quarta-feira, 4 de julho de 2012

Nunca se sabe...


DITINHO BOY



         No ano do Senhor de 2012, o problema da mendicância na cidade era terrível, os jornais informativos nem tocavam no assunto. Cidade Tombada, Patrimônio Nacional, Defensora do Verde e berço da civilização brasileira. Milhares de turistas passeavam por suas velhas calçadas, se extasiavam com os antigos casarões. Com ruas limpas e arborizadas, era o encanto dos visitantes. Tudo isso dizia a propaganda oficial.
         A centenária cidade tivera muitos apelidos, alguns carinhosos e outros nem tanto. Princesinha do Litoral, Pindaíba, Tombadinha, Fogueteira, Mata Árvores, Dengosinha, Urubu-city e o último “A cidade das lombadas”. A cidade das belas lixeiras tinha as ruas mais sujas da região.
         Os turistas normalmente eram recepcionados por bandos de pedintes. Entre os mendicantes havia desde travestis a garotas de programa, a maioria jovem e quase todos alcoólatras. Os mandantes da cidade pareciam nem notar a existência destes seres marginalizados que impediam o desfrute das belezas naturais que enfeitavam a cidade. Nos pontos turísticos havia sempre um nóia, um drogado, um mendicante a não dar sossego ao passeante.
         A desculpa das autoridades era que os pedintes tinham o direito de ir e vir... Não explicavam se detinham ou não o direito de fazer sexo nos logradouros públicos, defecar nas calçadas, urinar nas portas das casas, achacar velhinhas e crianças para conseguir uns trocados, xingar as pessoas e afugentarem aos que faziam caminhadas pela magnífica orla marinha.
         Era um ano eleitoral... Nenhum candidato ousara tocar no assunto “pedinte”. Foi Ditinho Boy o primeiro a tratar da matéria ao sugerir a entrega total do Centro Histórico, Orla do Mangue e Santa Casa em usufruto aos mendicantes... Foi eleito em razão da brilhante ideia.
         Hoje, Agosto de 2018, a antiga cidade está irreconhecível. Montes de lixo entulham as ruas, matilhas de cães patrulham em busca de alimento, a orla do lagamar totalmente assoreada, a Fonte voltou ao estado selvagem, os casarões tombados finalmente tombaram de vez. Em torno da admirável Cruz de Pedra os herdeiros da Princesa fazem fogueiras e contam histórias. A famosa Passarela sem luz ruiu de vez, a Barragem foi detonada e a velha cidade virou uma ilha. Não existem mais pedintes nem mendigos, os moradores de rua não tem a quem solicitar favores e o problema foi solucionado. Os politiqueiros continuam fazendo a festa, soltando rojões e afirmando que nada mudou.
         Ditinho Boy foi reeleito prefeito da nova cidade chamada Rocio. Uma cidade voltada para a indústria pesqueira, com centenas de microempresas volvidas para o ramo de confecção, uma cidade sem foguetes, mas com muita disposição para crescer.
         O lema da nova cidade é; - “Quem não trabalha não come.” Este refrão causou polêmica, mas os Pastores e Padres explicaram direitinho aos menos atentos. Quando Deus expulsou Adão e Eva do paraíso instituiu uma lei ao determinar que o casal e seus descendentes comeriam o pão com o suor de seus rostos e ponto final... Não quer trabalhar? Não come!
         Foi assim que morreu a velha Princesa... O homem passeia pelo espaço sideral, visita o fundo do mar, descortina novos horizontes, constrói magníficas estradas, navega pelo céu, vence as mais terríveis epidemias, mas não conseguiu dar um jeito em quarenta seres que lentamente trouxeram a decadência a uma cidade.
         No começo eram poucos e ninguém ligou, depois vieram os drogados abandonados pelas famílias, os alcoólatras e pequenos ladrões. Os habitantes da cidade com medo não saíam à noite, as crianças pararam de brincar nas ruas, os turistas não voltaram mais, os comerciantes reclamavam e não eram atendidos, acabaram fechando seus negócios no centro histórico e se mudaram para as vilas... O tempo de Ditinho Boy está próximo.

Gastão Ferreira/2012

(Nota; - Qualquer semelhança é mera especulação... Este texto é ficção e fora de nossa realidade.)    
             
        
           

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