quarta-feira, 18 de julho de 2012

Dona Sinhá...


DONA SINHÁ


         Eram tempos difíceis, a família do coronel Marcondes passava por um período de vacas magras. Não! O coronel não era fazendeiro. Possuía um engenho de arroz e a produtividade estava em queda. O casamento de Emerenciana com Daniel, o filho de João Dornas, o grande industrial, talvez fosse à solução.
         Merê apelido de Emerenciana, uma jovem de quinze anos, quase uma titia para uma época em que as mocinhas costumavam casar aos treze anos. Criada dentro dos rígidos princípios de então, moradora do entorno da Praça da Matriz, assistia a duas missas diárias. Um amor de menina! Seu censo de humanismo a levava a espancar diversas vezes ao dia suas escravas; - “Nada como uma boa chicotada para impor respeito” dizia. Era odiada pela criadagem.
         Daniel comprou e reformou um antigo sobrado. Ali seria seu ninho de amor, livre da vigilância paterna finalmente realizaria seu sonho secreto, amar sem reservas a dona de seu coração. Encomendou os móveis no Rio de Janeiro, as finas alfaias vieram da Europa, as louças de Portugal. Sua amada merecia do bom e do melhor.
         Merê não amava Daniel, o casamento seria pura conveniência, a maneira pela qual seu pai fugiria a falência. O enxoval estava pronto há muitos anos, a única lembrança que levaria da casa paterna seria um quadro em que ela abraçada a uma magnífica Cruz de Pedra confirmava sua fé. A Cruz viera de Portugal e enfeitava o frontispício da Igreja, uma obra de arte para nenhum pagão por defeito.
         As bodas foram supimpas, a fina flor da sociedade estava presente, no cais do porto dezenas de barcos vindos dos mais diversos engenhos da região, coches e cabriolés engalanados chegavam dos palacetes, liteiras conduzidas por escravos traziam as madames e senhoras da elite. Um coral entoava os hinos de núpcias, as damas de companhia e os jovens pajens escolhidos entre as famílias mais nobres, nenhum pobre para por defeito nos arranjos... Uma festa para os abastados e seus herdeiros.
         Na nova casa os serviçais estavam a postos. Jair era o moleque responsável pelos recados, Joaquim o condutor do coche familiar, Anízia a cozinheira tendo Andréa e Marta como ajudantes. A jovem Benedicta era a mucama e responsável pelo bom desempenho dos demais escravos. Merê odiou todos eles e não via a hora de educá-los convenientemente.
         O coronel Marcondes visitava amiúde a única filha e insistia que estava na hora de Daniel ajudá-lo a sair da pindaíba. Merê devia agir conquistando a confiança do marido e solicitar auxílio, foi para isso que casara com o ricaço. Merê notou que Benedicta ouvira a conversa entre ela e o pai... Chamou a atenção da mucama com dois sonoros bofetões e informou que da próxima vez seria açoitada.
         Daniel permanecia insensível aos problemas do sogro que acabou indo a falência. O coronel Marcondes tornou-se inimigo mortal do genro, conseguiu que a filha desviasse alguns recursos do marido e montou um pequeno negócio fora da cidade. Merê começou a mostrar sua verdadeira personalidade, mal amada, rancorosa, mesquinha, descontava nos escravos seu rancor... O tempo foi passando e a vida no sobrado era um inferno.
         João Dornas vendeu suas propriedades e montou uma nova firma no Rio de Janeiro. Daniel foi visitar o pai e levou Jair e Joaquim... Merê também foi passar alguns dias com os pais e juntos tramaram a morte de Daniel. Ao voltar para a cidade, Benedicta, Anizia, Andrea e Marta haviam desaparecido. Merê mandou chamar seu pai para resolver a situação, contratar um Capitão da Mata para capturar as fugitivas, açoitá-las no pelourinho e recuperar tudo o que as escravas roubaram, pois as pratarias e o ouro desapareceram com elas. Foram consultar o juiz para tomar as devidas providencias.
         O Juiz informou que nada havia a fazer, que Daniel vendera o palacete e que os escravos como propriedades pessoais o seguiram. Que Merê lesse com atenção o contrato nupcial, ele fora feito com separação de bens e a lei dizia que suas posses eram o que levara consigo ao casar. Merê só pode retirar da casa o quadro em que ela abraçava a Cruz de Pedra e mais nada, pois até suas suntuosas roupas foram levadas pelas escravas.
         Emerenciana foi morar com os pais e atendia aos fregueses na vendinha a beira da estrada, era tratada como Dona Sinhá. Um dia atendendo um cliente desconhecido ficou sabendo que era um caixeiro viajante e trabalhava na firma do milionário João Dornas com sede no Rio de Janeiro. Com muito jeito conseguiu informações do seu ex-marido. O caixeiro contou que João Dornas tinha um filho de nome Daniel, um homem muito corajoso, que enfrentou a sociedade e a família para ficar com a pessoa que amava desde a juventude, uma morena chamada Benedicta, seu grande amor e companheira... Era muito feliz! Nesses tempos modernos, de muitas mudanças, com o poder do ouro tudo era aceito.
         Dona Sinhá envelheceu sozinha, uma mulher amarga sem amigos sinceros, uma mulher que pensa ser o ouro a melhor companhia, uma solitária convivendo com fantasmas e se julgando acima do bem e do mal... Olhando para o quadro em que abraça a Cruz de Pedra, com os olhos marejados de lágrimas, relembra o passado; - “Tudo poderia ser diferente, eu plantei! Eu colhi.”

Gastão Ferreira/2012
        

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