sábado, 2 de junho de 2012

Assim foi... Assim é.


LANA GILETE


         É noite e na cidade todos dormem, na verdade nem todos. Alguns bacanas se aprontam para mais uma bacanal, muitas donzelas saltam as janelas para encontros secretos na pracinha. Luy Pegaleve, único herdeiro do milionário Amâncio Pinto, usineiro e senhor de escravos, está eufórico, nesta noite sairá finalmente do guarda-roupa. As portas dos bares estão fechadas, de dentro dos estabelecimentos vem brincar na rua gemidos, sussurros e ocasionalmente um sonoro palavrão. De fato, os que repousam no silêncio da noite são os humildes trabalhadores, os escravos, os operários, os pedreiros, os carpinteiros, os pobres, ou seja, quem não necessita acordar cedo fica na esbórnia até o amanhecer.
         Luy saiu sorrateiramente da mansão familiar e foi ao encontro da amiga Bella Paloma, neta de Linda Paloma, a portenha que montou o primeiro prostíbulo da cidade... Bella herdara os bens de vovó Pombita (Para quem não estudou Paloma é a ave-pomba em espanhol.), comprou um título de nobreza, vários sítios, casarões que mandou reformar e aluga para comércio de variedades. Todos na cidade beijam sua mão, também empresta dinheiro a juros. Bella é rica prá cacete. De dia dá esmolas à noite dá outras coisinhas por puro prazer. Foi ela quem incentivou Luy a sair do armário, digo, do roupeiro. 
         Pegaleve trocou de roupa no palacete de Bella. Maquiou-se, colocou uma peruca loira e ambos saíram para passear na beira do cais. Muitos marujos bêbados e insones procuravam por breves aventuras, marinheiros eram bons parceiros porque mal clareava o dia os navios zarpavam e com eles os fatos ocorridos na madrugada. Bella e Luy não eram os únicos que estavam no local a fim de curtir os prazeres de Eros. Muitas dondocas de boas famílias, disfarçadas, também troteavam pelo cais, mas ao passar uns pelos outros, faziam de conta que nunca se tinham visto, nem se conheciam.
         As mal afamadas mulheres de programa, as que rodavam bolsinhas, as que se entregavam à desconhecidos a troco do metal vil, as dissimuladas prostitutas, raparigas de vida fácil, não gostavam da concorrência com quem não era do metiê e sempre surgia alguma confusão... Não deu outra! Lana Gilete provocou Luy bem na hora que o travéco abatera dois marujos. A baixaria estava armada e metade da cidade veio assistir ao bafão.
         Lana Gilete era o nome de guerra de Emerenciana Brígida de Castro Neves Souza Paranhos, apelido nhanhá Gida, filha da lavadeira do comendador Amâncio Pinto. O cognome Gilete era devido a um probleminha pessoal da moça, uma hora prestava serviço aos senhores da terra, outra hora às madames que a gratificavam muito bem.
         O arranca rabo entre Lana Gilete e Luy Pegaleve que fraturou duas costelas e perdeu um dente, acabou frente ao comissário de polícia. O jovem sargento de armas, muito justo, fez de conta que não reconheceu Luy e mandou dar uma valente surra em Lana Gilete. Levou Luy para uma cela especial e manteve com o jovem um longo diálogo... Estão juntos até hoje.
         Luy voltou ao armário, o sargento ganhou uma promoção, Coronel Marcondes é o melhor amigo de Luy. Bella adotou dois jovens grumetes promissores e quando o navio em que trabalham aporta no cais, muitos foguetes são disparados. Todos na pequena cidade sabem que em algum lugar haverá uma bacanal noturna.
         Na madrugada as donzelas ainda pulam as janelas, os marinheiros procuram carinho, os desavisados são assaltados, as garotas de programa trabalham. As mulheres de vida fácil têm uma vida difícil. Lana Gilete sem cinco dentes roda a bolsinha e os bacanas se encontram e se desconhecem em mais uma bacanal... O sino acorda o povo, mais um dia de trabalho, o que ocorre na noite, o dia faz de conta que não sabe e todos convivem felizes.

Gastão Ferreira/2012   

 

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