sábado, 9 de junho de 2012

Quem sabe!


O ÚLTIMO HOMEM


         Não sei o que será de nós, tenho a impressão que a raça dos homens não tem futuro. Quando os grandes répteis foram extintos, nossa espécie dominou o planeta. Não o mundo inteiro, apenas a parte chamada Europa. Segundo a tradição oral, legada por nossos antepassados, sempre moramos em cavernas. Na atualidade disputamos espaço, alimentação e território com criaturas desconhecidas às quais apelidamos de dragões.
         No inicio os dragões eram nossa presa favorita, carne macia e saborosa, seus filhotes nosso alimento predileto. Os dragões, segundo a lenda, habitavam as grandes florestas africanas, moravam sobre as árvores e se alimentavam de frutas, se comunicavam por sons, viviam em bandos. Com o tempo abandonaram a alta vegetação e invadiram a pradaria, nosso território de caça.
         Os dragões residem em cavernas. São frágeis, morrem fáceis. Nós os humanos desde tempos imemoriais somos seus predadores. Algo aconteceu com os dragões, algo maléfico os guia. Eles descobriram como criar o fogo, conseguiram manufaturar armas letais. Quando desceram das árvores se defendiam com paus e pedras, depois inventaram a temível lança e na atualidade utilizam um aparelho mortal chamado de arco e flecha.
         Estamos perdendo esta guerra. Poucos de nós sobrevivem as emboscadas dos dragões. Quando eles atacam, assaltam em grupo. Invadem nossas cavernas, matam nossos filhos, não fazem prisioneiros. Nunca existiu um animal tão sedento de sangue, tão violento quanto um dragão.
         Alem de sua impetuosidade, os dragões são terrivelmente feios. Apesar da carne tenra e saborosa, seu aspecto exterior é apavorante. Andam sobre duas pernas, possuem um par de braços longos, cobrem o corpo com a pele de suas vítimas, sobre suas pequenas cabeças crescem cabelos e para completar tão sinistra figura de seus crânios nascem duas orelhas, dois olhos, um nariz e uma única e pequena boca com poucos dentes. Simplesmente um horror!
         Nós os humanos somos a perfeição, a imagem e semelhança do Criador. Possuímos garras afiadas para capturar com facilidade uma presa, um magnífico par de asas para deslizar pelo espaço, uma boca bem formada e com centenas de dentes afiados, nossos corpos aerodinâmicos são revestidos de uma linda couraça. Para coroar esta obra prima da criação, somos dotados de um sopro mortal, literalmente expelimos fogo.
         Em nossa ampla caverna somos três, os últimos exemplares da divina raça dos homens. Hoje voaremos para longe desta aberração chamada dragão. Estou velho, setecentos verões passaram por mim. Minha idosa companheira já não procria, na última ninhada os ovos não vingaram. A toca será abandonada esta noite, voaremos para o norte. É a hora certa para o esquecimento descer sobre a história do homem e começar a miserável saga dos dragões.

Gastão Ferreira/2012
          
          

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