quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Coisas nossas...

DONA PERERÉCA A mata está em festa, chegou a hora da escolha do novo rei e dos representantes do povo da floresta. A comadre Onça, esperta e matreira, promete a construção de uma ponte ligando diretamente o rio à floresta, é muito ovacionada, isso é, jogam ovos podres no felídeo. O Tatu anuncia que um túnel é a única solução para evitar acidentes com o constante vai e vem no matagal. O Bicho Preguiça promete um teleférico, alegando que todos os animais têm o direito de curtir a magnífica paisagem vista do alto da montanha. O Macaco investe na diversão, muito som e discotecas para a rapaziada. Os candidatos à coroa prometem o paraíso. De todos os habitantes quem mais se diverte com o evento é Dona Pereréca. Não perde comes e bebes... Pereréca bêbada não tem dono, diz um ditado popular. Alguns dos candidatos fazem questão de colocarem seus adesivos, ao vivo e a cores, na Dona Pereréca. Bem antes da grande disputa surgiram comentários negativos envolvendo as Pererécas, a família é grande e nunca se sabe quem é parente de quem. Dona Pereréca na atual disputa já ganhou moto, uma reforma na moradia e muito dindim, pois Pereréca que se presa não faz nada grátis para ninguém. Quem trabalha de graça é o compadre Burro e quem acredita em promessas é o compadre Coelho, que vira chaveiro. O Quero-quero vive de pedir favores e sempre indeciso não sabe em quem votar. O Pardal, como sempre encima do muro, no final vai aderir ao vencedor. O Bem-te-vi não perde comício e comenta tudo o que vê. Na floresta sempre foi assim, nunca deram sossego a Dona Pereréca, não seria nessa disputa que um costume tão arraigado desapareceria. Nas eleições anteriores famílias foram desfeitas, escândalos abafados e concorrentes se aproveitaram das jovens e fogosas Pererécas para ferrarem com adversários. A estirpe das Pererécas é antiga e a linhagem não corre risco de extinção... Atualmente as Pereréquinhas são mais desinibidas, sentem orgulho do que fazem e ficam horrorizadas ao saberem que antigamente se prendiam as Pererécas sapecas. Os Gaviões agradecem, as Cobras têm botes certeiros e os Veados nem ligam, são herbívoros... A floresta um dia aprenderá a valorizar a incansável Dona Pereréca, sem ela a mata é triste, os pássaros não cantam, os lobos não uivam, os peixes desaparecem e o sol não brilha. Vida longa à Dona Pereréca e ao futuro rei. Gastão Ferreira/2012

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