quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Eleição chegando.

AS CARAS & AS VELAS..... “O mundo é dos espertos”, dizia um velho deitado em berço esplêndido, “ao som do mar profundo nunca raiou a liberdade!”. Quando a Freguesia se preparava para conhecer o Imperador, no meio do caminho, Sua Majestade descolou uma favorita, nome bonito para Amante do Rei e desistiu da viagem. Na Paróquia das Neves, num lugar em que jamais nevou chegaram os almotacéis, os alferes, os fiscais do rei. A riqueza fugia de navio, em lombos de burros, na esperteza dos nobres. A plebe aplaudia o refinamento dos larápios soltando rojões... O tempo passou, o imperador abdicou e foi morar na Europa em um luxuoso palácio como convém a alguém de sangue azul. Os pobres, em seus casebres, pediam a Deus pela saúde do bom rei que jamais lhes dirigira um olhar... Agora são outros quinhentos, chegou a Democracia, finalmente o povo no poder. A cada quatro anos os Piratas saqueavam a cidade. Os novos flibusteiros não vinham de navio, eram filhos do próprio lugarejo que faziam mil promessas engambelando a antiga plebe vil, atualmente chamados eleitores. Os corsários atraiam com juras de honestidade os humildes cidadãos que através de um voto de confiança lhes conferia o mando. Dividiram a população em facções que se digladiavam entre si enquanto o bando enriquecia sorrateiramente. Os piratas tiveram muitos apelidos, Bernes, Tamanduás, Formigas, Bicho do Mato, Bicho sem Mato, Bicho com Nome, Bicho sem Nome... Apesar do nome diferenciado, a proposta secreta era sempre a mesma, tirar proveito próprio e impedir o progresso. Tanto isso é verdade que alguns chefes corsários perderam o posto devido à deslavada roubalheiras, jamais abandonaram a pose de salvadores da pátria, mas isso é outra história. Os piratas nunca aplicaram no município o produto dos diversos saques. Com o ouro roubado compravam fazendas, apartamentos, pontos comerciais na capital, mansões em outras cidades. Na urbe rapinada tudo era superfaturado, o atendimento médico deixava a desejar, obras caríssimas que rachavam antes da inauguração, simples lixeiras valiam o preço de uma geladeira, a pintura de um prédio antigo custava o valor de um prédio novo. Na cidade que adora ser saqueada questionar é crime. Quem ousa duvidar da lhaneza dos mandatários é visto como alguém a ser execrado publicamente... Em tempos idos seu destino seria o pelourinho. Os governantes têm seus capangas, seus capachos, seus paus-mandados que estão sempre apostos e prontos a denegrir, a ofender, a humilhar quem discordar dos podres poderes. As caras são todas conhecidas, suas histórias pessoais estão na boca do povo, nas paginas dos jornais, nos Boletins de Ocorrências, nos tribunais, nas obras realizadas... O município em expectativa aguarda a eleição de um novo mandatário... Será novamente um pirata? Será o salvador tão esperado? Não sabemos. Nenhum barco corsário foi avistado nas cercanias. A população, como sempre dividida, procura tirar proveito pedindo favores em troca de um voto. Esta pratica de escambo é considerada a causa de todos os males e as tentativas de erradicá-la sempre falharam. Os cidadãos esclarecidos preocupam-se com o futuro... Caravelas carregadas de foguetes e presentes navegam em alto mar, quem sabe a caminho de outro país ou não!... As caras & as velas mostram a realidade que nos cerca, quem sobreviver verá! Gastão Ferreira/2012

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