segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lobisomens...


SOBRE OVELHAS E LOBOS...


         Hoje estou completando um século de vida. Poucos são os humanos que atravessam esta barreira de bem com a vida e boa saúde. Minha memória é excelente e lembro cada pormenor de minha longa estrada. Nasci aqui nesta região e minha família desde tempos imemoriais apascenta ovelhas. Da casa senhorial sobre o outeiro avistamos o vale, as pastagens, o rio que sonolento corta nossas terras.
         Criar ovelhas, tosar, cardar a lã, ordenhar pela manhã e preparar o leite para fazer o delicioso queijo tão procurado por turistas nos dias atuais é nossa rotina diária. Vivemos afastados da civilização, raramente recebemos visitas e o produto de nosso suor, que no passado era confiado a uma cooperativa, hoje é entregue por meu filho diariamente na cidade grande. Temos um veículo especial para tanto.
         No tempo de meu pai e de meus avós os negócios da família sofriam muitos reveses. Os lobos rapinavam as ovelhas, as encontrávamos sem nenhum sangue, apenas pele e ossos. Caçávamos os lobos, eram animais ariscos e aos poucos empurramos seu território para além de nosso vale. Mesmo assim de tempos em tempos éramos atacados por alcateias inteiras, tais lobos não deixavam rastro e meu pai me encarregou de achar e exterminar de vez a praga.
         No ardor dos vinte anos saí à procura do inimigo. Andei por semanas através das montanhas, campinas, vales. Uma tarde encontrei uma choupana a beira de um regato e meu coração disparou, a garota mais bela que vi na vida estava bem ali, com seus grandes olhos de jabuticaba maduras seu sorriso de luz, seus negros cabelos esvoaçando ao vento que anunciava tempestade. Explicava que era um viajante quando um homem jovem se aproximou e perguntou o porquê da conversa com estranhos da parte de Melina... A moça empalideceu e um tanto chorosa esclareceu; - “Pai! O distinto moço é um viajante que pede pouso e mais nada.”
         Seu pai foi categórico; - “Filha, não podemos dar pousada e nem receber estranhos em nossa casa, hoje é noite de lua cheia esqueceu?”
         Melina tanto insistiu que fui por fim acomodado num pequeno quarto fora da casa. Vi quando seu pai saiu acompanhado de várias pessoas e se dirigiram para a mata. Melina foi até meu dormitório e convidou-me a dar um passeio, gostava de caminhar ao luar.
         Realmente o amor quando chega é fatal, mal conhecia a garota e já sabia que seria minha companheira para o resto da existência. Num dado momento, fomos cercados por uma alcateia de lobos e Melina os enfrentou cara a cara, não entendi por que contou ao grande lobo cinzento que ela estava apaixonada por mim e que se me atacasse teria de matá-la primeiro. Os lobos pareciam discutir entre si e nos deixaram em paz.
         Voltamos à choupana e Melina recolheu seus poucos pertences, caminhamos até o alvorecer temendo a perseguição dos lobos, nossa união foi abençoada pelo nascer do sol. Nosso filho chegou exatamente nove meses depois.
         Hoje completo um século de vida, meu filho está para festejar seus oitenta anos, não sei a idade de Melina. Os lobos nunca mais atacaram nossa propriedade, em muitas noites de lua cheia ouvi uivos no limite de nossas terras. Sonhei que Melina saiu com nosso filho e o apresentou a um grande lobo cinzento que o lambeu por inteiro, tal sonho é recorrente e acontece a cada lua cheia. Meus empregados são todos do local onde Melina vivia, meus parentes estão todos mortos. Na casa grande somos todos felizes... Melina é o amor de minha vida, meu filho, sua esposa e meu neto me tratam com carinho. O único fato que não consigo explicar a mim mesmo é o porquê de não envelhecer. Minha aparência é de um homem de trinta anos, Melina aparenta sempre a mesma idade, uma saudável garota de vinte anos, meu filho e meu neto pararam nos dezoito anos. Ontem a noite foi noite de lua cheia, ouvimos o uivo distante do grande lobo cinzento, o chefe da alcateia que só ataca fora dos limites de nossas terras, num relance notei que todos os presentes têm olhos de lobo, os mesmos olhos do pai de Melina, meu sogro, um jovem que raramente nos visita.

Gastão Ferreira/2012
        
           

Nenhum comentário: