sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma história banal...

A ESPERTA CATRINA... Catrina nasceu com nome de furacão, desde o prézinho mostrou ao que veio. Jamais dividiu sua merenda com algum colega, preferia o escambo ou simplesmente a grana; - “Jujú esse lanche está uma delícia! Quer trocar por sua caneta de tinta vermelha? Vendo ele por dois Reais.” Seu sonho era ser num futuro longínquo diretora de escola municipal no colégio frente a sua casa; -“Não vou me matar de estudar para ganhar uma mereça! Nem fazer concurso com cartas marcadas... Todos dizem que ser diretora de escola municipal será a profissão do futuro... Ordenado de marajá, auxílio transporte para quem mora a uma quadra do educandário, cesta básica, uma sala com ar condicionado. Já estou fazendo as amizades certas, ontem emprestei cinco Reais ao Joca, filho do vereador Tigrinho... Nunca se sabe! Se Joca seguir os passos do pai poderá ser prefeito da cidade...” A vida nem sempre é o que sonhamos. O existir é o que é; - Uma viagem dentro do tempo... Catrina perdeu os pais e foi viver com uma tia na zona rural... Parou de estudar, aprendeu a plantar legumes e sobreviveu para novos sonhos. Semi alfabetizada, descolou um emprego como cobradora de ônibus. Conheceu muitas pessoas e fez muitos favores aos passageiros. Sem estudo, sem um curso profissionalizante, não poderia prestar nenhum concurso público, nem o ensino básico concluíra e a única saída era a política. Os políticos eram os mandantes na pequena cidade, faziam o que queriam, não davam a mínima para a opinião pública, ganhavam dinheiro a rodo, se comportavam como cidadãos acima de qualquer suspeita e a única exigência para tanto, era que soubessem assinar o próprio nome... Coisa estranha! Dos que deviam entender de leis, de projetos, de economia e turismo, nada era pedido em conhecimento específico... Acreditavam que aprenderiam com a vida, ou com os colegas mais experientes. Catrina se candidatou... Quem não ficaria encantado com a história da pequena órfã! Caiu nas graças do povão; - “Veja meu filho! A jovem Catrina, sem eiras e nem beiras, está indo a luta e você fica por aí fumando maconha.”, “Vá se ferrar seu bêbado safado!” respondia educadamente o filho drogado. Catrina conquistou seu primeiro mandato como representante do povo, aprendeu rápido o osso dourado do ofício e nunca mais largou as fartas tetas do erário público... Com o tempo participou de todas as maracutaias possíveis, todos tinham o rabo preso com ela... Na verdade Catrina era um arquivo vivo da lambança geral. Os muito pobres e que trocavam o progresso pela paga de uma conta atrasada, uma dose de pinga, uma corrida de táxi, tinham em Catrina uma fonte perpétua de pequenos favores. Na verdade ela estava se lixando para os problemas da população, sabia que se fossem solucionados ela seria desnecessária como representante dos oprimidos, a situação carente devia ser mantida custasse o que custasse. Um dia a casa cai, diz o ditado... Demorou, mas um dia a casa de Catrina caiu... A polícia federal fechou o cerco, os comparsas se escafederam, os puxam sacos sumiram... Na mansão foram encontrados dólares, euros, barras de ouro e muitas joias. Geladeiras velhas, gavetas e até o piano da sala servia como esconderijo da grana surrupiada... Sem curso superior foi engaiolada como pessoa comum... Adeus Catrina! Não falei que a vida é uma viagem através do tempo? Na prisão Catrina recebeu a visita de Joca, aquele garoto filho do Tigrinho, a quem ela emprestara cinco Reais jamais devolvidos. Joca não seguiu os passos do pai, entrou para o fascinante mundo das drogas e ficou milionário... Estava tentado a explorar novos mercados, emprestar dinheiro a juros aos mais necessitados, abrir pontos de vendas em outras cidades. Propôs a Catrina uma sociedade... Pagaria um bom advogado que a livrasse da prisão e com a experiência de Catrina na manipulação dos menos favorecidos ficariam riquíssimos. Os corpos de Catrina e Joca foram encontrados na mata, mãos amarradas, marcas de tortura, ossos quebrados... O jornal noticiou que foi uma guerra entre quadrilhas de traficantes... Na pequena cidade ninguém acreditou como também não acreditam que uma pessoa que se diz honesta, com um salário razoável, possa comprar fazendas, mansões, pontos comerciais, casas e apartamentos em outras cidades. A vida é apenas uma pequena viagem através do tempo, chegamos de mãos vazias e de mãos vazias partimos... Definitivamente; - Adeus Catrina! Gastão Ferreira/2012

Nenhum comentário: