sábado, 28 de abril de 2012

Dia das Mães chegando...


NUNCA  APRESENTADA...


         Nunca fomos apresentados. Eu a conheci através dos olhos de minha mãe. Minha mãe gostava de lembrar a história dos nossos antepassados, de sua avó, das muitas tias, das dezenas de primos e parentes. As memórias de sua infância se misturavam com as minhas. Suas brincadeiras nas arvores frutíferas, os animais no pasto, os nomes dos cachorros e gatos que de alguma forma marcaram aqueles dias distantes de sua meninice. Contava das festas, da morte do primo que casou com outra prima e que após o casório ao se dirigirem pela primeira vez ao novo lar, foram pegos por um temporal. Estavam num descampado e resolveram se abrigar embaixo de uma grande arvore até a chuva passar. Caiu um raio e matou os recém-casados. A prima morreu vestida de noiva.
         Neste momento minha mãe se transformava, parecia não estar ali a falar comigo. Fitava o vazio, fugia para um lugar inacessível. Às vezes sorria e muita outras vezes notei a presença furtiva de uma lágrima. Quando questionada disfarçava; - “Não é nada, meu filho! Foi um cisco que caiu no olho.” Mudava de assunto, contava de alguém que há muito tempo não via; - “ Por onde andará fulana? Casou, foi morar longe, não deu mais noticias...”. Suspirava.
         Venho de uma linhagem de contadores de historias. Meus avós, meus pais, meus tios sempre tinham novidades a contar. Meus avós gostavam de causos antigos, das muitas batalhas ocorridas no sul do país, da invasão de suas terras pelos uruguaios, paraguaios, argentinos, índios desgarrados, bandos de ladrões de cavalos e gado. Das mulheres raptadas que nunca retornaram ao convívio fraterno. Dos parentes perdidos defendendo o solo ancestral. Histórias de nossos antepassados vindo de tantos lugares, França, Inglaterra, Portugal e que casaram com índias guaranis, viraram estancieiros, criadores de cavalos, de ovelhas, de rebanhos bovinos. Plantadores de trigo, arroz, amendoim. Homens que se divertiam caçando perdizes, domando cavalos, pescando nos grandes açudes, sangas e rios. Homens que gostavam de dormir ao relento cobertos por seus ponchos gaúchos, tocadores de gaitas que participavam de corridas equestres, que enfrentavam a fúria do inverno, o frio cortante, o vento minuano.
         Meus tios eram mais modestos, inventavam histórias do Negrinho do Pastoreio, de Sepé Tiarajú, o grande guerreiro guarani, defensor perpétuo dos pagos gaúchos e que virou estrela; - “Estás vendo as Três Maria? Agora repara no Cruzeiro do Sul. É por ali... Espia naquela banda do céu, aquela luzinha é São Sepé nosso protetor. Quando estiveres com problema feio, é só pedir que ele desce lá do alto e te atende na hora.”
         Minha mãe contava histórias de sereias que enfeitiçavam marinheiros, Mãe d’água que cantavam nos rios, sacis que trançavam as crinas dos cavalos, do Bicho Carpinteiro que até hoje não sei quem é... Meu pai tinha um fraco por um tal Bicho Folharedo. Era sua melhor história, repetida mil vezes e que nós, os seus filhos, escutávamos de olhos iluminados pela luz das estrelas, sentados na grama do jardim, sem saber que éramos felizes, que guardaríamos para sempre em nossos corações aquele momento mágico. Pedíamos; - “Pai! Conta de novo a história do Bicho Folharedo.”
         Hoje, depois de tantos anos, ainda me lembro dos risos, dos abraços, das horas felizes, do carinho e do orgulho dos contadores de histórias. Da paciência dos adultos que repassavam nossas lendas, nossas tradições, nossos mitos, suas experiências de vida. Seus conhecimentos adquiridos na lida diária misturavam-se aos contos que me fascinavam. Lembro-me dos olhares que se perdiam nas lonjuras, que fugiam para lugares desconhecidos, que pareciam compartilhar de um outro tempo, de um outro mundo. Lembro-me da lágrima discreta nos olhos de minha mãe ao recordar a prima que o raio matou. Revejo o brilho nos olhos de meu pai, da sombra que rondava discreta aqueles dias felizes. Ela possuía um nome, nunca fui apresentado, eu a conheci através de minha mãe. Hoje eu sei quem ela é! Tornou-se minha amiga, uma visita constante em minha casa... Entra sem bater, mexe nos guardados, rele velhas cartas, olha meus álbuns de fotografias, passa a mão de vento em minha face e eu neste instante mágico volto ao passado, falo com gente que já se foi, pergunto por amigos distantes e uma lágrima, o cisco nos olhos de minha mãe, me desperta. Esta amiga fiel, que minha mãe nunca me apresentou se chama SAUDADE.

Gastão Ferreira/2012/Iguape-SP


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