quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sei não!...


BRANCA DE IGUAPE


         Em pleno ano da graça de Nosso Senhor de 1809, Branca de Iguape desapareceu misteriosamente. Herdeira da abastada família Pontes Bandeira, proprietária de engenhos, navios, sítios e escravos, era a fortuna personalizada. Seus amados pais gastaram rios de dinheiros à sua procura. Açoitaram, mataram e torturaram seus muitos escravos tentando descobrir se sabiam de algo. A donzela nunca foi encontrada...
         Em pleno ano, sem muita graça de 2013, Branca apareceu branca de susto na Praça da Basílica, longos cabelos, vestindo a moda do século XIX, falando um português arcaico.  Faminta e desesperada pedia auxílio. Alguns transeuntes pensavam ser uma nova moradora de rua recém-chegada. Outros uma encenação para chamar turistas e poucos acreditavam que a rapariga fosse uma nóia em surto psicótico.
         Acampou junto aos numerosos pedintes que haviam se apossado da Orla do Mangue. Ganhou o tão famoso “passe livre” para fazer tudo o que lhe desse na telha sem ser importunada e outro “passe cidadã” que lhe dava o direito de azucrinar turistas, achacar velhinhas e utilizar as calçadas da cidade como latrina.
         Ao grupo de moradores de rua, Branca contou uma triste história. O ano era 1809, disso tinha certeza, pois D. João VI chegara com a corte imperial um ano antes, seu pai soltara muitos rojões em comemoração à vinda do rei ao Brasil. A cidade esperava as graças do imperador para construir um Valinho Comprido para ligar o Mar Pequeno ao Rio Ribeira e foi nesse ano que algo muito estranho aconteceu.
         Na tarde de oito de setembro de 1809, após assistir as missas das sete, das oito e das nove da manhã, ter espancado cinco vezes uma escrava desobediente que teimava em nunca acertar o que a sinhazinha estava pensando, dirigiu-se ao sitio conhecido como “Caverna do Ódio” e foi adentrando o túnel sombrio. Uma sonolência tomou conta, ela dormiu e acordou nesse mundo que não entende. Que pensa ser um pesadelo, um sonho ruim.
         A cidade que recorda era pequena, ruas de terra sempre limpa, bons pelourinhos, chafarizes fornecendo água límpida da Fonte de Cima, vendedores ambulantes de porta em porta entregando o leite e verduras do dia. Um porto com muitos navios, pessoas bem vestidas e ao longe a orla da ilha.
         Com certeza estava tendo um horrível pesadelo, acordara num mundo em que as carroças não possuíam cavalos para puxá-las, caixas falavam e mostravam imagem de pessoas desconhecidas, a noite era iluminada por pequenos sóis sobre postes, pássaros de ferro voavam nas alturas, os casarões estavam em ruínas, a igreja estava concluída e na montanha havia alguém sempre de braços abertos... Coisa de doidos! A comida não era mais a mesma, a fala difícil de entender, o sobrado onde vivera não mais existia, do belo porto nem sombra! Onde estão os escravos? A plebe vil que a olhava submissa? A elite de nariz empinado e com cara de nojo aos menos favorecidos? Todos sumiram! Escafederam-se!
         Ninguém acreditava em sua fantástica história; - “O que faz uma boa pedra!” diziam. Branca sofria com o desdém dos moradores da cidade, parecia que virara um fantasma, uma nuvem, uma pedra de rua. Acostumada com o bom e o melhor, agora comia sobras que encontrava em sacos de lixo, dormia ao relento e banho, nem pensar... Vai ver morrera e estava no inferno! Padre Theophilo sempre explicara que o inferno era para os pobres, os que não davam esmolas, aos ignorantes da palavra do Senhor.
         Branca passava horas admirando a fascinante Cruz de Pedra, o encantador monumento que atrai milhares de turistas à cidade, tinha certeza que já vira aquela belíssima cruz em outra época e era tal fato que não a deixava enlouquecer. Um dia, cansada e fedida, foi rever a “Caverna do Ódio” e nunca mais voltou.
         Escrevi a estranha história de Branca de Iguape, na verdade não tenho certeza se a moça era muito criativa e inventava tais fatos para ganhar alguns trocados, ou, dormiu por duzentos anos como afirmava... Deixo registrada sua lenda, quem sabe num futuro muito, muito distante ela reapareça. Ela me presenteou com uma moeda, um patacão do século XVIII, disse que em sua época era com essa moeda que comprava rebuscados no emphorio da rua da palha... Sei não!

Gastão Ferreira/2012      
        
            

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