quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Zé do Povo...

ZÉ DO POVO... Na famosa cidade onde os eleitores esperavam quatro anos para trocarem votos por cestas básicas, dentaduras, camas, botijão de gás, espetinho de gato, cerveja e cachaça, Zé do Povo, o famoso vereador, estava disputando seu quarto mandato. A concorrência era intensa, Zé do Povo confiava em sua gente. Eram pessoas que acreditavam em promessas nunca cumpridas e era tão fácil enganar aos mais humildes. No decorrer de doze anos, em seus três mandatos, jurara construir um teleférico, um campo de futebol, duas creches, uma maternidade, trazer indústrias para o município, incentivar o turismo e dar maior atenção às estradas rurais. Seus atuais concorrentes trilhavam o mesmo caminho, cada qual prometia mundos e fundos. Zé do Povo não podia perder o cargo, sua única fonte de renda, seu emprego tinha de ser vitalício. Durante seus três mandatos recebeu da municipalidade, só em salários (R$4.000,00 mensais), o montante bruto de R$624.000,00... Contando com as verbas representativas, mais uns R$187.000,00... As viagens, os restaurantes, os hotéis... No total em três mandatos seus ganhos chegaram a R$980.000,00. Nada mau para quem nunca teve profissão definida, concluiu a duras penas o ensino fundamental e vivia de espertezas. Possuía uma bela casa, um bom carro e nada mais... Dinheiro fácil vai fácil. Adormeceu com a consciência tranquila, era o dia da eleição, votara pela manhã e queria descansar um pouco... Até o momento comprara o voto de mil e quinhentos eleitores, com certeza obteria uns oitocentos votos e podia se considerar um vencedor... Colocou o relógio para despertar às seis horas da manhã seguinte... Relaxou. Olhou do terraço de sua mansão e não encontrou as faixas tão esperadas que saudassem sua permanência no Olimpo. Saiu para a rua ao encontro do seu povo. O que aconteceu? Os transeuntes nem sequer tentavam beijar a sua mão... Meu Bonje! Será que perdi a eleição? Avistou o senhor Dito Bagunça e perguntou aflito sobre o resultado do pleito. “Seu nome não consta na lista dos eleitos. Acho que o senhor teve uns setenta votos se não me engano!” - “Seu Dito! O senhor não está enganado?” Indagou Zé do Povo. - “Não seu Zé! Agora dá licença que vou procurar meu candidato para comemorar a vitória.” Safou-se Dito Bagunça. - “Sem vergonha, salafrário, cafajeste!” pensou Zé do Povo, “ontem mesmo paguei umas pingas para o infeliz que jurou lealdade eterna... Minha Excelência está profundamente magoada... Adeus viagens, adeus notas fiscais alteradas, adeus salamaleques e aplausos... Que farei de Minha Excelência? Sem estudo, sem profissão, sem um cargo público bem remunerado terei que prestar concurso e ganhar salário mínimo? Que povo ingrato! Dei os melhores anos de minha vida em beneficio da coletividade e agora recebo um pontapé... Tomara que meu candidato a prefeito tenha vencido, assim descolo um cargo de assessor e talvez ganhe mais que um vereador.” Um tanto ressabiado, Zé do Povo, se dirigiu a Praça da Matriz prestando atenção nos comentários do povo. ”Finalmente nossos eleitores acordaram! Chega de promessas, queremos realizações... Toda a Câmara Municipal foi renovada, ninguém foi reeleito... Ideias novas, gente nova, novas possibilidades.” “A cidade merece respeito, conseguimos nosso intento, tiramos o que pudemos dos candidatos sacanas e votamos em pessoas dignas de nos representarem!” “Chega de politicagem, a cidade necessita crescer!” “Novos tempos, novos rumos!” Zé do Povo estava arrasado... Nunca fora realmente estimado... Seu dinheiro que comprava eleitores também comprava o atraso... Notou as ruas esburacadas, o lixo não recolhido, os pedintes assediando os poucos turistas... Uma cidade com tudo para dar certo... Uma natureza deslumbrante, água abundante... Um povo festeiro e receptivo... Que potencial desperdiçado! Como gostaria de ter uma nova chance, fazer o certo... Pensar no bem estar do povo, arrumar melhor a cidade... Eu vou mudar... Eu vou mudar... Eu vou mudar... Trim... Trim... Trim... Trim... Zé do Povo acordou, eram seis horas da manhã. Tivera um pesadelo? Um aviso? Uma visão do futuro? Meu Bonje! Eu prometo que se sair vencedor mudarei minha conduta... A cidade merece respeito! Não posso continuar matando o sonho das pessoas... Ajude-me! Gastão Ferreira/2012

Todos juntos...

TODOS JUNTOS (45+40+15= 100%)---- A briga é feia durante o período eleitoral. Segredos dos antepassados são revelados, mágoas adormecidas há muito tempo voltam à baila repentinamente; - “Seu avô era um Cocho miserável!”, “Seu tio nunca passou de um Berne fedorento...” e por aí vai. Formigas, Tamanduás, Andorinhas, Gaivotas, Curupiras e Boitatás se enfrentam em palanques e sobram desaforos, abraços, palmadinhas nas costas e santinhos. O encontro das caminhadas entre os adversários para os comícios muitas vezes se transformaram em guerra. As hastes das bandeiras foram utilizadas como bordunas, estiletes, lanças... Hoje rojões pipocam de todos os lados, fogos de artifício disputam qual o mais esplêndido a enfeitar os ares... Carros de som concorrem na categoria “surdinho são vocês”, as musicas dos inúmeros candidatos a vereadores pleiteiam a mais admirável letra de todos os tempos. A cidade fica dividida em três tribos, dessa vez, tribo-15, tribo-40, tribo-45. Cada tribo com seu cacique, seus guerreiros, seus Pajés, seus afetos e desafetos, índios querendo apito, favores, cestas básicas, espetinhos de carne e cerveja. As famílias põem a conversa em dia contando casos do passado e sempre envolvendo algum candidato; - “Puxou ao pai!”, “Esse é mais ensaboado do que bagre!”, “De pau mandado o mundo está cheio!” e por aí vai... Os parentes ficam de mal uns com os outros... Vizinhos não se cumprimentam... Irmãos se estapeiam... Filhas apaixonadas por filhos de rivais sofrem igual Romeu e Julieta... Pessoas são expulsas de bares por defenderem seus pontos de vista. Cachorro briga com gato, oncinhas com jaguatiricas, pescadores com pedreiros, entregadores de pizzas com motobois... Ofensas gratuitas no Facebook, olhos roxos e mistérios desvendados; - “Agora que reparei! Olha bem a cara desse fulano no santinho. É filho do Asdrúbal da quitanda... Repara bem! É a cara escarrada do seu Pedro. Será que dona Maricota pulou a cerca?” Enquanto a plebe vil defende com unhas e dentes seu candidato, arrumando briga com meio mundo, os maliciosos, os fofoqueiros murmuram que os pretendentes ao cargo máximo se encontram as escondidas e rifam cargos, secretarias e departamentos em mil inconfessos conchavos. Os candidatos a cargos eletivos, que passaram quatro anos sem conhecer ninguém, de um momento para outro se transformam nas pessoas mais amáveis, educadas, gentis que o mundo já viu. Percorrem as ruas a pé e perguntam até mesmo o nome do nosso cachorro... Bebem café sem olhar se o copo está sujo, sorriem pela piada mais imbecil, elogiam nossos filhos que nem conhecem, perguntam por nossa avó que já morreu por falta de atendimento médico... Que gente humilde! Merecem nosso voto. Os pretendentes, por serem muitos e os cargos poucos, jogam pesado, falam mal dos rivais, lembram antigas falcatruas dos desafetos as quais desconhecemos... Falam de mil empregos que vão criar, das melhorias necessárias ao progresso, dos problemas que foram esquecidos durante quatro anos e de repente voltaram com força total, esquecidos de que as dificuldades não são de hoje e de que, quando compartilhando do poder, nada fizeram. Após o termino do pleito, tudo volta ao normal... As ruas continuarão esburacadas, a saúde pública deficitária, a moçada sem emprego fixo... Familiares e bajuladores serão contratados para cargos comissionados... 45 + 40 + 15 = 100%... Todos Juntos e de mãos dadas até a próxima eleição. Gastão Ferreira/2012 Observação; - Esse texto é pura ficção... Qualquer semelhança com a realidade é coisa da cabeça do simpático leitor. Em nossa querida cidade, todos os políticos independente de partidos, só querem o nosso bem e o progresso do município.

sábado, 25 de agosto de 2012

Olho vivo...

PRESTANDO SERVIÇO... Dito Nhonhô entrou em casa esbaforido; - “Mulher! Vamos tirar a barriga da miséria. Chama os cinco filhos para uma reunião.” Dona Maria das Dores, educadamente gritou; - ”Cambada de vagabundos! O pai de vocês está chamando para uma conversa, venham todos.” Maria Nhanhá, Maria Nhonhô e Maria Crislaine, que no momento pintavam as unhas, perguntaram do quarto; - “Manhê! O que foi?” “Não sei! A coisa é séria. O pai de vocês descolou algo muito especial, venham logo... Procurem Mario Nhonhô e Mario Michele, seu pai quer toda a família aqui na sala.” Após a chegada dos filhos, seu Dito Nhonhô foi curto e grosso; - “Conversei com um candidato a vereador e todos nós vamos trabalhar para ele e ganhar uma boa grana...” - “Como assim?” Perguntou dona Maria das Dores. - “Nossas lindas filhas vão acompanhar o candidato em suas andanças pelo município e cada uma receberá um salário mínimo. Os meninos vão pedalar em uma bicicleta com um cartaz do candidato, oito horas diárias, receberão R$700,00 por mês. Já termos R$3.200,00... Eu vou pendurar banners e receber R$800,00... Total R$4.000,00 na família Nhonhô.” - “Eu não vou ganhar nada?” Preocupou-se dona Maria das Dores. - “Você ficará com a melhor parte e a mais rendosa.” Disse Dito Nhonhô. - “O que ela fará?” Perguntaram todos ao mesmo tempo. - “Mamãe recepcionará os eleitores aqui em nossa casa.” Informou Dito Nhonhô. - “Isso dá dinheiro? Nossa casa é tão pequena?” Falou Maria Crislaine. - “Não se preocupem! Vamos colocar uma mesinha na calçada... Usar nossa mini churrasqueira portátil e a velha caixa de isopor para gelar latinhas de cervejas...” - “Dito, o cachorro dorme na caixa de isopor e vai ficar sem casinha!” Falou dona Maria das Dores. - “É só algumas vezes por mês... Solta o Tupã na rua.” Disse Dito Nhonhô. Dona Maria das Dores, humilde dona de casa, não percebia qual a vantagem de receber convidados, ansiosa perguntou; - “Mas o que vamos ganhar com esse frege todo?” - “Mulher! O vereador mandará dez caixas de cerveja, cinco quilos de carne picada, três quilos de linguiça para cada reunião aqui em casa... Alem do fato de todos nós comermos de graça, só vamos assar dois quilos de carne, um quilo de linguiça e gelar três caixas de cervejas... Conversei com o Jóca do churrasquinho da esquina e ele se propôs a comprar o que não usarmos... O Toninho do bar ficará com as cervejas... Em cada reunião vamos faturar sete caixas de cervejas, dois quilos de linguiça e três quilos de carne... Uns R$190,00... No caso de dez reuniões mensais, são R$1.900,00... Mais os R$4.000,00 e teremos R$5.900... Grana que só doutor recebe!” - “Pai! Isso não é antiético?” Perguntou Mario Michele. - “Michele querido! Qual o problema em faturar encima de mais um político?” Indagou Dito Nhonhô. - “O candidato confiou no senhor! Não acho bonito fazer isso com ele e alem disso me entreguei a Jesus recentemente e penso ser pecado o que o senhor propõe...” - “Michele! Você já se entregou a metade da cidade, um a mais, um a menos não fará diferença...” disse Maria Nhonhô. - “Vamos parar de discussão e pensar em nosso bem estar... Não interessa se está certo ou errado, o importante é a grana...” Falou Mario Nhonhô. - “Não meu irmão! O importante é ter a consciência tranquila, trabalhar com honestidade e pensar no futuro de nossa cidade... Nada de enganar o candidato a vereador que confiou em nosso pai.” Complementou Mario Michele. - “É por isso que nada dá certo nessa família! Quando descubro um meio fácil de ganhar uns trocados, sempre tem alguém dando contra.” Choramingou Dito Nhonhô. Enquanto isso na cidade, centenas de pessoas tentavam dar pequenos golpes nos candidatos... Conta de água e luz em atraso, cestas básicas, móveis e utilidades domésticas serviam de pretexto para uma grana extra. Esquecidos de que exemplo de honestidade começa em casa... Viva a politicagem! Faça a sua parte, ajude quem quer mudanças e acredita que tudo pode melhorar... Não troque seu voto por favores, vote em quem você realmente confia... Vote na renovação total, na experiência em quem deu certo e mostrou serviço... Parabéns aos que acreditam em melhores dias... A hora de mudar é agora... Vote certo! Gastão Ferreira/2012

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Eleição chegando.

AS CARAS & AS VELAS..... “O mundo é dos espertos”, dizia um velho deitado em berço esplêndido, “ao som do mar profundo nunca raiou a liberdade!”. Quando a Freguesia se preparava para conhecer o Imperador, no meio do caminho, Sua Majestade descolou uma favorita, nome bonito para Amante do Rei e desistiu da viagem. Na Paróquia das Neves, num lugar em que jamais nevou chegaram os almotacéis, os alferes, os fiscais do rei. A riqueza fugia de navio, em lombos de burros, na esperteza dos nobres. A plebe aplaudia o refinamento dos larápios soltando rojões... O tempo passou, o imperador abdicou e foi morar na Europa em um luxuoso palácio como convém a alguém de sangue azul. Os pobres, em seus casebres, pediam a Deus pela saúde do bom rei que jamais lhes dirigira um olhar... Agora são outros quinhentos, chegou a Democracia, finalmente o povo no poder. A cada quatro anos os Piratas saqueavam a cidade. Os novos flibusteiros não vinham de navio, eram filhos do próprio lugarejo que faziam mil promessas engambelando a antiga plebe vil, atualmente chamados eleitores. Os corsários atraiam com juras de honestidade os humildes cidadãos que através de um voto de confiança lhes conferia o mando. Dividiram a população em facções que se digladiavam entre si enquanto o bando enriquecia sorrateiramente. Os piratas tiveram muitos apelidos, Bernes, Tamanduás, Formigas, Bicho do Mato, Bicho sem Mato, Bicho com Nome, Bicho sem Nome... Apesar do nome diferenciado, a proposta secreta era sempre a mesma, tirar proveito próprio e impedir o progresso. Tanto isso é verdade que alguns chefes corsários perderam o posto devido à deslavada roubalheiras, jamais abandonaram a pose de salvadores da pátria, mas isso é outra história. Os piratas nunca aplicaram no município o produto dos diversos saques. Com o ouro roubado compravam fazendas, apartamentos, pontos comerciais na capital, mansões em outras cidades. Na urbe rapinada tudo era superfaturado, o atendimento médico deixava a desejar, obras caríssimas que rachavam antes da inauguração, simples lixeiras valiam o preço de uma geladeira, a pintura de um prédio antigo custava o valor de um prédio novo. Na cidade que adora ser saqueada questionar é crime. Quem ousa duvidar da lhaneza dos mandatários é visto como alguém a ser execrado publicamente... Em tempos idos seu destino seria o pelourinho. Os governantes têm seus capangas, seus capachos, seus paus-mandados que estão sempre apostos e prontos a denegrir, a ofender, a humilhar quem discordar dos podres poderes. As caras são todas conhecidas, suas histórias pessoais estão na boca do povo, nas paginas dos jornais, nos Boletins de Ocorrências, nos tribunais, nas obras realizadas... O município em expectativa aguarda a eleição de um novo mandatário... Será novamente um pirata? Será o salvador tão esperado? Não sabemos. Nenhum barco corsário foi avistado nas cercanias. A população, como sempre dividida, procura tirar proveito pedindo favores em troca de um voto. Esta pratica de escambo é considerada a causa de todos os males e as tentativas de erradicá-la sempre falharam. Os cidadãos esclarecidos preocupam-se com o futuro... Caravelas carregadas de foguetes e presentes navegam em alto mar, quem sabe a caminho de outro país ou não!... As caras & as velas mostram a realidade que nos cerca, quem sobreviver verá! Gastão Ferreira/2012

domingo, 19 de agosto de 2012

Coisas nossas...

O COMÍCIO... A cidade tem seus encantos e desencantos. Muitas festas, quermesses, procissões e uma queda especial por rojões. Tem o “Alo! Atenção!... Nota de...” que possui o poder de imobilizar qualquer cidadão em curiosa expectativa para saber quem finalmente partiu para o outro lado. Alguns costumes estão por demais enraizados e o imenso progresso dos últimos tempos não conseguiu empaná-los. É o caso dos comícios. Adoramos comícios! As mães levam os recém-nascidos, as crianças suas brincadeiras, os pais os filhos, a vovó o vovô, o namorado a namorada, os candidatos suas latinhas de cervejas e espetinhos de carne nos porta malas dos carros. Os cachorros seguem os donos e as ruas ficam desertas. Frente ao palanque as bandeiras tremulam... Gritos de incentivos... Palmas e foguetes e mais foguetes... Muita música, som altíssimo, impedindo que se preste a devida atenção às propostas de governança. A duas quadras antes do tablado as pessoas espiam e comentam a chegada de cada candidato e sua equipe de campanha... Na área circunscrita entre o palco e o bar, sempre tem um bar nas proximidades de um grande comício, circulam os olheiros do adversário... Seu trabalho é anotar quem são as traíras, os falsos, as duas caras que vivem de favores, os traidores. Os contratados para prestação de serviço durante a campanha eleitoral ficam concentrados frente ao palanque, os familiares e cabos eleitorais ocupam as laterais frente ao palco e os simpatizantes são aqueles que aparecem nas fotos. A maioria dos candidatos à vereança expõe ao povo a razão pela qual se fazem presente ao evento, ou seja, declina o próprio nome, o nome do pai, da mãe, do avô... Afirmam seu desvelado amor pela cidade e juram trabalhar com honestidade e desvelo pelo progresso do município. O comício mais aguardado durante a campanha eleitoral é o da Barra do Ribeira. O bairro Barra do Ribeira fica a trinta quilômetros da sede do município. É nesse encontro que as famílias se reveem, mata a saudade, a comadre visita a outra comadre, o tio revê os sobrinhos, o afilhado ganha um presente da madrinha e todos põem as fofocas em dia. Uma belezoca! Vinte ônibus participam da romaria. Alguns coletivos levam somente a irmandade evangélica, vão orando e cantando hinos religiosos durante o percurso. Nos ônibus dos “torrados” os alcoólatras não anônimos bebem moderadamente. As garotas da melhor idade, sessenta e setenta anos, se divertem pondo defeitos nas ingênuas e tolas mocinhas da pior idade, ou seja, as gurias de quinze a dezoito anos. Os meninos maus, os nóias, as meninas espertas seguem em outros ônibus em que ninguém sabe o que pode acontecer, teve vez que o ônibus foi depredado. Tem gente que leva até o cachorro, o passeio grátis só ocorre de quatro em quatro anos. Ainda não reservaram um coletivo para os pedintes, acho que mendigo não vota, sei lá! Na chegada a Barra do Ribeira uma multidão recepciona os candidatos, muitos fogos de artifícios, os visitantes procuram os parentes, os jovens seus colegas, as periguetes seus periguetes, os crentes seus templos, os cervejeiros os inúmeros bares e os políticos fazem seus discursos para meia dúzia de ouvintes e ao final das falas aceitam participar de uma tainha assada na casa de alguém que aposta na vitória do candidato e está doidinho para ganhar um cargo na futura administração. Na volta com horário marcado os motoristas esperam pacientemente pelos passageiros, os que prestaram serviços entram nos micro-ônibus, os candidatos e familiares em seus carros, alguns bajuladores pegam caronas nos automóveis e a maioria do povo reclama do atraso na partida. Fim de mais um comício na Barra do Ribeira, excursão grátis só daqui a quatro anos... Aguenta coração! Gastão Ferreira/2012

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A Festa e a Princesa...

A FESTA E A PRINCESA Sua Majestade a Princesa do Litoral passou incógnita pela Festa do Bom Jesus. Fantasiada de cigana atendeu aos interessados por R$10,00 a consulta. Josephus, seu secretário particular, condutor da Carruagem Real, guarda-costas e pau mandado trabalhou dobrado nas festividades. Convém lembrar que a Princesa está próxima de completar quinhentos anos de idade. Em três de Dezembro de 1538 assumiu a chefia e mando do município. Considerando que a Melhor Idade é depois dos sessenta, Sua Majestade superou todas as expectativas e vive o suprassumo da melhor das melhores idades. Em seu papel de oráculo não fez feio. Consultada por três candidatos ao trono, confirmou o favoritismo de cada um em particular na próxima eleição, demonstrou seu acerto através de mapas de pesquisas recentes, afirmando que a voz do povo é a voz de Deus. Mais de cem concorrentes à vereança obtiveram a certeza da vitória nas urnas. A noitinha, após fechar a barraca foi dar uma volta pela cidade. Gostou do que viu. A nova Fonte do Senhor chamou sua atenção, assustou-se com os imensos cisnes navegando pelo pequeno lago. Abstêmia, não notou o preço da cerveja a R$6,00 nem os romeiros armando barracas de camping nas diversas praças públicas e alguns dormindo em iglus plásticos em plena rua. Aprovou a presença dos pedintes na guarda de carros dos turistas; - “Estão trabalhando! Que maravilha. Poderiam estar roubando, fazendo sexo explícito nos jardins, assediando os visitantes e resolveram dar um bom exemplo... Parabéns!”. Ficou um tanto chateada quando notou que alguns barraqueiros jogavam grandes sacos de lixo diretamente no Mar Pequeno. Entendeu a situação; - “Cidade com milhares de romeiros, a fiscalização se torna precária... Os fiscais estão empenhados em atuar os moradores do município que se aproveitam da aglomeração para vender seus artesanatos sem pagar as devidas taxas... Que vergonha! Bom mesmo é o exemplo dos ambulantes que utilizam as esquinas do Centro Histórico para negociar suas mercadorias contrabandeadas do Paraguai... Viva a Festa!”. Josephus que comprou dois ingressos para um grande show no Centro de Eventos estava inconsolável. Alguém que teve um surto de humildade, frente a dezenas de moças e rapazes que queriam trabalhar no evento, cancelou o espetáculo e nem pediu desculpa pela sacanagem. Coisa de gente educada e preocupada com os muitos comentários negativos gerados pela tola e voluntariosa atitude. Roubaram uma das rodas da carruagem imperial, deram queixa. Na delegacia se soube que os mesmos larápios haviam sequestrado um professor da cidade, famoso por dirigir em alta velocidade... A roda foi encontrada na porta malas do veiculo furtado. A Princesa do Litoral acompanhou a procissão... Josephus não conseguiu carregar o andor. Em ano eleitoral todos querem aparecer e o Santo Protetor paga o pato, serve de cabo eleitoral e avalista da religiosidade dos diversos candidatos. Milhares de romeiros abrilhantaram a festa. Motoqueiros, carreteiros, bicicleteiros, cavaleiros, marreteiros, farofeiros e outros “eiros” visitaram a cidade... Um sucesso! Sua Majestade se retirou após a queima dos fogos prometendo voltar no próximo ano. Não virá como cigana... Na próxima festa será apenas mais uma anônima vendedora de rua. Viva a Festa! Gastão Ferreira/2012

domingo, 12 de agosto de 2012

Tudo pode acontecer...

UM PONTO... Era apenas um pequeno Ponto solitário, um símbolo final, uma conclusão. A base sobre a qual se ergue uma exclamação (!), uma interrogação (?). Da família das reticências (...) vivia afastado de seus iguais. Uma força diferencial o moveu ou seria mera curiosidade? Aproximou-se das reticências e num momento de pura magia compreendeu que jamais estaria sozinho novamente... Transformou-se em uma Linha. Explorou a nova realidade, anteviu o infinito... Estremeceu e mudou para uma Linha Ondulada, uma Linha Curva. De pura alegria saltou no espaço e virou uma Circunferência. Ainda mantinha sua personalidade, um simples Ponto fazendo parte de uma figura geométrica entre trilhões de Pontos semelhantes. Notou que no extremo do circulo outro Ponto chamava a sua atenção. Era seu Ponto gêmeo, seu complemento, seu par. Sabia por intuição que uma Linha Reta era a menor distancia entre dois Pontos, se lançou no espaço e de Raio a Diâmetro se fez a união. Pediu privacidade, queria constituir família... Criou um Segmento Áureo, após muito atrito virou um Cone. Foi um casamento feliz até o momento em que conheceu uma Bissetriz. Ah essas Bissetrizes! Apaixonou-se perdidamente e formaram um Triângulo Retângulo. A realidade virou um pandemônio, a prole aumentou, sua filha Hipotenusa o presenteou com dois netos gêmeos, o Cateto Oposto e o Cateto Adjacente. Cada neto com seus próprios descendentes, Ângulos, Senos, Cossenos, Tangentes, Cotangentes e todos com seus muitos problemas particulares, alguns Agudos outros Obtusos. De Triângulo Retângulo passou a Isósceles, depois a Escaleno. Experimentou novas formas de acasalamento e se descobriu um Quadrado... Caiu na gandaia e conviveu com Pentágonos, Hexágonos, Octógonos, Decágonos... Adeus sossego! Antigamente era feliz e não sabia. Agora conhecia a forma de todos os objetos, era a parte básica da criação gráfica. Sem o Ponto e seus descendentes nada era idealizado e tudo dependia da criatividade e imaginação do Homem... Do Homem? Que era um Homem? Um agrupamento de átomos! Que era um átomo? Um Ponto com vida. Nesse momento o Ponto previu a eternidade, entendeu o verdadeiro significado do sonho de Ícaro... Desvendar o desconhecido, aparar arestas, buscar o espaço-tempo, evoluir. O que foi criado viverá para sempre... O pequeno Ponto sabe que existe... Aguardamos! Dentro da eternidade tudo é possível e tudo é relativo... Tudo pode acontecer! Gastão Ferreira/2012

sábado, 4 de agosto de 2012

Amiga Iara Cordeiro

A MULHER PÁSSARO....... A existência é um momento fugaz dentro da eternidade, a vida um sopro que se desfaz no tempo. A impermanência é a lei do progresso evolutivo. Tem gente que é como árvore, gente flor, gente espinho. Pessoas que são como grandes e majestosos rios, pessoas que são simples regatos, nascente e foz... São águas que se represam, águas que fluem, águas que evaporam e nem deixam lembranças. Eu conheço uma mulher pássaro, uma mulher ave... Não uma Ave Maria cheia de graça, nem uma Ave Amélia que era a mulher de verdade. Conheço uma Ave Mãe, uma Ave Amiga, uma Ave Professora, uma Ave Poeta, uma Ave Escritora. É também uma andorinha que adora o verão... Uma coruja sempre elogiando os filhos... Uma águia preocupada com seus alunos... Um sabiá que adora cantar. Minha amiga tem o riso fácil das pessoas felizes e bem resolvidas, a tristeza de quem sabe que não mudará o mundo por mais que tente. Minha amiga tem a alma de escritora, sabe que o homem é feito do pó das estrelas e do sopro divino do Criador... Sabe que ser humano é transitar entre a treva e a luz... Que fazer escolhas é arcar com as consequências... Provou do sabor do riso, das lágrimas, da magia, da chuva e do sol... Conhece o amanhecer e todas as nuances do ocaso... É poeta. Minha amiga não possui riqueza material, mas é rica em sabedoria. Sua cultura foi conquistada com muito estudo e dedicação. Também é rica de amigos... Excelente cozinheira, seus petiscos são famosos, suas batidas fazem sucesso... A emoção põe estrelas em seus olhos azuis, a única moeda que valoriza se chama lealdade. Minha amiga Beija-flor já se feriu em muitos espinhos, minha amiga Coruja já chorou como choram todas as mães que querem o melhor para seus filhos... Minha amiga Cisne perdeu o companheiro que amava e sem metade de sua alma por vezes se entristece. Ave solitária a desvendar mistérios, ave que voa para alem do mundo conhecido... Ave imaterial de grandes e poderosas garras... Fênix que renasce a cada dia, assim é Iara Cordeiro, a professora Iara, a poetisa, a escritora, a amiga. A mulher pássaro sonha em voar para alem das montanhas, para alem do mar... Quer alçar voo para um país onde as pessoas valorizem o Ser e não o Ter... Onde a inteligência seja reconhecida como mérito pessoal e não causa de inveja... Onde a humildade é a certeza de saber que somos feitos do mesmo barro comum... Que respeitar o próximo é a lei básica para ser feliz... Que a única superioridade válida é a superioridade moral... Que o passado não se apaga. Que ele foi parte da aprendizagem vida... Que somos crianças espirituais sonhando em voltar às origens. Um dia a velha Fênix partirá em busca de outra realidade. Vai à procura da felicidade... Conhecerá os deuses do Olimpo... Os segredos da eternidade... A fonte onde nasce o tempo e trocará ideias com Sócrates, Buda, Platão... Voará para alem das estrelas... Colherá o fruto da árvore da sabedoria... A luz que semeou brilhará radiosa e a Ave Iara estará feliz. Tem gente que é igual pedra bruta. Tem gente que é uma falsa pedra preciosa, que não tem brilho próprio e passa a vida tentando apagar a luz alheia. Tem gente que nasce para ser espinho... Gente arrogante... Gente mesquinha... Gente mal amada... Para contrabalançar tanto cinismo e falta de humildade, o universo raramente nos presenteia com anjos. Eles nos consolam na hora da dor... Eles nos mostram os perigos do caminho... Eles nos amam sem cobranças... Sabem que cada ser humano é o que é... Aceitam-nos! Ave de canto suave. Ave que não esconde as poderosas garras. Ave presa a terra... Sabiá, Cotovia, João-de-barro, Saíra Sete Cores, Coruja, Gaivota, Araponga, Andorinha, Beija-flor, Cambacica... A última Fênix... A professora e amiga Iara Cordeiro. Gastão Ferreira/2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Novidade na noite...

A ROSA DA PATAGÔNIA Dentre as flores mais raras existentes no planeta Terra, a rosa da Patagônia é o máximo em perfeição. Desabrocha uma vez ao ano e apenas uma flor de raríssima fragrância surge ao anoitecer. Milionários pagam uma fortuna para tê-la em seus jardins. Um rei trocaria sua coroa por tal flor. Quando Bela Adormecida passou cem anos em profundo sono e acordou lépida, fagueira e risonha, todos souberam que foi graças a Rosa da Patagônia que a letargia foi possível. O Corcunda de Notre Dame perdeu sua giba ao cheirar tal rosa. Átila, O Flagelo de Deus, abandonou a Europa após se inebriar no perfume de tão rara flor. Afrodite, a deusa do Amor e da Beleza, banhava-se com as pétalas da Rosa da Patagônia. Adônis só foi reconhecido como o Mais Belo Mortal porque vivia cheirando a florzinha. Aquiles ganhou de sua mãe Tétis um botão, foi isso que o tornava imortal e não a feitiçaria da deusa do mar. Aladim trocou sua Lâmpada Maravilhosa por uma Rosa da Patagônia e Super-homem adquiriu seus poderes ainda criança ao descobrir no jardim materno um pezinho da roseira mágica. Muitos mistérios envolvem essa lenda, muitos crimes foram perpetrados para conseguir uma simples mudinha, donzelas se prostituiam para consegui-la, pactos demoníacos em troca de uma flor... Loucura e lascívia se misturavam na procura dessa rosa encantada. A flor que dava a juventude, a beleza, o poder de domar a vida e a morte a quem a possuísse. Foram tantos os transtornos causados pela busca da flor, que as autoridades proibiram a simples menção de seu nome. O mundo civilizado acabou esquecendo que ela existia e o tempo foi passando, passando... Ninguém sabe como aconteceu! Tiveram que arrombar a porta de um banheiro de bar... O casal de pelados foi retirado no tapa para fora do estabelecimento. As irmãs que jejuavam e oravam pelas almas pecadoras começaram sem mais nem menos a dançar cancã... Um pescador muito bem casado beijou na boca um ajudante de pedreiro... Um gay assumido desde a maternidade começou a assediar as moças de família... Garotas recatadas tiravam casquinhas das amigas menos precavidas... Os gatos que eram pardos passaram a ter todas as cores. O mistério dessa mudança comportamental foi decifrado quando Jeteme presenteou uma senhora da terceira idade com um botão de rosa vermelha... A madama tirou a roupa na hora, fez mil poses, sapateou, cantou, revirou os olhos e se esborrachou no chão... Os fregueses do bar quase lincharam Jeteme achando que ele tinha dado uma “Boa Noite Cinderela” para a rapariga, ou, um sossega leão. Jeteme explicou aos frequentadores do boteco que havia presenteado a menininha da terceira idade com uma Rosa da Patagônia... Como ele conseguiu a muda da roseira? Não sei. Só sei que as noites estão mais agitadas, mais profanas... Parece que a rosa veio para ficar... Aguardem o desdobramento, a procura pela flor já começou e as histórias são de arrepiar. Gastão Ferreira/2012