quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mundo pequeno...


MEU PEQUENO MUNDO...


         Quando o meu mundo era pequeno, eu sentava na soleira da porta espiando a rua. Era uma estrada longa para meus pés infantis. Por vezes passava um cão abandonado. O cachorro nem me notava, estava cuidando da própria vida, a procura de um osso ou do seu dono que mudara de casa e esquecera de propósito seu melhor amigo.
         Lembro-me das grandes árvores que margeavam o caminho, demoravam séculos para darem frutos. A espera era longa e eu nem sabia que uma vez por ano era a época da colheita. Os pássaros construíam seus ninhos nas ramadas, nos ocos dos troncos, nos desvãos dos telhados, criavam seus filhotes, catavam comida que traziam de lugares distantes e alimentavam a prole.
         Quando as visitas chegavam, a conversa era para adultos e as crianças deviam brincar no pátio. Encostava os ouvidos nas paredes tentando decifrar as novidades. Um gavião desceu feito flecha e capturou uma cobra, uma égua pariu um potrinho que em poucos minutos estava em pé e mamando. Precisava dar de comer ao leitão que aguardava o Natal para virar torresmo, milho a meia dúzia de galinhas poedeiras, descobrir onde foi à última postura e recolher os ovos antes que um lagarto os descobrisse.
         Rachar lenha para o fogão, tirar água do poço, encher a moringa, debulhar o milho, escolher o feijão, fazer a lição de casa. Recontar os gibis para a troca semanal frente ao cinema da praçinha. Brincar, nadar no riacho, correr muito, comer, rezar, pedir a benção de boa noite aos pais... Dormir.
         O tempo passou, o povoado cresceu. As árvores deram lugar a muitas casas, a estrada foi asfaltada e tem um canteiro central com uma ciclovia. O fogão é a gás, frangos só no supermercado e porco em cativeiro, nem pensar. No antigo pasto um conjunto habitacional de alto padrão. Os gaviões e lagartos desapareceram. As visitas só conversam por telefone ou internet. As crianças não brincam na rua, têm medo de adultos, não se sujam, pegam viroses e as frutas não necessitam de árvores para nascerem, agora vivem em bandos nas gôndolas das quitandas.
         Meu mundo cresceu, ficou imenso. Descobri milhares de coisas, sei que o fogo foi utilizado no planeta há um milhão de anos, que muitas civilizações surgiram e desapareceram e que os romanos foram os únicos dos quais temos toda a história documentada. Sei dos egípcios, dos gregos, dos chineses, dos aborígenes australianos aos índios que cortam e encolhem as cabeças dos inimigos nas selvas da Venezuela. Sei das galáxias distantes, dos mares, dos rios, das montanhas, das cidades, dos homens que matam homens por discordarem da cor da pele, da religião, das suas ideias. Sei dos que se viciam e dos que ajudam os semelhantes, dos que rezam e odeiam com o mesmo fervor. Sei dos risos e das dores, das perdas, dos que partiram e chegaram... Vivi!
         Hoje, olhando do terraço de minha casa vejo um gavião a perseguir pombos entre as torres da igreja, ouço seu grito de guerra e lembro-me do menino na soleira da porta, a esperar pela vida, pelos sonhos, pelos muitos caminhos que desconhecia. Uma nostalgia de coisas passadas, saudade do que ficou a margem das estradas, melancolia pelo que deixei de fazer, dos muitos medos, da coragem de enfrentar desafios e noto constrangido que meu mundo novamente é pequeno.

Gastão Ferreira/2012/Iguape-SP  

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