sexta-feira, 25 de maio de 2012

Tudo igual...


OS DIPHES...


         Os Diphes são as criaturas mais fantásticas que conheço, moram em cavernas, altamente sociáveis entre si, dividem com o restante da tribo a coleta diária de alimento. Adoram cantar, suas músicas falam dos recantos escondidos na floresta, do nascer do sol, da amizade e do amor.
         Educam seus filhos com extrema severidade e com eles compartilham seu estilo de vida. Um garoto Diphe conhece seu lugar no grupo desde criança, sendo o responsável pelas orações acorda cedo, bem antes do dia clarear e se dirige a imagem do Grande Senhor, pedindo proteção para a família, uma boa caça, saúde e paz.
         O asseio é fundamental, tomam vários banhos durante o correr do dia. São coletores, catadores de grãos, sementes, frutos e adoram carne... Eis o problema! A carne dos animais silvícolas é tabu e não pode ser consumida desde tempos imemoriais.
         Seu respeito aos habitantes da mata é algo que chama a atenção. Um animal doente sempre procura um Diphe para ser tratado, não consta em suas muitas histórias que algum deles tenha sido atacado por uma onça, um jaguar, uma serpente venenosa... Os Diphes não conhecem o medo.
         Uma caçada em busca da tão sonhada carne é algo místico. Na noite que precede a grande busca muitos cânticos se fazem ouvir, são os xamãs pedindo permissão à divindade para o inicio da perseguição à presa pretendida. As fêmeas preparam diferentes bebidas, os meninos buscam lenha para a grande fogueira onde será assada a carne, as mocinhas enfeitam a caverna com flores na espera de atrair a graça divina.
         Antes de o sol raiar já estão a caminho, normalmente a jornada é longa, um dia de viagem e atacam somente à noite. Os pais abençoam os filhos, beijam as esposas, se despede dos parentes, nuca se sabe o que pode ocorrer... Talvez não retornem!
         Desta vez a caçada foi no Pé da Serra, escolheram a casa mais afastada e silenciosamente atacaram. Seu Dito, dona Maria e o pequeno bebê nem sentiram a morte chegar, foram degolados no local e sangraram até a última gota, pois o sangue de humanos contaminados pode trazer sérios problemas de saúde. Queimaram a biboca e jogaram os ossos do último banquete nas chamas, assim os vizinhos diriam que foi um incêndio que matou o casal... Coitados tão jovens!
         Enquanto a carne assava, os mais velhos comentavam da expedição, as crias gulosas mordiscavam pequenos pedaços dos petiscos sobre as grelhas, as mães amamentavam os recém-nascidos, os namoricos aconteciam no lusco fusco da caverna e o xamã agradecia ao Grande Senhor a excelente abundância da tão gostosa carne.
         Num outro local, na mesma floresta, um homem acabara de dizimar uma família de Bugios, enquanto retirava a pele dos animais esquartejados, agradecia a Deus a dádiva da comida e pedia saúde, paz e felicidade para a sua família... O homem nem sabe que os Diphes existem e que adoram carne humana. O Saci e o Curupira conhecem as matas, são os olhos de Tupã... Anhangá sorri e consente!

Gastão Ferreira/2012 

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