quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Toninho das Virtudes...

ENTREVISTA NA RÁDIO... A rádio oficial resolveu entrevistar ao vivo os edis de uma pequena cidade. O entrevistado de hoje é Sua Excelência, o nobre vereador Toninho das Virtudes, quem faz as perguntas é Dinho da Viúva, dono da emissora; - “Vossa Excelência foi fotografado na recente exposição de Pinturas e Grafites do município... Um querido ouvinte gostaria de saber desde quando o senhor é amante do belo?” - “Meu caro da Viúva, primeiramente quero deixar claro que eu sou muito macho e não admito suspeitas sobre minha opção sexual... Digo e afirmo que não conheço o Belo, nunca conversei com o Belo e não sou amante desse mequetrefe...” disse colérico o representante do povo. - “Calma nobre vereador! Estou me referindo as Belas Artes...” balbuciou Dinho da Viúva. - “E por acaso o senhor acha que eu conheço alguma sirigaita chamada Belas Artes? Respeite a minha Excelência! Não sou daqueles que não perdoam nem gente da própria família. Sou casado com dona Vesúvia há vinte anos e somos felizes...” gritou indignado o vereador. - “Vamos saltar essa parte sórdida! Outro atento ouvinte quer saber qual a sua opinião sobre o prédio histórico tombado, Correio do Velho... Vossa Excelência é a favor ou contra uma reforma definitiva do mesmo?” inquiriu o jornalista. - “Totalmente favorável! Aliás, sou a favor de várias reformas em todos os velhos prédios da cidade... Parece que tem uma cabeça de burro enterrada no Correio do Velho... Já deram um abraço de despedida, choraram, gritaram, soltaram foguetes, fizeram teatro e nada... Nem uma porta foi colocada e ninguém explica para onde foi o dinheiro tão anunciado e nunca utilizado...” desabafou o vereador. - “Vereador o senhor tem ideia de onde foi parar o dinheiro?” - “Que dinheiro?” - “O dinheiro que chegou para reformar o Correio do Velho...” - “Não sei de nenhum dinheiro!...” - “Vossa Excelência acabou de informar que nem uma porta foi colocada e o dinheiro sumiu...” - “Meu caro entrevistador, não distorça as minhas palavras... Cidadão! Eu afirmei que o dinheiro ninguém viu e não viu mesmo! Ele não chegou ao município...” - “Como não chegou! Sua liberação mereceu até nota no jornal mais lido da cidade...” disse Dinho da Viúva, mostrando o jornal ao entrevistado. - “Problema do jornal! Eu hein!” - “Vamos encerrar a entrevista... O senhor gostaria de mandar um recado aos nossos ouvintes?” - “Caros ouvintes, amigas e amigos admiradores de meu árduo trabalho em benefício de nossa querida cidade, conto com vocês! Na próxima eleição quero continuar contribuindo com a moralidade, a ética, a transparência no trato da coisa pública... Chega de impunidade... Chega de sacanagem... Seu voto é muito importante, votem no trabalho, na experiência, na dignidade... Votem em mim! Toninho das Virtudes... Obrigado!” Gastão Ferreira/2012

sábado, 15 de setembro de 2012

É mentira... É mentira...

O DESPERTAR... Dito Berne era o retrato de nossa amada cidade. Manjuba seu prato predileto, encantava-se com foguetes, participava de procissões, se esbaldava em diversos blocos carnavalescos e em época de campanha eleitoral não perdia comícios. Foi devido a um comício que sofreu um leve derrame cerebral. Os candidatos se esmeravam na letra das músicas de campanha, pois era nas letras que eles falavam de seus planos, das futuras realizações e pediam voto ao eleitor. Dito, crédulo como só pode ser um eleitor iguapense, prestava atenção nas propostas majoritárias e de repente passa um carro de som cantarolando; É mentira... É mentira... É mentira... É mentira... O mundo de Dito Berne apagou. Os familiares imediatamente chamaram uma ambulância e Dito foi levado a Pariquera, cidade onde nascem todos os filhos adotivos de Iguape, entrou em coma profundo e assim permaneceu por três anos. Acordou no ano de 2015, saudável e saudoso de sua querida cidade, seu irmão, Beto Berne, foi buscá-lo no hospital. No caminho de volta ao lar a conversa era amena. Ficou sabendo do casamento do irmão e do nascimento do sobrinho; - “Parto normal?” perguntou Dito. - “Sim, o novo e moderno hospital construído no Rocio dispõe de uma excelente maternidade!” disse o irmão. - “Ora, veja só! Então finalmente temos uma Saúde de primeiro mundo...” murmurou Dito Berne. - “O hospital é imenso... Na verdade estamos com falta de pessoal especializado, tem até mesmo uma ala para recuperação de drogados...” informou Beto Berne. - “Nem tudo pode ser perfeito, não vejo a hora de passar pela Barragem, aí sim acreditarei que estou em casa...” disse Dito Berne com o olhar saudoso. - “Agora temos uma moderna ponte, a Ponte Tigrinho, ligando o centro da cidade ao bairro do Rocio... Está situada entre o Porto da Balsa e o Mario Ferros...” informou Beto. - “Mano Betico! Acho que você errou o caminho... Vejo lá na frente muitos edifícios...” falou preocupado Dito Berne. - “São as novas edificações de dez andares e todas possuem elevadores panorâmicos... Os turistas pagam para desfrutar da belíssima paisagem vista do alto dos prédios...” informou orgulhoso Beto Berne. - “Meu Bonje! Estou ficando louco. Estou vendo um disco voador!...” gritou angustiado Dito Berne. - “Calma maninho! Aquilo é o bondinho do teleférico...” riu Beto Berne. - “Que beleza! Então o candidato a vereador cumpriu a palavra?” indagou Dito. - “Todos os vencedores cumpriram o prometido...” informou Beto. - “Realmente estou assombrado e olha que eu não botava fé nas propostas... Recordo que assisti a quatro comícios e estava um tanto indeciso... Lembro-me de três candidatos, o garotão que prometia que “chegou a hora e a vez da mulher iguapense”, o que traria cursos profissionalizantes e um moderno hospital e outro que garantia uma devassa geral nas contas públicas, exílio perpétuo aos pilantras e a chegada do progresso... Afinal quem venceu?” perguntou Dito Berne. Nesse exato momento quando Dito Berne finalmente descobriria qual o candidato ficha-limpa, ético, honesto, trabalhador que conquistara o mandato, um grupo de jovens frequentadores de Opens-bar fecharam a pista exigindo a proibição de a velharada andar no centro histórico... Centenas de pedintes com cartazes “nóis é gente e quer respeito”, entraram em atrito e sobrou pancadaria. Dito Berne comentou com o irmão; - “Nem precisa me dizer quem venceu... Iguape é única e eu amo esta cidade... Só em Iguape mesmo! Meu bonje! Estou em casa.” Gastão Ferreira/2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Boa viagem

RITUAIS FÚNEBRES... A longa jornada evolutiva do homem sobre o planeta Terra se perde nas entranhas do tempo. A ideia de uma parte imaterial do ser humano sobreviver à morte criou os rituais fúnebres. Os paleontólogos encontraram junto aos esqueletos do Homem de Neandertal (300.000 a 29.000 A.C.)ornamentos, em covas cuidadosamente escavadas, decoradas com flores e outros motivos simbólicos, uma evidência de crença na vida após a morte. A mumificação, especialmente em pessoas mais proeminentes, era comuns entre os Incas e os egípcios, ambos os povos acreditavam na reencarnação. Os Maias enterravam seus mortos em imensos palácios e criam em três planos no cosmo; A terra, o céu e o submundo. A cremação é outro dos processos mais antigos praticados pelo homem. Entre os gregos e os romanos somente os criminosos, os assassinos, os suicidas, as pessoas fulminadas por raios (Uma “maldição” de Zeus/Júpiter) e crianças falecidas antes de nascerem os dentes eram enterradas. No Japão a cremação foi adotada com o advento do Budismo em 552 D.C. As cremações mais antigas datam de 60.000 anos em Nova Gales do Sul (Austrália), junto ao lago Mungo, tal prática é comum, nos dias atuais na Índia. O sepultamento foi adotado pelos cristãos após o papado ratificar o dogma da Ressurreição dos Mortos no juízo final. Na Europa, os sepultamentos dentro das igrejas eram comuns até a chegada da Peste Negra quando as igrejas não comportavam mais tantos corpos e os cemitérios foram instituídos. No Brasil colonial e imperial os sepultamentos dentro das igrejas existiram até o ano de 1820 quando foi proibido, momento em que construíram os primeiros cemitérios. Até então somente negros escravos e indigentes eram enterrados fora das igrejas. Os homens livres eram sepultados nas paredes laterais e subsolo nas igrejas, por isso o tamanho de uma cidade era medido pela quantidade de igrejas que possuía, pois as igrejas faziam o papel de cemitério. O homem primitivo possuía uma vaga ideia do alem túmulo, pouquíssimas pessoas desacreditavam da continuação do ser. Todos os povos que cultuavam algum deus ou deuses acreditavam no há de vir... Assim os Indús com seus ciclos carmicos de contínuas reencarnações partiam e voltavam do Amavarti, os Nórdicos do Walhalla, os Maias do Metmal, os Japoneses do Yomi, os Incas do Uru Pacha, os Islâmicos do Jannah, os Sumerianos do Ki Gal, os Hebreus do Sheol, os Chineses do Diyu, os Celtas do Annwn, os Astecas do Mictlan, os Babilônios do Kurnugia, os Budistas di Nakara, os Cristãos do paraíso ou inferno, os Egípcios do Amenti e os Gregos dos Campos Elíseos ou do Hades. O povo egípcio tinha verdadeira fascinação pelo o que ocorria com o Ka (espírito) após a morte física, possuía rituais específicos contido no Livro dos Mortos para salvá-lo dos tormentos eternos. Os Gregos acreditavam que as almas dos recém-mortos eram transportadas por Caronte, o Barqueiro do Hades, para a outra margem dos rios Estige e Aqueronte, rios que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Tudo o que nasce morre, um dia partiremos para o mundo espiritual. Quem não crê parte certo de que morreu para sempre... Quem acredita espera estar junto a seu Criador orando e louvando. E, tem muitos que querem retornar a matéria e aprender muitas e muitas coisas que desconhecem... Façam suas escolhas e Boa Viagem rumo à eternidade. Gastão Ferreira/2012

O temível Conde Phat...

UM PASSO ALEM DO JARDIM... Marisol era uma garota privilegiada. Como não ser feliz se vivia em uma cidade tombada, com o patrimônio histórico e artístico totalmente preservado? Indagava a seu cãozinho Junior Sapeca e o cachorro abanava o rabo e fazia-lhe mil festinhas. Seu pai, o poderoso e nobre Conde Phat, era cuidadoso com seu feudo. As casas coloniais pintadas gratuitamente nas cores originais, calçadas de pedras seculares com seus encaixes perfeitos, evitando tombos e quedas... Nunca ninguém teve a coragem de perguntar ao nobre e ranzinza Conde Phat como ele sabia qual a cor original dos prédios antigos, a fotografia colorida foi inventada no século XX e as casas preservadas são do século XVII... Eu hein! Um dos passatempos prediletos de Marisol era brincar no grande jardim público, conhecido como a Fonte do Senhor, o local era deveras aprazível, com suas águas cristalinas, lago com muitas espécies de peixes nativos, estátuas, quiosques, onde se respirava parte da história da cidade... Seu riquíssimo tio, o senhor Iphan, que metia o nariz em tudo que fosse relacionado com patrimônio histórico, lhe contara que muitas das árvores do grande jardim foram transplantadas diretamente da velha Praça da Matriz para a Fonte do Senhor. Na antiga Praça existiu um orto florestal com plantas exóticas. Prometeu levar a sobrinha para conhecer todas as árvores, pois elas possuíam uma placa indicando o país de origem. A cidade contava com cinco chafarizes públicos e a menina Marisol acompanhava a escrava encarregada de buscar a água. Muitas vezes a fila era tão longa que ficavam horas na espera da vez. Nesse local se sabia das novidades e das fofocas; - “Nhá Gardina, muié do coroné Aristides, bateu de cinta na sinhazinha Mathilde onti à noitinha... Nhanhá suspirou ao ver da janela o garboso mancebo Othoniel... Hi, aí tem dente de cuelho!” Marisol foi proibida de assistir aos açoites dos escravos no pelourinho, era muito infantil e poderia não entender o porquê das autoridades gostarem tanto de espancar os cativos, no burgo existiam cinco pelourinhos e aja chicotada... Pela manhã acordava cedinho, o mais tardar às seis horas, também como dormir com o festival de sinos badalando enlouquecidos, era três igrejas, bem próximas uma das outras, competindo na barulheira. Antes do café matinal acompanhava sua mãe à missa, na volta tomavam o desjejum, pois a senhora sua mãe comungava e se confessava diariamente... A menina Marisol não entendia o porquê de tanta confissão. Sua genitora era uma alma pura e humilde. Espancava a criadagem, mas surrar escravos não era pecado e sim uma forma de educá-los. A cidade em que Marisol cresceu era muito rica, possuía um grande porto, tirando a elite que sempre viveu de nariz empinado e fazendo cara de nojo para com os pobres, as pessoas eram hospitaleiras e festeiras... Uma localidade para ninguém por defeitos. A história de Marisol data do final do século XIX, a cidade cresceu, a escravidão acabou. O progresso fugiu e o tempo levou para o esquecimento todos os sonhos... Para alem do jardim, os fantasmas do senhor Conde Phat e de seu irmão, o senhor Iphan ainda tentam dominar a cidade com promessas invisíveis. A um passo alem do jardim a realidade é outra, os antigos casarões desmoronam, os pelourinhos desapareceram, os chafarizes foram para o lixo... A parte boa dessa história é que nhanhá Mathilde fugiu com o garboso mancebo Othoniel e foram felizes para sempre. Gastão Ferreira/2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Dito Barbeiro...

O ESPELHO E O TEMPO Esse espelho é o meu instrumento de trabalho. Há mais de setenta anos ele conhece o meu rosto. Meu nome é Benedicto Pereira, o Dito Barbeiro da Praça da Basílica... Aqui cheguei em 1957 vindo de Registro para substituir um colega por oito dias e fiquei em definitivo. Foram quatro horas de Registro a Iguape e o ônibus era da empresa Litoral Sul Paulista, cidade pequena com ruas de terra, praticamente uma ilha. A única entrada por terra ligava o bairro do Rocio a Pariquera. Todos os caminhos eram aquáticos. Não havia a barragem nem passagens para os bairros rurais de Jairê, Mumuna, Peropava, Pé da Serra, Icapara e Barra do Ribeira, estrada para São Paulo nem pensar. Lembro que a periferia terminava na Rua Ana Cândida, depois, casas só no Porto do Ribeira. Presenciei o surucar do Valo Grande, em uma única noite a água desapareceu com dezenas de moradias. Uma tragédia! Mais de vinte metros das margens desmoronaram e as pessoas perderam tudo o que possuíam. Não cheguei a conhecer o chafariz nem o coreto que ficavam atrás da Igreja Matriz, mas lembro do belíssimo chafariz frente ao Fórum atual, também não conheci o Pelourinho. Quando cheguei a Iguape o prefeito era Casimiro Teixeira, os quinze prefeitos que o sucederam foram meus fregueses. Minto! Dona Bete nunca cortou o cabelo comigo. Por meu salão passaram padres, os bispos Dom Aparecido e Dom Luiz, o bispo de Santos, pastores, pais de santo, gente de todas as religiões, pessoas de perto e de longe, a fina flor da sociedade, ricos e pobres, loucos, pedintes, romeiros. A todos tratei com o devido respeito e consideração. Seus comentários, se os houve, foram esquecidos. Tem vezes que me olho nesse espelho tempo e me vejo jovem. Um rapaz de 21 anos em busca de um sonho. Alguém que confiou no trabalho honesto do dia a dia para ganhar o merecido pão. Há 55 anos Iguape era bem diferente, duas farmácias, a Bom Jesus e a Colombo... Três padarias, a do Miguel Ribeiro, a padaria do Patrício e a de Munitor Cardoso, muitas lojas e todas conhecidas pelo nome dos proprietários, Casa Evaristo, Horacio de Andrade, Gasparino Costa, Bento Neto, Dito Santana e outras. Quatro clubes, o Primavera, o 55, o Supimpa, O Peniche do Porto. Dois cinemas, O Cine Jó no Sobrado dos Toledos era dos padres, o Cine Lamar era do Nenê da Luz. No porto da balsa, lado do Rocio, existia apenas o Bar do João Flora e algumas casas. Fora os pouquíssimos caminhões, o transporte era feito por pequenos barcos e canoas. Não existiam estradas e a cidade terminava no Porto do Ribeira. A Santa Casa e sua maternidade atendiam aos doentes e as gestantes, os romeiros chegavam de pau-de-arara e os cavalos eram proibidos de entrarem na cidade, ficavam aguardando seus donos nos pastos do Rocio. A energia elétrica, fornecida por um gerador, só era ligada das 18 às 24 horas. Era depois da meia noite que começavam as serenatas. Os carnavais foram inesquecíveis, as festas marcavam profundamente... São Benedito, Trindade, Santos Reis, Espírito Santo eram aguardadas com ansiedade e o grande programa era passear na Fonte do Senhor nos finais de semana. As crianças brincavam, os jovens namoravam e as famílias faziam seus piqueniques pondo as novidades em dia. Nas fábricas Palmito Caiçara e Palmito Peniche, moças e rapazes trabalhavam em turnos, mais de duzentas pessoas tinham emprego fixo. Da Serraria Maneco Rocha, que lidava com Caxeta e esteiras de Pirí, muitas famílias tiravam o sustento diário. A Marinha Mercante, a Marinha de Guerra, a Policia Militar, a Prefeitura Municipal davam empregos aos mais instruídos. A pesca era farta e a produtividade na área rural garantia a sobrevivência da população. Esta foi a Iguape de minha mocidade, uma cidade ordeira, sem pedintes, sem drogas, sem assaltos. Gente pobre, mas de uma alegria contagiante, os romeiros ficavam nas casas dos conhecidos de outras Festas. O povo era extremamente gentil, igual à hoje, não perdiam uma oportunidade de contar uma boa história e fazer amizade. O passeio em volta da Praça da Matriz era o programa favorito a uma saudável paquera. Moças caminhando num sentido, rapazes em outro, o famoso “footing” e foi assim que conheci Ruth Ribeiro, o amor de toda uma vida... Namoramos por quatro anos, casamos e vieram os filhos Edson Ribeiro Pereira e Marli Ribeiro Pereira, ambos professores e formados em nível superior. Temos quatro netos, os filhos de Edson, a neta Milena é formada em odontologia, Mayara estuda medicina veterinária e Edson Junior cursa engenharia. O filho de Marli, meu neto Rodrigo, será o mais novo dentista da família. Quem me entrevistou, perguntou se minha vida valeu a pena? Qual o recado a ser mandado? Nenhum recado! Eu respondi... Trabalho desde os dez anos de idade, sou um homem que estudou até a quarta série do primário, alguém que sempre trabalhou honestamente como barbeiro, alguém que conheceu muitas autoridades, juízes, delegados, doutores, religiosos graduados, pessoas ricas e pessoas sem posses, a todos atendi sem distinção... Realizei meus sonhos, digo que fui alem do que ousei sonhar. Tenho uma família da qual me orgulho, bons filhos e excelentes netos, mas nada disso teria ocorrido se numa tardinha na Praça da Matriz, uma mocinha linda, tão sonhadora quanto eu, com estrelas nos olhos, que por cinquenta anos compartilha minha vida, chamada Ruth Ribeiro não tivesse me aceitado como esposo. A essa amiga, essa companheira, essa metade de mim, essa terna luz que me ilumina, eu agradeço toda a felicidade alcançada. Esse espelho é o meu instrumento de trabalho. Há mais de setenta anos ele conhece o meu rosto... Conhece cada ruga com que o tempo me presenteou, partilhou das minhas poucas dores e das muitas alegrias... Sorriu ao jovem sonhador e ainda sorri ao velho companheiro de trabalho. Ele sabe o quanto sou grato ao Criador e o quanto sou feliz... Obrigado. Gastão Ferreira/2012

sábado, 8 de setembro de 2012

Apenas uma tradução...

COISAS DE PINDAÍBA... Para os que desconhecem nossas lendas... Pindaíba foi um reino situado na Amazônia legal, um pedaço do Paraíso que tinha tudo para dar certo, água em abundancia, montanhas verdejantes, um povo hospitaleiro que adorava debochar de si mesmo e que sabia que a vida é apenas um pequeno sopro na imensidão do universo... Lendas de Pindaíba são textos encontrados numa antiga caverna e escritos em Nheengatú (a língua boa) a linguagem coloquial dos silvícolas brasileiros, também conhecida como Língua Geral. Os escritos originais foram traduzidos e publicados em (www.gastaodesouzaferreira.blogspot.com) onde poderão ser consultados a qualquer hora pelos interessados nessa antiga civilização desaparecida no tempo. Abaixo mais um texto traduzido; “Foi no império de Imbethsilda-I que as sombras da impunidade dominaram o fantástico Reino de Pindaíba. Há muito as forças do mal rondavam a aprazível localidade, mas os nove Cavaleiros Guardiões, mantenedores da ética e da moralidade combatiam sem trégua o temível monstro. Imbethsilda-I foi coroada rainha por seus próprios méritos, advinda da comunidade dos Guardiões, sempre se mostrara atuante e honesta. Mal assentada no trono, escolheu pessoalmente seus conselheiros íntimos, pajens e o Bobo da Corte. Até hoje permanece a dúvida! Ela sabia ou não que a maioria dos integrantes de sua corte pessoal estava mancomunada com a escuridão? Tadinha da Imbethsilda-I! Foi um período de sofrimento para os habitantes do reino. Saúde deficitária, falta de emprego, prostituição infantil, assassinatos, aumento no tráfico de drogas e invasão de pedintes, marcaram profundamente sua triste passagem pelo trono de nossos ancestrais. Os nove Cavaleiros Guardiões fecharam os olhos aos desmandos da rainha e sua corte de farsantes. Nunca na longa história do reino um seleto grupo de súditos foi nomeado para altos cargos com rendas tão elevadas. A justificativa era que tais pessoas possuíam dotes especiais tinham douto saber e outras invencionices nunca comprovadas. No reino a pobreza era endêmica, apesar dos belos palacetes, reluzentes carruagens e fogosos corcéis Honda e Yamaha, os súditos se trocavam por qualquer bugiganga, uma dentadura, um churrasco, uma lata de cerveja, uma carícia mais ousada, um tapinha carinhoso nas costas, um subemprego para um filho ou parente... Esse era o costume ancestral, essa era uma das razões pelo entrave do progresso. O reino sobreviveu à falta de transparência, a ganância, a imoralidade administrativa. A diferença das outras vezes em que o reino foi sacudido pelo vendaval da politicagem é que os reis foram depostos e execrados publicamente. Desta vez as sombras da mediocridade e pilantragem alastraram suas negras raízes entre a juventude... Chegou a hora de Imbethsilda-I passar a coroa ao seu sucessor legal. Três nobres cavaleiros disputam o trono de Pindaíba, à saber; - O Cavaleiro Jacaré, cognominado O Jovem... O Cavaleiro Coelho, conhecido como ex-guardião mor da moralidade pública... Por último o Cavaleiro Elefante, apelidado O Estrangeiro... Todos são fãs do Jogo do Bicho e com doutorado nos obscuros caminhos da política regional. A rainha escafedeu-se nas entranhas do Palácio Real. Mimoseou suas princesas com belas mansões, pagas a vista e sem choro. Enquanto as magníficas obras de sua administração racham e desmoronam antes da inauguração, os canais aquáticos se tornam inavegáveis, as crianças nascem em solo estranho, a soberana, com sua estranha mania de guardar seu ouro em seu piano, continua a manipular os menos esclarecidos com acenos e beijinhos de dentro de sua luxuosa carruagem. Os duelos verbais entre os três cavaleiros pretendentes ao trono ajuntam multidões e mechem com o imaginário popular... Rojões são detonados dia e noite... Visitas em horas indesejadas irritam as donas de casa... Som altíssimo nas ruas... Estandartes nas estreitas calçadas enervam os transeuntes... Retratos de desconhecidos entulham a maioria das caixas de correspondência. Alem dos três pretendentes ao trono, perto de cento e sessenta cidadãos da mais fina origem e ilibado conhecimento, disputam entre si os nove cargos de Veneráveis Guardiões. Pindaíba aguarda com ansiedade e certa curiosidade, o fim das baixarias verbais entre os pretensos Nobres Guardiões, o fim da era das trevas se aproxima e o começo de um novo ciclo, onde a transparência, o bom senso e a civilidade governarão o destino do reino está chegando... Oxalá dê certo dessa vez!” OBSERVAÇÃO NECESSÁRIA - Texto extraído aleatoriamente das “Crônicas de Pindaíba”, Nheengatú é uma língua extinta e de difícil tradução... Aguardem pacientemente a revelação de novos acontecimentos... Qual dos nobres cavaleiros conquistou a coroa? O que aconteceu com a Rainha? Quem são os novos nove Guardiões da moralidade e da ética? Também eu estou curioso para saber... Vamos aguardar! Gastão Ferreira/2012

Uma fábula a mais...

O COVIL DOS SUPER-HERÓIS......... Existe um local, junto ao famoso “Farol do Bagre Solitário”, onde vez ou outra se reúnem os velhos super-heróis. É apenas um ponto de encontro e nada mais. Um esconderijo para matar a saudade, tomar uma cerveja, provar uma carne assada, uma asinha de frango e outros petiscos... Ontem foi noite de reunião. Zorro, de óculos escuros, chicote sado masoquista e capa preta, estacionou sua moto “Silver” frente ao estabelecimento. Uma decadente Mulher Maravilha de barriga um tanto saliente e peitos caidaços, veio a seu encontro; - “Quem bom vê-lo amigo Zorro! Tonto não veio com você?” - “Você não está sabendo? Nosso caso teve um fim inesperado... Fui traído e o tonto do Tonto fugiu para Subauma com o bisneto de Jerônimo, o herói do sertão... Cachorro!” Tocha Humana e Mandrake sentaram a mesma mesa, a mesa dos mágicos. Tocha, envolto em algumas ataduras, reclamava da vida; -“ Velho companheiro de aventuras! Semana passada joguei álcool no corpo inteiro... Toquei fogo, veja o resultado! Estou todo queimado... Creio que perdi meus super poderes.” - “Envelhecemos Tocha! Eu também já não consigo esconder uma espada por completo... Estou tentado a fazer tal mágica com pepinos.” queixou-se Mandrake. Na mesa das super mulheres, entre outras, Sherra, Munhrá, Mulher Invisível, Super-moça, Mulher-gato, Mulher-jaguatirica e Narda, a ex-musa de Mandrake fofocavam; -“ Espero que a irmã do Hulk não dê as caras por aqui” disse Jane, a viúva de Tarzan dos Macacos. - “Por que querida? Ela é tão simpática.” sibilou a Mulher-serpente. - “E também muito sensível! Na última reunião estragou a festa.” lamentou a Mulher-pantera. - “Quem esperava pela passagem de um carro de som eleitoral frente ao Covil! Todos sabem que ao ouvir gritar o número 45 ela se transforma na Garota-aerbag e sobra peitada para quem está próximo...” explicou a Mulher-relâmpago. - “Realmente, alem de quebrar inúmeras garrafas, ela nocauteou umas cinco pessoas...” lembrou Mulher-cascavel. Nesse momento Batman adentrou o recinto, Robin quase careca e alguns fios grisalhos, com uma mini capa roxa cravejada de lantejoulas, um short um tanto justinho para a idade e meia máscara negra, deu uma bela mancada, chamou Batman de Clark Kent e o tempo fechou; - “Meu nome é Bruce Wayne e não é porque você está com Mal de Alzaimer que vou permitir que me confundisse com aquele farsante do Super-homem... Ouviu Júnior?” Estava armada a confusão, três identidades secretas reveladas sem mais nem menos em poucos segundos. Lanterna Verde comentou com Lanterna Vermelha a mancada de Batman; - “Bem que eu desconfiava que a identidade secreta de Robin, o ex-menino prodígio, fosse o Júnior...” - “Quem é Júnior?” perguntou Lanterna Vermelha. - “Aquele tiozinho que fez um pacto com o Senhor das Trevas para obter super poderes...” informou Lanterna Verde. - “São tantos tiozinhos na cidade! Tem velhinho sacana se achando tiozinho até no Face book... Não conheço nenhum tiozinho chamado Júnior...” disse Lanterna Vermelha. - “Aquele que... (sussurrou algo no ouvido de Lanterna Vermelha)... E que... (mais sussurros)... E que ganhou o título de Rainha dos Seguranças no carnaval e... ” - “Quer parar de cuspir no meu ouvido! Esqueceu que fiquei surdo devido a um rojão desgovernado que me atingiu no comício do...” gritou Lanterna Vermelha. - “Quer dizer que sua identidade secreta é Dito Taquara, o único a ser atingido por um foguete durante o comício do...” falou Lanterna Verde. - “Hein! Não estou ouvindo nada. Estou surdo já disse...” choramingou Lanterna Vermelha. Nesse momento tão esperado, em que a máscara de Robin cairia definitivamente, um grupo de jovens supermaus entrou no recinto e tentou acabar com a festa; - “Aí velharada! Vocês já eram... A cidade agora é dos jovens... Chega de coroas tentando impor valores ultrapassados... Ética, justiça, moralidade! Que vão se catar... Chegou a nossa vêis, nóis tem morau de sobra... Aí cambada! Vamo dá um cacete nessas múmias e mostrá à força jovem...” Não foi dessa vez que os Jovens do Mal obtiveram a vitória, na verdade levaram a maior surra. Os velhos super heróis não permitiram que os valores se invertessem... Os super-nóias apanharam prá cacete e talvez tenham aprendido que o respeito, a honra, a verdade, a honestidade e a experiência não podem ser posta de lado quando se quer progresso e um mundo melhor. Capitão America/Iguape/2012 Gastão Ferreira/2012

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma história banal...

A ESPERTA CATRINA... Catrina nasceu com nome de furacão, desde o prézinho mostrou ao que veio. Jamais dividiu sua merenda com algum colega, preferia o escambo ou simplesmente a grana; - “Jujú esse lanche está uma delícia! Quer trocar por sua caneta de tinta vermelha? Vendo ele por dois Reais.” Seu sonho era ser num futuro longínquo diretora de escola municipal no colégio frente a sua casa; -“Não vou me matar de estudar para ganhar uma mereça! Nem fazer concurso com cartas marcadas... Todos dizem que ser diretora de escola municipal será a profissão do futuro... Ordenado de marajá, auxílio transporte para quem mora a uma quadra do educandário, cesta básica, uma sala com ar condicionado. Já estou fazendo as amizades certas, ontem emprestei cinco Reais ao Joca, filho do vereador Tigrinho... Nunca se sabe! Se Joca seguir os passos do pai poderá ser prefeito da cidade...” A vida nem sempre é o que sonhamos. O existir é o que é; - Uma viagem dentro do tempo... Catrina perdeu os pais e foi viver com uma tia na zona rural... Parou de estudar, aprendeu a plantar legumes e sobreviveu para novos sonhos. Semi alfabetizada, descolou um emprego como cobradora de ônibus. Conheceu muitas pessoas e fez muitos favores aos passageiros. Sem estudo, sem um curso profissionalizante, não poderia prestar nenhum concurso público, nem o ensino básico concluíra e a única saída era a política. Os políticos eram os mandantes na pequena cidade, faziam o que queriam, não davam a mínima para a opinião pública, ganhavam dinheiro a rodo, se comportavam como cidadãos acima de qualquer suspeita e a única exigência para tanto, era que soubessem assinar o próprio nome... Coisa estranha! Dos que deviam entender de leis, de projetos, de economia e turismo, nada era pedido em conhecimento específico... Acreditavam que aprenderiam com a vida, ou com os colegas mais experientes. Catrina se candidatou... Quem não ficaria encantado com a história da pequena órfã! Caiu nas graças do povão; - “Veja meu filho! A jovem Catrina, sem eiras e nem beiras, está indo a luta e você fica por aí fumando maconha.”, “Vá se ferrar seu bêbado safado!” respondia educadamente o filho drogado. Catrina conquistou seu primeiro mandato como representante do povo, aprendeu rápido o osso dourado do ofício e nunca mais largou as fartas tetas do erário público... Com o tempo participou de todas as maracutaias possíveis, todos tinham o rabo preso com ela... Na verdade Catrina era um arquivo vivo da lambança geral. Os muito pobres e que trocavam o progresso pela paga de uma conta atrasada, uma dose de pinga, uma corrida de táxi, tinham em Catrina uma fonte perpétua de pequenos favores. Na verdade ela estava se lixando para os problemas da população, sabia que se fossem solucionados ela seria desnecessária como representante dos oprimidos, a situação carente devia ser mantida custasse o que custasse. Um dia a casa cai, diz o ditado... Demorou, mas um dia a casa de Catrina caiu... A polícia federal fechou o cerco, os comparsas se escafederam, os puxam sacos sumiram... Na mansão foram encontrados dólares, euros, barras de ouro e muitas joias. Geladeiras velhas, gavetas e até o piano da sala servia como esconderijo da grana surrupiada... Sem curso superior foi engaiolada como pessoa comum... Adeus Catrina! Não falei que a vida é uma viagem através do tempo? Na prisão Catrina recebeu a visita de Joca, aquele garoto filho do Tigrinho, a quem ela emprestara cinco Reais jamais devolvidos. Joca não seguiu os passos do pai, entrou para o fascinante mundo das drogas e ficou milionário... Estava tentado a explorar novos mercados, emprestar dinheiro a juros aos mais necessitados, abrir pontos de vendas em outras cidades. Propôs a Catrina uma sociedade... Pagaria um bom advogado que a livrasse da prisão e com a experiência de Catrina na manipulação dos menos favorecidos ficariam riquíssimos. Os corpos de Catrina e Joca foram encontrados na mata, mãos amarradas, marcas de tortura, ossos quebrados... O jornal noticiou que foi uma guerra entre quadrilhas de traficantes... Na pequena cidade ninguém acreditou como também não acreditam que uma pessoa que se diz honesta, com um salário razoável, possa comprar fazendas, mansões, pontos comerciais, casas e apartamentos em outras cidades. A vida é apenas uma pequena viagem através do tempo, chegamos de mãos vazias e de mãos vazias partimos... Definitivamente; - Adeus Catrina! Gastão Ferreira/2012

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Anhangá nosso rei e senhor.

A VISITA DOS DEUSES... Os antigos gregos acreditavam que a terra fosse chata e redonda, sendo o Monte Olimpo na Tessália, a residências dos deuses, ou Delfos, o centro do mundo. A abóbada terrestre era atravessada de leste a oeste e dividida em duas partes iguais pelo Mar, nome pelo qual os helenos chamavam o Mediterrâneo. Em torno da terra corria o Rio Oceano, cujo curso era do sul para o norte na parte ocidental do globo e em direção contrária do lado oriental. Era dele que o Mar e todos os rios recebiam suas águas. A parte setentrional da terra era habitada por uma raça feliz, chamada Hiperbóreos, que desfrutavam uma primavera eterna e uma felicidade perene. Na parte meridional, junto ao curso do Oceano, morava um povo tão feliz e virtuoso quanto os Hiperbóreos, conhecidos como Etíopes. Na parte ocidental da terra, banhada pelo Oceano, ficava um lugar abençoado, Os Campos Elíseos, para onde os mortais favorecidos pelos deuses eram levados sem provar a morte, a fim de gozar a imortalidade da bem-aventurança. Essa região feliz era também conhecida como “Campos Afortunados” e “Ilha dos Abençoados”. Um manuscrito antigo, escrito em grego arcaico, foi encontrado recentemente na Caverna do Ódio. Os peritos estão eufóricos, o documento quase ilegível demonstra de forma concisa e sem deixar dúvida que a “Ilha dos Abençoados” é a nossa visinha Ilha Comprida. As escritas contam que Hermes (O deus Mercúrio dos romanos) após uma bacanal, calçou suas sandálias aladas e voou sem destino para a parte ocidental da terra, cansado avistou uma ilha verdejante e pousou na branca areia da praia. Ao acordar estava cercado pelos aborígines, pessoas seminuas que lhe ofereceram frutas e peixes. Os nativos tinham um modo peculiar de andar, requebravam os quadris, davam pulinhos, o deus os apelidou de Sambaquis, que em grego significa aquele que samba aqui. Hermes, o mensageiro dos deuses, também era o deus dos comerciantes e dos ladrões. Ensinou suas artes aos inocentes selvagens que a espalharam pelo imenso continente. Afrodite (A Vênus romana) a deusa do amor e seu filho Eros (Cupido), preocupados com o desaparecimento de Hermes saíram a sua procura... Uma Fênix contou do paradeiro do deus. O encontro deu no que falar, Eros gastou seu estoque de setas com os novos amigos... Afrodite, que não gostava de uma sacanagem, aproveitou as férias e instruiu os nativos em suas artimanhas amorosas. Ares (Marte o romano deus da guerra), na época curtindo uma paixonite aguda por Afrodite, apesar de a mesma ser a esposa oficial de seu irmão Hefestos (Vulcano o romano artista celestial), localizou sua amada e chegou botando panca... As muitas tribos partiram para a luta e deu no que deu; - Os ingênuos formadores de sambaquis foram totalmente exterminados. O restante do manuscrito está praticamente ilegível. O pouco que foi decifrado dá uma noção de quão profundas são nossas raízes civilizatórias... Aprendemos com o próprio deus dos larápios as falcatruas e a rapinagem... Com Afrodite a arte de amar sem medir as consequências... Com Eros, o erotismo sem maldade e com Ares, a sede de sangue, a perseguição aos desafetos, à arrogância desmedida com os menos afortunados, herdamos do deus da guerra à estranha mania de combater pessoas em vez de ideias. Sim! Os deuses nos visitaram e Anhangá foi um aluno aplicado... O Curupira, protetor das matas e as Iaras nossas ninfas das águas cristalinas rogaram humildemente a Tupã pelo retorno da harmonia... O mal deixou raízes adormecidas e Tupã fechou Pindorama numa redoma de paz... Quando as caravelas chegaram com um novo deus e novos senhores, o mal despertou e Anhangá foi coroado vencedor. Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Meu piano... Meu tesouro!

TEMPOS MODERNOS Antigamente a vida era um osso duro de roer, tão duro que aos vinte e poucos anos de idade as pessoas estavam banguelas de tanto roeram ossos... Veio daí o costume da doação de dentaduras em ocasiões especiais, tal costume continua válido e atuante até os dias de hoje. As maiorias das casas eram simples e humildes, feitas de taipa e cobertas de sapé. Com o tempo chegaram às novidades, as habitações dos mais favorecidos passaram a ter beirais no final do telhado. A plebe ficava horas admirando a inovação e pensando; - “Como que essa coisa não despenca na cabeça de alguém?” Os muito, muito ricos, a fim de se diferenciarem dos menos abastados, inventaram as eiras só para sacanear os invejosos que adoravam copiar as inovações e não tinham grana para tanto. A pior das ofensas era; - “Vossa Mercê não possui nem eiras, nem beiras!” e o apântropo caia no choro. Cidade portuária comercializava com o mundo... A riqueza fluía, o medo dos piratas, dos corsários, dos ladrões, dos bandoleiros e pidões de favores forçaram os senhores de eiras e beiras a criatividade. Passaram a enterrar seus tesouros em lugares especiais. Faziam um mapa do local e quando necessitavam desenterravam o dito cujo. Como era impossível cavar um buraco sem que um curioso ficasse espiando e espalhando pela freguesia a novidade, os poderosos acertaram em guardar suas joias e o seu ouro nas paredes dos casarões. Para tanto deslocavam uma pedra e utilizavam o buraco como cofre... Muitas casas foram desmanteladas em busca de supostos tesouros. O roteiro era o de sempre; - Uma visagem aparecia a um pilantra qualquer e apontava o esconderijo. Quando o dono da herdade viajava, o esperto e honesto sonhador entrava na casa e demolia a parede... Muitos esqueletos de desafetos foram assim descobertos. Depois da invenção dos cofres bancários tudo mudou. As paredes conheceram uma novidade chamada reboco e os buracos secretos foram desativados. Algo que chamava a atenção era que nem todo o ouro poderia ser guardado no Banco. Aquele dinheiro vindo da ladroagem, da corrupção, das falcatruas, dos assaltos ao erário, àquela grana sem justificativa legal passou a ser escondida no colchão. Nos testamentos antigos os herdeiros ficavam na maior expectativa para saber com quem ficaria o colchão do coronel. Na atualidade tais praticas são motivos de riso e piadas. Pelo que se sabe ninguém enterra tesouros em fundo de quintal, nem em buracos nas paredes ou no porão da casa... Hoje quem tem eiras e beiras, e, pratica a gatunagem, esconde o dinheiro rapinado no piano... Não estranhe se ouvir alguém comentar; - “Meu piano! Meu tesouro.” Gastão Ferreira/2012

sábado, 1 de setembro de 2012

Os passeios da Princesa...

A ESPERA DO PARAÍSO... Nova visita da Princesa do Litoral a cidade, dessa vez em plena campanha eleitoral. Josephus seu mordomo, caixa dois, secretário particular e confidente estava temeroso... - “Majestade! Por favor, não desça da carruagem...” - “Josephus! Você sabe que adoro perambular por minhas centenárias calçadas... Tão bem cuidadas, bem conservadas, algum problema?” perguntou a Princesa. - “Todos os possíveis e imaginários alteza! A senhora não reparou na quantidade de súditos balançando bandeiras em plena via pública? Vá que Vossa Majestade leve uma bandeirada na cara...” disse Josephus. - “Meu Bonje! É um perigo real... Veja com que frenesi essas moças, rapazes e senhoras da melhor idade chacoalham as flâmulas... Essa eleição realmente promete!...” - “ Não alteza! Quem promete são os candidatos...” disse Josephus. - “ E o que eles prometem, caro servo e amigo?” inquiriu a nobre dama. - “ Que estamos prestes a entrar no Paraíso! Os candidatos prometem um hospital, faculdades, pontes, viadutos, creches, teleféricos, um Torre de Babel...” - “ Uma Torre de Babel! Como assim?” perguntou a curiosa e digna Princesa. - “ Será uma escola de línguas estrangeiras, afim de preparar vossos súditos para recepcionarem condignamente os milhares de turistas que passarão pelo município durante os jogos da Copa do Mundo e das Olimpíadas...” - “ Não me diga!” - “ Já disse! Ensinarão Espanhol, Inglês, Frances, Alemão, Árabe, Grego, Russo, Japonês, Mandarim e outros idiomas...” - “ Nossa! A cidade vai lotar de turistas... Onde ficarão hospedados?” - “ Nem imagino! Chegarão de São Paulo capital pela BR-116 a caminho de Curitiba... Vosso reino está na metade do percurso... Todos vão querer conhecê-lo...” - “ O mundo nos redescobrindo! Que beleza...” - “ Sim! Centenas de hotéis, pousadas, praça de alimentação surgirão do nada, de uma hora para outra acolhendo essa multidão de visitantes estrangeiros...” - “ Parece um sonho! Sairei do anonimato para a primeira página de todos os jornais planetários...” sussurrou a Princesa. - “ Acorda garota! Cai na real... Põe os pés no chão...” - “ Josephus! Vamos dar uma oportunidade aos candidatos de realizarem suas promessas... Poderei visitar o reino de jatinho caso façam um grande e moderno aeroporto...” - “ Para! Para! Nem pense em sugerir essa ideia...” - “ Você, mero serviçal, sempre jogando água fria nos meus sonhos!” se queixou sua alteza. - “ Não é bem assim Majestade! Não gosto de vê-la decepcionada... Lembra da eleição passada? Lembra do novo estádio de futebol? Da melhoria na saúde pública?” - “É verdade! Eu sempre acreditando... Mas dessa vez temos três candidatos com ótimos currículos...” - “ Como a senhora sabe disso?” perguntou Josephus. - “ Estamos na era da Internet e estou bem informada... Um é jovem, de excelente formação moral e honestas raízes familiares, humilde, com princípios éticos vindos de berço... Tem mil projetos sociais para retirar o reino da pindaíba... Um outro já mostrou serviço. Incansável edil, soube fiscalizar como ninguém o poder executivo, um exemplo para quem não admite politicagem... O último dos três tirou das areias desertas uma cidade onde a honestidade fez perene morada, algo bonito de se ver...” - “ Não disse! A senhora lê os jornais errados...” - “ Não é verdade! Querido Josephus, eu acredito no potencial humano, nas grandes realizações, na integridade e caráter das pessoas... Eu não mato o sonho de ninguém... Eu admiro a honestidade, a ética na política... Estamos a caminho do Paraíso!” - “ Menos! Menos Majestade! Há quase quinhentos anos a senhora escuta a mesma ladainha, as mesmas promessas e ainda não aprendeu?” - “ Josephus! Eu não posso desacreditar... Sou a Princesa do Litoral Sul, doidinha para virar rainha, custe o que custar...” - “ Tudo bem alteza! Vamos torcer para que vença o melhor... Ficaremos a espera do Paraíso que não tarda a chegar...” Gastão Ferreira/2012