segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sem traumas...


SEM TRAUMAS



         Britanny é a alma de uma festa, criada num povoado a beira-mar, se veste a moda da casa, ou seja, o mínimo possível. Gaba-se de nunca ter perdido um folguedo desde batizando a velório, sua presença é parte de todos os eventos. Gosta de cantar, dançar, sapatear e também de canapés, churrasquinhos, sorvetes, bolos, quibes, comida japonesa, italiana, árabe e tibetana. Caso a bebida for gratuita enche a cara com o que lhe dão e dança solitária ao som de qualquer música. Pesa um pouco mais de cem quilos.
         Tanny é uma mãe extremosa. Tifanny sua pequena filha de quatro anos a acompanha pelos bares da vida. A menina é curiosa e aprende rápido, conhece de cor e salteado a maioria das palavras de baixo calão, assim como frases ambíguas, ou de duplo sentido. Um amor de criança, tão bem educada que a sentença que mais ouve é; - Cala a boca!
         Na festa de aniversário de Miau e Miow, a cachaçada rolou a valer. Zoiudinho, o dono da boca de fumo do pedaço, que se dizia francês, aprontou. O tiozinho cantava “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca”, “Chão de Estrelas”, como um nativo dos morros cariocas, fazer o quê! Era francês. A turma não estava nada contente com a participação de Zoiudinho na festança, apesar da maioria ser fumantes não misturavam as estações e maconha, cocaína e craque não faziam parte das extravagâncias da noite.
         A lua estava bem no alto, um pouco após a meia noite os grupos estavam formados e cada um procurava o seu próprio quadrado. As senhoras de respeito comentavam a última procissão e o belo sermão de Padre Pio. As garotas e garotos sem programa falavam sobre o tempo chuvoso. Os sem eiras nem beiras bebiam pinga. Os poucos com eiras tomavam cachaça e os com eiras e beiras cervejas. O grupo de pagode cantava a pleno pulmões as mais belas músicas do passado e misturavam às letras. As garçonetes anunciavam os últimos espetinhos de gato e o final da festa.
         Estavam todos nesse congraçamento, disputando os derradeiros churrasquinhos, quando Britanny completamente desvairada adentra o salão; - Pessoal! Um minuto de silêncio. O Zoiudinho, esse filho de uma quenga, destruidor da juventude, esse francês de bosta, essa coisa ridícula mostrou as nádegas a minha pequena Tifanny... Pobre criança! Ficará traumatizada para o resto da vida. Vamos dar uma lição no pilantra!
         Zé Bodinho e Anita Manjuba tomaram as dores de Tanny. A senhora Anita passara a noite de mesa em mesa contando suas mágoas e perturbando os diálogos. Sua filha tinha um pequeno problema, mas quem não tinha pequenos problemas? O importante era ser feliz. Pegou Zoiudinho pelo colarinho e exigiu explicações; - Como o senhor teve a coragem de baixar as calças frente a uma inocente criança? O senhor tem ideia do trauma causado? Vamos linchar esse vagabundo.
         Zoiudinho se justificou alegando que sua calça caiu e que não era sua intenção causar sequelas na fina educação da menininha. Não era francês! Tinha a língua um tanto presa e devido a alguns excessos as palavras saiam distorcidas... Ajoelhou-se frente a inocente Tifanny e morrendo de medo de ser linchado sussurrou; - Perdon minha criança! Perdon.
         A pequena Tifanny que naquele momento observava as sacanagens de um casal no escurinho do salão fez beicinho e perguntou; - “Por que tenho de perdoá-lo tiozinho francês?”, “Por que você serrá parra sempre uma pessoa traumatizada, por que viu as minhas nádegas!”.
         Todos os presentes esperavam pelo desfecho... Que fazer com o tarado? Dar uma surra? Jogar no rio? Enforcar? Os ânimos estavam exaltados, os justiceiros prontos para agirem, Britanny queria ver sangue! O tiozinho francês nem parava em pé de tão chapado, seria fácil trucidá-lo... A inocente Tifanny, olhando para todos, informou aos presentes; - “Não vi nádegas nenhuma! O que eu notei foi uma bunda bem caidaça. Uma vergonha!”... Todos riram, o drama acabou! Sem Traumas.

Gastão Ferreira/2012    
          

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