diretamente dos inquilinos que pagavam aluguéis absurdos pelos lupanares. Como todo o idiota sabe, dinheiro é dinheiro. “Os Últimos...”, pediram horrores para venderem as espeluncas, os comerciantes que não tinham essa grana toda resolveram apelar para o agiota de plantão, um tal João Qualquer Coisa. Tinha esse apelido porque comprava qualquer coisa na “bacia das almas”, dava uns enfeites e vendia dez vezes mais caro. O povo ignorante como só pode ser um morador da roça, não concordava com o que “Os Últimos...” estavam fazendo e começou um quebra barraco bonito de se ver. Tacaram fogo nas propriedades e em vários irmãos da seita... Muita gente foi ao encontro de Tupã antecipadamente. Na verdade foram tantos os exterminados que até o nome tiveram de alterar. “Os Últimos Filhos de Tupã dos Últimos Dias” passaram a se chamarem de “ Os Últimos dos Últimos Filhos de Tupã dos Últimos Dias”. No final do entrevero, “Os Últimos dos Últimos...” foram expulsos daquela Sodoma caipira abaixo de porrete e só com a roupa do corpo, pois, quem tudo quer! Tudo perde. Embrenharam-se na mata e como não possuíam bússola, perderam-se. Foram atacados por terríveis onças pintadas e oncinhas não pintadas, jaguatiricas, lobos guarás, macaco prego, macaco aranha, macaco formiga, macaco tamanduá. Todos esses bichos eles mataram de letra e praticamente acabaram com suas raças, sofreram mesmo foi no bico de mutucas, pernilongos e mosquito pólvora. Nessa andança, o povo de Tupã, foi dar (?) no Pé da Serra, Itatins, Jipuvura, Mumuna, Quatinga, ou seja, em qualquer estância aonde chegavam eles davam, e, como davam. Dava canseira, cabeçadas e com os burros n’água... Resolveram invocar Tupã e pedir seus conselhos. Seguiram o sagrado ritual, após muito cauim, uhásca e canábis, sentiram a presença do puro, benevolente e clemente Tupã, que amorosamente aconselhou seus filhos: - “Bando de cretinos, fdp, perdedores do cacete! Como tiveram a ousadia de abandonarem o local onde eu tinha tudo de graça e começarem a andar pelo meio da mata sem um guia, um mateiro? Meu Deus! Sem um mísero mapa. Olhem aqui seus bostinhas! Tão vendo aquela trilha ali? Pois é! Vão seguindo a dita cuja que todos vocês irão dar em Pindaíba. E, nunca mais me incomodem para fazerem perguntas ridículas, para isso tem mãe de santo, cartomante, terreiro de macumba, o escambau! Entenderam-me? Tão pensando que eu sou o que? Um moleque de recados? Um candidato a algum cargo necessitando de votos, que tem que aturar tudo de vocês? Eu sou Tupã! Eu sou Tupã... Tu... Pã.” “Os Últimos dos Últimos...”, apavorados e gratos pela infinita bondade de Tupã, pegaram a estradinha e tomaram o rumo sul. Aquela coisa de sempre, caminhar, caminhar, caminhar... Comer, comer, comer... Fazer coco, beber, beber, dormir, dormir, dormir e dormir que ninguém é de ferro... Ah! Eventualmente e na moita fazer mais um “Último Zinho” Após dias e dias nesse tédio tedioso... Matar onça, esgoelar macacos, correr de cobra venenosa e se estapear constantemente espantando borrachudos, chegaram a um sitio maravilhoso. Montanhas com todas as tonalidades de verde, bichos correndo por toda a parte, um rio magnífico, um lagamar deslumbrante, onde botos, robalos, tainhas e paratis saltavam a flor da água. Era a imagem do paraíso, o local mais belo jamais contemplado por olhos humanos. A dadivosa Natureza parecia sussurrar; - “Bem vindos! Bem vindos! Cuidem de mim e eu os tornarei felizes. Venham meus filhos! Fartem-se em minhas árvores frutíferas, saciem a sede nas fontes cristalinas dos montes, durmam sob esse céu estrelado, se embalem nas cantigas do mar. Bem vindos! Bem vindos! Cuidem de mim! Preservem-me.” “Os Últimos dos Últimos...” estavam encantados, logo encontraram um ninho de nhambus. Pegaram os ovos e o casal de aves e sacrificaram a Tupã, em agradecimento ao fim da jornada. Quem teve o dom de ver, viu!... A primeira lágrima de dor rolou da face da divina Natureza, seus filhos os pássaros choraram com ela... Até hoje Pindaíba paga o preço do descaso com suas belezas naturais... Bem vindo a Pindaíba! Gastão Ferreira/2009

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Zelite...

ZELITE... Quando Euzébio casou, o senhor Conde fez questão de mostrar sua fortuna, afinal Binho não casaria com qualquer uma e sim com a mais prendada das criaturas, Sintya Ramires de Albuquerque Lins, filha do ilustre comendador Ramires Lins, um homem que se fez sozinho... A vida é cheia de surpresas e Mirinho, apelido carinhoso do Comendador, na infância foi de uma pobreza extrema, catador de latinhas, engraxate, menino de recados, pistoleiro de aluguel, posseiro, trambiqueiro. Mau caráter que encontrou na politicagem o trampolim do sucesso. Sintya era um produto de primeira. Na meninice um horror, mas como o dinheiro compra tudo, papai deu um jeito e após a adolescência surgiu uma linda mulher siliconada, dentes implantados, peruca loira importada da Suécia e lindas lentes de contato azuis. Conseguiu permissão para a troca de nome, de Marcolina Lins passou a Sintya Ramires de Albuquerque Lins, a dondoca mais cobiçada pelos caça-dotes da cidade. Papai também comprou um diploma universitário, a garota era um tanto burrinha e jamais saiu do curso básico, agora era uma jornalista muito aplaudida, papai adquiriu um espaço no prestigiado jornal de Lander Vopes e semanalmente a dondoca dá dicas de pratos exóticos. Euzébio, um mequetrefe de primeira nunca necessitou trabalhar, papai Conde o mimoseava com carros, motos, lanchas e o último presente foi um helicóptero. O boy é seu único filho e herdeiro universal. O casamento com a bela Sintya mereceu a mais requintada festa da cidade. O terno de Binho era um Armani e o vestido da noiva confeccionado na Inglaterra, um cantor de sucesso entoou a Ave Maria, um bispo oficiou o casamento e cada convidado recebeu uma lembrancinha do fabuloso evento. Os convidados eram da fina flor da sociedade endinheirada. Muitos comerciantes e profissionais liberais não receberam o convite para as bodas, eram apenas flores e não finas-flores da Zelite local. Após o casório, a festança. As dondocas dondocavam, os políticos politicavam, os comes e bebes de primeira eram consumidas com avidez, as conversas giravam em torno de viagens internacionais e das muitas fofocas que permeiam a vida de quem não tem nada de útil para fazer. Quando o Senhor Conde estava a agradecer a presença de todos, eis que adentrou o recinto um Oficial da Justiça e deu voz de prisão a Leandrinho, filho de um casal famosíssimo na localidade, por não pagamento de pensão alimentícia. A mãe de Drinho fez o maior escândalo, um quebra barraco para ninguém por defeito, um escarcéu que ficará na história e fez questão de acompanhar o mimado pimpolho até a delegacia, se propondo a quitar a dívida na hora. Pois não é que deu um cheque sem fundos! Que vergonha. O Senhor Conde e o Comendador Ramires Lins cortaram relações com os pais de Leandrinho, pois não passavam de falsos ricos, aqueles que comem ovas de Tainha e espalham que degustam caviar... Os que não foram convidados por não merecerem a companhia de gente tão ilustre estão rindo e deram graças por não participarem da baixaria da elite, pois é! Zelite que se presa sempre apronta. Gastão Ferreira/2012

domingo, 11 de novembro de 2012

O SONHO DE GAYA Faz-de-conta era um mundo imaginário. Gaya sua deusa nutriz, a Natureza personificada, que ordenou o caos e deu forma a vida planetária. Na solidão da eternidade Gaya sonhou. Retirou de uma negra caixa muitas figuras, personagens de suas fantasias. Catou o pó das estrelas, forjou um imenso globo girando em torno de um sol vivificante. Conhecedora dos elementos associou dois átomos de hidrogênio a um de oxigênio e criou a água, assim começou a vida e a estranha história de Faz-de-conta. Quando um macaco desceu do alto das árvores e descobriu a planície, Gaya sonhou o homem. Retirou de sua caixa os reis, os soldados, os feiticeiros, a multidão dos pobres, os poucos nobres e cada personagem vinha com seu próprio destino já traçado. No início eram demônios sedentos de poder, depois heróis a procura de um destino glorioso, homens comuns cultivando campos e alimentando multidões. Sacerdotes queimando incenso na compra do divino, guerras devastadoras, incêndios, calamidades... Gaya acordou! Fora um sonho que se transformara em pesadelo. Destruiu sua criação, abandonou Faz-de-conta e se refugiou no universo infinito. O que Gaya nunca imaginou foi que alguns humanos sobreviveram em cavernas sombrias, descobriram como se reproduzir e recriaram o sonho de Gaya. Muitos séculos se passaram, os homens eram persistentes, criaram cidades, fundaram reinos, formaram nações. Com muita paciência desvendaram os segredos da vida, inventaram máquinas, dominaram a tecnologia, conquistaram as estrelas e se apossaram dos céus. A nave espacial pousou silenciosamente em um verdejante planeta nos confins da bilionésima galáxia visitada. Os instrumentos indicaram vida inteligente. A mulher de formas perfeitas, jovem, dormia em um abandono de silêncios, quando acordou era refém de autômatos dos quais ignorava o controle. Estava presa dentro de um globo de energias desconhecidas. A espaçonave retornou a Faz-de-conta, Gaya reconheceu sua própria criação. Levada a presença das autoridades, passou fome, sede e frio. Desconhecia a linguagem dos captores e levou tempo a aprendê-la. Contou em minúcias a sua história, na qual não acreditaram; - Era uma espiã de um mundo desconhecido, uma provável inimiga... Foi torturada. Acorrentada nos porões do palácio imperial, reconheceu que os homens fugiram de seu controle, transformaram-se em deuses e que ela era apenas mais uma entre milhares de seus iguais que andavam entre as estrelas do céu... Nesse instante entre a descoberta e o espanto, Gaya chorou! Nunca mais estaria só. Gastão Ferreira/2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

DONA VIRIDIANA Dona Viridiana possuía profundas raízes, sua linhagem se perdia no tempo. Descendente de um flibusteiro aprisionado pelos guaranis no Costão da Jureia na época do descobrimento e de uma índia apaixonada que em troca de um tesouro enterrado na praia libertou o pirata da escravidão por amor. Jupira, a indígena, posteriormente casou-se com um jovem e valente português degredado. Com o ouro herdado do pirata comprou um marido e uma posição social de relevo na incipiente freguesia do Icapara. Com o segundo marido, o primeiro fora o corsário, teve um filho e uma filha, Ricardo e Mafalda. Ricardo aumentou o capital da família, se embrenhou nas matas arrebanhando indígenas nas Entradas e Bandeiras, não deixou descendente e Mafalda foi sua única herdeira. Mafalda casou-se com um Capitão-mor, um sacripanta e posseiro muito estimado na corte e agente secreto de El Rei de Portugal. O amigo rei vendeu-lhe a peso de ouro um título de nobreza e Mafalda passou a ser a Senhora Baronesa. Com a morte do fidalgo na famosa invasão de São Vicente pelos icaparanos, Mafalda e a filha Amanda, imensamente rica e prepotente, se mudaram de mala e cuia para a recém-formada Vila de Iguape. Amanda não herdou o título de nobreza nem necessitava, abastada o suficiente para comprar quem bem lhe provesse, perdidamente apaixonada por um jovem pároco, doou uma fortuna aos cofres sagrados. Quase na penúria e com uma filha bastarda, no final da existência possuía de seu, a casa senhorial de eiras e beiras, um sitio não longe da cidade, tocado por mãos escravas. O padre foi chamado ao Vaticano e foi elevado ao cardinalato, um príncipe entre príncipes, nunca reconheceu a filha de nome Leonor que teve com Amanda e nem as outras que trouxe ao mundo com diversas amantes. Leonor foi bisavó de Viridiana, comeu o pão que o diabo amassou, com a libertação da escravatura o sitio cultivado por cativos foi abandonado e Leonor foi à luta, não vendeu a casa de eiras e beiras e muitos quartos. Montou uma pousada e vez por outra mantinha encontros íntimos com os hospedes mais abonados. O passatempo lhe rendia altos dividendos, casou-se com um caixeiro-viajante e como o caixeiro viajava muito, entre uma viajem e outra nasceu Roberval, fruto de um amor clandestino com um rico proprietário de navios mercantes. Roberval herdou do pai a honestidade e o gosto por negócios escusos. Agiota, politiqueiro e pilantra enriqueceu da noite para o dia, seu nome virou nome de logradouro público, sua filha Anita se casou com o velho mais rico da cidade. Anita foi mãe de Viridiana, era uma mulher que sabia das coisas, em sua casa só entrava a fina flor da sociedade e Viridiana desde a mais tenra idade teve a quem puxar. Foi criada no luxo, uma menina petulante que escarrava nas domesticas e serviçais. Uma guria arrogante que se achava a dona dos menos favorecidos pela fortuna. Viridiana nunca casou. A ralé a julgava riquíssima e a pose confirmava sua origem nobre. Criada entre mimos e regalias, com rapapés e elogios, a sua elegância a transformava em uma bela adolescente. Nem bem entrou na maturidade a fantasia dançou e Viridiana caiu na real; - Uma mulher de cabelos pixaim, profundas olheiras, ranzinza e mal amada. Vivendo das poucas rendas e das passadas glórias. Achava-se tão rica que comprava amigos e tão birrenta que sua melhor amiga era a sua manicure. Um dia Viridiana acordou no vazio, no vazio de sonhos, no vazio de amigos, possuía profundas raízes, suas origens se perdiam no tempo... Jupira uma índia safada que se aproveitara de um pirata prisioneiro para enriquecer, Mafalda a nobre Baronesa que trocou a honestidade pela ganância, Amanda a que tudo perdeu por amor, Leonor a prostituta que recuperou os bens da família, Roberval o agiota que virou nome de rua, Anita a que deu o golpe do baú e Viridiana a que não viveu... Pobre Dona Viridiana, tão rica... Tão pobre! Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Mafalda & Bofalda...

AS FADAS... Na floresta a notícia correu feito pólvora, os habitantes estavam horrorizados, pela primeira vez na história as fadas entraram em guerra entre si; - O motivo, Zuter! Zuter, o fauno, possuía uma varinha mágica que era o sonho de consumo das aprendizes de feiticeiras, bruxas, ogros, gnomos, sílfides e fadas. Quem caia sob o encanto de seu bastão jamais se esquecia do ocorrido e muitas criaturas choravam no escuro das cavernas carentes de seu dom maravilhoso. As fadas, seres inocentes e sem malícias, costumavam se reunir numa pequena clareira do bosque para dançarem e cantarem; eram pudicas e castas. No evento discutiam seus probleminhas e por vezes bebiam do néctar das flores. Zuter, o fauno, conhecedor de tudo o que não presta, aproveitou-se da pureza das fadas e adicionou o suco de cogumelos alucinógenos ao néctar e o alegre convescote se transformou em orgia desenfreada. Mafalda, amiga intima de Bofalda, brigou feio com a colega e o motivo foi à varinha mágica de Zuter. Algumas fadas tomaram o partido de Mafalda, outras de Bofalda e teve inicio uma guerra nunca imaginada nem pela mais perversa das bruxas. Zuter se encontrava secretamente com Mafalda, Bofalda, Nefalda, Pafalda, Zefalda e muitas outras faldas e cada uma delas se achava a única na vida sentimental do fauno. Zuter era parente de vovó Nachel que não era uma fada e que lhe dava o maior apoio. Apesar de nunca ter experimentado o encanto da varinha mágica de Zuter, vovó Nachel fazia a maior propaganda da mesma, criando assim certa curiosidade sobre a varinha. Nachel era a confidente de Zuter, babava-se com suas histórias sórdidas e pervertidas. Uma noite após uma festa de arromba, deu com a língua nos dentes e contou sem querer querendo as diversas sacanagens do parente a uma Sílfide sirigaita. A Sílfide espalhou a história e foi assim que Mafalda ficou sabendo do envolvimento de Bofalda com Zuter. Mafalda procurou o auxilio das trevas a fim de conquistar definitivamente o amor de Zuter e as trevas espalharam a escuridão na floresta. A tristeza alastrou-se, os animais não encontravam suas tocas, os pássaros não achavam seus ninhos, os cães perdiam o faro, os filhotes se desgarravam dos pais e partiam para a prostituição, as drogas e bebedeiras. A vida na floresta estava insuportável... Quem não era cocho era berne, ou seja, quem não era partidário de Mafalda era de Bofalda. O assunto nos encontros sempre se resumia na famigerada desavença entre as fadas e todos estavam saturados com as picuinhas íntimas decorrentes das paixonites entre Zuter e suas adoradoras... A guerra tinha que ter um fim! Cidália, a rainha das fadas, finalmente foi informada do que ocorria no escurinho de seu reino encantado. Como era imune aos encantos da varinha mágica de Zuter, se bem que os fofoqueiros de plantão informam que num passado remoto também ela arrastou as asinhas pelo fauno, fez valer sua vontade soberana e simplesmente expulsou Zuter para outra freguesia. O reino voltou à pasmaceira de sempre... Mafalda fez as pazes com Bofalda e compartilham segredinhos. As feiticeiras voltaram a preparar suas poções, os gnomos a trabalharem feito escravos, os ogros a comerem criancinhas desatentas, os pássaros a cantarem e os rios a correrem para o mar. A única a lembrar do ocorrido é Mafalda, quando enche a cara se põe a falar sobre a varinha mágica de Zuter e chora de saudade... Assim se confirma o ditado popular; - Amor de trica fica! Gastão Ferreira/2012