sábado, 26 de maio de 2012

Será que existe tal reino?


SALVE O REI!


         No palácio Sua Majestade estava um tanto estressado. Pela manhã observara que as chuvas noturnas abriram um pequeno buraco na rua lateral da nobre casa. Entre seus auxiliares se contavam oitenta Assessores Diretos, duzentos e quarenta Assessores Junior, quatrocentos e oitenta Observadores Apadrinhados, trinta empregados efetivos concursados e ninguém notara a cratera dificultando a passagem das carruagens e passantes.
         Durante o magnífico café da manhã, na ala nobre do palácio, através do Super Secretário Especial dos Amigos da Corte, o único capaz de ocupar oito secretarias ao mesmo tempo, solicitou a convocação do Secretário de Assuntos Coligados a Chuva, Tempestades e Surucação com a máxima urgência.
         Somente após o almoço no “Recanto dos Bem-te-vis” com um grupo de empresários de outro reino, o Secretário da Surucação conseguiu entrar em contato com o Secretário de Decisões Concretas e Obras Emergenciais, transmitindo o nobre pedido do Super Secretário.
         Uma semana após, o Secretário de Decisões em reunião com o Primeiro Conselho do Reino determinou com urgência urgentíssima a conclusão do pedido real.
         O Primeiro Conselho depois de conseguir um local adequado para tantas e importantes figuras, convocou o Segundo, Terceiro e Quarto Conselho de Decisões Concretas, a reunião foi num anfiteatro, pois cada conselho era composto de vinte e cinco membros regiamente pagos com os impostos dos contribuintes. Foram unanimes e a solicitação de Sua Majestade foi encaminhada ao Conselho de Obras para licitação, tomada de preços e afins.
         O Conselho de Obras através de seu terceiro presidente consultou os órgãos competentes, Ipham, Iphim, Iphem, obtendo, dois meses depois, um NIO (Nada Impede a Obra) e após uma longa discussão técnica sobre qual o melhor tipo de terra a ser utilizada, diversas consultas a departamentos coligados e parcerias não contabilizadas, foi publicado o edital de concorrência e o custo inicial da obra. Cinco meses se passaram e finalmente a obra sairia do papel.
         Uma imensa placa, ao preço de R$2.000,00, justificava a população o custo total da obra que ficaria em R$800.000,00. Seu Ditinho demorou exatamente quinze dias para encher o buraco, utilizou um velho carrinho de mão de sua propriedade, transportando a terra de um outeiro próximo e cobrou R$20,00 por dia trabalhado.
         Sua Majestade discursou bonito, falou de honestidade, ética, moralidade. Elogiou o dono da firma que ganhou a licitação, parabenizou seus assessores e após os foguetes foram em caravana ao “Recanto dos Bem-te-vis” comemorarem a cem Reais por cabeça a conclusão da obra.
         Seu Ditinho chama o rei de “Nosso Pai”, diz que ele tem um bom coração e que demorou apenas sessenta dias para pagar os R$300,00 pelo serviço executado. Salve o Rei!

Gastão Ferreira/2012

Nenhum comentário: