quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Zé do Povo...

ZÉ DO POVO... Na famosa cidade onde os eleitores esperavam quatro anos para trocarem votos por cestas básicas, dentaduras, camas, botijão de gás, espetinho de gato, cerveja e cachaça, Zé do Povo, o famoso vereador, estava disputando seu quarto mandato. A concorrência era intensa, Zé do Povo confiava em sua gente. Eram pessoas que acreditavam em promessas nunca cumpridas e era tão fácil enganar aos mais humildes. No decorrer de doze anos, em seus três mandatos, jurara construir um teleférico, um campo de futebol, duas creches, uma maternidade, trazer indústrias para o município, incentivar o turismo e dar maior atenção às estradas rurais. Seus atuais concorrentes trilhavam o mesmo caminho, cada qual prometia mundos e fundos. Zé do Povo não podia perder o cargo, sua única fonte de renda, seu emprego tinha de ser vitalício. Durante seus três mandatos recebeu da municipalidade, só em salários (R$4.000,00 mensais), o montante bruto de R$624.000,00... Contando com as verbas representativas, mais uns R$187.000,00... As viagens, os restaurantes, os hotéis... No total em três mandatos seus ganhos chegaram a R$980.000,00. Nada mau para quem nunca teve profissão definida, concluiu a duras penas o ensino fundamental e vivia de espertezas. Possuía uma bela casa, um bom carro e nada mais... Dinheiro fácil vai fácil. Adormeceu com a consciência tranquila, era o dia da eleição, votara pela manhã e queria descansar um pouco... Até o momento comprara o voto de mil e quinhentos eleitores, com certeza obteria uns oitocentos votos e podia se considerar um vencedor... Colocou o relógio para despertar às seis horas da manhã seguinte... Relaxou. Olhou do terraço de sua mansão e não encontrou as faixas tão esperadas que saudassem sua permanência no Olimpo. Saiu para a rua ao encontro do seu povo. O que aconteceu? Os transeuntes nem sequer tentavam beijar a sua mão... Meu Bonje! Será que perdi a eleição? Avistou o senhor Dito Bagunça e perguntou aflito sobre o resultado do pleito. “Seu nome não consta na lista dos eleitos. Acho que o senhor teve uns setenta votos se não me engano!” - “Seu Dito! O senhor não está enganado?” Indagou Zé do Povo. - “Não seu Zé! Agora dá licença que vou procurar meu candidato para comemorar a vitória.” Safou-se Dito Bagunça. - “Sem vergonha, salafrário, cafajeste!” pensou Zé do Povo, “ontem mesmo paguei umas pingas para o infeliz que jurou lealdade eterna... Minha Excelência está profundamente magoada... Adeus viagens, adeus notas fiscais alteradas, adeus salamaleques e aplausos... Que farei de Minha Excelência? Sem estudo, sem profissão, sem um cargo público bem remunerado terei que prestar concurso e ganhar salário mínimo? Que povo ingrato! Dei os melhores anos de minha vida em beneficio da coletividade e agora recebo um pontapé... Tomara que meu candidato a prefeito tenha vencido, assim descolo um cargo de assessor e talvez ganhe mais que um vereador.” Um tanto ressabiado, Zé do Povo, se dirigiu a Praça da Matriz prestando atenção nos comentários do povo. ”Finalmente nossos eleitores acordaram! Chega de promessas, queremos realizações... Toda a Câmara Municipal foi renovada, ninguém foi reeleito... Ideias novas, gente nova, novas possibilidades.” “A cidade merece respeito, conseguimos nosso intento, tiramos o que pudemos dos candidatos sacanas e votamos em pessoas dignas de nos representarem!” “Chega de politicagem, a cidade necessita crescer!” “Novos tempos, novos rumos!” Zé do Povo estava arrasado... Nunca fora realmente estimado... Seu dinheiro que comprava eleitores também comprava o atraso... Notou as ruas esburacadas, o lixo não recolhido, os pedintes assediando os poucos turistas... Uma cidade com tudo para dar certo... Uma natureza deslumbrante, água abundante... Um povo festeiro e receptivo... Que potencial desperdiçado! Como gostaria de ter uma nova chance, fazer o certo... Pensar no bem estar do povo, arrumar melhor a cidade... Eu vou mudar... Eu vou mudar... Eu vou mudar... Trim... Trim... Trim... Trim... Zé do Povo acordou, eram seis horas da manhã. Tivera um pesadelo? Um aviso? Uma visão do futuro? Meu Bonje! Eu prometo que se sair vencedor mudarei minha conduta... A cidade merece respeito! Não posso continuar matando o sonho das pessoas... Ajude-me! Gastão Ferreira/2012

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