terça-feira, 26 de junho de 2012

Apenas um estranho...


UM ESTRANHO...


         Will foi criado por uma camponesa que morava nos confins do Vale Feliz. Sua família perecera num incidente ocorrido quando tinha poucos meses de vida. “Uma fatalidade”, dizia tia Wandinha, “gente boa morre cedo!”
         Por muitos anos Will teve pesadelos terríveis, sonhava com um veículo caindo num precipício e uma mulher em desespero jogando um recém-nascido pela janela. Seria sua mãe? Outras vezes seus sonhos o levavam a lugares nunca vistos, águas vermelhas batiam em negros rochedos e num céu verde carros voadores flutuavam silenciosamente. Com o passar do tempo seus pesadelos passaram a ser normais... Um cachorro com chifres cantando em chinês, uma cobra sendo usado como varal, um minotauro dividindo uma cerveja com um centauro, coisas comuns, nada para ficar apavorado.
         Will se achava a pessoa mais normal do mundo, estudou, se profissionalizou e morou em diversas cidades. Em todas se sentia um estranho, parecia que nada lhe pertencia de verdade, não conseguia se imaginar proprietário de algo; - “Não sou dono de nada, quando eu for embora tudo ficará aqui!”, dizia.
         Notava as pessoas brigando por bobagens, se ofendendo gratuitamente com agressões físicas e verbais, pensava; - “A vida é tão curta para desavenças tão pequenas, não carregarei o peso de ódios que não são meus! A infelicidade é um estado de espírito, não faz parte do meu dia a dia, eu sou feliz!”
         O tempo foi passando e o sentimento de não pertencer aumentando. “Porque será que é assim? Tenho minha casa, meus amigos, meus animais de estimação e esta solidão sem nome que me devora... Não é uma solidão de falta, de estar junto, de ter alguém... É algo mais profundo, uma saudade que não é minha, algo que vem de muito longe e me espia em silencio... Passos que não deixam rastro, perfumes, diálogos entre sombras em lugares nunca visitados, uma ausência de rostos que amei e não recordo...”
         Will foi chamado com urgência ao Vale Feliz, tia Wanda estava nas últimas e queria se despedir. Nhá Wandinha mal reconheceu o sobrinho sussurrou; - “Will, perdoa esta velha que já está de partida, eu menti, não sou sua tia de verdade... Sabe o Morro do Diabo? Foi lá que te encontrei sobre a pedra do Saci... Você chorava, não vi ninguém, te trouxe comigo, te dei todo o amor que eu tinha, muito obrigada por ter sido a luzinha que iluminou minha solidão... Agora posso seguir em paz.”
         Depois do enterro Will foi até o Morro do Diabo, contornou a pedra do Saci e se embrenhou na mata. As peças do veículo estavam cobertas pela vegetação, dois esqueletos amarrados pelo cinto de segurança comprovavam que o impacto fora terrível... Seu pai? Sua mãe? No piso do transporte três fotos, material desconhecido, tecnologia avançada... Numa das fotos um casal e uma criança, em outra um mar de águas vermelhas quebrando numa praia de areias azuis e a terceira foto mostrava um céu verde com nuvens amarelas onde um carro voador flutuava, alheio a paisagem.
         Will vasculhou os arredores, nada mais encontrou... Não sabia o porquê, mas tinha a certeza que aquela aeronave era de Marte... Tinham vindo de tão longe, cruzaram o espaço, uma pane e a nave explodiu, mal deu tempo de salvar a criança... A criança que virou um estranho na Terra... Neste momento a saudade chegou e agora tinha um rosto, um nome e um endereço... Will chorou desconsolado pela primeira vez!

Gastão Ferreira/2012
        
          

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Sem traumas...


SEM TRAUMAS



         Britanny é a alma de uma festa, criada num povoado a beira-mar, se veste a moda da casa, ou seja, o mínimo possível. Gaba-se de nunca ter perdido um folguedo desde batizando a velório, sua presença é parte de todos os eventos. Gosta de cantar, dançar, sapatear e também de canapés, churrasquinhos, sorvetes, bolos, quibes, comida japonesa, italiana, árabe e tibetana. Caso a bebida for gratuita enche a cara com o que lhe dão e dança solitária ao som de qualquer música. Pesa um pouco mais de cem quilos.
         Tanny é uma mãe extremosa. Tifanny sua pequena filha de quatro anos a acompanha pelos bares da vida. A menina é curiosa e aprende rápido, conhece de cor e salteado a maioria das palavras de baixo calão, assim como frases ambíguas, ou de duplo sentido. Um amor de criança, tão bem educada que a sentença que mais ouve é; - Cala a boca!
         Na festa de aniversário de Miau e Miow, a cachaçada rolou a valer. Zoiudinho, o dono da boca de fumo do pedaço, que se dizia francês, aprontou. O tiozinho cantava “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca”, “Chão de Estrelas”, como um nativo dos morros cariocas, fazer o quê! Era francês. A turma não estava nada contente com a participação de Zoiudinho na festança, apesar da maioria ser fumantes não misturavam as estações e maconha, cocaína e craque não faziam parte das extravagâncias da noite.
         A lua estava bem no alto, um pouco após a meia noite os grupos estavam formados e cada um procurava o seu próprio quadrado. As senhoras de respeito comentavam a última procissão e o belo sermão de Padre Pio. As garotas e garotos sem programa falavam sobre o tempo chuvoso. Os sem eiras nem beiras bebiam pinga. Os poucos com eiras tomavam cachaça e os com eiras e beiras cervejas. O grupo de pagode cantava a pleno pulmões as mais belas músicas do passado e misturavam às letras. As garçonetes anunciavam os últimos espetinhos de gato e o final da festa.
         Estavam todos nesse congraçamento, disputando os derradeiros churrasquinhos, quando Britanny completamente desvairada adentra o salão; - Pessoal! Um minuto de silêncio. O Zoiudinho, esse filho de uma quenga, destruidor da juventude, esse francês de bosta, essa coisa ridícula mostrou as nádegas a minha pequena Tifanny... Pobre criança! Ficará traumatizada para o resto da vida. Vamos dar uma lição no pilantra!
         Zé Bodinho e Anita Manjuba tomaram as dores de Tanny. A senhora Anita passara a noite de mesa em mesa contando suas mágoas e perturbando os diálogos. Sua filha tinha um pequeno problema, mas quem não tinha pequenos problemas? O importante era ser feliz. Pegou Zoiudinho pelo colarinho e exigiu explicações; - Como o senhor teve a coragem de baixar as calças frente a uma inocente criança? O senhor tem ideia do trauma causado? Vamos linchar esse vagabundo.
         Zoiudinho se justificou alegando que sua calça caiu e que não era sua intenção causar sequelas na fina educação da menininha. Não era francês! Tinha a língua um tanto presa e devido a alguns excessos as palavras saiam distorcidas... Ajoelhou-se frente a inocente Tifanny e morrendo de medo de ser linchado sussurrou; - Perdon minha criança! Perdon.
         A pequena Tifanny que naquele momento observava as sacanagens de um casal no escurinho do salão fez beicinho e perguntou; - “Por que tenho de perdoá-lo tiozinho francês?”, “Por que você serrá parra sempre uma pessoa traumatizada, por que viu as minhas nádegas!”.
         Todos os presentes esperavam pelo desfecho... Que fazer com o tarado? Dar uma surra? Jogar no rio? Enforcar? Os ânimos estavam exaltados, os justiceiros prontos para agirem, Britanny queria ver sangue! O tiozinho francês nem parava em pé de tão chapado, seria fácil trucidá-lo... A inocente Tifanny, olhando para todos, informou aos presentes; - “Não vi nádegas nenhuma! O que eu notei foi uma bunda bem caidaça. Uma vergonha!”... Todos riram, o drama acabou! Sem Traumas.

Gastão Ferreira/2012    
          

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Apenas um sapo...


EUSÉBIO...



         Venho de uma longa linhagem de nobres, meu sangue é azul, sou um príncipe. Meu pai foi rei e senhor destas terras. Seu palácio de mil jardins falava de seu poder. Numa bela tarde primaveril uma garota pediu pouso no castelo e minha mãe mandou abrir os portões, foi à perdição do reino.
         Alissia era linda, conquistou a todos com sua simplicidade, meu primo Ary Oswald apaixonou-se perdidamente. Minha tia a princesa Magnólia foi contra seu casamento, meu tio Ariowal e o restante da família real deram a maior força. Na verdade todos queriam se livrar de Oswald o mais rápido possível. Nunca existiu um príncipe tão corrupto, desonesto, pedante, chato, orgulhoso, do que meu primo Ary Oswald.
         Minha mãe, a rainha Mary, interessou-se pelas bodas e conversou gentilmente com Alissia explicando a situação. A menina sem eiras nem beiras, com o casório conquistaria um lugar na mesa palaciana, teria uma carruagem a sua disposição, criadas e fâmulos a seu serviço, sem contar uma pequena parte do tesouro real para compra de mimos e luxos.
         Alissia não se mostrou feliz com a ideia do casório. Não pensava em casar, gostava secretamente de alguém e jamais fora correspondida. Ary Oswald não se conformou, trancou a garota num calabouço, negou comida, humilhou e maltratou a donzela. Queria saber o nome do amor secreto... Era tão escroto que ao visitá-la encostava-se à parede e pedia um beijo de boa noite. O tempo foi passando...
         Naquela época todo o reino tinha Fadas protetoras. As Fadas dividiam-se em boas e más. Conhecia-se um reino por suas Fadas. Normalmente um reino feliz tinha uma boa Fada madrinha, nosso reino sempre faturando obras, cobrando propinas, taxando os cidadãos, explorando os menos favorecidos e soltando toneladas de foguetes em festinhas banais, tinha uma má Fada como madrinha.
         Marybeth era nossa Fada, ganhava um percentual nas inúmeras maracutaias da nobreza e a plebe vil não tinha a quem recorrer. As Fadas também tinham seus superiores e assim o “caso Alissia” foi levado ao conhecimento da rainha das Fadas. Um escândalo! Uma devassa geral no reino.
         Cidônnya, a rainha das fadas, após uma longa conversa com a prisioneira e com um brilho de mil estrelas no olhar, decretou; - A donzela Alissia será levada ao palácio das fadas para ser minha acompanhante e com o tempo será uma mãe de santo. A fim de evitar retaliações o nome Alissia será trocado por Achel, Bechel, Nachel ou qualquer outro que a garota desejar, menos nomes de santas, pois não ornam como nome de uma feiticeira. A plebe vil será transformada em árvores, pois aceitavam os abusos dos nobres em troca de pequenos favores. Os da realeza viverão na lagoa como anfíbios até que num dia muito, muito distante o feitiço seja quebrado.
         Meu mundo desapareceu. Onde existia o castelo agora é uma colina, dizem que o palácio está invisível e no mesmo lugar. Sou o último da linhagem ancestral. Nossa fada madrinha Marybeth se escafedeu. Primo Ary Oswald foi devorado por uma cobra. Descobri que somente um ósculo de uma donzela sem malícia quebrará o terrível encantamento. Meu nome é Eusébio; - Me beija! Me beija!  

Gastão Ferreira/2012
         

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Fábula esperta...


O PORQUINHO BACURI (Fábula)


         No tempo em que os bichos falavam e o mundo era inocente, numa pocilga não muito distante, nasceu um porquinho esperto, seu nome; - Bacuri.
         Dona Leitoa sempre foi uma mãe preocupada com a saúde familiar, por mais que se esforçasse Bacuri não engordava. Uma vergonha! Como pode um porco não engordar?
         Porco que não engorda não vira linguiça! ... Por mais que o alimentassem, Bacuri era magro feito vara de marmelo. Dona Leitoa, inconformada com a magreza do filhote, procurou uma benzedeira para retirar o quebranto.
         Não era mau-olhado, pois o pimpolho permanecia um esqueleto ambulante. Seus irmãos há muito tinham se transformado em salame, salsicha, presunto. Bacuri conseguiu sobreviver a sua sina e não virou torresmo.  
         Bacuri nunca gostou de estudar, estava mais interessado em ficar rico, possuir um chiqueiro maravilhoso, comer do bom e do melhor, namorar as porquetes mais gostosas. Conseguir um meio de vida diferenciado sem a necessidade de trabalhar. Associou-se a uma porca de nome Corrupeth e fundaram uma ONG (Olá Nossa Grana). Partiu assim para a mais deslavada politicagem.
         O melhor amigo do ouro se chama poder. Coisa complicada! Ninguém possui ouro sem poder e ninguém tem poder sem o ouro para sustentá-lo. Bacuri por meio de sua ONG conseguiu o ouro, comprou corações e mentes, fez conchavos, elegeu-se representante da porcada e de outros animais que partilhavam de seu sucesso.
         Bastaram dois anos desfrutando do poder para Bacuri engordar. Uma coisa notável! O poder engorda. Os candidatos a cargos eletivos quando vencedores da disputa, em pouco tempo ficam imensos, caras redondas, barrigão. Com Bacuri não foi diferente, bastou chegar ao pódio e a boa ceva o transformou em um senhor porcão.
         O sonho de Dona Leitoa estava realizado, finalmente seu filhote engordara. Seus duzentos quilos renderam uma boa grana ao dono da pocilga. Salames, salaminhos, toicinho defumado, linguiças, bistecas, costelinhas de primeira e a certeza de que ninguém foge ao próprio destino.
         Dona Leitoa está desolada, mais um filho foi abatido. Hoje ela sabe que a vida é algo para ser compartilhada. Que chegamos ao mundo de mãos vazias e que de mãos vazias todos partiremos. Que a honestidade é a garantia do sucesso, que caráter não se compra e que não somos donos da vontade alheia. Que viver com dignidade é o caminho mais seguro para a felicidade plena.

Moral da fábula; - Nenhuma... Bacuri poderia continuar magro, sem estudo e ser bailarino, pastor, motorista, torneiro mecânico, líder sindical e presidente da república. Poderia estudar e ser médico bancário, professor. Preferiu viver a custa do suor alheio, criou uma ONG para ter dinheiro fácil, quis ser político e sustentar seus luxos com os impostos dos cidadãos, pois é engordou e virou presunto.  


Gastão Ferreira/2012
          
          




         

sábado, 9 de junho de 2012

Histórias da vovó Nachel...


ZINA...


         Zina era extremamente infeliz. Nascida na zona rural, poucas amigas, roupas presenteadas por terceiros. Não que ela fosse materialista! Nada disso. Era até muito pé no chão, o seu primeiro sapatinho ganhou aos quinze anos de idade. A infelicidade da menina vinha de sua feiura, uma vez participou de uma peça de teatro infantil e fez o papel de espantalho sem necessitar de maquiagem.
         A vida é cheia de sonhos impossíveis. O pobre quer ser rico sem precisar estudar ou trabalhar. O rico quer comprar a felicidade à custa da infelicidade alheia. A manjuba sonha em ser tainha, o camarão em ser lagosta e Formozina em ser modelo fotográfico.
         Quando ela completou quinze anos e foi presenteada com o primeiro par de sapatos, o mimo veio da famosa vovó Nachel, uma boa-fada para alguns e uma má-fada para muitos. Vovó se engraçou pela guria, pois ela lembrava a bruxa que a iniciara em magia negra e que tentaram queimar numa fogueira e que fugiu para Sete Barras, mas esta é outra história, voltamos à Zina.
         Vovó Nachel se apiedou da mocinha. Fez um terrível feitiço num espelho de cristal e milagre dos milagres Zina ficou de uma hora para outra belíssima... Corpo de odalisca, rosto de artista de cinema, uma gata. Em algum lugar uma odalisca virou baranga, uma artista de cinema fez com urgência urgentíssima uma plástica, uma gata virou anta. Quando Formozina se mirava no espelho, extasiava-se perante tanta beleza, no reverso do espelho a Zina de outrora chorava.
         O mundo é mesmo assim, bastou à mocinha ficar bonita e todos passaram a chamá-la de Formosa, Zina já era. Participou do concurso “A mais bela garota rural” e levou o prêmio... Dois leitões e uma vaca leiteira. Vendeu os prêmios e foi para a cidade grande... Pouco tempo depois já estava em mil cartazes, era uma modelo fotográfica famosa, ganhava rios de dinheiro.
         Apaixonou-se por Júnior, um garoto do interior que vendeu a alma ao diabo para sair da miséria, era tão honesto que enriqueceu da noite para o dia com trambiques e afins. Zina nunca ligou para dinheiro, mesmo assim fez Júnior passar para seu nome todas as propriedades compradas com a grana ilícita.
         Agora Formozina era da elite. Para as bodas convidou a fina flor da sociedade, os políticos milionários, os donos de indústrias, os banqueiros e investidores nacionais. Da pequena cidade histórica tombada, não convidou ninguém, nem pai, nem mãe, nem prefeita.
         O casamento estava se realizando na catedral. Os canais de televisão apostos para o evento, um coral de seiscentas vozes entoavam a Ave Maria... Os convidados babavam de emoção... Um cardeal iniciou a santa cerimônia... Um grito sobrepujou a pompa principesca... Silêncio total.
         Vovó Nachel adentrou o templo e em suas mãos um presente para a noiva. O espelho encantado! ... Formozina correu para pegá-lo e vovó o quebrou contra o piso de mármore. Um lamento partiu da multidão, os ricos convidados estavam horrorizados, o noivo desmaiou... Formozina, a linda modelo mundialmente elogiada por sua divinal beleza, transformara-se novamente em Zina, a feia.
         Zina voltou para a zona rural, acabou não casando e nem devolvendo as propriedades que o ex-noivo passara para seu nome; - “Posso ser feia, mas não sou laranja! O que é meu é meu, ninguém tasca.”
         Zina pediu mil desculpas a vovó Nachel e a presenteou com uma imensa mansão, com um laboratório completo para bruxarias e feitiços. Comprou de papel passado um tal de Evandro, tido como o mais belo sitiante, casou e é muito feliz. Quem diz que a felicidade não tem preço, não conhece Evandro nem Zina.

Gastão Ferreira/2012     
        

         

Quem sabe!


O ÚLTIMO HOMEM


         Não sei o que será de nós, tenho a impressão que a raça dos homens não tem futuro. Quando os grandes répteis foram extintos, nossa espécie dominou o planeta. Não o mundo inteiro, apenas a parte chamada Europa. Segundo a tradição oral, legada por nossos antepassados, sempre moramos em cavernas. Na atualidade disputamos espaço, alimentação e território com criaturas desconhecidas às quais apelidamos de dragões.
         No inicio os dragões eram nossa presa favorita, carne macia e saborosa, seus filhotes nosso alimento predileto. Os dragões, segundo a lenda, habitavam as grandes florestas africanas, moravam sobre as árvores e se alimentavam de frutas, se comunicavam por sons, viviam em bandos. Com o tempo abandonaram a alta vegetação e invadiram a pradaria, nosso território de caça.
         Os dragões residem em cavernas. São frágeis, morrem fáceis. Nós os humanos desde tempos imemoriais somos seus predadores. Algo aconteceu com os dragões, algo maléfico os guia. Eles descobriram como criar o fogo, conseguiram manufaturar armas letais. Quando desceram das árvores se defendiam com paus e pedras, depois inventaram a temível lança e na atualidade utilizam um aparelho mortal chamado de arco e flecha.
         Estamos perdendo esta guerra. Poucos de nós sobrevivem as emboscadas dos dragões. Quando eles atacam, assaltam em grupo. Invadem nossas cavernas, matam nossos filhos, não fazem prisioneiros. Nunca existiu um animal tão sedento de sangue, tão violento quanto um dragão.
         Alem de sua impetuosidade, os dragões são terrivelmente feios. Apesar da carne tenra e saborosa, seu aspecto exterior é apavorante. Andam sobre duas pernas, possuem um par de braços longos, cobrem o corpo com a pele de suas vítimas, sobre suas pequenas cabeças crescem cabelos e para completar tão sinistra figura de seus crânios nascem duas orelhas, dois olhos, um nariz e uma única e pequena boca com poucos dentes. Simplesmente um horror!
         Nós os humanos somos a perfeição, a imagem e semelhança do Criador. Possuímos garras afiadas para capturar com facilidade uma presa, um magnífico par de asas para deslizar pelo espaço, uma boca bem formada e com centenas de dentes afiados, nossos corpos aerodinâmicos são revestidos de uma linda couraça. Para coroar esta obra prima da criação, somos dotados de um sopro mortal, literalmente expelimos fogo.
         Em nossa ampla caverna somos três, os últimos exemplares da divina raça dos homens. Hoje voaremos para longe desta aberração chamada dragão. Estou velho, setecentos verões passaram por mim. Minha idosa companheira já não procria, na última ninhada os ovos não vingaram. A toca será abandonada esta noite, voaremos para o norte. É a hora certa para o esquecimento descer sobre a história do homem e começar a miserável saga dos dragões.

Gastão Ferreira/2012
          
          

Morrer é voltar para casa...


A VOLTA


         Quando eu parti vim sozinho. Meu ouro, minhas joias, meus bens ficaram na casa abandonada. Trouxe os risos, as lembranças, muitas incertezas, rostos de pessoas que conheci e partiram bem antes de mim, companheiros de viagem que de alguma forma participaram de minha história.
         O mundo era o mesmo, o mesmo sol, a mesma lua, as mesmas estrelas. No começo da jornada eu estava confuso, caminhei como dentro de um sonho, o passo vagaroso, algumas dores e um lento despertar para coisas sabidas e esquecidas. No fundo da consciência surgiam imagens adormecidas, sabia que no fim da estrada havia um portal.
         Não estava só! Centenas de pessoas se utilizavam do mesmo caminho, algumas alegres vindas do ponto de partida, outras tristes e cabisbaixas retornando. Quanto mais andava mais minha memória se expandia. Recordei da criança que fui. Do menino feliz, do adolescente confuso, do jovem, do homem, do velho. A vida passava célere mostrando as lições aprendidas.
         O portal estava aberto, vislumbrei a cidade que um dia abandonei para uma nova turnê planetária. Percorri as ruas gramadas, passei por lagos e bosques, ouvi o som de música distante. A casa era a mesma dos meus sonhos. Estava situada sobre uma colina e dela se avistavam as montanhas e o mar.
         Na sala bem iluminada notei meus antigos livros nas estantes, dentre eles a Ilíada de Homero, Os Diálogos de Platão, O Livro dos Mortos do antigo Egito, tratados de mitologia, filosofia, geografia, história universal. Sabia que no andar superior ficava um escritório, o local de meu trabalho, o coração da casa.
         Ainda um tanto fragilizado abri os arquivos. Mil pastas e em cada pasta uma história, minha história pessoal através do tempo, minhas viagens ao planeta Terra. Coloquei um estranho capacete na cabeça e apertei a tecla “Entre” e as imagens jorram feito cascata. Alguém partindo daquela casa, alguém diferente e igual a mim. O portal, a estrada, um berço. Olhos que não eram os meus se abrindo para uma realidade tridimensional... Um filme com inicio, meio e fim... Salvei.
         Apenas mais uma pasta em meu arquivo cármico. Fim de um passeio de aprendizado, um nome para acrescentar aos anteriores. Minha mente estava vazia, esquecida de mim. Sai para o terraço e fitei o mar, as brancas areias de Helion, minha cidade cósmica, falavam de paz... Quanto tempo durou a última viagem? Setenta oitenta anos? Um sopro na eternidade do meu eu... Um novo nome no meu arquivo vida!
         Amanhã encontrarei os velhos amigos, aqueles das excursões antigas, os que ficaram. Contarei do que aprendi. Da saudade que carreguei, dos sonhos realizados, das dores e das alegrias. Agora é o retornar à casa ancestral, hora das conclusões, hora de reaprender a viver, de reencontrar a realidade quase esquecida e esquecer-me de mais um nome que me dei. Um nome que será apenas uma referência no meu arquivo de infinitas vidas.

Gastão Ferreira/2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Uma história infantil...


O MENINO QUE ROUBOU A LUA...


         Quando o mundo era novo e os animais falavam, tudo era diferente. Se alguém fosse comer uma fruta venenosa, sempre aparecia um pássaro e avisava; - Não coma! Não coma!
         Jupirí era um curumim, vivia numa grande tribo, seu pai era um guerreiro famoso. Uma noite Jupirí em companhia de seu melhor amigo, a grande onça preta chamada Jaguar foi passear na floresta. Parou a beira de um pequeno lago, notou que a Lua dormia numa poça de água. Pegou uma folha de bananeira e lentamente envolveu a sonolenta Lua. Escondeu dentro de sua oca.
         Os primeiros que notaram a ausência da Lua foram os macacos. Preocupados saíram a sua procura, pularam de galho em galho, vasculharam a grande floresta e não a encontraram. As estrelas sentiram falta de sua irmã e lá do alto espiavam aflita por sobre a terra; - “Quem sabe foi o dia que roubou a Lua! Vamos perguntar ao Sol.”
         As estrelas não podiam conversar com o Sol, pois sempre que ele surgia elas estavam a dormir. Na aldeia de Jupirí os índios também sentiam falta da Lua. Não podiam sair à noite na escuridão total. O mar estava preocupado, sem a Lua não ocorriam às marés e sem as marés o mar era igual a um imenso lago.
         Os animais não mais namoravam, era a Lua que espalhava no ar uma vontade de ter filhos, de perpetuar a espécie, sem ela só pensavam em comer e dormir. Uma tristeza! Nem um filhote para cuidar. Até as flores sentiam a falta da Lua, os insetos noturnos perdiam o rumo, não encontravam as flores e sem polimerização, nada de frutos.
         Jupirí não saia mais de dentro da oca, passava horas espiando a Lua. Como era linda! Mudava de cor. Uma hora era branca como leite, outra hora era prateada e vez ou outra vermelha. A Lua parecia sonhar. Sonhava com coisas que Jupirí nem imaginava que existissem. Sonhava com homens negros que moravam em cavernas no outro lado do mundo, com grandes montanhas que vomitavam fogo, com cidades feitas de pedras e pessoas que navegavam por águas desconhecidas, com sereias, iaras e deuses que manipulavam raios e trovão.
         Um dia o Sol notou a ausência da Lua, eles sempre conversavam quando ele surgia e fazia um bom tempo que não a avistava. Perguntou aos animais das florestas, as árvores, aos riachos, as nuvens, aos rios e ao mar... Nada! A Lua sumiu sem deixar pistas; - “Alguém roubou a Lua! Quem foi?” indagava o Sol por sobre a terra... Ninguém respondia.
         O Sol ficou muito brabo, começou a esquentar, esquentar. O lago começou a secar, as matas queimavam, as pessoas não saiam de casa; - “Devolvam a Lua!” gritava o Sol.
         - ‘Eu sei quem roubou a lua’, disse um pequeno e triste laguinho insignificante, perdido na grande floresta. ”Quem foi?” perguntou o Sol...
         - “Foi Jupirí, um curumim da tribo dos homens e estava acompanhado da grade onça negra” informou o laguinho.
         O Sol foi até a aldeia de Jupirí e perguntou pela Lua, o Jaguar falou que não sabia de nada.
         - “Mentira! Você estava com o curumim quando ele roubou a Lua.” disse o Sol. O Jaguar não tinha mais como negar e contou ao Sol que depois do roubo Jupirí não saíra de dentro da oca e que estava branco feito fantasma.
         O Sol chamou Jupirí e pegou de volta a Lua, não abriu a folha da bananeira porque a Lua talvez desmaiasse com o seu brilho intenso. O Sol foi subindo, subindo e colocou a Lua bem no alto, num lugar inacessível para os homens e animais. Voltou e reuniu todos os animais e decretou; - “Daqui para frente nenhum animal vai entender a linguagem de outro animal e Jupirí continuará branco como a Lua, ele não pertence mais a tribo, vai comigo para um lugar muito longe, um lugar do outro lado do mundo e de lá uma raça de homens brancos se espalhará pela terra.”
         Desde então o homem branco é apaixonado pela Lua. É a herança que herdamos de Jupirí, nosso ancestral, o menino que roubou a Lua.

Gastão Ferreira/2012
         

Para o Dia dos Namorados...


ETERNOS NAMORADOS


         A cidade não possuía maternidade e Joana na hora do parto foi encaminhada para uma cidade vizinha... Manuela conheceu Fernando na maternidade de Pariquera e foram colocados lado a lado no berçário. Quando a enfermeira reparou já estavam de mãozinhas dadas, a foto foi parar na internet e correu mundo. Joana das Dores, a mãe de Manuela, não gostou de terem exposto a filha recém-nascida e processou o hospital, a enfermeira, o pediatra, o porteiro. Ganhou uma grana, separou-se do marido e foi morar em Cananéia.
         Quando Fernando completou um aninho foi matriculado numa creche. Muito esperto, no primeiro dia fez amizade com uma nova coleguinha, seu nome Manuela. Repartiu com ela sua merenda, alguns dadás-gugús, seu sorriso mais bonito e arrotos. Na hora da soneca, as professoras do Jardim de Infância ficaram extasiadas, os infantes dormiram abraçados... Novas fotos na internet... Novo escândalo.
         A mãe de Manuela viu as fotos, entrou em contato com o ex-marido, processou a escolinha, a diretora, o ex-marido, a prefeita e o secretário de ensino municipal e aumentou seu patrimônio em alguns milhares de Reais. Comprou um belo barco, um casaco de Vison e foi passar uns tempos na Indonésia.
         Manuela estava na oitava série e também de olho no novo coleguinha. Quando o menino entrou pela primeira vez na sala de aula, seus olhos se encontraram, pareceu que se conheciam desde sempre. No recreio ficaram de converse e ninguém estranhou quando trocaram um tímido beijinho de pré-adolescentes. Uma colega fotografou a cena com o celular e postou no Face book. A mãe de Manuela que estava na Itália viu a foto, processou o Face e ficou milionária... Manuela foi forçada a estudar em um colégio interno na Suíça e não retornou ao Brasil.
         Fernando cresceu e não se formou em nada. Sua beleza abriu todas as portas, participou do Bight Brother, posou para a revista G-magazine, seguiu a carreira de modelo fotográfico. No exterior conheceu Gizelle uma dama riquíssima. Encontraram-se num coquetel em que madame Gizelle comemorava sua trigésima plástica, foi amor ao primeiro porre. Fernando estava com dezesseis anos. Muitas fotos dos pombinhos correram o mundo.
         O pai de Fernando entrou com uma ação contra Gizelle por pedofilia! Fernando era menor de idade e a ricaça uma velha babaca da terceira idade, digo, uma garota da melhor idade cheia de grana. Ganhou a ação e Gizelle perdeu toda a fortuna tendo que retornar a Cananéia. Retomou seu verdadeiro nome Joana Inácia das Dores Silva e viveu numa pobreza de causar tristeza em pedinte iguapense.
         O que ninguém sabia era que madame Gizelle era a mãe de Manuela. A megera que infernizara a vida de Fernando desde o berçário em Pariquera. O que é o destino! Aqui faz aqui paga... Manuela foi expulsa do colégio suíço por falta de pagamento das mensalidades. Nunca processou ninguém, mora com o pai na zona rural de uma pequena cidade histórica tombada. Sonha com um príncipe encantado que nunca aparece. Folhou um milhão de vezes uma velha revista G-magazine com as fotos de Fernando, o safado que se aproveitou de sua velha mãe, um pitéu para mil talheres e que está noivo de uma princesa de verdade.
         Fernando casou com a princesa e não é feliz. Chegou à conclusão que com o dinheiro se pode comprar tudo, menos a tal felicidade. Frequenta um psicólogo e faz regressão de memória. Na última seção recordou um rostinho infantil com quem repartiu sorrisos e arrotos, uma frágil mãozinha num berçário de maternidade, sua alma gêmea que perdeu e que grita seu nome num vazio sem respostas... Um anjo de amor que deixou o céu para compartilhar da sua vida... Um anjo, um sonho que nunca encontrou... E de tristeza Fernando chorou!

Gastão Ferreira/2012    
         

terça-feira, 5 de junho de 2012

Histórias da Festa de Agosto...


APENAS UM ROMEIRO


         A cidade estava em festa, centenas de barracas feitas de taquaras, ofereciam seus produtos aos milhares de romeiros em sua visita anual. No entorno da Matriz a fila para visitação ao Santo Protetor era imensa e dava voltas e mais voltas ao redor da igreja. Rezas, procissões, ladainhas. Cavalos e cavaleiros misturavam-se aos transeuntes, rojões troavam nos céus. No coreto da praça, os fotógrafos eternizavam em fotos de monóculos as visitas. Os peregrinos e suas devoções. Casas de família ofereciam a preços módicos banho e alimentação.
         Aline pela primeira vez participou de uma romaria, chegou de longe para pagar sua parte no trato da promessa. Sua mãe está salva e uma grande vela acesa em agradecimento à graça alcançada. A noite procurou o Abrigo dos Romeiros para um merecido repouso. O dinheiro veio contado e os hotéis caros.
         No salão de refeição um jovem de boa aparência contava uma história, Aline prestou atenção. Pequeno sitiante, uma epidemia de origem desconhecida devastava sua propriedade, os animais morriam. Os veterinários não descobriam a causa da doença, uma promessa ao Santo Protetor exterminara o estranho vírus. Veio a pé de muito longe, carregando nas costas uma pesada cruz de madeira, estava cansado, voltaria a pé, sem dinheiro para pagar uma condução se considerava um homem feliz, sua fé era imensa e com certeza alguém o ajudaria a voltar para casa. Os romeiros, comovidos com a sua história tão singela e pura, colocaram um bom dinheiro na sua frente. O jovem agradeceu comovido, colocara a cruz na sala dos milagres, a conta com o Santo Protetor foi zerada, amanhã retornaria feliz e com a consciência tranquila para seu pequeno sitio.
         O jovem pernoitou no albergue, chovia e a temperatura era baixa. Aline aceitou o vinho, depois as carícias e depois se entregou ao desconhecido. Quando acordou o homem havia partido. Não perguntou o nome do homem com quem repartira uma noite de amor, uma garrafa de vinho, uma história singela contada a estranhos.
         Nove meses depois, Jairo nasceu. Um menino saudável, risonho, esperto. Com o passar do tempo começou a perguntar pelo pai, Aline não podia simplesmente contar que se entregara de corpo e alma a um desconhecido em troca de um copo de vinho e alguns beijos, logo ela uma mulher séria, uma beata que dera um mau passo.
         Aline fez nova promessa, caso encontrasse o pai de Jairo daria um bezerro como prenda para o bingo beneficente de sua paróquia. Urgia voltar aos pés do Santo Protetor e homologar o pedido. Jairo estava com dezoito anos e queria porque queria conhecer o pai.
         A cidade estava diferente, ruas calçadas, as barracas eram de tecido, o coreto substituído por uma cruz de pedra deixara a pracinha mais triste. Aline fez questão de jantar no Albergue dos Romeiros. Ela e Jairo pernoitariam em um bom hotel, queria mostrar ao filho o local onde pela primeira e última vez encontrara o honesto e humilde sitiante a quem amara.
         No albergue escolheram uma mesa pequena, muitos romeiros jantavam àquela hora e Aline ouviu uma voz que jamais esquecera; - “Sou um humilde sitiante, um vírus desconhecido exterminou meus animais, sem ter a quem recorrer fiz uma promessa ao Santo Protetor... Vim de longe carregando uma pesada cruz de madeira, depositei a cruz na Sala dos Milagres, amanhã volto a pé para casa, sem dinheiro para pagar uma condução, mas feliz por ter pagado o prometido.”
         Aline olhou o homem que contava a edificante história. Com aparência envelhecida, feições de alcoólatra, poucos dentes, juntava avidamente o dinheiro que alguns romeiros compadecidos lhe ofertaram. Aline pensou; - “Que safado! O mesmo truque de dezenove anos passados. Ainda bem que nunca mais o vi, do que escapei meu Bonje!”
         Aline pediu uma garrafa do melhor vinho. Jairo estava desconsolado por não ter encontrado o pai, mesmo assim curtiu a festança. Foram em todos os forrós, bailinhos e bailecos, compraram muitos presentes para os amigos, tiraram fotos, visitaram a Fonte do Senhor. Aline acendeu muitas velas ao Santo Protetor, agradeceu por ter se livrado de uma fria e informou a Jairo que através de um antigo conhecido, ficou sabendo que o pai de Jairo morreu há mais de quinze anos, morreu sem saber que tinha um filho... Homem muito bom, humilde, honesto e trabalhador... Que esteja em paz, ao lado de Nosso Senhor!

Gastão Ferreira/2012
        

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Alo... Atenção...


TEMPESTADES, RAIOS E TROVÕES.


         As tempestades são portais entre dimensões, quando ocorrem, algo sempre muda na cidade. É uma estátua que desaparece de seu pedestal e ninguém viu, uma pessoa que sumiu e ninguém sabe onde está. Basta ouvir alguns diálogos para entender. Quem nunca participou de uma conversa assim após uma terrível tempestade; - Eu brinquei no coreto da Praça da Matriz quando criança...
         - Tá loco! Tá inventando! Na praça sempre teve uma cruz de pedra...
         - Antes havia um coreto e...
         - Não, não! Sempre foi uma cruz, aprendemos na escola, uma cruz de pedra símbolo de nossa submissão ao que de melhor existe, a honra, o caráter, o amor, a honestidade, a humildade...
         - Cruz credo!
         - Sim, a cruz é nossa paciência materializada, sempre esteve presente na praça e ninguém via, mas no inicio do século XXI um sábio de coração puro e alma mais limpa do que mão de políticos, nos legou o divino presente na intenção de imortalizar seu humilde nome...
         - Não sabia desta lenda!
         - Foi no inicio do século XXI e o tempo levou para o esquecimento muitos nomes da era perdida, como ficou conhecido aquele período histórico, por isso não sabemos quem foi na realidade o sábio, o gênio, o semideus que revelou a cruz aos homens de bom coração.
         Outras vezes são pessoas que desaparecem e parece que nunca existiram. Pode perguntar a vontade que ninguém sabe; - E o Teobaldo que fim levou? E o Toninho do churrasquinho onde anda? Não existia um vendedor de amendoim que dava amostra grátis do produto em toda a cidade? Hein! Hein?
         Desapareceram, foram para outra dimensão, uma cidade irmã da nossa. Tais cidades perfazem uma era histórica e cada qual está num estágio evolutivo diferenciado. Numa delas vive o Téo, rico comerciante do ramo da alimentação e em outra o Baldo, um pedinte.
         Em algum lugar no universo existe uma cidade com um porto maravilhoso, o maior do país, Registro é o nome de um de seus bairros periféricos. Nela não existiu Valo Grande, o lagamar ficou intacto, o progresso chegou e ficou para sempre. Cidade berço de toda a civilização pós-descobrimento, seus museus, estátuas, igrejas, casarões e palacetes falam da pujança sempre presente e que enche de orgulho seus cidadãos.
         Devemos ter muito cuidado durante as tempestades, nada de sair de casa. Se estiver num bar, afaste-se da porta. Na beira mar, corra para uma barraca. Na mata, encontre uma caverna...
Quem não se cuida se ferra!... Vai saber por quantas cidades interdimensionais você já andou! Posso jurar que havia um poste no meio do passeio público, depois de uma tempestade ele desapareceu... Até o momento estou em dúvida, foi o poste que mudou de cidade ou eu que fui teleportado para outra cidade gêmea!

Gastão Ferreira/2012
        

  
         

Pirulito que bate-bate...


TIA VERÔNICA...


         “Pirulito que bate-bate, pirulito que já bateu. Quem gosta de mim é ele, quem gosta dele sou eu...”, tia Verônica passa horas cantando essa musiqueta. Por favor! Mantenha o segredo familiar, ela enlouqueceu por amor.
         Tia Vevê nasceu de uma ligação espúria de vovô Bodinho com a menina Jocasta, filha de dona Branca, neta de escravos e lavadeira por profissão e gosto. Meu avô o famoso Coronel José Brandino de Alencar Siqueira Júnior, era um homem honrado, bom, religioso, senhor de muitas terras e dono de muita gente, apelidado, de boca pequena Coroné Bodinho, devido à mania de perseguir todo o rabo de saia que passasse em sua frente.
Tia Verônica não era a única filha bastarda, era a única criada na casa grande, o saco de pancada onde vovó Inocência descontava as puladas de cercas do vovô. Infeliz tia Vevê! Era belíssima. Tia Chistiana morria de ciúmes, filha legitima de vovô e vovó, puxara a raça portuguesa de vovó, mal chegada à puberdade, um belo bigode e alguns fios de barba apareceram em sua face redonda, cabelos escuros, estatura meã, ou seja, baixinha.
Tia Verônica era loira, olhos azuis, alta, magra. Foi educada com os mesmos mestres dos outros filhos do coronel, muito inteligente, gostava de ler. Naquela época as moças e mocinhas só podiam ler romance água com açúcar e livros de poesias eróticas. Os excessos de leitura, dizem que leu durante sua vida uns oito livros, a tornaram uma pessoa diferenciada.
Durante uma Festa de Agosto, a família do Coronel Brandino de Aguiar recepcionou muitas caravanas de cavalarianos que passavam por suas terras. Verônica conheceu Marcelo, se apaixonou, no que também foi correspondida. Apesar de tanta leitura era bem bobinha e Marcelo muito espertinho ensinou a garota o pirulito que bate-bate. Ela adorou e chegaram a bater os pirulitos umas cinco vezes ao dia. Tia Chris descobriu as brincadeiras eróticas e achou de veras fortes o pirulito de Marcelo, resultado! Casamento.
Sim! Christiana chantageou Marcelo. A fama de matador de coronel Brandino corria mundo... Ah se ele desconfiasse do que o cabra safado aprontou para sua bela filha. Ensinar na prática o pirulito que bate-bate para uma donzela! Caso para ser capado na hora. Marcelo pediu Chistiana em casamento, o pedido foi feito durante o jantar frente a dezenas de pessoas... Tia Verônica não sabia da armação de sua irmã Christiana e Marcelo também nada falou, apesar de terem batido pirulitos pela manhã.
Quando tia Christina foi abraçar tia Verônica, tia Verô endoidou de vez. Com olhos cheios de lágrimas começou tristemente a cantar... ”Pirulito que bate-bate... Pirulito que já bateu... Quem gosta de mim é ele... Quem gosta dele sou eu...”, ninguém entendeu o recado, ninguém do restante da família, os noivos entenderam muito bem. Tão bem que desde tal ocorrência, toda a vez que chega uma visita, tia Verônica é escondida na senzala, sua mãe Jocasta filha de escravos, cuida dela e sempre que pode vovó Inocência vai tirar uma casquinha da infeliz que enlouqueceu por amor.

Gastão Ferreira/2012


sábado, 2 de junho de 2012

Assim foi... Assim é.


LANA GILETE


         É noite e na cidade todos dormem, na verdade nem todos. Alguns bacanas se aprontam para mais uma bacanal, muitas donzelas saltam as janelas para encontros secretos na pracinha. Luy Pegaleve, único herdeiro do milionário Amâncio Pinto, usineiro e senhor de escravos, está eufórico, nesta noite sairá finalmente do guarda-roupa. As portas dos bares estão fechadas, de dentro dos estabelecimentos vem brincar na rua gemidos, sussurros e ocasionalmente um sonoro palavrão. De fato, os que repousam no silêncio da noite são os humildes trabalhadores, os escravos, os operários, os pedreiros, os carpinteiros, os pobres, ou seja, quem não necessita acordar cedo fica na esbórnia até o amanhecer.
         Luy saiu sorrateiramente da mansão familiar e foi ao encontro da amiga Bella Paloma, neta de Linda Paloma, a portenha que montou o primeiro prostíbulo da cidade... Bella herdara os bens de vovó Pombita (Para quem não estudou Paloma é a ave-pomba em espanhol.), comprou um título de nobreza, vários sítios, casarões que mandou reformar e aluga para comércio de variedades. Todos na cidade beijam sua mão, também empresta dinheiro a juros. Bella é rica prá cacete. De dia dá esmolas à noite dá outras coisinhas por puro prazer. Foi ela quem incentivou Luy a sair do armário, digo, do roupeiro. 
         Pegaleve trocou de roupa no palacete de Bella. Maquiou-se, colocou uma peruca loira e ambos saíram para passear na beira do cais. Muitos marujos bêbados e insones procuravam por breves aventuras, marinheiros eram bons parceiros porque mal clareava o dia os navios zarpavam e com eles os fatos ocorridos na madrugada. Bella e Luy não eram os únicos que estavam no local a fim de curtir os prazeres de Eros. Muitas dondocas de boas famílias, disfarçadas, também troteavam pelo cais, mas ao passar uns pelos outros, faziam de conta que nunca se tinham visto, nem se conheciam.
         As mal afamadas mulheres de programa, as que rodavam bolsinhas, as que se entregavam à desconhecidos a troco do metal vil, as dissimuladas prostitutas, raparigas de vida fácil, não gostavam da concorrência com quem não era do metiê e sempre surgia alguma confusão... Não deu outra! Lana Gilete provocou Luy bem na hora que o travéco abatera dois marujos. A baixaria estava armada e metade da cidade veio assistir ao bafão.
         Lana Gilete era o nome de guerra de Emerenciana Brígida de Castro Neves Souza Paranhos, apelido nhanhá Gida, filha da lavadeira do comendador Amâncio Pinto. O cognome Gilete era devido a um probleminha pessoal da moça, uma hora prestava serviço aos senhores da terra, outra hora às madames que a gratificavam muito bem.
         O arranca rabo entre Lana Gilete e Luy Pegaleve que fraturou duas costelas e perdeu um dente, acabou frente ao comissário de polícia. O jovem sargento de armas, muito justo, fez de conta que não reconheceu Luy e mandou dar uma valente surra em Lana Gilete. Levou Luy para uma cela especial e manteve com o jovem um longo diálogo... Estão juntos até hoje.
         Luy voltou ao armário, o sargento ganhou uma promoção, Coronel Marcondes é o melhor amigo de Luy. Bella adotou dois jovens grumetes promissores e quando o navio em que trabalham aporta no cais, muitos foguetes são disparados. Todos na pequena cidade sabem que em algum lugar haverá uma bacanal noturna.
         Na madrugada as donzelas ainda pulam as janelas, os marinheiros procuram carinho, os desavisados são assaltados, as garotas de programa trabalham. As mulheres de vida fácil têm uma vida difícil. Lana Gilete sem cinco dentes roda a bolsinha e os bacanas se encontram e se desconhecem em mais uma bacanal... O sino acorda o povo, mais um dia de trabalho, o que ocorre na noite, o dia faz de conta que não sabe e todos convivem felizes.

Gastão Ferreira/2012   

 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Ovelha e o Lobo


NARCELA & O LOBO


               
         Narcela a ovelha, nasceu com um pequeno probleminha, em vez de balir Bééé balava Bááá. Sua mãe morria de vergonha, proibiu a carneirinho de brincar pelos verdes pastagens e ela cresceu sem ter uma amiguinha íntima para desabafar seus chiliques, contar seus segredinhos infantis, seus sonhos eróticos. Assim ela passava muito tempo lendo romance água com açúcar e enchendo a cabeça de sonhos profanos. A história que mais marcou sua juventude foi a do “O Lobo e o Cordeiro” de La Fontaine.
         Num belo fim de semana, toda a família de Narcela foi participar de um evento anual que ocorria numa herdade próxima, o famoso “Revelando a Fazenda” em que todos os animais das roças vizinhas cantavam, bailavam, se divertiam adoidados. Narcela não sabia dançar e não podia cantar por conta do famigerado probleminha Bááá... Triste foi passear no bosque e deu de cara com um Lobo, de tão assustada fez xixi na lã... O Lobo, muito esperto, logo notou que aquela jovem ovelha era diferente e puxou assunto; - “Você é do rebanho do senhor Andrade Guimarães?”, perguntou educadamente.
         “Não senhor, sou da fazenda “Antunes & Filhos & Netos & Bisnetos” e é a primeira vez que me afasto do meu redil”, disse Narcela. ”Noto que você é uma ovelha diferenciada, sua linguagem é culta, utiliza palavras inusuais”, completou o Lobo. ”É que nasci com um pequeno probleminha para os da minha espécie” e desandou a contar toda a sua vidinha medíocre para a besta-fera... O Lobo deu muitos conselhos, se apiedou da triste ovelha que não sabia balir e foi categórico; - “Não comerei você!”... Narcela começou a chorar desesperada, nem para ser comida por um Lobo prestava, ela queria morrer.
         O Lobo explicou com a melhor das intenções que não podia devorar uma ovelha problemática, que era adepto de comida saudável e blá... Blá... Blá. Narcela não se conteve e começou a gritar “ME COMA! ME COMA! ME COMA!”, o Lobo sussurrava;- “Berre baixo! Berre baixo” e que nada, Narcela parecia possuída e bramia “ME COMA! ME COMA! ME COMA”, resultado? Os seguranças humanos do “Revelando a Fazenda” escutaram a gritaria, foram verificar e passaram fogo no Lobo.
         Foi assim que Narcela Bááá ficou conhecida como Narcela Me Coma, escreveu um livro contando sua vida, entrevistada na televisão apareceu no Fantástico, casou com um carneiro ganhador de troféus em exposições de reprodutores top line e viveram felizes para sempre... Fim.

Moral da história; - “Se você nasceu com um probleminha, não esquente! Um dia você encontra quem te coma.” (Máxima retirada do livro “Eu e o Lobo” de Narcela Me Coma ex Bááá).

Gastão Ferreira/2012
             

A primeira Zona...


LINDA PALOMA


         Final do século XVI, mais uma vez o terrível bucaneiro Will Wilsonson atacou a pequena cidade platina de “Soledad de Los Pampas”, raptando muitas donzelas desamparadas. Há bem a verdade, nem todas eram donzelas e entre elas apenas uma minoria era desamparada. Alana de los Prazeres era vovó e, portanto não era donzela. Linda Paloma gerenciava um mercadito, um entreposto de secos e molhados, ganhava uma boa grana, não era uma desamparada.
         Linda Paloma foi vendida em Cananéia ao senhor Manoel Joaquim, um degredado português muito piedoso e casto, seu sonho era montar um negócio rendoso, fácil de tocar e do qual possuía certa prática, motivo pelo qual fora abandonado nas costas das novas terras descobertas há um século por seus patrícios. Na sua cidade natal, Trás dos Montes, ele, a esposa e filhinha de sete anos tocavam em conjunto uma mansarda erótica para todos os gostos e taras. Trocando em miúdos, ele bolou uma novidade, um prostíbulo para paneleiros, lésbicas e pedófilos, onde somente os três da família atendiam a grande freguesia. A Santa Inquisição descobriu a aberração, queimou a mulher e a inocente criança numa fogueira, Manoel Joaquim conseguiu escafeder-se e acabou chegando a terra onde tudo que se planta dá e aqui se plantou.
         Dizem que o gato escaldado tem medo de água fria e Manoel era um gato escaldado. Abandonou Cananéia em direção a uma cidade próxima que possuía um famoso porto, montou uma bodega de molhados, pois Linda Paloma tinha experiência tanto em secos como em molhados, optou pelo molhado, ou seja, abriu um boteco de fachada e continuou com a prática adotada em Portugal. Linda Paloma era sua testa de ferro.
         À noite Manoel Joaquim travestida de Juanita Neris cantava tangos e milongas, dançava, sapateava e fazia “otras cositas mas” com los fregueses. Foi à primeira “drag” a dar show na cidade. Linda Paloma morria de inveja, enquanto seu patrão fantasiado de mulher se divertia, ela atendia aos bêbados e a meninada dura que vinha espiar o espetáculo.
         O que Juanita Neris não sabia é que Paloma atendia a domicilio. Durante o expediente escolhia a dedo dois guapos rapazes, após fechar o estabelecimento comercial chamava o porteiro Léo da Chácara e junto aos dois moços se dirigiam a sua residência onde davam inicio a algo chamado bacanal. A vizinhança começou a reclamar, ali era uma zona residencial e era proibido qualquer barulho após as vinte e duas horas.
         Linda Paloma era uma ninfomaníaca, uma Messalina caipira, seus gritos de põe aqui, põe ali, põe acolá, me bate, me surra, me chama de sacana, perturbavam o silencio noturno e causava constrangimento as jovens e puras donzelas que escutavam o berreiro. Seu Manoel Joaquim foi avisado... Resultado! Fez um puxadinho nos fundos do boteco e avisou a clientela; - “Após o fechamento do estabelecimento Linda Paloma atenderá aos mais afoitos na traseira do bar.” Foi assim que surgiu o primeiro bordel da cidade.

Gastão Ferreira/2012