sábado, 9 de junho de 2012

Morrer é voltar para casa...


A VOLTA


         Quando eu parti vim sozinho. Meu ouro, minhas joias, meus bens ficaram na casa abandonada. Trouxe os risos, as lembranças, muitas incertezas, rostos de pessoas que conheci e partiram bem antes de mim, companheiros de viagem que de alguma forma participaram de minha história.
         O mundo era o mesmo, o mesmo sol, a mesma lua, as mesmas estrelas. No começo da jornada eu estava confuso, caminhei como dentro de um sonho, o passo vagaroso, algumas dores e um lento despertar para coisas sabidas e esquecidas. No fundo da consciência surgiam imagens adormecidas, sabia que no fim da estrada havia um portal.
         Não estava só! Centenas de pessoas se utilizavam do mesmo caminho, algumas alegres vindas do ponto de partida, outras tristes e cabisbaixas retornando. Quanto mais andava mais minha memória se expandia. Recordei da criança que fui. Do menino feliz, do adolescente confuso, do jovem, do homem, do velho. A vida passava célere mostrando as lições aprendidas.
         O portal estava aberto, vislumbrei a cidade que um dia abandonei para uma nova turnê planetária. Percorri as ruas gramadas, passei por lagos e bosques, ouvi o som de música distante. A casa era a mesma dos meus sonhos. Estava situada sobre uma colina e dela se avistavam as montanhas e o mar.
         Na sala bem iluminada notei meus antigos livros nas estantes, dentre eles a Ilíada de Homero, Os Diálogos de Platão, O Livro dos Mortos do antigo Egito, tratados de mitologia, filosofia, geografia, história universal. Sabia que no andar superior ficava um escritório, o local de meu trabalho, o coração da casa.
         Ainda um tanto fragilizado abri os arquivos. Mil pastas e em cada pasta uma história, minha história pessoal através do tempo, minhas viagens ao planeta Terra. Coloquei um estranho capacete na cabeça e apertei a tecla “Entre” e as imagens jorram feito cascata. Alguém partindo daquela casa, alguém diferente e igual a mim. O portal, a estrada, um berço. Olhos que não eram os meus se abrindo para uma realidade tridimensional... Um filme com inicio, meio e fim... Salvei.
         Apenas mais uma pasta em meu arquivo cármico. Fim de um passeio de aprendizado, um nome para acrescentar aos anteriores. Minha mente estava vazia, esquecida de mim. Sai para o terraço e fitei o mar, as brancas areias de Helion, minha cidade cósmica, falavam de paz... Quanto tempo durou a última viagem? Setenta oitenta anos? Um sopro na eternidade do meu eu... Um novo nome no meu arquivo vida!
         Amanhã encontrarei os velhos amigos, aqueles das excursões antigas, os que ficaram. Contarei do que aprendi. Da saudade que carreguei, dos sonhos realizados, das dores e das alegrias. Agora é o retornar à casa ancestral, hora das conclusões, hora de reaprender a viver, de reencontrar a realidade quase esquecida e esquecer-me de mais um nome que me dei. Um nome que será apenas uma referência no meu arquivo de infinitas vidas.

Gastão Ferreira/2012

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