sábado, 21 de abril de 2012

Histórias do Arco da Velha - II


OS SAMBAQUIS

HISTÓRIAS DO ARCO DA VELHA – II

Paleontólogos afirmam que nosso litoral é habitado de forma contínua há 45.000 anos. Os primeiros grupos humanos eram constituídos por pessoas de baixa estatura e dentes desgastados, viviam em colônias de cem indivíduos no máximo e morriam antes dos trinta anos. Eram pescadores coletores e praticavam a agricultura, deles herdamos o uso do pilão, da canoa e do trançado de esteiras, essa gente foi à formadora a 10.000 anos dos sambaquis.

Sambaqui, do Tupi “Tambaqui” significa “monte de conchas”, também conhecido como concheiras, casqueiros, berbigueiras. Os grupos formadores dos sambaquis alimentavam-se de moluscos, frutos silvestres, pequenos animais, macacos, porcos-do-mato e principalmente de peixes como raia e tubarão. A grande incidência de cáries encontrada nos dentes dos cadáveres indica alto consumo de mandioca. As espinhas de peixe, esporões de raia, ossos de macacos e porcos-do-mato eram afiados para virarem arpões e lanças de pesca. A presença de ossos de predadores ferozes como o tubarão nos casqueiros, mostra que nossos homens pré-históricos eram exímios e corajosos pescadores.

Na essência um sambaqui era um cemitério onde eram depositados os cadáveres dos elementos do agrupamento e depois recobertos por conchas, pedaços de cerâmica, madeira, lascas de pedras, resto de ossada animal, equipamento primitivo de caça e pesca, e, até por objetos de arte. Um verdadeiro arquivo do modo primitivo de viver. Após cada camada de sessenta centímetros de lixo alimentar, voltavam a enterrar seus mortos. Quarenta e três mil esqueletos foram encontrados em um único sambaqui ao sul do Estado de Santa Catarina.

Os formadores de sambaquis foram eliminados ou se miscigenaram às culturas Tupis-guaranis, que avançaram do interior do continente para o litoral por volta do inicio da era cristã. Alguns sambaquis foram erguidos ao longo de mil anos. Com vinte metros de altura, centenas de metros de extensão e aproximadamente cem metros de diâmetro são nossos monumentos pré-históricos mais importantes. Nossos indígenas pré-colombianos não possuíam escritas, toda a história era transmitida via oral, assim no decorrer de tantos milênios, as referencias a este povo foi perdido, o que se sabe é o que os paleontólogos deduzem ao analisarem os ostreiros.

Iguape foi privilegiada, possuiu centenas de sambaquis, os poucos que restaram após as grandes construções do período colonial, estão localizados na Barra do Ribeira, Praia do Leste, Icapara, ao lado da Caverna do Ódio próximo a ponte da bi-municipal, no Canto do Morro, no Rocio no inicio da estrada que vai para o Jairê, no Mumuna e na Ilha Comprida. Muitos sambaquis foram destruídos para a utilização do calcário na construção do Porto de Iguape e das muitas igrejas. Tal fato pode ser comprovado nas paredes dos velhos casarões repletos de fragmentos de ostras.

Nossa velha Iguape guarda em seu solo o vestígio de muitas eras, nosso chão pisado por milhares e milhares de pés, nosso lagamar e rios mataram a fome de multidões, nossas florestas ofertaram suculentos frutos alem da abundante caça, nossos antepassados amaram, guerrearam, contaram histórias para seus filhos, sonharam um mundo melhor e nós alheios em meio a tanta beleza, desconhecemos nosso passado milenar, vivemos a mediocridade dos dias sem se dar conta que pisamos no paraíso.

Gastão Ferreira/2012/Iguape

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