quinta-feira, 31 de maio de 2012

Conto infantil...


O BAGRE SOLITÁRIO


         Há muitos e muitos anos, num lugar longínquo conhecido como “Fim de Mundo”, viveu um pequeno peixe de nome Mandi. Nasceu junto a milhares de irmão e irmãs, foi numa piracema e sua primeira lembrança não era nada feliz, quase fora devorado por uma Piranha. Escapou por pouco, mas de sua numerosa família não restou ninguém.
         Sentia-se um pequeno bagre solitário, ferido, sem amigos, sem ter aprendido nada sobre a vida foi seguindo as águas do riacho em que fora um alegre e esperto alevino. O singelo córrego encontrou uma nova torrente e misturou suas águas com as delas. Mandi encontrou seu primeiro amigo, um jovem e esperto lambari chamado Nando.
         O bagrinho contou ao novo amigo sua história e Nando falou uma frase de sua autoria que encantou Mandi; - “Riacho que tem piranha, jacaré nada de costas!”, como ele não sabia o que era um jacaré e achou lindo o ditado, vivia repetindo a máxima para todo o peixe que encontrava.
         Nando e Mandi estavam maravilhados pelo que viam quando saltavam sobre as águas e espiavam a margem do córrego. Plantações de arroz, mandiocais, árvores frutíferas, vacas, cabras, cães e crianças... Um mundo que mudava em cada curva do sonolento riacho.
         O riacho encontrou um caudaloso rio, Mandi pensou que o rio fosse o pai de todos os riachos e córregos, pois muitos córregos e riachos desembocavam nele. Agora já era um adolescente, aprendera muita coisa. Sabia de quais peixes não devia se aproximar. Qual o melhor petisco para saciar a fome e que minhoca era o prato predileto dos de sua espécie. Uma vez devorara metade de uma minhoca e do primeiro verme um peixe nunca esquece, estava doidinho para encontrar outra.
         O rio se chamava Rio Ribeira, passava por muitas cidades, vilas, sítios e um dia chegaria ao mar. O mar era o pai de todos os rios. O lugar onde um rio morria e renascia... O rio era doce e o mar era salgado, as águas do rio evaporavam, viravam nuvens, viajavam pelos céus e caiam feito chuva, davam vida aos pequenos córregos que formariam rios. Assim um rio nunca morre apenas se transformava... Fantástico! 
         Estava quase chegando à foz do rio, o local do encontro mágico. Muitos barcos passavam sobre as águas, um perigo! Mandi nadou para a margem e avistou uma suculenta minhoca que parecia acenar para ele; - “Uma minhoca solitária e toda minha!” pensou e abocanhou o petisco. Imediatamente foi alçado para fora do rio... Que horror! Sentiu a falta da mãe água, estava morrendo da maneira mais vil... Desmaiou.
         Quando acordou estava no paraíso... Só podia ser o céu... Tudo transparente... Água límpida e na temperatura certa, comida a vontade e milagre dos milagres, seu velho amigo Nando também estava no céu. O nome do paraíso era aquário, informou o lambari Nando.
         Foi nesse local que conheci um peixinho conhecido cientificamente como Pimelodella Transitória, um pequeno mandi-chorão ou manditinga. Vivia numa prisão e achava que estava no paraíso... Muitos humanos por ignorância também moram em prisões e por desconhecerem a grandeza da vida, as opções do aprendizado, teimam dentro da pobreza mental e material em que vivem a se sentirem num paraíso.

Gastão Ferreira/2012
        
         

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