quinta-feira, 31 de maio de 2012

Conto infantil...


O BAGRE SOLITÁRIO


         Há muitos e muitos anos, num lugar longínquo conhecido como “Fim de Mundo”, viveu um pequeno peixe de nome Mandi. Nasceu junto a milhares de irmão e irmãs, foi numa piracema e sua primeira lembrança não era nada feliz, quase fora devorado por uma Piranha. Escapou por pouco, mas de sua numerosa família não restou ninguém.
         Sentia-se um pequeno bagre solitário, ferido, sem amigos, sem ter aprendido nada sobre a vida foi seguindo as águas do riacho em que fora um alegre e esperto alevino. O singelo córrego encontrou uma nova torrente e misturou suas águas com as delas. Mandi encontrou seu primeiro amigo, um jovem e esperto lambari chamado Nando.
         O bagrinho contou ao novo amigo sua história e Nando falou uma frase de sua autoria que encantou Mandi; - “Riacho que tem piranha, jacaré nada de costas!”, como ele não sabia o que era um jacaré e achou lindo o ditado, vivia repetindo a máxima para todo o peixe que encontrava.
         Nando e Mandi estavam maravilhados pelo que viam quando saltavam sobre as águas e espiavam a margem do córrego. Plantações de arroz, mandiocais, árvores frutíferas, vacas, cabras, cães e crianças... Um mundo que mudava em cada curva do sonolento riacho.
         O riacho encontrou um caudaloso rio, Mandi pensou que o rio fosse o pai de todos os riachos e córregos, pois muitos córregos e riachos desembocavam nele. Agora já era um adolescente, aprendera muita coisa. Sabia de quais peixes não devia se aproximar. Qual o melhor petisco para saciar a fome e que minhoca era o prato predileto dos de sua espécie. Uma vez devorara metade de uma minhoca e do primeiro verme um peixe nunca esquece, estava doidinho para encontrar outra.
         O rio se chamava Rio Ribeira, passava por muitas cidades, vilas, sítios e um dia chegaria ao mar. O mar era o pai de todos os rios. O lugar onde um rio morria e renascia... O rio era doce e o mar era salgado, as águas do rio evaporavam, viravam nuvens, viajavam pelos céus e caiam feito chuva, davam vida aos pequenos córregos que formariam rios. Assim um rio nunca morre apenas se transformava... Fantástico! 
         Estava quase chegando à foz do rio, o local do encontro mágico. Muitos barcos passavam sobre as águas, um perigo! Mandi nadou para a margem e avistou uma suculenta minhoca que parecia acenar para ele; - “Uma minhoca solitária e toda minha!” pensou e abocanhou o petisco. Imediatamente foi alçado para fora do rio... Que horror! Sentiu a falta da mãe água, estava morrendo da maneira mais vil... Desmaiou.
         Quando acordou estava no paraíso... Só podia ser o céu... Tudo transparente... Água límpida e na temperatura certa, comida a vontade e milagre dos milagres, seu velho amigo Nando também estava no céu. O nome do paraíso era aquário, informou o lambari Nando.
         Foi nesse local que conheci um peixinho conhecido cientificamente como Pimelodella Transitória, um pequeno mandi-chorão ou manditinga. Vivia numa prisão e achava que estava no paraíso... Muitos humanos por ignorância também moram em prisões e por desconhecerem a grandeza da vida, as opções do aprendizado, teimam dentro da pobreza mental e material em que vivem a se sentirem num paraíso.

Gastão Ferreira/2012
        
         

Chega de foguetes!


A REVOLTA...


         A noticia estava em todas as redes sociais, internet, jornais e revistas. Nunca na história da humanidade ocorrera algo assim, pássaros em revoadas sobre uma pequena cidade durante vinte e quatro horas consecutivas... As ruas, os telhados, os pátios das casas estavam cobertos de excrementos, as pessoas que ousavam sair de seus lares eram atacados pelos dejetos das avoantes. As lojas, bares, padarias e supermercado fecharam temporariamente. As entregas estavam suspensas, ninguém arriscava enfrentar os perigos que rondavam pelos ares. Os animais domésticos, cães e gatos, estavam agindo de maneira estranha. Uivavam, latiam, miavam dia e noite... Uma loucura sem explicação.
         Técnicos em zoologia e ornitologia, em trajes especiais, analisaram as possíveis causas do fenômeno. Descobriram que o epicentro da ocorrência partia dos arredores da velha cidade, exatamente de uma pequena cachoeira localizada num local conhecido como Itaguá... Infiltraram um especialista em linguagem animal que aos poucos foi decifrando a causa em questão. Segue abaixo o relatório dos fatos com as devidas observações expurgadas do jargão técnico.
         “Os cientistas há muito descobriram que os animais se comunicam entre si. Recentemente a língua animal foi descodificada e decifrada. Sabemos muito bem o que um cão quer comunicar a seu dono, o que um pássaro anuncia com seu canto, o que um gato quer dizer com seus miados e ronrons. Nos diálogos gravados constatamos que os animais e pássaros que vivem na pequena cidade estavam estressados, que por diversos meios tentaram se comunicar com os humanos e expressar a causa do descontentamento. Partiram para o confronto quando chegaram à conclusão que jamais seriam entendidos.
         O motivo básico da revolta foi devido a grande queima de fogos de artifícios, os famigerados foguetes festivos. Na vetusta cidade todo e qualquer acontecimento é comemorado com rojões, bombinhas, foguetórios. Raro o dia em que meia dúzia de foguetes não desfaz a calma, o sossego, a tranquilidade do lugarejo. Pássaros no choco abandonam os ninhos, cachorros perdem o faro, gatos tentam inutilmente fugir do barulho, todos têm os tímpanos feridos. Tanto isto é verdade que a maioria dos cães deita no meio das ruas e não notam a aproximação dos veículos. Alguns gatos de uma hora para outra parece esquecerem o próprio nome e não atendem ao chamado dos donos, tudo isto é devido à surdez causada pelos altos decibéis emitidos pelos famigerados rojões.
         Sem ter a quem recorrer, pois os humanos se negam a prestar a mínima atenção a seus rogos, recorreram aos macacos, os parentes mais próximos da raça dos homens. Os primatas bolaram a revolta e enquanto não parar o terrível foguetório a cidade será bombardeada diariamente com a única arma que os pássaros possuem; - O coco!
         Recomendamos que as autoridades competentes atuem o mais rápido possível no sentido de coibir o uso excessivo de fogos de artifícios. O mundo evoluiu e hoje entendemos que o planeta é de todos os seres vivos e que animais também merecem respeito... Assinado: Técnico responsável.”
         A cidade após a proibição da usança de rojões voltou à rotina e a pouco um passarinho pousou numa pitangueira no quintal de minha casa. Agora já sei que eles falam e nos entendem, tentei um contato de primeiro grau... Ou o pássaro é um dos surdos pelos antigos foguetes, ou é abobado... Olhou bem para a minha cara, pulou para o galho mais alto da árvore e antes de alçar voo respondeu; - Bem te vi!  

Gastão Ferreira/2012   
         

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Histórias da noite...


A MUSA...


         Nunca se sentira tão alegre, disputada por todos os homens, seus olhares ardentes a desejavam. Pelo salão do barzinho a bebida corria farta e os petiscos, coisas raras, eram devorados mal apareciam. Sua Pomba-gira Maria Navalha estava semi-incorporada e quando Maria Navalha grudava nenhum homem desgrudava. Vovó Nachel fora cuidadosa ao prescrever o banho de axé; - “Não esqueça as sete rosas vermelhas nem a garrafa de pinga!”, avisara com antecedência.
         Calça colante, sapato plataforma, lábios de carmim, fio dental para enlouquecer a rapaziada e estava pronta para mais uma noite de caçada ao grande amor prometido e jamais encontrado.
         Três filhos, um de cada pai. Cada criança um engano, parte da eterna procura pelo homem que a transformaria em rainha do lar. Quase meio século de vida, gorda, alguns dentes perdidos, varizes fazendo questão de dar um alô, barriga de tanquinho de guerra... Sem pensão alimentícia, dava um duro danado para manter, alimentar e vestir as crias.
         Vovó Nachel poucas vezes se enganara e se as cartas disseram que hoje seria o grande dia, com certeza algo de muito bom mudaria sua vida para sempre. Aceitou mais um copo de cerveja... A noite era apenas uma criança e neste momento, ela Vanilda, também se sentia uma menininha carente querendo mimo, querendo colo... Dançava e recordava.
         Encontrou o primeiro companheiro aos dezessete anos. Homem bom o Ramiro! Pescador, pobre, sonhador... Com ele teve Dudu, seu filho mais velho, que está na prisão. Nada de grave! Porte ilegal de arma e tráfico de drogas... Ramiro morreu afogado, a casa era alugada, não deixou nada, a loja levou a tevê e a geladeira não pagas... O casamento durou dez anos que passaram rápidos demais.
         Lavou roupa para terceiros, fez “geladinhos” para Dudu vender, ficou anos sem por a cara para fora da casa, por pouco não virou crente. Sentia-se sozinha, começou a beber, tomou gosto... Numa noite, sem avisar, Maria Navalha sua Pomba-gira chegou para ficar... Vanilda tomou coragem e pediu o que mais queria; - Um homem para chamar de seu! Encheu a cara, vestiu a roupa mais espalhafatosa, muito batom vermelho, frente ao espelho treinou caras e bocas... Estava vestida para conquistar corações, era uma pistoleira solitária... Gargalhou!
         Quando engravidou de Manuela, Sérgio escafedeu-se, fugiu para Curitiba e seu nome, descobriu depois, não era Sérgio era Otávio e não foi para o Paraná, foi morar no Chile para não pagar pensão.
         Perto dos quarenta e cinco anos apaixonou-se de verdade. Valdo era tudo o que queria. Um gato no cio, vinte anos de idade com experiência de um cachorro tarado de quarenta. Por ele quase se prostituiu... Sustentou o malandro e novamente grávida, apanhava calada. Foi por esta época que conheceu Mãe Nachel, a famosa cartomante, vidente, mãe de santo. Ela fez um despacho e Valdo sumiu, ou melhor, assumiu de vez Dona Kéca, uma viúva ricaça já na terceira idade e foram viver no exterior.
         O tempo passou, as muitas feridas cicatrizaram, Mãe Nachel virou Vovó Nachel e um dia profetizou o mês, o ano, o dia em que a procura de Vanilda teria fim e este dia é hoje.
         O estranho sorriu e quando seus olhares se tocaram Vanilda soube que ele seria o último homem de sua vida. Maria Navalha tentou segurar a barra, mas Vanilda rompeu todas as barreiras, sentou no colo, fez carícias ousadas sem ligar para a reprovação dos demais frequentadores do barzinho. Conquistara a sua presa, saíram para os finalmente...
         Cidade pequena, o acontecimento raro pegou a todos de surpresa e todos ouviram atentamente; - Alo! ... Atenção! ... As 23; 45 horas da noite de ontem, foi encontrado próximo à barragem, com sete perfurações a faca, uma direta no coração, o corpo de Vanilda Gorda. Seu assassino fugiu, é um psicopata procurado em todo o país. Solicitamos que as senhoras obesas usuárias de calcinha tipo fio dental, se mantenham em casa, são estes o fetiche que atraem o matador. Obrigado... Alo! ... Atenção! ...
         Vanilda, a musa do barzinho que frequento, estava certa. O estranho seria o último homem da sua vida, o que lhe daria paz, o príncipe que a libertaria da solidão... Vovó Nachel acertou o mês, o ano, o dia do fatídico encontro... Maria Navalha chora... A cidade amanheceu triste!

Gastão Ferreira/2012  

Histórias do Rio Ribeira...


PAI MACÁRIO...


         Seu Macário era uma pessoa bondosa, filho único cuidou com desvelado amor dos velhos pais. Vivia do que plantava e do que colhia, possuía uma roça de mandioca, um milharal, abóboras, tomates, cebolas, repolho e outros vegetais. Criava galinhas somente para a cata de ovos, nenhum animal na ceva, nem porcos nem cabras. Dividia sua companhia com um cão de nome Feliz que era incapaz de matar um ser vivo. Talvez que Nulidade fosse o nome mais apropriado para o melhor amigo do homem.
         Pai Macário tinha muitos amigos, morava num casebre de pau a pique a margem do Rio Ribeira, nunca pescou. Ele detinha um dom maravilhoso, era um curador. Espinhela caída, torcicolos, lombrigas, coluna deslocada, dordolhos, tosse comprida e muito mais eram suas especialidades. Encontrava objetos perdidos sem sair de casa, sabia onde estava o corpo de um afogado e para isso usava de uma vela branca e um pedaço de madeira. Fazia suas rezas secretas, benzia a vela e a colocava sobre uma pequena tabua, depois qual barco de papel a lançava na água do rio. Onde parasse ali estava o morto. 
         Nunca aceitou procurar por corpos de crianças sumidas, se negava terminantemente a fazer isto, alegando que os inocentes seguem direto para Deus. Recebia muitos presentes por serviços prestados de bom coração, sapatos, mantimentos, roupas. Uma vez recebeu um tênis que nunca usou. Foi envelhecendo envolto em um halo de santidade. As cobras não o picavam, a onça não espiava a sua morada... Num triste dia morreu. Do casebre solitário ninguém se aproximava, o fantasma de Pai Macário rondava o velho lar.
         Feliz atacou o menino com fúria de cachorro novo, bote certeiro bem na garganta. O outro garoto escapou e contou em casa o que presenciou. Juntaram os parentes e foram matar a fera. Apenas um cão velho saudoso do dono, um cachorro faminto que não sabia caçar e que vivia enfurnado no barracão de remédios que Pai Macário erguera não muito longe da casa, meio escondido na mata.
         Os vingadores com suas velhas espingardas acertaram mortalmente Feliz. O idoso cão conseguiu se arrastar até a casa dos remédios. Foram verificar se a besta fera estava realmente morta. O barracão permanecia limpo, muitas garrafas com suas poções milagrosas intactas, um fedor de carniça chegava do porão, do lugar onde eram estocadas as ervas medicinais que salvaram tantos necessitados. Feliz se escondera no porão.
         Foi difícil acreditar, mas as ossadas eram todas de crianças, das crianças desaparecidas e nunca encontradas. Seu Macário não comia carne de animais, sua carne predileta e única era a tenra carne infantil. Durante sua longa vida atraiu a curiosa molecada até seu barracão e ali os degolava, fatiava, salgava, estocava e dela se alimentava. Feliz desde filhote se acostumara com aquele petisco e na falta do dono fora caçar.
         A casa foi queimada. Ficou nos olhos dos pais uma dor sem nome, uma saudade de abraços nunca dados e a certeza de que nem todos os inocentes seguem diretos para Deus. Muitos gritaram por socorro naquela casa no meio da mata, a casa do piedoso e bom Pai Macário.

Gastão Ferreira/2012  

terça-feira, 29 de maio de 2012

Ao menino Ranieri...


UM RIO CHAMADO RIBEIRA...


         Era apenas um garoto de oito anos, seu pai um homem simples, um sitiante. Sua mãe cuidava da casa, do marido, dos três filhos, do cachorro e do gato, lavava a roupa no riacho, gostava de rir, era uma mulher humilde e feliz. Ranieri, o segundo filho, tinha um cão chamado Feroz e que de feroz só tinha o nome, mas que julgava ser o seu melhor amigo.
         Normalmente as pessoas que vivem em bairros rurais são tímidas, um tanto arredias, introspectivas. Com Ranieri ocorria o contrario, gostava de contar histórias e os mais velhos se espantavam; - De onde esta criança tirou tanto converse? Do rio! Dizia o garoto.
         Naquela parte do terreno o Rio Ribeira nem parecia fluir, era como se estivesse tirando uma soneca, águas claras, algumas árvores frutíferas na margem e muitos e muitos pássaros entre as goiabeiras, os pés de araçás, as pitangueiras. Um barranco bom para sentar e espiar as novidades. O casal de João-de-barro estava construindo um novo ninho, os Tico-ticos estavam namorando, um Jacu solitário procurava companhia, as garças brancas pescavam lambaris. O rio parecia dormir e sonhar... Ranieri pendeu a cabeça sonolenta e o sonho chegou.
         Era o mesmo rio tinha certeza, mas estava diferente... Viu um índio flechando um peixe, depois passaram homens de roupas estranhas numa grande embarcação e com muitos selvagens amarrados por grossas cordas, ouviu o canto triste dos escravos africanos que seriam vendidos rio acima, os navios de passageiros, as grandes barcaças carregadas de fardos de arroz... Soldados desciam e atentos patrulhavam as margens, pescadores perseguindo cardumes de manjuba em plena piracema.
         Ranieri não entendia, estaria o rio contando a sua história, o que vivenciara através dos séculos? Agora a mata era densa, um Saci veio rodopiando e parou bem na sua frente, ele tinha um pé só. Um Curupira surgiu seguido de um Boitatá. O garoto olhou para o alto e imaginou um vislumbre de Tupã e nos olhos do Pai de Todos notou uma lágrima caindo sobre o rio. Anhangá gargalhou e Ranieri viu um homem com um menino pela mão, era o seu avô e o menino o seu pai. Assustou-se e ao espiar novamente, seu pai era um velho levando o corpo da esposa morta para ser velado na capela do povoado... Seus olhos choraram a mãe morta e nem prestou atenção quanto ele próprio veio com o filho até a margem do rio... Observou as carcaças de animais mortos boiando nas águas de uma grande enchente, viu um rosto de alguém que um dia amará, sentiu fome, tristeza, um vácuo sem nome, uma saudade que ainda não chegou... Na alegria de amar curtiu o abraço do filho que virá... Assistiu a velhice chegando e um imenso vazio chamado Morte gritando seu nome... Acordou.
         O rio era o mesmo, Feroz dormia num abandono feliz... O silencio chamava a atenção. Os pássaros estavam calados e a tarde parecia envelhecida, ao longe, para além do pé da serra, relâmpagos anunciavam a chuva noturna e o som vindo de tão distante era idêntico ao gargalhar de Anhangá... Ah, os sonhos do rio! Ah, os pesadelos do rio! O passado e o futuro se misturam quando o Rio Ribeiro conta a sua história... Ranieri é um menino feliz, tão bom contador de histórias quanto o rio que lentamente busca o mar para esquecer e renascer como chuva eternamente... Um dia Anhangá será vencido e Tupã voltará a sorrir... Eu sei... Eu vi... Foi o rio que contou.

Gastão Ferreira/2012  

Will o pirata...


BELADONA...


         Há muitos e muitos anos, quando o mundo era ainda inocente surgiu à lenda um grande corsário. Um impiedoso pirata que sistematicamente atacava as costas e as frentes do continente sul-americano... Seu nome era Will Wilsonson, o terror dos mares, o flibusteiro que em sua nau de negras velas raptava mocinhas sonhadoras as margens dos rios e nas praias desertas de outrora.
         O flagelo dos mares, pela enésima vez atacara a incipiente Vila de Icapara. Os caiçaras choraram o ouro perdido, os jovens as noivas levadas para longe de seus beijos e abraços, os velhos as filhas que jamais teriam de volta.
         Will ficou feliz. O porão do navio repleto pelo saque, desta vez conseguira rapinar sessenta sacas de farinha de mandioca, duzentos odres da famosa pinga “Camisa Vermelha”, cem fardos de tainhas defumadas, trezentos cachos de banana nanica, muitas esteiras de pirí, oito dançarinas de cancã, três cabeleireiras, cinco manicures, dez garotas de programa sem programa, uma cantora de fados e a filha do alcaide, a formosa Beladona, que por si só valia por todo o butim.
         Beladona era a única filha do alcaide Alberico Flor Roxa Junior, Flor por parte da mãe, Roxa por parte de pai e Junior para ninguém desconfiar que pudesse ser filho de outro pai. Seu Berico nas horas vagas fazia rosas roxas da Patagônia para ofertar as menininhas tolas da terceira idade como paga de algum favor prestado. O nascimento da garota estava envolto em mistérios, dizem as boas e más línguas que Flor Roxa encontrou uma sereia desmaiada na praia e abusou sexualmente da mulher-peixe. Resultado? A belíssima Beladona.
         Beladona tinha um probleminha, apesar da beleza estonteante emanava um pitíu, um cheirinho de peixe herdado da mãe e por onde passava atraía um monte de gatos famintos. Fora este pequeno problema era a perfeição em carne e osso, mais carne do que ossos é óbvio. Wilsonson, como todo o bom corsário adorou o perfume exótico exalado pela donzela.
         Will vendeu o produto do saque aos índios Nocupirus, descendentes dos Maias e que pagaram horrores pelas jovens mulheres sem pechinchar, pois estavam para inaugurar uma novidade vinda da Europa, um lugar sossegadinho dentro da floresta para portugueses, espanhóis, franceses e holandeses se divertirem, chamado “Zona da Mata” e estavam com falta de mão obra especializada. O capitão pirata só não se desfez de Beladona.    
         O temível corsário estava apaixonado por Beladona e pirata com paixonite não é fácil. Pela primeira vez na vida caiu na real, fez a barba, penteou os cabelos, trocou de roupas e passou perfume no corpo todo. As garotas raptadas contaram a história de Beladona e pediram segredo, incluindo o bodum de peixe que só pescador gripado aturava. Will, esperto como só um malvado pirata pode ser, em vez de perfume passou sardinha em lata pelo corpo e talvez seja esta a razão pela qual Beladona se entregou tão fácil a seus tórridos beijos.
         Numa noite, a pedido de Beladona, todos os marujos foram colocados em um bote e abandonados numa praia deserta... Na nau ficaram a sós Will e Beladona. Estavam num nhéconhéco prá lá de sacana quando o navio foi cercado pelo povo do mar. Tubarões, baleias, orcas, ouriços do mar, leão marinhos, pinguins, salteiras, manjubas, todos comandados por sereias e tritãos. Era a mãe de Beladona que viera salvar a filha das garras do inimigo humano e Will pertencia a raça dos homens, a raça daquele Flor Roxa que abusara da pequena sereia desmaiada, com fome e sede numa praia deserta.
         Ninguém sabe ninguém viu, mas a nau pirata jamais foi avistada. Conta à lenda que Beladona descobriu ser a sua mãe uma rainha do mar, herdeira do trono das sereias e não se tem ideia de como conseguiu salvar Will Wilsonson da vingança materna. Muitos marujos dizem avistar o navio pirata nas noites de calmaria e que Will, metade homem e metade peixe, abraçado a Beladona lhe acena de longe, feliz da vida.
         Alguns anos após esta epopeia apareceu na pequena Vila do Icapara um garoto vindo do mar. O estranho é que perguntou por Alberico Flor Roxa Junior, a quem chamou de vovô, disse que se chamava Will Alberico Wilsonson Junior. Trouxe consigo moedas de ouro muito antigas, pérolas do mar mais profundo e exalava cheiro de peixe... Quem será?

Gastão Ferreira/2012    

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Lobisomens...


SOBRE OVELHAS E LOBOS...


         Hoje estou completando um século de vida. Poucos são os humanos que atravessam esta barreira de bem com a vida e boa saúde. Minha memória é excelente e lembro cada pormenor de minha longa estrada. Nasci aqui nesta região e minha família desde tempos imemoriais apascenta ovelhas. Da casa senhorial sobre o outeiro avistamos o vale, as pastagens, o rio que sonolento corta nossas terras.
         Criar ovelhas, tosar, cardar a lã, ordenhar pela manhã e preparar o leite para fazer o delicioso queijo tão procurado por turistas nos dias atuais é nossa rotina diária. Vivemos afastados da civilização, raramente recebemos visitas e o produto de nosso suor, que no passado era confiado a uma cooperativa, hoje é entregue por meu filho diariamente na cidade grande. Temos um veículo especial para tanto.
         No tempo de meu pai e de meus avós os negócios da família sofriam muitos reveses. Os lobos rapinavam as ovelhas, as encontrávamos sem nenhum sangue, apenas pele e ossos. Caçávamos os lobos, eram animais ariscos e aos poucos empurramos seu território para além de nosso vale. Mesmo assim de tempos em tempos éramos atacados por alcateias inteiras, tais lobos não deixavam rastro e meu pai me encarregou de achar e exterminar de vez a praga.
         No ardor dos vinte anos saí à procura do inimigo. Andei por semanas através das montanhas, campinas, vales. Uma tarde encontrei uma choupana a beira de um regato e meu coração disparou, a garota mais bela que vi na vida estava bem ali, com seus grandes olhos de jabuticaba maduras seu sorriso de luz, seus negros cabelos esvoaçando ao vento que anunciava tempestade. Explicava que era um viajante quando um homem jovem se aproximou e perguntou o porquê da conversa com estranhos da parte de Melina... A moça empalideceu e um tanto chorosa esclareceu; - “Pai! O distinto moço é um viajante que pede pouso e mais nada.”
         Seu pai foi categórico; - “Filha, não podemos dar pousada e nem receber estranhos em nossa casa, hoje é noite de lua cheia esqueceu?”
         Melina tanto insistiu que fui por fim acomodado num pequeno quarto fora da casa. Vi quando seu pai saiu acompanhado de várias pessoas e se dirigiram para a mata. Melina foi até meu dormitório e convidou-me a dar um passeio, gostava de caminhar ao luar.
         Realmente o amor quando chega é fatal, mal conhecia a garota e já sabia que seria minha companheira para o resto da existência. Num dado momento, fomos cercados por uma alcateia de lobos e Melina os enfrentou cara a cara, não entendi por que contou ao grande lobo cinzento que ela estava apaixonada por mim e que se me atacasse teria de matá-la primeiro. Os lobos pareciam discutir entre si e nos deixaram em paz.
         Voltamos à choupana e Melina recolheu seus poucos pertences, caminhamos até o alvorecer temendo a perseguição dos lobos, nossa união foi abençoada pelo nascer do sol. Nosso filho chegou exatamente nove meses depois.
         Hoje completo um século de vida, meu filho está para festejar seus oitenta anos, não sei a idade de Melina. Os lobos nunca mais atacaram nossa propriedade, em muitas noites de lua cheia ouvi uivos no limite de nossas terras. Sonhei que Melina saiu com nosso filho e o apresentou a um grande lobo cinzento que o lambeu por inteiro, tal sonho é recorrente e acontece a cada lua cheia. Meus empregados são todos do local onde Melina vivia, meus parentes estão todos mortos. Na casa grande somos todos felizes... Melina é o amor de minha vida, meu filho, sua esposa e meu neto me tratam com carinho. O único fato que não consigo explicar a mim mesmo é o porquê de não envelhecer. Minha aparência é de um homem de trinta anos, Melina aparenta sempre a mesma idade, uma saudável garota de vinte anos, meu filho e meu neto pararam nos dezoito anos. Ontem a noite foi noite de lua cheia, ouvimos o uivo distante do grande lobo cinzento, o chefe da alcateia que só ataca fora dos limites de nossas terras, num relance notei que todos os presentes têm olhos de lobo, os mesmos olhos do pai de Melina, meu sogro, um jovem que raramente nos visita.

Gastão Ferreira/2012
        
           

domingo, 27 de maio de 2012

Um casório...


O BUQUÊ DA NOIVA


         Dona Vina Sanfona acordou eufórica. Hoje é um grande dia, o dia inesquecível em que dirá em alto e bom som perante a fina flor da sociedade, um tão guardado sim. Seu casamento com Becival é o evento que está mexendo com a cidade.
         Malvina Angélica de Castro, uma garotinha que sonhava em ser modelo desde o prézinho. Uma guria risonha nascida em berço de ouro. Sua mãe acertara no nome da petiz. Sim! Malvina jamais se corrompera com essas coisinhas bobas chamadas de bondade, humildade, simplicidade, sua praia era outra e o segundo nome Angélica explicava tudo, era bela fisicamente, nascera perfeita e crescera escultural. Nunca passara pela loira burra das piadinhas dos menos favorecidos pelos dons de Afrodite, a deusa da beleza e do amor.
         Vina Sanfona, que desaforo! Como esse apelido horroroso pegou... Qual rastilho de pólvora se espalhou pela cidade e ficou nas bocas pequenas e invejosas. Tudo culpa de Becival! O namorico começou bem cedo, ela com doze anos e ele com treze. Acostumada a nunca ser contrariada, na primeira desavença com o namorado, deu para comer chocolate, bolos, doces... Puro estresse emocional!... Engordou... Fez regime... Emagreceu e reconquistou Becival. Na milésima briga, já com quinze anos de idade, havia engordado e emagrecido centenas de vezes. Eis o porquê de Vina Sanfona... Safados!
         Aos dezesseis anos Becival foi estudar na capital e as amigas da cidade grande faziam questão de contar as muitas novidades. Becival estava namorando firme a filha do doutor Florêncio, um industrial milionário e Vina não era páreo para Cândida, a ricaça. Malvina Angélica engordou de forma imensurável e Vina Sanfona chegou para ficar.
         O tempo correu sem se importar com sentimentos e dores... Vina passou de garota para mocinha, mocinha para moça, de moça para tia, de tia para senhora e de senhora para garota da terceira idade. Não casou, aliás, quem teria coragem para namorar uma baleia, uma orca de mal com a vida!
         Becival casou com Cândida e foi muito feliz até completarem as bodas de ouro. Na volta da comemoração, ao retornarem de Paris, seu avião particular sofreu uma ligeira pane, na aterrissagem pegou fogo e todos a bordo pereceram menos Becival que ficou cego... Uma tragédia!
         Becival cego e encanecido voltou à pequena cidade de sua infância. Reencontrou Angélica seu primeiro amor e como o amor também é cego, nunca ficou sabendo em que baranga havia se transformado a bela Malvina Angélica, mais conhecida como Vina Sanfona. Marcaram casamento e o casamento é hoje.
         A igreja matriz toda iluminada, um afinadíssimo coral, os convidados escolhidos a dedo entre a fina flor da sociedade. Se bem que flores um tanto murchas, todos velhos, todos caquéticos, todos na melhor idade. Quando o buquê de noiva foi lançado para o alto, já no lado de fora da igreja, Malvina fez questão de jogá-lo próximo a escadaria. Foi um corre, corre... Um puxa, puxa... Um empurra, empurra... Um Deus nos acuda. Muitas menininhas da terceira idade se esborracharam no chão e rolaram escada a baixo enquanto o buquê importando bailando no ar foi cair exatamente nas mãos de Dita Munrhá, que deu um jeitinho e empurrou Maria Lambisgóia pela escada ao se apoderar do buquê... Dita é feia prá dedéu. Vamos aguardar o milagre do Buquê de Noiva, Dita sonha em casar com Wilson que ainda não faz parte de nenhuma história.

Gastão Ferreira/Iguape/2012 

O amor é lindo...


ROMEU & ROTHEU...


         Somos todos personagens neste cenário mundo. Através do espaço tempo as comédias, os dramas, as tragédias se repetem. Não há nada de novo sob o sol... A chuva de hoje é a mesma água condensada que caiu há meses e voltou.
         Seu Dito Feiura desde o prézinho teve suas desavenças com Maria Dondoca. Naquela época já sentavam em extremos diferentes na mesma sala de aula, aliás, o apelido de Bad Mary foi ele quem o colocou em Maria Dondoca e vice versa, Dito Lixo era o mesmo e execrado Dito Feiura.
         Com o tempo as rusgas infantis se transformaram em rancores, viraram ódios, aleivosias. Ninguém conseguiu uma conciliação. Uma aproximação mais civilizada jamais ocorreu... Eram inimigos íntimos! Dito Lixo sabia tudo a respeito de Bad Mary e Maria Dondoca conhecia a vida de Dito Feiura como a palma de sua própria mão.
         Muitas Festas de Agosto rolaram, Dito transformou-se num empresário de sucesso, possui família, animais de estimação, um filho, duas filhas e muito dinheiro. Maria também constituiu família, foi abençoada com um filho e duas filhas. Atualmente é uma poderosa líder comunitária que manda e desmanda. Ela tem muitos bens em nome de terceiros, todos comprados com aquela grana preta das grandes maracutaias que cruzam o caminho dos espertos que se interessam sem interesse próprio a auxiliar os menos favorecidos.
         Feiura casou e a seu primogênito deu o nome de Romeu, Bad Mary apressou o enlace matrimonial e fez questão de colocar o nome de Rotheu no filho mais velho. Em ambas as casas as crianças cresceram cientes de que jamais deveriam se aproximar uma da outra. Seus pequenos mundos e o grande mundo de seus pais consistiam na máxima de que o que era bom para Rotheu jamais prestaria para Romeu e o que servia para Romeu não servia para Rotheu.
         Os costumes mudaram, o planeta evoluiu, muitos carnavais passaram. A velhice trocou de nome e agora é a melhor idade. O anão deixou de ser um baixinho e se transformou num cidadão verticalmente prejudicado. Tudo é permitido para que um cidadão não se sinta constrangido em suas escolhas, suas opções, sua vida íntima... O Mundo é cor de rosa afirmam os ativistas sempre de plantão.
         Ninguém presenciou o primeiro encontro entre Romeu e Rotheu, ou melhor, todos presenciaram tal encontro... Como assim? Todos presenciaram!... O encontro foi numa festa a fantasia no melhor clube da cidade e ninguém sabia quem era quem, nem Rotheu nem Romeu.
         Romeu travestido de “Flor Singela”, na verdade um vistoso Brinco de Princesa, e, Rotheu fantasiado de “Colibri Solitário” e muito brincalhão se aproximou de “Flor Singela” e tascou; - “Você é a minha flor predileta!” e ouviu um sussurrante; - “Essa flor é toda sua, Beija-flor!”
         Ah o amor! Essa criança pandega. Tiro certeiro, mata a cobra e mostra o pau... Poderoso! Romeu e Rotheu vão casar, será o primeiro casamento gay oficial no município. O que a cidade inteira tentou sem jamais conseguir, Cupido conseguiu e aproximou Dito Lixo de Bad Mary para sempre.
         As bodas ficarão para a história... Filhos? O quê os pais não fazem para vê-los felizes! Viva o Amor! Viva Eros! Viva Cupido esse filho genioso de Afrodite o qual move o mundo e abranda o coração das feras. Felicidades aos jovens nubentes, somos todos personagens e a Terra é o cenário, quem ousa afirmar que algo não possa mudar? Romeu e Rotheu acham que sim... Ah, o que é o amor!

Gastão Ferreira/Iguape/2012.   

sábado, 26 de maio de 2012

Será que existe tal reino?


SALVE O REI!


         No palácio Sua Majestade estava um tanto estressado. Pela manhã observara que as chuvas noturnas abriram um pequeno buraco na rua lateral da nobre casa. Entre seus auxiliares se contavam oitenta Assessores Diretos, duzentos e quarenta Assessores Junior, quatrocentos e oitenta Observadores Apadrinhados, trinta empregados efetivos concursados e ninguém notara a cratera dificultando a passagem das carruagens e passantes.
         Durante o magnífico café da manhã, na ala nobre do palácio, através do Super Secretário Especial dos Amigos da Corte, o único capaz de ocupar oito secretarias ao mesmo tempo, solicitou a convocação do Secretário de Assuntos Coligados a Chuva, Tempestades e Surucação com a máxima urgência.
         Somente após o almoço no “Recanto dos Bem-te-vis” com um grupo de empresários de outro reino, o Secretário da Surucação conseguiu entrar em contato com o Secretário de Decisões Concretas e Obras Emergenciais, transmitindo o nobre pedido do Super Secretário.
         Uma semana após, o Secretário de Decisões em reunião com o Primeiro Conselho do Reino determinou com urgência urgentíssima a conclusão do pedido real.
         O Primeiro Conselho depois de conseguir um local adequado para tantas e importantes figuras, convocou o Segundo, Terceiro e Quarto Conselho de Decisões Concretas, a reunião foi num anfiteatro, pois cada conselho era composto de vinte e cinco membros regiamente pagos com os impostos dos contribuintes. Foram unanimes e a solicitação de Sua Majestade foi encaminhada ao Conselho de Obras para licitação, tomada de preços e afins.
         O Conselho de Obras através de seu terceiro presidente consultou os órgãos competentes, Ipham, Iphim, Iphem, obtendo, dois meses depois, um NIO (Nada Impede a Obra) e após uma longa discussão técnica sobre qual o melhor tipo de terra a ser utilizada, diversas consultas a departamentos coligados e parcerias não contabilizadas, foi publicado o edital de concorrência e o custo inicial da obra. Cinco meses se passaram e finalmente a obra sairia do papel.
         Uma imensa placa, ao preço de R$2.000,00, justificava a população o custo total da obra que ficaria em R$800.000,00. Seu Ditinho demorou exatamente quinze dias para encher o buraco, utilizou um velho carrinho de mão de sua propriedade, transportando a terra de um outeiro próximo e cobrou R$20,00 por dia trabalhado.
         Sua Majestade discursou bonito, falou de honestidade, ética, moralidade. Elogiou o dono da firma que ganhou a licitação, parabenizou seus assessores e após os foguetes foram em caravana ao “Recanto dos Bem-te-vis” comemorarem a cem Reais por cabeça a conclusão da obra.
         Seu Ditinho chama o rei de “Nosso Pai”, diz que ele tem um bom coração e que demorou apenas sessenta dias para pagar os R$300,00 pelo serviço executado. Salve o Rei!

Gastão Ferreira/2012

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pura ficção...


VOTOU ERRADO...        


         Da última vez em que morri foi num sonho. Nenhum anjo veio me recepcionar, ao contrario, dei de cara com um auxiliar do capeta, que aos gritos indicou uma fila quilométrica sem dar tempo para reclamações. Entramos pela Caverna do Ódio e fomos descendo em direção ao magma terrestre... O calor era insuportável, muito choro e ranger de dentes. Recebi um cartão numerado onde constava meu nome e o motivo pelo qual mereci a danação eterna. O recinto era imenso e todos aguardavam a condução direta e sem escala para o inferno.
         Pelo autofalante anunciaram numa voz pausada; - “Alo!... Atenção! A próxima condução chegará com atraso. Todos estão liberados a desfrutarem de nossa hospedagem... Circulem, por favor!”
         Sentado em um banquinho dei de cara com o meu amigo Zéca Gado, estava ali por engano explicou. Seu pecado, dizem as más línguas foi cuidar da vida alheia, fazer fofocas, cuspir nas pessoas e falar mal da vizinhança. Tudo mentira! Uma falsidade desta gentalha sem eiras nem beiras que não tem o que comer.
         Um jovem, muito bem apessoado, contava a um grupo de meninos do mal que fora injustiçado... Criara uma ongue com a finalidade de dar suporte à juventude transviada pelas drogas e prostituição infantil. Devido a uma injúria, uma aleivosia, uma mentira deslavada e com fins eleitoreiros inventaram um romance inexistente entre ele e uma meia irmã... Estava pagando o preço por defender os desvalidos da sorte, esperava entrar com uma ação contra Deus e ganhar a causa.
         Uma senhora tentava explicar aos prantos que fora ludibriada por um bando de aproveitadores; - “Logo eu! Mãos Limpas. Uma alma caridosa, que sempre tratei o próximo como alguém da família, igual a um cunhado, igual a um irmão ou irmã... Uma pessoa que jamais conheceu a palavra vingança, a palavra perseguição... Agora estou aqui neste sufoco!... Naquele quartinho estão presos como se fossem ladrões e bandoleiros, os meus amados assessores, os dignos filhos da cidade que tanto defendi... De que valeu meu trabalho, minha honestidade, minha ética? Se eu adivinhasse que tudo acabaria assim teria roubado, superfaturado, feito conchavos com empreiteiras e politiqueiros safados! Cheguei à conclusão que no mundo nada vale a pena se a alma é pequena.”
         Eram centenas de almas reclamando, todas se dizendo inocentes. Uma roubou diversas vezes o santo protetor, outro era agiota e destruiu muitos lares. Algumas eram almas de padres pedófilos e muitas outras eram almas de crentes que usaram a religião como escudo para ferir os semelhantes. Tinha pobre que usara da pobreza para se aproveitar da bondade alheia, ricos que acreditaram estar acima das leis. Pessoas rancorosas, invejosas, mal amadas escondidas por trás de sorrisos falsos e moral duvidosa, sepulcros caiados como bem convém.
         O transporte demorava e nesta hora é necessário ter muita calma, aproximei-me do quartinho onde estavam trancafiados os tais assessores da mulher chorona e reconheci muitos amigos. A mesma ladainha de sempre, eram todos inocentes... Um deles, o que parecia ser o chefe da turma, se aproximou da grade que os impedia de fugir da pequena sala e perguntou o porquê de eu estar ali, pois me conhecia como um jornalista sonhador, um Zé Ninguém... Mostrei meu cartão e ali estavam as razões de merecer o fogo eterno; - Fez campanha e votou errado.

Gastão Ferreira/2012  

Tudo igual...


OS DIPHES...


         Os Diphes são as criaturas mais fantásticas que conheço, moram em cavernas, altamente sociáveis entre si, dividem com o restante da tribo a coleta diária de alimento. Adoram cantar, suas músicas falam dos recantos escondidos na floresta, do nascer do sol, da amizade e do amor.
         Educam seus filhos com extrema severidade e com eles compartilham seu estilo de vida. Um garoto Diphe conhece seu lugar no grupo desde criança, sendo o responsável pelas orações acorda cedo, bem antes do dia clarear e se dirige a imagem do Grande Senhor, pedindo proteção para a família, uma boa caça, saúde e paz.
         O asseio é fundamental, tomam vários banhos durante o correr do dia. São coletores, catadores de grãos, sementes, frutos e adoram carne... Eis o problema! A carne dos animais silvícolas é tabu e não pode ser consumida desde tempos imemoriais.
         Seu respeito aos habitantes da mata é algo que chama a atenção. Um animal doente sempre procura um Diphe para ser tratado, não consta em suas muitas histórias que algum deles tenha sido atacado por uma onça, um jaguar, uma serpente venenosa... Os Diphes não conhecem o medo.
         Uma caçada em busca da tão sonhada carne é algo místico. Na noite que precede a grande busca muitos cânticos se fazem ouvir, são os xamãs pedindo permissão à divindade para o inicio da perseguição à presa pretendida. As fêmeas preparam diferentes bebidas, os meninos buscam lenha para a grande fogueira onde será assada a carne, as mocinhas enfeitam a caverna com flores na espera de atrair a graça divina.
         Antes de o sol raiar já estão a caminho, normalmente a jornada é longa, um dia de viagem e atacam somente à noite. Os pais abençoam os filhos, beijam as esposas, se despede dos parentes, nuca se sabe o que pode ocorrer... Talvez não retornem!
         Desta vez a caçada foi no Pé da Serra, escolheram a casa mais afastada e silenciosamente atacaram. Seu Dito, dona Maria e o pequeno bebê nem sentiram a morte chegar, foram degolados no local e sangraram até a última gota, pois o sangue de humanos contaminados pode trazer sérios problemas de saúde. Queimaram a biboca e jogaram os ossos do último banquete nas chamas, assim os vizinhos diriam que foi um incêndio que matou o casal... Coitados tão jovens!
         Enquanto a carne assava, os mais velhos comentavam da expedição, as crias gulosas mordiscavam pequenos pedaços dos petiscos sobre as grelhas, as mães amamentavam os recém-nascidos, os namoricos aconteciam no lusco fusco da caverna e o xamã agradecia ao Grande Senhor a excelente abundância da tão gostosa carne.
         Num outro local, na mesma floresta, um homem acabara de dizimar uma família de Bugios, enquanto retirava a pele dos animais esquartejados, agradecia a Deus a dádiva da comida e pedia saúde, paz e felicidade para a sua família... O homem nem sabe que os Diphes existem e que adoram carne humana. O Saci e o Curupira conhecem as matas, são os olhos de Tupã... Anhangá sorri e consente!

Gastão Ferreira/2012 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Histórias que vovó contava...


PRENDA MINHA...


         O campo é verde e a grama macia, as coxilhas se perdem na distância. Os carrapichos e rosetas não dão sossegos a meus pés infantis e descalços. No riacho de águas cristalinas, peixes vermelhos nadam entre seixos multiformes. Um sino badala na casa antiga de grossas paredes... Chama para o lanche da tarde. Atravesso correndo o pomar, são muitas goiabeiras, laranjeiras, pés de peras, bergamotas, ameixeiras, marmeleiros, frutas plantadas pelos bisavôs. Paro na soleira da porta e flutuando adentro a sala vazia. Já não sou uma menininha, agora sou uma moça tentando entender o mundo.
         O retrato de casamento de vovô e vovó, numa moldura oval, amarelada pelo tempo, observa meus passos. Na foto o casal olha para a porta de entrada como a esperar visitas. Quem sabe algum dos filhos aparece! Qual deles atravessará o batente? Tia Bella fugiu para longe com um mascate turco ou seria um cigano? Nunca voltou! Embranqueceram os cabelos dos avós de tanta espera, ou foi o suicídio de tio Anselmo, que se enforcou por amor, a causa da velhice precoce? Não interessa! Há muito tempo meus avós partiram... Deixando um suspiro de saudade e uma lágrima furtiva nos olhos de minha mãe. Pobre mamãe!
         Mamãe casou mocinha, estava apaixonada e logo vieram os filhos. Fomos três! Mário, Magda e Martha, suas joias mais preciosas, dizia. Quando completei dez anos papai foi para a guerra. Mais uma revolta dos índios guaranis, antigos donos destas terras. Daquela vez aliaram-se aos paraguaios e passaram por nossa estância. Levaram os cavalos, muito gado e raptaram Magda, minha irmã mais velha e mocinha... Triste Magda! Noiva de nosso vizinho Hilário. Jamais casou! Nem ele, nem ela. Magda nunca voltou! Papai também não retornou de sua peleja com os índios. Ficamos anos a sua espera! Eu, mamãe e Mário.
         Tocamos nossas vidas. Às vezes apressados, outras vezes lentamente. No inverno nos recolhíamos ao interior da casa. O vento Minuano, as geadas, o frio cortante e aquele céu sempre azul na mesma paisagem solitária. Era a época de recordar, de ouvir histórias, de chorar nossos mortos. Na primavera tudo mudava! As ovelhas, as vacas, as porcas e éguas pareciam apaixonar-se todas de uma vez só e ao mesmo tempo. Muitas flores, muitos risos, muito serviço para por em dia.
         Mário casou e sua esposa não quis morar no casarão. Ela via vultos, ouvia risadas, sentia arrepios. Dizia que uma mulher gargalhava e puxava seus cabelos. Pela descrição, a visagem era tia Cotinha, uma irmã de mamãe que enlouqueceu quando seu noivo a trocou por uma sirigaita da cidade grande. Mário construiu uma casa nova, tem até banheiro no interior. Meus sobrinhos já estão mocinhos... Mamãe se finou de saudades e meus cabelos ficaram brancos como neve, igual à geada que cobre nossos campos no inverno. Nunca casei! Já sou tia avó. Os filhos de meu irmão me chamam tia Marthinha. Pedem-me que lhes conte a história dos nossos antepassados, dão muitas risadas e atrapalham meus cochilos.
         Uma tarde eu estava sentada naquela cadeira de balanço, aquela que está ali no canto. Olhei o retrato de casamento dos avós e levei um baita susto! Vovó me sorria e vovô espiava para o lado de fora, demonstrando alegria. Segui seu olhar e papai estava chegando... Papai moço novo, com seus olhos azuis e seu sorriso mais bonito. Abraçou-me, disse que jamais se afastou de mim e que eu era sua princesinha... Deu-me a mão e me levou a passear. Fomos até o campo olhar as coxilhas, depois observamos os peixes vermelhos no arroio. Eu era novamente uma menina de oito anos. Cantamos junto a “Prenda Minha”; - “ Vou me embora vou me embora prenda minha, tenho muito o que fazer, tenho que aparar rodeio prenda minha, nos campos do bem querer.”
         Hoje penso que papai foi um feiticeiro. Nunca mais sentei na cadeira de balanço. Dentro de casa sou uma velha, arrasto os pés, ando com dificuldade. Meu sobrinho neto casou e mora aqui em casa. Quando sua mãe vem visitá-lo, aquela que vê fantasmas, ela se arrepia, diz que estou na sala. Ela está bem acabadinha, acho que está caducando. Há pouco tempo eu estava no campo, era uma menina de oito anos... Ouvi o sino do lanche e corri para a casa. A casa está vazia! Ficou a saudade nos olhos dos retratos e a presença de papai que me diz; - “Vem! Vamos embora prenda minha. Vim te buscar para uma nova vida... Vem prenda minha!”


Martha (1745 - 1823)




Gastão Ferreira/2012- Iguape/SP