sexta-feira, 20 de abril de 2012

Histórias da Tataravó...


HISTÓRIAS DO ARCO DA VELHA...

Quando o primeiro caraíba aportou em Pindorama, vindo de Portugal, ficou abismado com a simplicidade dos silvícolas que habitavam as terras de alem mar. Andavam nus e moravam em grandes palhoças de pau a pique com paredes de estacas. A cobertura era de sapé. Chamavam a sua casa de oca e ao conjunto das ocas diziam taba.

As muitas crianças eram livres para brincar ao redor das ocas. Aos meninos apelidavam curumins e as meninas cunhatains. A garotada aprendia tudo na prática com os próprios pais. Sempre acompanhavam os adultos em suas andanças na cata de alimentos. Os ameríndios faziam roçados de mandioca, batata doce, milho, amendoins, feijões, ananás. Colhiam onde encontrava a banana, o araçá, o araticum, a goiaba, o maracujá, o butiá, a pitanga, o pinhão e dezenas de outras frutas espalhadas nas matas.

Pirá, o peixe flechado da margem dos rios e lagos, era consumido moqueado ou em forma de paçoca, sempre acompanhado de água servida em moringas ou camucins. Por vezes tomavam cauim, um vinho feito de caju ou milho mastigado. Também retiravam dos rios, que denonimavam Pará, o riry, o pitu, o poti ou seja, a ostra, o camarão escuro e o camarão legítimo.

A caça ao tapir, ao taiaçu (o tateto), ao jacu, a irara, ao quati, a capivara, a jacutinga, ao jaguará, ao guirá (o pássaro), ao tamanduá, ao tapiti (a lebre), ao guabiru, a cutia, a preá, ao jacaré, ao inhambu, ao corumbá (o cágado), a pirapuan (a baleia) era coletiva e muitos caçadores participavam da expedição. Tanto a caça como a pesca e a coleta de grãos, frutas e raízes eram atividades comunitárias e o resultado da captura dividido entre todos os membros da tribo.

Ao nascerem os curumins ganhavam um nome infantil, que trocavam por um nome adulto após os ritos de passagem, que ocorriam na puberdade. Casavam cedo, aos quinze anos já eram pais e todo o ciclo se reiniciava. O motivo de constituírem família em tão tenra idade era que a vida era breve e poucos chegavam aos trinta anos. A sobrevivência não era fácil, o ambiente era hostil, cobras, escorpiões, doenças, feras, acidentes e batalhas ceifavam com frequência a vida dos habitantes da floresta.

Para o ameríndio a vida era uma doação de Tupã. Entre o nascer e o morrer tudo era motivo para festa e dança que diziam poracê. Adoravam cantar, competir em luta corporal, correr, nadar. Os eventos ocorriam na praça central da taba, só os homens participavam, as crianças olhavam e aprendiam. Os guerreiros pintavam o corpo de muitas cores, o pajé contava a história dos antepassados, o piaga falava da vontade dos deuses, o morubixaba dirigia a rotina da taba e o tubixaba mandava em todas as aldeias da mesma etnia, convocando a guerra e selando a paz.

Nas noites de lua cheia, ao redor da fogueira, os mitos eram revividos. A Iara cantava e encantava nas águas doces, o Curupira trazia pesadelos ao preguiçoso, o Caapora cuidava dos animais, o Saci assustava aos desatentos. A onça, o macaco, o tucano eram parte da fábula e suas histórias e brincadeiras enchiam de luz os olhares dos curumins e cunhatains.

O roubo, o estupro, a maledicência eram desconhecidos. O comercio realizado entre tribos era através da troca. O indígena possui de seu, o arco, seus troféus de caça e guerra, os enfeites que ele mesmo produzia, a sua rede de dormir e a ousadia de viver livre. O mundo era inocente e o ouro apenas um brilho sem valor.

Os índios acreditavam que após a morte, sua angá (sua alma) se juntaria a alma dos antepassados (anguera), numa grande aldeia onde viveriam felizes a cantar, caçar, pescar, passear e a guerrear. Tupã, o que está no alto, era a divindade suprema. Jacy a lua e Aracy o sol, eram deidades a serem reverenciadas, assim como Anhangá que comandava os maus espíritos. A floresta era cheia de segredos, o Boitatá, a grande cobra de fogo, Apiauêué, Jurupari, Caapora, Curupira, Iara e Saci eram os olhos e ouvidos de Tupã na terra.

Foi neste paraíso que o primeiro caraíba europeu chegou e com ele chegaram seus pecados, seus medos, seus deuses. Neste dia Tupã abandonou Pindorama, o país das palmeiras... Nasceu a Terra de Vera Cruz, terra da verdadeira cruz, nosso Brasil!

Gastão Ferreira/19/04/2012 (Dia do Índio)

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