sábado, 7 de julho de 2012

Meio míope...


A CIDADE DAS LOMBADAS


         A Princesa do Litoral estava eufórica. Acompanhada de Josephus seu secretário, cocheiro, conselheiro e pau-mandado, sua alteza a cada visita ao reino ficava mais animada. Sempre havia novidade, observadora e atenta, a ela nada escapava. Um tanto míope devido à idade, seu otimismo em relação ao feudo que herdara de Portugal era perene. Em seus 474 anos de existência seguia todas as conquistas de seus amados súditos; - “Josephus! Olha os novos e magníficos monumentos...”
         - “Que monumentos Princesa?” Perguntou Josephus.
         - “Estas modernidades ao lado da barragem...”
         - “Oh majestade! São estruturas metálicas das comportas que há um bom tempo estão enferrujando ao relento...”
         - “Depois da belíssima e cara Cruz de Pedra colocada na Praça da Basílica, pensei que outros monumentos surgiriam! Sem problemas! Adoro meus súditos e sou correspondida. Está ouvindo os rojões? Uma homenagem a minha visita...”
         - “Que nada alteza! Os foguetes são das convenções partidárias para a escolha do novo alcaide... A forma encontrada para anunciar a plebe vil que os espetinhos de gato estão a ser servidos são os rojões...”
         - “Ah os eternos costumes da realeza! Pão e circo garantindo o poder... Nooossa Josephus! Uma plantação de montanhas na Orla do Valo Grande...”
         - “Que nada majestade! É lombadas, a nova moda que invadiu a cidade, são milhares...”
         - “Nada como conferir pessoalmente a chegada do progresso...”
         - “Quem inventou a sinaleira foi um burro!”
         - “Não entendi a piadinha infame!”
         - “Majestade! Quem será que produz estes filhotes de montanha? Normalmente as lombadas são mais baixas e menos largas. Não ficam tão próximas umas das outras. Assim como foram distribuídas só servem para danificar os veículos... Já que alguém gosta tanto de novidades por que não mandou colocar sinaleiras nas encruzilhadas das principais avenidas? Seria mais prático e mais barato...”
         - “É Josephus, aí tem mão de raposa!”
         - “Ou outra coisa alteza!”
         - “Você reparou a quantidade de cestas de lixo pelas quais passamos? Cidade limpa é saúde...”
         - “Quáquáquáquá...”
         - “Meu Bonje! Parece que vi um casal pelado naquela moita...”
         - “É uma nova modalidade para atrair turista!”
         - “Como assim Josephus?”
         - “Os pedintes e mendigos que fazem questão de serem chamados de moradores de rua ou sem teto, que possuem o sacro direito de ir e vir, defecar nas calçadas, urinar na rua e xingar quem trabalha, reivindicaram o direito de sexo livre nos locais públicos...”
         - “Meu Bonje!”
         - “São mais de quarenta vagando pelas ruas, a maioria jovem e dentre eles garotos de programa, prostitutas e travestis...”
         - “E o povo não reclama?”
         - “Fazem cara de nuvem, mudam de calçada temerosos de criticar quem detém o monopólio para fazer o que bem quer...”
         - “Você está exagerando Josephus!”
         - “Saiba Vossa Majestade que eles já se apossaram da Orla do Mangue, do velho prédio da Santa Casa, de muitas frentes de comercio e de algumas praças...”
         - “Coitada da população...”
         - “Sim! Os bancos, lotérica e muitas lojas estão abandonando o centro histórico, as pessoas evitam o máximo passar pelos locais onde os pedintes mandam e desmandam...”
         - “Mandam e desmandam?”
         - “Seguram nos braços dos transeuntes, obrigam os donos de automóveis a pagar pedágio, assediam quem faz compras em supermercados, pessoas e lojas estão sendo assaltadas...”
         - “Mas os jornais não falam nada! Só exaltam o fantástico turismo regional...”
         - “Turista perturbado não volta...”
         - “Que vergonha! Vamos mudar de assunto... Quero passar frente ao prédio do Correio Velho e conferir o andamento da reforma...”
         - “Que reforma Majestade?”
         - “Assisti na televisão, li nos jornais, vi na internet... Covidaram a plebe a dar um abraço no velho prédio, fizeram discursos, soltaram foguetes, apresentaram uma peça de teatro, tudo como despedida e inicio de novos tempos...”
         - “Não estou sabendo! Nossos agentes secretos não detectaram nenhum movimento suspeito no local nos últimos dias...”
         - “Espia Josephus! As luzes da passarela estão apagadas... Será alguma homenagem ao dia do meio ambiente?”
         - “Desculpa Alteza! Os eleitos pelo povo afirmam que não há nada de errado com a iluminação da passarela... A senhora está enganada!”
         - “Mas não tem luz!”
         - “Majestade! Acho bom terminarmos com o passeio. A senhora quer ser apontada como alguém que não ama a cidade? Que só sabe criticar? Alguém que só vê coisa ruim? Só falta a senhora dizer que a nova obra faraônica da Beira do Valo está rachando, que aumentou o numero de nóias, de assaltos e outras mentiras para denegrir tão bela e pacata cidade...”
         - “Eu? Nem pensar. Vamos cair fora antes que alguém nos processe por difamação.”


Gastão Ferreira/2012 
          

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