sábado, 28 de abril de 2012

Dia das Mães chegando...


NUNCA  APRESENTADA...


         Nunca fomos apresentados. Eu a conheci através dos olhos de minha mãe. Minha mãe gostava de lembrar a história dos nossos antepassados, de sua avó, das muitas tias, das dezenas de primos e parentes. As memórias de sua infância se misturavam com as minhas. Suas brincadeiras nas arvores frutíferas, os animais no pasto, os nomes dos cachorros e gatos que de alguma forma marcaram aqueles dias distantes de sua meninice. Contava das festas, da morte do primo que casou com outra prima e que após o casório ao se dirigirem pela primeira vez ao novo lar, foram pegos por um temporal. Estavam num descampado e resolveram se abrigar embaixo de uma grande arvore até a chuva passar. Caiu um raio e matou os recém-casados. A prima morreu vestida de noiva.
         Neste momento minha mãe se transformava, parecia não estar ali a falar comigo. Fitava o vazio, fugia para um lugar inacessível. Às vezes sorria e muita outras vezes notei a presença furtiva de uma lágrima. Quando questionada disfarçava; - “Não é nada, meu filho! Foi um cisco que caiu no olho.” Mudava de assunto, contava de alguém que há muito tempo não via; - “ Por onde andará fulana? Casou, foi morar longe, não deu mais noticias...”. Suspirava.
         Venho de uma linhagem de contadores de historias. Meus avós, meus pais, meus tios sempre tinham novidades a contar. Meus avós gostavam de causos antigos, das muitas batalhas ocorridas no sul do país, da invasão de suas terras pelos uruguaios, paraguaios, argentinos, índios desgarrados, bandos de ladrões de cavalos e gado. Das mulheres raptadas que nunca retornaram ao convívio fraterno. Dos parentes perdidos defendendo o solo ancestral. Histórias de nossos antepassados vindo de tantos lugares, França, Inglaterra, Portugal e que casaram com índias guaranis, viraram estancieiros, criadores de cavalos, de ovelhas, de rebanhos bovinos. Plantadores de trigo, arroz, amendoim. Homens que se divertiam caçando perdizes, domando cavalos, pescando nos grandes açudes, sangas e rios. Homens que gostavam de dormir ao relento cobertos por seus ponchos gaúchos, tocadores de gaitas que participavam de corridas equestres, que enfrentavam a fúria do inverno, o frio cortante, o vento minuano.
         Meus tios eram mais modestos, inventavam histórias do Negrinho do Pastoreio, de Sepé Tiarajú, o grande guerreiro guarani, defensor perpétuo dos pagos gaúchos e que virou estrela; - “Estás vendo as Três Maria? Agora repara no Cruzeiro do Sul. É por ali... Espia naquela banda do céu, aquela luzinha é São Sepé nosso protetor. Quando estiveres com problema feio, é só pedir que ele desce lá do alto e te atende na hora.”
         Minha mãe contava histórias de sereias que enfeitiçavam marinheiros, Mãe d’água que cantavam nos rios, sacis que trançavam as crinas dos cavalos, do Bicho Carpinteiro que até hoje não sei quem é... Meu pai tinha um fraco por um tal Bicho Folharedo. Era sua melhor história, repetida mil vezes e que nós, os seus filhos, escutávamos de olhos iluminados pela luz das estrelas, sentados na grama do jardim, sem saber que éramos felizes, que guardaríamos para sempre em nossos corações aquele momento mágico. Pedíamos; - “Pai! Conta de novo a história do Bicho Folharedo.”
         Hoje, depois de tantos anos, ainda me lembro dos risos, dos abraços, das horas felizes, do carinho e do orgulho dos contadores de histórias. Da paciência dos adultos que repassavam nossas lendas, nossas tradições, nossos mitos, suas experiências de vida. Seus conhecimentos adquiridos na lida diária misturavam-se aos contos que me fascinavam. Lembro-me dos olhares que se perdiam nas lonjuras, que fugiam para lugares desconhecidos, que pareciam compartilhar de um outro tempo, de um outro mundo. Lembro-me da lágrima discreta nos olhos de minha mãe ao recordar a prima que o raio matou. Revejo o brilho nos olhos de meu pai, da sombra que rondava discreta aqueles dias felizes. Ela possuía um nome, nunca fui apresentado, eu a conheci através de minha mãe. Hoje eu sei quem ela é! Tornou-se minha amiga, uma visita constante em minha casa... Entra sem bater, mexe nos guardados, rele velhas cartas, olha meus álbuns de fotografias, passa a mão de vento em minha face e eu neste instante mágico volto ao passado, falo com gente que já se foi, pergunto por amigos distantes e uma lágrima, o cisco nos olhos de minha mãe, me desperta. Esta amiga fiel, que minha mãe nunca me apresentou se chama SAUDADE.

Gastão Ferreira/2012/Iguape-SP


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mundo pequeno...


MEU PEQUENO MUNDO...


         Quando o meu mundo era pequeno, eu sentava na soleira da porta espiando a rua. Era uma estrada longa para meus pés infantis. Por vezes passava um cão abandonado. O cachorro nem me notava, estava cuidando da própria vida, a procura de um osso ou do seu dono que mudara de casa e esquecera de propósito seu melhor amigo.
         Lembro-me das grandes árvores que margeavam o caminho, demoravam séculos para darem frutos. A espera era longa e eu nem sabia que uma vez por ano era a época da colheita. Os pássaros construíam seus ninhos nas ramadas, nos ocos dos troncos, nos desvãos dos telhados, criavam seus filhotes, catavam comida que traziam de lugares distantes e alimentavam a prole.
         Quando as visitas chegavam, a conversa era para adultos e as crianças deviam brincar no pátio. Encostava os ouvidos nas paredes tentando decifrar as novidades. Um gavião desceu feito flecha e capturou uma cobra, uma égua pariu um potrinho que em poucos minutos estava em pé e mamando. Precisava dar de comer ao leitão que aguardava o Natal para virar torresmo, milho a meia dúzia de galinhas poedeiras, descobrir onde foi à última postura e recolher os ovos antes que um lagarto os descobrisse.
         Rachar lenha para o fogão, tirar água do poço, encher a moringa, debulhar o milho, escolher o feijão, fazer a lição de casa. Recontar os gibis para a troca semanal frente ao cinema da praçinha. Brincar, nadar no riacho, correr muito, comer, rezar, pedir a benção de boa noite aos pais... Dormir.
         O tempo passou, o povoado cresceu. As árvores deram lugar a muitas casas, a estrada foi asfaltada e tem um canteiro central com uma ciclovia. O fogão é a gás, frangos só no supermercado e porco em cativeiro, nem pensar. No antigo pasto um conjunto habitacional de alto padrão. Os gaviões e lagartos desapareceram. As visitas só conversam por telefone ou internet. As crianças não brincam na rua, têm medo de adultos, não se sujam, pegam viroses e as frutas não necessitam de árvores para nascerem, agora vivem em bandos nas gôndolas das quitandas.
         Meu mundo cresceu, ficou imenso. Descobri milhares de coisas, sei que o fogo foi utilizado no planeta há um milhão de anos, que muitas civilizações surgiram e desapareceram e que os romanos foram os únicos dos quais temos toda a história documentada. Sei dos egípcios, dos gregos, dos chineses, dos aborígenes australianos aos índios que cortam e encolhem as cabeças dos inimigos nas selvas da Venezuela. Sei das galáxias distantes, dos mares, dos rios, das montanhas, das cidades, dos homens que matam homens por discordarem da cor da pele, da religião, das suas ideias. Sei dos que se viciam e dos que ajudam os semelhantes, dos que rezam e odeiam com o mesmo fervor. Sei dos risos e das dores, das perdas, dos que partiram e chegaram... Vivi!
         Hoje, olhando do terraço de minha casa vejo um gavião a perseguir pombos entre as torres da igreja, ouço seu grito de guerra e lembro-me do menino na soleira da porta, a esperar pela vida, pelos sonhos, pelos muitos caminhos que desconhecia. Uma nostalgia de coisas passadas, saudade do que ficou a margem das estradas, melancolia pelo que deixei de fazer, dos muitos medos, da coragem de enfrentar desafios e noto constrangido que meu mundo novamente é pequeno.

Gastão Ferreira/2012/Iguape-SP  

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Nossas origens Guarani...


A PRESENÇA INDÍGENA EM IGUAPE

HISTÓRIAS DO ARCO DA VELHA - III

Os indígenas brasileiros viviam em sociedades descentralizadas de caçadores e agricultores seminômades. Sua alimentação era baseada na caça e na coleta, bem como no plantio de diversas variedades de vegetais, como mandioca, batata, amendoim, feijão e milho. A partir do inicio da era cristã agrupamentos de autóctones se deslocaram do interior do continente para o litoral, de onde exterminaram ou misturaram-se aos formadores de sambaquis que habitavam a região há aproximadamente 8.000 anos.

Os aborígenes se autodenominavam Avá ou Avaeté Kuerí que significavam respectivamente Homens e Homens Verdadeiros. Cada tribo adotava o nome de um herói Patronímico e somente a partir do século XVI apareceu o termo Guarani, cujo significado é Guerreiro. Esta etnia vivia na Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e na porção centro-meridional do território brasileiro. Habitava da costa da cidade de São Vicente, no Estado de São Paulo até a margem direita do rio Paraguai. Conhecidos como Carijós no Brasil e Cariós no Paraguai colonial.

Na vida social os indígenas eram amistosos, criavam com muito carinho sua prole, visitavam constantemente a parentada, caçavam e pescavam em conjunto, faziam seus roçados, eram festeiros e alegres. Ciosos de seu território viviam em constante guerra com outras etnias, praticavam o canibalismo ritual, ou seja, comiam os prisioneiros para adquirirem sua coragem e ousadia. Os xamãs-profetas chamados de Karaí eram seus sacerdotes.

Quando do descobrimento do Brasil, a população total de Portugal era de 500.000 almas e os povos guaranis perfaziam 2.750.000 indígenas. No inicio os índios colaboravam alegremente com os portugueses em troca de pequenos presentes, com o tempo os lusitanos exigiram que os nativos trabalhassem de graça, começaram as desavenças e acabaram por escravizar os selvagens.

A escravidão sempre esteve presente entre os povos indígenas. Após as muitas batalhas, o vencedor conduzia para a sua aldeia alguns prisioneiros para prestação de serviço escravo. O cativo não era maltratado, podia constituir família na nova moradia, mas em um dia futuro seria devorado num banquete ritual em que todos os membros da tribo participavam, este era o costume ancestral.

Em 1530 D. João III, rei de Portugal, dividiu as terras do Brasil em grandes territórios sem se preocupar com os índios que nelas moravam há muitos séculos. Os autóctones não aceitaram esta invasão, começou a guerra entre os selvagens e os europeus. O movimento Luso-paulista das Bandeiras, de caráter expansionista e escravocrata caiu como um flagelo sobre as populações Guaranis e ocorreu à dispersão das muitas tribos, quem consegui escapar embrenhou-se nos sertões ou desapareceram no interior das florestas.

Era grande o número de índios na região de Iguape. Após 1494 com o Tratado de Tordesilhas, firmado entre Portugal e Espanha nossa cidade se tornou parte do domínio português. Quando Iguape se separou de Cananéia em 1538, viviam por estas bandas uma enormidade de indígenas, basta notarem que a estátua do Senhor Bom Jesus de Iguape foi encontrada por dois índios em 1647 na Juréia. Que durante toda a construção da Basílica de 1780 a 1856, existem relatos de índios trazendo ouro em pó para ajudar financeiramente na obra.

No ano de 1502 teve inicio a fixação do homem branco em Iguape, as Bandeiras aprisionaram indígenas de 1562 a 1694. Nossa cidade, fundada em 1538, participou de toda esta história. Daqui partiram centenas de expedições de captura, nossas montanhas, rios e vales possuem nomes indígenas. Somos parte da história e comparticipes do desaparecimento de uma civilização. Eram selvagens na concepção europeia da época. Hoje, sabe-se que tinham suas leis, seus códigos de conduta, sua ética e sua religião. Priorizavam o SER e não o TER cultuavam seus heróis e honravam seus antepassados. É dessa gente que descendemos, em nosso imenso município os Carijós (Cayuás/Caynás) tiveram suas aldeias. Nossas raízes são profundas e se perdem na noite do tempo. Do degredado europeu, aos Guaranis, aos formadores de Sambaquis, ao antepassado mais remoto que pisou nosso solo, nos separam 45.000 anos... Um sopro na história da Terra, uma eternidade para o Homem.

Gastão Ferreira/2012/Iguape

sábado, 21 de abril de 2012

Histórias do Arco da Velha - II


OS SAMBAQUIS

HISTÓRIAS DO ARCO DA VELHA – II

Paleontólogos afirmam que nosso litoral é habitado de forma contínua há 45.000 anos. Os primeiros grupos humanos eram constituídos por pessoas de baixa estatura e dentes desgastados, viviam em colônias de cem indivíduos no máximo e morriam antes dos trinta anos. Eram pescadores coletores e praticavam a agricultura, deles herdamos o uso do pilão, da canoa e do trançado de esteiras, essa gente foi à formadora a 10.000 anos dos sambaquis.

Sambaqui, do Tupi “Tambaqui” significa “monte de conchas”, também conhecido como concheiras, casqueiros, berbigueiras. Os grupos formadores dos sambaquis alimentavam-se de moluscos, frutos silvestres, pequenos animais, macacos, porcos-do-mato e principalmente de peixes como raia e tubarão. A grande incidência de cáries encontrada nos dentes dos cadáveres indica alto consumo de mandioca. As espinhas de peixe, esporões de raia, ossos de macacos e porcos-do-mato eram afiados para virarem arpões e lanças de pesca. A presença de ossos de predadores ferozes como o tubarão nos casqueiros, mostra que nossos homens pré-históricos eram exímios e corajosos pescadores.

Na essência um sambaqui era um cemitério onde eram depositados os cadáveres dos elementos do agrupamento e depois recobertos por conchas, pedaços de cerâmica, madeira, lascas de pedras, resto de ossada animal, equipamento primitivo de caça e pesca, e, até por objetos de arte. Um verdadeiro arquivo do modo primitivo de viver. Após cada camada de sessenta centímetros de lixo alimentar, voltavam a enterrar seus mortos. Quarenta e três mil esqueletos foram encontrados em um único sambaqui ao sul do Estado de Santa Catarina.

Os formadores de sambaquis foram eliminados ou se miscigenaram às culturas Tupis-guaranis, que avançaram do interior do continente para o litoral por volta do inicio da era cristã. Alguns sambaquis foram erguidos ao longo de mil anos. Com vinte metros de altura, centenas de metros de extensão e aproximadamente cem metros de diâmetro são nossos monumentos pré-históricos mais importantes. Nossos indígenas pré-colombianos não possuíam escritas, toda a história era transmitida via oral, assim no decorrer de tantos milênios, as referencias a este povo foi perdido, o que se sabe é o que os paleontólogos deduzem ao analisarem os ostreiros.

Iguape foi privilegiada, possuiu centenas de sambaquis, os poucos que restaram após as grandes construções do período colonial, estão localizados na Barra do Ribeira, Praia do Leste, Icapara, ao lado da Caverna do Ódio próximo a ponte da bi-municipal, no Canto do Morro, no Rocio no inicio da estrada que vai para o Jairê, no Mumuna e na Ilha Comprida. Muitos sambaquis foram destruídos para a utilização do calcário na construção do Porto de Iguape e das muitas igrejas. Tal fato pode ser comprovado nas paredes dos velhos casarões repletos de fragmentos de ostras.

Nossa velha Iguape guarda em seu solo o vestígio de muitas eras, nosso chão pisado por milhares e milhares de pés, nosso lagamar e rios mataram a fome de multidões, nossas florestas ofertaram suculentos frutos alem da abundante caça, nossos antepassados amaram, guerrearam, contaram histórias para seus filhos, sonharam um mundo melhor e nós alheios em meio a tanta beleza, desconhecemos nosso passado milenar, vivemos a mediocridade dos dias sem se dar conta que pisamos no paraíso.

Gastão Ferreira/2012/Iguape

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Histórias da Tataravó...


HISTÓRIAS DO ARCO DA VELHA...

Quando o primeiro caraíba aportou em Pindorama, vindo de Portugal, ficou abismado com a simplicidade dos silvícolas que habitavam as terras de alem mar. Andavam nus e moravam em grandes palhoças de pau a pique com paredes de estacas. A cobertura era de sapé. Chamavam a sua casa de oca e ao conjunto das ocas diziam taba.

As muitas crianças eram livres para brincar ao redor das ocas. Aos meninos apelidavam curumins e as meninas cunhatains. A garotada aprendia tudo na prática com os próprios pais. Sempre acompanhavam os adultos em suas andanças na cata de alimentos. Os ameríndios faziam roçados de mandioca, batata doce, milho, amendoins, feijões, ananás. Colhiam onde encontrava a banana, o araçá, o araticum, a goiaba, o maracujá, o butiá, a pitanga, o pinhão e dezenas de outras frutas espalhadas nas matas.

Pirá, o peixe flechado da margem dos rios e lagos, era consumido moqueado ou em forma de paçoca, sempre acompanhado de água servida em moringas ou camucins. Por vezes tomavam cauim, um vinho feito de caju ou milho mastigado. Também retiravam dos rios, que denonimavam Pará, o riry, o pitu, o poti ou seja, a ostra, o camarão escuro e o camarão legítimo.

A caça ao tapir, ao taiaçu (o tateto), ao jacu, a irara, ao quati, a capivara, a jacutinga, ao jaguará, ao guirá (o pássaro), ao tamanduá, ao tapiti (a lebre), ao guabiru, a cutia, a preá, ao jacaré, ao inhambu, ao corumbá (o cágado), a pirapuan (a baleia) era coletiva e muitos caçadores participavam da expedição. Tanto a caça como a pesca e a coleta de grãos, frutas e raízes eram atividades comunitárias e o resultado da captura dividido entre todos os membros da tribo.

Ao nascerem os curumins ganhavam um nome infantil, que trocavam por um nome adulto após os ritos de passagem, que ocorriam na puberdade. Casavam cedo, aos quinze anos já eram pais e todo o ciclo se reiniciava. O motivo de constituírem família em tão tenra idade era que a vida era breve e poucos chegavam aos trinta anos. A sobrevivência não era fácil, o ambiente era hostil, cobras, escorpiões, doenças, feras, acidentes e batalhas ceifavam com frequência a vida dos habitantes da floresta.

Para o ameríndio a vida era uma doação de Tupã. Entre o nascer e o morrer tudo era motivo para festa e dança que diziam poracê. Adoravam cantar, competir em luta corporal, correr, nadar. Os eventos ocorriam na praça central da taba, só os homens participavam, as crianças olhavam e aprendiam. Os guerreiros pintavam o corpo de muitas cores, o pajé contava a história dos antepassados, o piaga falava da vontade dos deuses, o morubixaba dirigia a rotina da taba e o tubixaba mandava em todas as aldeias da mesma etnia, convocando a guerra e selando a paz.

Nas noites de lua cheia, ao redor da fogueira, os mitos eram revividos. A Iara cantava e encantava nas águas doces, o Curupira trazia pesadelos ao preguiçoso, o Caapora cuidava dos animais, o Saci assustava aos desatentos. A onça, o macaco, o tucano eram parte da fábula e suas histórias e brincadeiras enchiam de luz os olhares dos curumins e cunhatains.

O roubo, o estupro, a maledicência eram desconhecidos. O comercio realizado entre tribos era através da troca. O indígena possui de seu, o arco, seus troféus de caça e guerra, os enfeites que ele mesmo produzia, a sua rede de dormir e a ousadia de viver livre. O mundo era inocente e o ouro apenas um brilho sem valor.

Os índios acreditavam que após a morte, sua angá (sua alma) se juntaria a alma dos antepassados (anguera), numa grande aldeia onde viveriam felizes a cantar, caçar, pescar, passear e a guerrear. Tupã, o que está no alto, era a divindade suprema. Jacy a lua e Aracy o sol, eram deidades a serem reverenciadas, assim como Anhangá que comandava os maus espíritos. A floresta era cheia de segredos, o Boitatá, a grande cobra de fogo, Apiauêué, Jurupari, Caapora, Curupira, Iara e Saci eram os olhos e ouvidos de Tupã na terra.

Foi neste paraíso que o primeiro caraíba europeu chegou e com ele chegaram seus pecados, seus medos, seus deuses. Neste dia Tupã abandonou Pindorama, o país das palmeiras... Nasceu a Terra de Vera Cruz, terra da verdadeira cruz, nosso Brasil!

Gastão Ferreira/19/04/2012 (Dia do Índio)

sábado, 7 de abril de 2012

Outra carta ao primo...


PRIMO...

Caro primo Incitatus, aguardando sua visita para o mês de Junho informo; - Tudo sobre controle! A cidade está um imenso canteiro de obras. Finalmente descobriram um salvador da pátria. É uma jovem liderança que explodiu em genialidade de uma hora para outra. Só para você ter uma ideia, quando vim para este paraíso ecológico há cinco anos, a tal jovem liderança não passava de um filhinho de papai, famoso por suas inúmeras conquistas amorosas e nada mais. Os humanos são bem diferentes de nós os cavalos! Você já ouviu falar de algum pangaré que de um momento para o outro passou a ganhar todas as competições esportivas? Não?... Nem eu!

Com os homens tudo é possível! São surpreendentes! Com muito pouco estudo entendem de tudo, acumulam cargos em cascata, isto é, fazem o serviço de cinco a oito técnicos sem mostrar o mínimo de esforço... Coisa de gênio! Óbvio! Ganham ordenados de gênios também. Pena que quase sempre a coisa não dá muito certo, tipo, as obras apresentam rachaduras, são muito caras e as pessoas comentam; -“Com toda esta grana que está disponível eu faria o triplo!” Mas quem critica são amadores e não profissionais, coisa de quem não entende do riscado.

Primo Incitatus, estou apavorado! Desde potrinho convivo com os homens, fui praticamente criado pelo grande Zorro e seu caso, digo, amigo Tonto. Ambas excelentes pessoas, defensores dos pobres e dos oprimidos, tinham suas pequenas desavenças, nada grave, apenas ciúmes ocasionais... Ontem assisti ao vivo e a cores a algo terrível. Foi na Praça da Matriz. Estava aproveitando o silêncio da noite para pastar uma grama bem maneira na orla do mangue, o capim por ali me deixa eufórico, dizem que a causa desta excitação são os restos de baseados largados no meio do mato pela garotada do tóxico, nem sei o que é isto, mas que funciona, funciona!

Estava pastando num boa e de repente comecei a ouvir vozes, gritos, xingamentos, pensei que era efeito do capim. Que nada! A gritaria continuava... Curioso foi espiar e fiquei paralisado de horror! Jamais assisti a cenas tão degradantes na minha vida. Um homem com uma roupa diferente parecendo vestuário árabe, com longos cabelos negros estava sendo julgado em praça pública... Um tal de Pilatos sem mais nem menos mandou dar a maior surra no coitado. Não satisfeito fez o infeliz carregar uma pesada cruz de madeira em volta da pracinha... Um soldado sádico enfiou uma coroa de espinho na cabeça da criatura... O povo delirava e gritava “Crucifique-o”, “Crucifique-o”... Pois não é que pregaram o pobre homem na cruz! Todos que estavam na praça bateram palmas e foram soltos muitos foguetes...

Estou morrendo de medo! Se fazem isto com um dos seus semelhante, imagine com um equino. Que falta que faz meu amado pai Zorro. Caso ele estivesse por aqui, toda aquela gente ia ver o que é bom para a tosse... Chicotada no lombo daqueles folgados era pouco! Como já assisti a morte de um cachorro por espancamento e hoje a crucificação de um pobre e indefeso cidadão, estou indignado! Nossos antepassados foram famosos e ficaram para a posteridade como heróis, alias Herói era o nome do cavalo do Fantasma, nosso ancestral comum o Cavalo de Tróia é lembrado até a atualidade, Bucéfalo acompanhou Alexandre Magno em suas conquistas e seu xará Incitatus participou com Calígula de suas loucuras, mas nunca ouvi falar de um cavalo que tenha morto alguém por divertimento.

É isto aí primo! Enquanto aguardo sua visita, vá conhecendo a cidade através das minhas cartinhas e ganhando novas experiências com os humanos. Um coice carinhoso no seu coração, de seu primo pobre...

Silver

Gastão Ferreira/2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O ceguinho...


CHICO JUNIOR, O CEGUINHO...

Na antiga e bela cidade de Pindaíba do Norte vivia Chico Junior, um garoto muito esperto e inteligente. Junior era um órfão, um bebe encontrado a margem de uma estrada. Um único objeto fora deixado como herança por quem o abandonou, uma singela cruz de pedra engastada numa corrente de prata. Foi criado no orfanato “Doce Lembrança” e para ele o mundo era lindo, perfeito, maravilhoso, as pessoas eram todas honestas, boas, sensíveis e humildes. Um pequeno detalhe diferenciava Chiquinho do restante da molecada, ele era cego.
Chico Junior foi alfabetizado em braile e como todos sabem, os livros editados em braile português são fraquinhos. Juninho aprendeu inglês, ou melhor, aprendeu a ler inglês em braile. A dificuldade era saber o que ocorria ao seu redor, pois os jornais da pequena cidade não eram editados em braile. O garoto curioso pedia aos amiguinhos, não cegos, que lessem para ele os jornais da região.
Que maravilha! Milhares de pessoas participaram da “Festa de Maio” em louvor a Mãe Natureza. Cem mil fulanos e fulanas estavam presentes no último “Revelando Pindaíba”. O carnaval da cidade estava entre os maiores do planeta, as ruas sempre limpas eram o orgulho dos munícipes, o atendimento hospitalar de primeiro mundo. Pindaíba era tudo de bom! Os políticos de uma honestidade ímpar, nada de escândalos, nada de propinas, nada de superfaturar obras, os governantes eram tão amados pelo povo que recebiam apelidos carinhosos, “Mãos Limpas”, “Todo Amor”, “Alcaide Maravilha”, “Mãezoninha”... Que desfrute morar num lugar sem problemas!
Toda a noite antes de dormir Chiquinho agradecia do fundo de seu coraçãozinho ao “Boncris” (Bom Cristo), o amado protetor da comarca e pedia perdão pelos falsos, os mentirosos, os que levantavam aleivosias contra os mandantes da cidade, os que mentiam dizendo que não nasciam mais Pindaibenses porque não existia uma maternidade na urbe, pelos que inventavam que os mortos não tinham um lugar para serem velados. Orava pelos que falseavam a verdade ao dizerem que esperavam meses por uma consulta.
Como gostaria de enxergar, ver a beleza das praças centenárias com seus monumentos antigos, as límpidas fontes cristalinas onde os estudantes vão ler a sombra das árvores tão amigas, os passeios na orla do riacho com seu cimentado perfeito, os casarões preservados em seu esplendor original. Como são felizes os repórteres dos jornais! Andam por ruas limpas sem serem perturbados por pessoas carentes, por drogados, por alcoólatras, por pedintes de informação de como sair da cidade. Ah, esses jornalistas cheios de ética! São os olhos de Deus. São os grandes formadores de opinião, os que traduzem para a plebe a grandeza do local onde vivo... Obrigado meu “Boncris” por contarmos com a imparcialidade da imprensa. Obrigado meu “Boncris”! Como eu gostaria de um dia ver com meus próprios olhos tanta beleza e perfeição.
Chico escreveu para um programa de televisão contando sua história e falou de seu grande sonho; - Ver o mundo através de seus próprios olhos... O país inteiro se comoveu e Chiquinho foi para a cidade grande. Foi entrevistado, participou da Ana Maria Braga, Jô Soares, Fantástico e Mãe Lucibeth Resolve seu Problema... Resultado? Foi operado. Na verdade sua doença não era nada grave, catarata congênita não diagnosticada pelos excelentes médicos de Pindaíba por falta de aparelhagem.
Chiquinho esteve exposto na mídia por um longo período, ficou famoso. Recebeu muitas cartas, presentes e ofertas de um futuro melhor através de bolsas de estudos até no exterior. Nada aceitou! A única coisa que realmente desejava era voltar a sua adorada cidade e confirmar in loco o progresso, a beleza e a realidade que cercava a cidade onde nascera.
Henry Stuart II não voltou à cidade! Henry Stuart II? Sim! Este era o verdadeiro nome de Francisco Junior da Silva, o bebe abandonado à beira de uma estrada próxima a Pindaíba do Norte. Seu pai, o mega investidor Henry Stuart I em visita com a família ao Brasil sofrera um sequestro relâmpago e Henrizinho raptado para um futuro resgate milionário jamais foi encontrado, pois os policiais mataram toda a quadrilha sem fazerem perguntas e o único que escapou gravemente ferido abandonou o recém-nascido num local desconhecido e distante, vindo a morrer de hemorragia logos depois numa outra cidade.
Como Henry Stuart II foi reconhecido, perguntará o atento leitor? Foi reconhecido pela pequena cruz de pedra, presa a corrente de prata. Um poderoso amuleto ganho por seu pai quando visitou outra famosa cidade turística brasileira que tinha como totem a tal cruz. Quando Chico Junior apareceu na mídia, sem querer querendo, pois rico que é rico não assiste a qualquer programa bobinho de tevê, seu pai reconheceu imediatamente o amuleto e disse; Oh God! My Kid! E veio buscar seu pimpolho. Assim não ficamos sabendo o que Henry ou Chico Junior diria sobre Pindaíba, fica no ar a dúvida; - Os jornais falavam a verdade? Eram imparciais? Não sei!

Gastão Ferreira/2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Sátiro e a Formiguinha...


O SÁTIRO E A FORMIGA

A floresta está um tanto abandonada. A rainha Aracne, cognominada “patinhas limpas”, passa horas e horas ouvindo o conjunto musical “O Som da Trilha”. Na verdade a soberana é muito imparcial, qualquer animal bobinho presta serviço gratuito ao reino. Que o digam os cavalos utilizados para roçarem picadas e caminhos baldios e os urubus que fazem a limpeza do lixo acumulado na mata. No mando só tem vez as raposas que levam embora o ouro e compartilham do poder e os ratos sempre dispostos a roubar o bem alheio.

A selva está em compasso de espera. Sim! Os animais tristes e desacorçoados querem mudanças radicais. Um novo rei está por chegar. Um rei que demonstre amor pela mata e que partilhe da vontade coletiva de sair da pindaíba, um soberano honesto e batalhador, um rei ético e dinâmico, um rei sem rabo preso com os bichos bandoleiros que arruínam tudo o que tocam.

A campanha eleitoral está a todo o vapor. Muitos candidatos estocam cestas básicas, dentaduras, material de construção entre tantos mimos utilizáveis como escambo, ou seja, um voto por um regalo ou favor... Pelo visto nada mudou na floresta! Os concorrentes aos cargos eletivos vendem terrenos, carros, a mãe, a tia e a irmã para fazer caixa dois e vencer os adversários.

O diferencial nesta empreitada cívica é que temos uma Formiguinha concorrendo ao pódio máximo. A rainha aranha mexe desesperada suas muitas patinhas para evitar que seu candidato, um jovem Sátiro sempre no cio, perca a parada. A vantagem da Formiguinha é que sempre foi dada ao trabalho, estudou, conhece bem a floresta e seus habitantes. Acredita em honestidade, ética e rigor no trato da coisa pública, quer dar uma geral na floresta.

Aracne, a rainha, está presa em sua própria teia. Foram tantos escândalos, tantos favorecimentos que a soberana não tem moral nem cacife para eleger ninguém, alias, quem elege é o eleitor e não cacique ou mandante distante. Por falar em cacique, os índios da floresta estão em pé de guerra, a maioria deve favores a monarca e estão fazendo de tudo para viabilizar o Sátiro como candidato imperial. A imprensa está com o poder e é totalmente parcial, impossibilitada de uma simples crítica a quem paga seu contracheque. Ficou cega, surda e muda, incapaz de uma simples cobrança.

Os habitantes da floresta estão temerosos, muitos animais ainda se vendem por ninharias e trocam uma possível melhoria por quatro anos no escuro. A Formiguinha tem muito trabalho pela frente, convencer quem está acostumado com a escuridão que a luz existe. Que a floresta tem tudo para dar certo e que se cada morador destas matas realmente quiser uma mudança duradoura a terá, e, a mudança começa pelo voto certo... Vote em quem presta, chega de cabresto, quem gosta de cabresto é filho de bode... Vida longa e sucesso a Formiguinha!

Gastão Ferreira/2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Dentro da noite...


O ALBERGUE DO BAGRE SOLITÁRIO

Em nossa região temos várias pousadas, hotéis, pensões, flats, estalagens, hospedarias, mas nenhuma delas se equivale ao Albergue do Bagre Solitário, um simpático mocó que acolhe de portas abertas as meninas boas e os meninos maus ou vice versa, situado em uma das muitas vilas da cidade.

Para quem procura fortes emoções, a baiuca está localizada logo após o famoso ponto turístico conhecido como Atalaia Esfarelada ou Torre da Farinha no linguajar popular, quase ao lado do domicilio do senhor Google e dona Net e de seus amáveis pimpolhos Not e Book. Uma rua tranquila visitada de meia em meia hora pelo policiamento ostensivo. Uma rua em que o turista desavisado participa do jeitinho nóia de viver, onde pode observar os namoricos, desavenças e paqueras que acontecem no escurinho das esquinas.

Neste aprazível sitio, Black-cat, Munrhá, Bad-boy e muitos outros super-heróis saem dos gibis e cartuns para exercitarem seus super-poderes em pleno logradouro público ao vivo e a cores. O atento visitante de um momento para outro compartilha de estranhos eventos, Black-cat espancando os meninos do mal, Munrhá chamando as forças da escuridão, Hebe Camargo da Silva entrevistando os passantes, Pomba-gira dando consulta em porta de bares e fazendo amarrações grátis. Vizinhos saindo na porrada sem explicação prévia. Garotos de programa sem programa filando cigarro dos transeuntes, velhos e decadentes michês e muitas Madalenas Arrependidas apontando e comentando a nova geração purpurina e afins. É nessa paragem que notamos como a vida é rica de nuances, como o bem e o mal convivem lado a lado sem preconceito, como todos os matizes fazem parte de uma cor básica chamada Evolução. É aqui nas proximidades do Albergue do Bagre Solitário onde as máscaras sociais perdem o seu valor e cada pessoa vale pelo que é. Onde todos cuidam de todos e ninguém aparentemente cuida de ninguém. Onde a dor bate na porta do rico e do pobre com a mesma constância, seja através das drogas, da fome, do desafeto, da solidão... Onde a maldade tem endereço fixo, onde a bondade se insinua ao compartilhar o pouco que se tem com quem nada possui. Onde todos os demônios dos vícios saciam a fome da luxuria na carne jovem, onde os vencidos se creem heróis, onde todos os pecados se confundem e o atento olhar de Deus conhece o coração de cada filho e sabe que estas ovelhas, bodes, cabras, cabritos e serpentes são a parte mais bela da sua criação... Crianças brincando de viver!

No Albergue do Bagre Solitário, onde todos os amores se confundem. Onde a dor mais profunda se esconde, onde a solidão grita seus palavrões e a tristeza teima em se passar por alegria é onde a menina abandonada acha acolhida, onde a pouca comida mata a fome dos que se deserdaram da vida, aonde os que chegaram ao fundo do poço se recolhem e dormem sonhando que são os donos do mundo. O Albergue do Bagre Solitário é um farol de luz negra, chamando... Chamando dentro da noite!

Gastão Ferreira/2012