terça-feira, 5 de junho de 2012

Histórias da Festa de Agosto...


APENAS UM ROMEIRO


         A cidade estava em festa, centenas de barracas feitas de taquaras, ofereciam seus produtos aos milhares de romeiros em sua visita anual. No entorno da Matriz a fila para visitação ao Santo Protetor era imensa e dava voltas e mais voltas ao redor da igreja. Rezas, procissões, ladainhas. Cavalos e cavaleiros misturavam-se aos transeuntes, rojões troavam nos céus. No coreto da praça, os fotógrafos eternizavam em fotos de monóculos as visitas. Os peregrinos e suas devoções. Casas de família ofereciam a preços módicos banho e alimentação.
         Aline pela primeira vez participou de uma romaria, chegou de longe para pagar sua parte no trato da promessa. Sua mãe está salva e uma grande vela acesa em agradecimento à graça alcançada. A noite procurou o Abrigo dos Romeiros para um merecido repouso. O dinheiro veio contado e os hotéis caros.
         No salão de refeição um jovem de boa aparência contava uma história, Aline prestou atenção. Pequeno sitiante, uma epidemia de origem desconhecida devastava sua propriedade, os animais morriam. Os veterinários não descobriam a causa da doença, uma promessa ao Santo Protetor exterminara o estranho vírus. Veio a pé de muito longe, carregando nas costas uma pesada cruz de madeira, estava cansado, voltaria a pé, sem dinheiro para pagar uma condução se considerava um homem feliz, sua fé era imensa e com certeza alguém o ajudaria a voltar para casa. Os romeiros, comovidos com a sua história tão singela e pura, colocaram um bom dinheiro na sua frente. O jovem agradeceu comovido, colocara a cruz na sala dos milagres, a conta com o Santo Protetor foi zerada, amanhã retornaria feliz e com a consciência tranquila para seu pequeno sitio.
         O jovem pernoitou no albergue, chovia e a temperatura era baixa. Aline aceitou o vinho, depois as carícias e depois se entregou ao desconhecido. Quando acordou o homem havia partido. Não perguntou o nome do homem com quem repartira uma noite de amor, uma garrafa de vinho, uma história singela contada a estranhos.
         Nove meses depois, Jairo nasceu. Um menino saudável, risonho, esperto. Com o passar do tempo começou a perguntar pelo pai, Aline não podia simplesmente contar que se entregara de corpo e alma a um desconhecido em troca de um copo de vinho e alguns beijos, logo ela uma mulher séria, uma beata que dera um mau passo.
         Aline fez nova promessa, caso encontrasse o pai de Jairo daria um bezerro como prenda para o bingo beneficente de sua paróquia. Urgia voltar aos pés do Santo Protetor e homologar o pedido. Jairo estava com dezoito anos e queria porque queria conhecer o pai.
         A cidade estava diferente, ruas calçadas, as barracas eram de tecido, o coreto substituído por uma cruz de pedra deixara a pracinha mais triste. Aline fez questão de jantar no Albergue dos Romeiros. Ela e Jairo pernoitariam em um bom hotel, queria mostrar ao filho o local onde pela primeira e última vez encontrara o honesto e humilde sitiante a quem amara.
         No albergue escolheram uma mesa pequena, muitos romeiros jantavam àquela hora e Aline ouviu uma voz que jamais esquecera; - “Sou um humilde sitiante, um vírus desconhecido exterminou meus animais, sem ter a quem recorrer fiz uma promessa ao Santo Protetor... Vim de longe carregando uma pesada cruz de madeira, depositei a cruz na Sala dos Milagres, amanhã volto a pé para casa, sem dinheiro para pagar uma condução, mas feliz por ter pagado o prometido.”
         Aline olhou o homem que contava a edificante história. Com aparência envelhecida, feições de alcoólatra, poucos dentes, juntava avidamente o dinheiro que alguns romeiros compadecidos lhe ofertaram. Aline pensou; - “Que safado! O mesmo truque de dezenove anos passados. Ainda bem que nunca mais o vi, do que escapei meu Bonje!”
         Aline pediu uma garrafa do melhor vinho. Jairo estava desconsolado por não ter encontrado o pai, mesmo assim curtiu a festança. Foram em todos os forrós, bailinhos e bailecos, compraram muitos presentes para os amigos, tiraram fotos, visitaram a Fonte do Senhor. Aline acendeu muitas velas ao Santo Protetor, agradeceu por ter se livrado de uma fria e informou a Jairo que através de um antigo conhecido, ficou sabendo que o pai de Jairo morreu há mais de quinze anos, morreu sem saber que tinha um filho... Homem muito bom, humilde, honesto e trabalhador... Que esteja em paz, ao lado de Nosso Senhor!

Gastão Ferreira/2012
        

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