domingo, 28 de outubro de 2012

Zuter, o Corvo...

ZUTER, O CORVO...



 Na idade das fábulas um primo em décimo grau de Zeus foi expulso do Olimpo e exilado próximo a uma grande ilha, seu nome; - Zuter!
 O motivo da exclusão estava ligado ao uso excessivo de Néctar e Ambrosia misturada a canabis, ópio, cocaína, crake, saquê, uísque, tequila e cachaça.

Zuter era belo como só pode ser um descendente dos deuses olímpicos, mas sua alma era negra como as asas da mais negra gralha, entre os imortais era conhecido como Zuter, o Corvo!

 Na realidade Zuter era um tarado, um abusado que transou com a Medusa e não se transformou em pedra. Teve casos com a Esfinge, a Górgona, um Centauro, um Sátiro e com diversos heróis que compartilharam de seus porres homéricos.

 Nenhum escritor, dramaturgo, poeta, vate ou doido varrido ousou contar a verdadeira história de Zuter, o expatriado do Olimpo. Em principio por temerem a ira de Zeus e seus mortíferos raios, pois revelar os podres dos poderosos sempre foi fatal a um reles mortal, depois por puro medo das fogueiras da Santa Inquisição medieval. Assim a lenda de Zuter, o Corvo, seguiu para o esquecimento até o dia em que um pergaminho foi encontrado na Caverna do Ódio e o mito reviveu.

A tradução foi demorada e controversa, pois Junica, a Purpurina-má, um gay perverso que odiava a quem matasse a cobra e não lhe mostrasse pessoalmente o pau, não aceitou a versão oficial julgando que se tratava de sua própria biografia. Quando o rei Corrupto-I foi destronado e Junica finalmente perdeu o cargo de “A bostinha cheirosa” e foi rodar bolsinha em outra freguesia, a história de Zuter foi revelada ao mundo.

 A irmã lésbica dos Três Porquinhos teve um surto e arranjou um amante pela primeira vez na vida, Dina Hipopótamo começou a sério um regime, vovó Nachel passou meses bebendo água e quase pirou, Dito Cheira-cheira descobriu o aroma das flores e virou Beija-flor, as Garotas do Mal viraram crentes e as Meninas do Bem se entregaram a mais deslava orgia e tudo isso ocorreu após a leitura da terrível saga de Zuter, o Corvo.

 O manuscrito ficou conhecido como “A maldição do Corvo”, pois a todos que conheceram seu conteúdo algo de muito estranho ocorreu. Zé Machão leu e na mesma hora saiu em desabalada carreira pelas ruas gritando; - “Meu nome é Leila!... Me comam... Me comam!”. Dona Benvinda, uma rica anciã de noventa e seis anos, abandonou seu Ventura após um abençoado casamento de mais de setenta anos e se juntou a Mequetrefe, um garoto de quinze anos usuário de drogas e foi muito infeliz. Dona Margot, a francesa, deu tudo o que tinha aos pobres e foi morar embaixo de uma ponte, pegou uma pneumonia e desencarnou prematuramente. Um jovem e honesto político perdeu o mandato e desapareceu por oito anos sem deixar saudades. Alguém muito conhecido caiu de uma moto parada e quase perdeu a perna. Um menino recém-alfabetizado ao ler, a muito custo o manuscrito, criou barba na mesma hora e fugiu com um circo que visitava o povoado.

 Os cidadãos se reuniram e pela primeira vez na vida não soltaram foguetes, simplesmente imploraram ao poder constituído que todas as cópias do nefando manuscrito fossem destruídas e o original colocado numa garrafa hermeticamente vedada e lançada ao mar... Assim foi feito segundo a vontade do povo e até hoje não entendi o porquê de jogarem no mar o tal pergaminho, coisa de loucos, acho eu!

O que ninguém sabe é que uma única cópia sobreviveu. Junica a Maldita escondeu uma reprodução do texto original para futura vingança... Quem viver lerá! A lenda de Zuter, o Corvo definitivamente ainda não morreu.

Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Visitas...

A NUVEM BABACA... As nuvens são seres estranhos, por vezes se juntam em grandes rebanhos formando curiosos desenhos no céu. Outras vezes se mostram solitárias e ficam horas espiando as pessoas e os animais. Choram com facilidade e suas lágrimas alagam ruas e cidades. Meu cunhado Paulo foi adotado por uma nuvenzinha desde o berço... Sua mãe se esqueceu de fechar a cortina do quarto e uma pequena nuvem solitária se encantou pelo pimpolho; - “Que criança linda! Vou segui-lo por toda a vida.” disse a acanhada nuvem babaca e jamais olvidou a promessa. Essa paixão, com o passar do tempo, transformou-se em um incômodo. Onde estava o guri sempre chovia... Choveu no seu primeiro aniversário e em todos os outros eventos ao ar livre dos quais participou. O fato foi comprovado diversas vezes... Calorão e muito sol nas praias de Tramandaí! Bastava Paulo chegar e era o maior aguaceiro... Três meses sem chuva em Iguape! Paulo chegou... Chuva! Os presentes de aniversários de Paulinho eram sempre os mesmos, capas de chuva, galochas, guarda-chuvas... A única coisa boa em tudo isso é que o garoto recebia muitos convites para visitar lugares áridos. Bem antes de completar quinze anos conhecia todo o nordeste brasileiro, o deserto de Atacama no Chile e parte da África. A parte ruim dessa história é que não era bem visto em campeonatos esportivos, corridas de carros, feiras livres e demais ocorrências que necessitassem de sol para terem sucesso. Jamais assistiu a um grenal, a uma missa campal, a uma procissão, nunca desfilou na Semana da Pátria ou na Semana Farroupilha... Paulo adora pescar e recentemente recebi sua visita... Tarde de sol! Fomos curtir uma praia em Ilha Comprida, por precaução ficamos sob um guarda-sol para que a nefanda nuvem não o encontrasse, o céu estava azul e minha irmã aproveitava ao máximo a água tépida daquele mar sem fim, bastou meu cunhado sair da segurança do guarda-sol e a nuvenzinha babaca que o segue, o avistou; - “É ele! É ele! O meu guri...” e quase se desmanchou de tanto chorar.Resultado! Chuvisco, frio e chuva... Acabou o passeio. Saíram com chuva do Rio Grande do Sul em busca do sol de Iguape onde não chovia há três meses. No sul o tempo clareou... Muito sol, muito calor... Em Iguape garoa e frio! Ao voltarem encontraram chuva no sul e Iguape amanheceu com um céu límpido, pois é a tal nuvenzinha babaca os seguiu e mais uma vez essa estranha história foi comprovada, mesmo assim passearam bastante, subiram no Morro do Cristo, visitaram a Fonte do Senhor, curtiram o Centro Histórico, tomaram parte na procissão de Nossa Senhora das Neves, perambularam na Beira do Valo, apreciaram nossos pontos turísticos e prometeram solenemente voltarem para conhecer a Juréia e nossos bairros rurais... Com nuvem babaca ou sem nuvem agradeço a visita... Voltem sempre! Fiz questão de que bebessem da água da Fonte para garantir o retorno... Kkkk. Gastão Ferreira/2012 Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ao novo Rei...

PRÓXIMO CAPÍTULO Quando chegou ao fim o nefasto reinado de Mãos Limpas a meiga, educada, honesta e trabalhadora rainha seguiu para o esquecimento e um novo rei, apelidado de Coração Vermelho, foi coroado. Após sangrentas batalhas entre os três concorrentes ao trono, muita difamação, bandeiradas e trocas de fogos de artifícios, Ribas-I foi coroado vencedor. A plebe vil foi cevada durante dois meses por todos os candidatos, esse ritual é tão arraigado que se transformou em tradição e ninguém ousa contestá-lo. Churrascos e bebidas a vontade engordaram o povo, promessas de melhorias e juras de eterno amor encantaram a população. Um jovem e riquíssimo príncipe, filho adotivo da rainha, nem sequer convidou a velha mãe para participar de suas palestras perante os súditos, aparentemente a honrada soberana já estava destronada há muito. Era o príncipe quem mandava e desmandava no reino em constante decadência, seus seguidores buscavam a continuidade e tudo era válido para a obtenção do intento. Na noite em que Coração Vermelho foi aclamado o novo soberano o povo correu a lhe prestar vassalagem... Coisas estranhas aconteceram. Pela primeira vez na vida uma dondoca da velha nobreza provou ao lado da plebe um churrasquinho de gato, o esforço valia a pena, quem sabe fosse notada por algum poderoso da nova corte e o rei informado de sua aparente humildade. No reino, aqueles que possuíam condução própria, durante os muitos entreveros entre as diversas facções inimigas escondiam as bandeiras símbolos de cada postulante ao trono em suas casas. Mal saia a decisão, a flâmula do vencedor era alçada da carruagem e mostrada em passeata a fim de confirmar que seu proprietário era amigo do rei desde a infância, esquecidos das fotos em que sorriam abraçados aos concorrentes. Novos tempos se aproximam! Oxalá as promessas sejam cumpridas, que os novos senhores mantenham a humildade no trato com o povo, trabalhem em beneficio da comunidade, mostrem serviço e que o rei escolha entre pessoas capazes seus auxiliares... Não há necessidade de revanchismo, pois toda a corte de Mãos Limpas seguirá para o esquecimento em definitivo... Seus conselheiros colherão do mal que semearam... A escuridão moral e ética passou... Que o reinado de Coração Vermelho seja o inicio de uma nova era de prosperidade... Salve o novo rei! Viva Ribas-I. Gastão Ferreira

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Outra lenda urbana

A MULHER DE PRETO... Meu pai não gosta que seus filhos participem de comícios; -“ Pura perda de tempo! Um falar mal da vida alheia que não leva a nada. Um perigo essa mania de ficar caminhando a noite pelas ruas desertas da cidade, perguntem à sua avó o que aconteceu com nosso primo Dito Mandinga quando resolveu assistir a todos os comícios em uma única noite...” Nunca devemos duvidar, diz minha sensata avó, muitas coisas acontecem entre a Fonte do Senhor e a Passarela, entre o Mar Pequeno e o Porto do Ribeira... Assim Dona Maricota começa mais uma lenda urbana; - “Meu sobrinho Dito Mandinga, aquele que quase foi raptado por um disco voador no Morro do Pinheiro, o mesmo que foi atacado por um Lobisomem no Caminho do Porto, ele pode confirmar que assistir a três comícios numa mesma noite pode se transformar num pesadelo... Vamos aos fatos!” A noite estava esplêndida! Céu estrelado, vento leste soprando e rojões chamando o povo para muitos comícios, Dito Mandinga, jovem pescador de vinte anos dirigiu-se ao Canto do Morro a fim de prestar atenção nas propostas de Sir Ney, um dos candidatos ao cargo de prefeito. Entre as barraquinhas de milho verde, pipoca, doces e salgados, cerveja em lata, batidas e sucos, churrasquinhos e tapioca, notou que uma garota o olhava com interesse... Longos cabelos negros, vestido longo, pele alva de quem não toma sol com frequência... “Uma serracimana” pensou Dito. Tentou uma aproximação, mas no entrevero da multidão acabou não encontrando a moça. Por um bom tempo a procurou, a rapariga havia desaparecido sem deixar rastro... Dito resolveu assistir a outro comício. Próximo a Passarela do Rocio, Antony Rios mostrava ao que veio, o povo atento aplaudia e os vendedores de picolé, xurrus, pamonhas, raspadinha, água de coco e batidas faziam a festa... Dito deu de cara com a garota de longos cabelos negros, dessa vez notou que seus olhos eram tristes, a garota como que assustada fugiu entre a multidão e depois de muita procura em vão, Dito um tanto desgostoso se dirigiu ao último comício no Porto do Ribeira. Mandinga seguiu pela avenida principal, aquela que tem três nomes diferentes... No comício do “estrangeiro”, assim chamado porque o candidato não era do Brasil e sim da França, Dito reencontra a moça de olhar tristonho. Era muita coincidência! Pelo jeito tinham algo em comum, ambos gostavam de comícios, dessa vez nem notou a oferta de caipirinha, espetinho de frango, linguiça na brasa e quentão, foi direto na rapariga sem dar tempo para uma nova fuga. Dito, que em cada comício provava dos comes e bebes, a essa altura do percurso já estava para lá de Cananéia, ou seja, torrado! Com aquele jeitinho tão caiçara de ser se ofereceu para mostrar a Orla do Valo à menina “de fora”... A garota era deveras diferente, quase não falava... Foram andando pela nova ciclovia e no escurinho da paisagem Dito, sem querer querendo, pegou na mão da acompanhante... A mão era gelada! Nesse momento ouve uma transformação... A moça virou a cabeça em direção à água e puxou com terrível força Dita Mandinga para a beira d’água, o vento parou de soprar e Dito horrorizado notou uma tremenda transformação na acompanhante... Seu belo rosto era uma caveira e a veste longa cobria um esqueleto de frágeis ossos brancos... Era a Morte tentando levar Dito Mandinga consigo. Dito a muito custo conseguiu se desvencilhar, aprendeu a lição e nunca mais assistiu a três comícios numa mesma noite, concluiu vovó Maricota com aquele ar misterioso de quem sabe de muitas coisas e guarda segredos desconhecidos de bicho que vira homem, mulheres sereias que atraem quem passa depois da meia-noite pela Orla do Mangue, cachorros que pedem informação a passantes de dentro da escuridão... Muitas coisas acontecem após o escurecer entre a Fonte do Senhor e a Passarela, entre o Mar Pequeno e o Porto do Ribeira... Todo o cuidado é pouco! Vamos dormir que amanhã é outro Dia. Gastão Ferreira/2012

Coisas nossas...

DONA PERERÉCA A mata está em festa, chegou a hora da escolha do novo rei e dos representantes do povo da floresta. A comadre Onça, esperta e matreira, promete a construção de uma ponte ligando diretamente o rio à floresta, é muito ovacionada, isso é, jogam ovos podres no felídeo. O Tatu anuncia que um túnel é a única solução para evitar acidentes com o constante vai e vem no matagal. O Bicho Preguiça promete um teleférico, alegando que todos os animais têm o direito de curtir a magnífica paisagem vista do alto da montanha. O Macaco investe na diversão, muito som e discotecas para a rapaziada. Os candidatos à coroa prometem o paraíso. De todos os habitantes quem mais se diverte com o evento é Dona Pereréca. Não perde comes e bebes... Pereréca bêbada não tem dono, diz um ditado popular. Alguns dos candidatos fazem questão de colocarem seus adesivos, ao vivo e a cores, na Dona Pereréca. Bem antes da grande disputa surgiram comentários negativos envolvendo as Pererécas, a família é grande e nunca se sabe quem é parente de quem. Dona Pereréca na atual disputa já ganhou moto, uma reforma na moradia e muito dindim, pois Pereréca que se presa não faz nada grátis para ninguém. Quem trabalha de graça é o compadre Burro e quem acredita em promessas é o compadre Coelho, que vira chaveiro. O Quero-quero vive de pedir favores e sempre indeciso não sabe em quem votar. O Pardal, como sempre encima do muro, no final vai aderir ao vencedor. O Bem-te-vi não perde comício e comenta tudo o que vê. Na floresta sempre foi assim, nunca deram sossego a Dona Pereréca, não seria nessa disputa que um costume tão arraigado desapareceria. Nas eleições anteriores famílias foram desfeitas, escândalos abafados e concorrentes se aproveitaram das jovens e fogosas Pererécas para ferrarem com adversários. A estirpe das Pererécas é antiga e a linhagem não corre risco de extinção... Atualmente as Pereréquinhas são mais desinibidas, sentem orgulho do que fazem e ficam horrorizadas ao saberem que antigamente se prendiam as Pererécas sapecas. Os Gaviões agradecem, as Cobras têm botes certeiros e os Veados nem ligam, são herbívoros... A floresta um dia aprenderá a valorizar a incansável Dona Pereréca, sem ela a mata é triste, os pássaros não cantam, os lobos não uivam, os peixes desaparecem e o sol não brilha. Vida longa à Dona Pereréca e ao futuro rei. Gastão Ferreira/2012