domingo, 27 de maio de 2012

Um casório...


O BUQUÊ DA NOIVA


         Dona Vina Sanfona acordou eufórica. Hoje é um grande dia, o dia inesquecível em que dirá em alto e bom som perante a fina flor da sociedade, um tão guardado sim. Seu casamento com Becival é o evento que está mexendo com a cidade.
         Malvina Angélica de Castro, uma garotinha que sonhava em ser modelo desde o prézinho. Uma guria risonha nascida em berço de ouro. Sua mãe acertara no nome da petiz. Sim! Malvina jamais se corrompera com essas coisinhas bobas chamadas de bondade, humildade, simplicidade, sua praia era outra e o segundo nome Angélica explicava tudo, era bela fisicamente, nascera perfeita e crescera escultural. Nunca passara pela loira burra das piadinhas dos menos favorecidos pelos dons de Afrodite, a deusa da beleza e do amor.
         Vina Sanfona, que desaforo! Como esse apelido horroroso pegou... Qual rastilho de pólvora se espalhou pela cidade e ficou nas bocas pequenas e invejosas. Tudo culpa de Becival! O namorico começou bem cedo, ela com doze anos e ele com treze. Acostumada a nunca ser contrariada, na primeira desavença com o namorado, deu para comer chocolate, bolos, doces... Puro estresse emocional!... Engordou... Fez regime... Emagreceu e reconquistou Becival. Na milésima briga, já com quinze anos de idade, havia engordado e emagrecido centenas de vezes. Eis o porquê de Vina Sanfona... Safados!
         Aos dezesseis anos Becival foi estudar na capital e as amigas da cidade grande faziam questão de contar as muitas novidades. Becival estava namorando firme a filha do doutor Florêncio, um industrial milionário e Vina não era páreo para Cândida, a ricaça. Malvina Angélica engordou de forma imensurável e Vina Sanfona chegou para ficar.
         O tempo correu sem se importar com sentimentos e dores... Vina passou de garota para mocinha, mocinha para moça, de moça para tia, de tia para senhora e de senhora para garota da terceira idade. Não casou, aliás, quem teria coragem para namorar uma baleia, uma orca de mal com a vida!
         Becival casou com Cândida e foi muito feliz até completarem as bodas de ouro. Na volta da comemoração, ao retornarem de Paris, seu avião particular sofreu uma ligeira pane, na aterrissagem pegou fogo e todos a bordo pereceram menos Becival que ficou cego... Uma tragédia!
         Becival cego e encanecido voltou à pequena cidade de sua infância. Reencontrou Angélica seu primeiro amor e como o amor também é cego, nunca ficou sabendo em que baranga havia se transformado a bela Malvina Angélica, mais conhecida como Vina Sanfona. Marcaram casamento e o casamento é hoje.
         A igreja matriz toda iluminada, um afinadíssimo coral, os convidados escolhidos a dedo entre a fina flor da sociedade. Se bem que flores um tanto murchas, todos velhos, todos caquéticos, todos na melhor idade. Quando o buquê de noiva foi lançado para o alto, já no lado de fora da igreja, Malvina fez questão de jogá-lo próximo a escadaria. Foi um corre, corre... Um puxa, puxa... Um empurra, empurra... Um Deus nos acuda. Muitas menininhas da terceira idade se esborracharam no chão e rolaram escada a baixo enquanto o buquê importando bailando no ar foi cair exatamente nas mãos de Dita Munrhá, que deu um jeitinho e empurrou Maria Lambisgóia pela escada ao se apoderar do buquê... Dita é feia prá dedéu. Vamos aguardar o milagre do Buquê de Noiva, Dita sonha em casar com Wilson que ainda não faz parte de nenhuma história.

Gastão Ferreira/Iguape/2012 

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