quinta-feira, 26 de julho de 2012

Versão moderna...

PSICOPATA Magali Aparecida das Dores desceu da árvore. Nenhum arranhão. No chão a cesta com os doces e ao lado a sua capa vermelha de uso diário. Contou as guloseimas e faltavam três. O desgraçado havia comido! Que bom. Enterrou os outros petiscos e deixou na cestinha apenas o bolo. Vovó Tassia abraçou a neta. Mad apelido carinhoso de Magali Aparecida das Dores estava uma mocinha. Devido a uma pequena desavença com a nora problemática, vovó juntara suas poucas tralhas e se mudara para uma pequena, mas aconchegante casa na floresta. A floresta tinha seus encantos. Muitos pássaros canoros, animais de várias espécies, regatos sonolentos, árvores frutíferas. O único fator destoante eram os lobos. Os lobos atacavam os viajantes e vovó apesar de adorar as visitas da neta Magali, ficava receosa de que acontecesse o pior com a jovem. Magali se deliciava com as visitas à vovó... A velha era uma senhora fofoqueira e sabia dos segredos mais secretos dos habitantes da vila. Bastava um copo a mais de licor para que ela contasse as mais sórdidas histórias, vovó Tassia esquecia que Magali era apenas uma guria extremamente sensível. Na vila o tempo passava despercebido. Todos sabiam que o inverno estava chegando quando os patos selvagens desapareciam. Que era outono pela queda das folhas. Verão pela quantidade imensa de pernilongos infernizando a vida da população, primavera pelas flores e namoricos entre animais no cio. Os habitantes do lugarejo eram festeiros e gostavam de um bom vinho, uma caipirinha no capricho, um gole de pinga, ou seja, eram todos alcoólatras anônimos. Diz o ditado que pé de bêbado não tem dono e muita sacanagem rolava entre uma dose e outra. De tempos em tempos apareciam cartas anônimas pedindo dinheiro em troca da não revelação de segredos inconfessos. Temerosas de ficarem mal faladas, as donzelas se desfaziam de pequenos mimos, brincos, pingentes, pulseiras de ouro. Tudo ganho através de ousados carinhos, tórridas noites de sexo selvagem ou pequenas sacanagens não especificadas. Como o mundo é falso ninguém contava das cartas anônimas. Quando questionadas sobre as joias desaparecidas as mocinhas simplesmente afirmavam que perderam. Eram conhecidas como “as perdidas”, assim a vida continuava na rotina de sempre. Os homens trabalhavam para terem o seu ouro, as mulheres inventavam mil maneiras de rapinarem o ouro dos homens, as crianças brincavam e aprendiam todas as malandragens possíveis, Magali enriquecia secretamente. Magali Aparecida das Dores era filha de Mafalda Amélia das Dores, uma exímia costureira e modista. Aprendera com a mãe a arte da costura... Sua especialidade? As roupas de pele. Os lobos apesar de sanguinários não podiam ser exterminados, uma lei contra a matança de animais silvestres assim determinava. Magali nunca ligou para a lei e secretamente envenenava os lobos. Sabia que a fera gostava de doces e assim recheava os petiscos com os mais mortíferos venenos, também sabia do fetiche da capa vermelha e atraia o animal para uma emboscada fatal. Nas visitas à vovó, levava dez doces envenenados e fazia questão de passar pela trilha dos lobos. Com sua capa vermelha atraía o bicho e quando perseguida largava a cestinha e subia numa árvore. O lobo, muito curioso, sempre comia os doces e o veneno mortal agia rapidamente. Ao voltar da casa da vovó, Magali retirava cuidadosamente a pele do animal assassinado e era assim que obtia o material para confeccionar as roupas. Dizem que o ouro corrompe... Magali queria enriquecer e através das fofocas da vovó passou a chantagear muita gente. As pessoas se desfazem de tudo para não terem seus pequenos e grandes deslizes revelados a luz do dia. O butim de Magali aumentava continuamente. Um dia ela foi premiada com uma carta anônima; - “Eu sei o que você faz na floresta... Aguarde instruções, quero o seu ouro.” Para Magali a única pessoa confiável era vovó Tassia e foi a ela que recorreu nessa hora amarga. Esperta, a menina não contou das cartas que enviava às donzelas. Resolveram sair na calada da noite e mudarem para a cidade grande... Vida nova, novas oportunidades. Magali nunca descobriu que a carta que recebera era da vovó Tassia, a velha estava cansada da vidinha medíocre e queria conhecer as benesses da vida civilizada. Compraram um belo sobrado de altos muros. A cidade era pacata e milhares de turistas vinham conhecer uma magnífica cruz de pedra que ornamentava a praça principal. Foguetes confirmavam a tradição festeira do logradouro. Bares, eventos regados a bebidas alcoólicas, muita sacanagem rolando na noite, uma excelente fonte para futuras cartas anônimas... Ontem recebi um bilhete; - “Eu sei o que você aprontou no Banho da Mocréia... Dois mil Reais e você recebe a gravação com o filme original... Aguarde novas instruções.” A psicopata da Magali já está entre nós. Gastão Ferreira/2012

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