domingo, 30 de dezembro de 2012

Fim de ano...

ADEUS!... MEUS AMORES A Princesa do Litoral resolveu passar o final de ano na cidade. Josephus, seu secretário particular, descarregou as malas numa pousada no Centro Histórico. - “Josephus! Olha que gracinha... Quantas plantinhas verdes na beira das calçadas.” Mostrou a nobre senhora. - “Majestade, não são plantinhas verdes! É o mato que cresceu e não foi retirado.” Disse o secretário. - “Não sei o porquê de tanta maldade de sua parte com a rainha reinante? Há quatro anos que você só vê o lado ruim da atual administração!” Choramingou a princesa. - “É que a senhora só lê as informações da imprensa oficial, eu converso com a plebe para saber das coisas que ocorrem...” - “A plebe vil! Sempre a plebe vil! Troca o voto por churrasco de gato e depois quer comer Robalo... Veja Josephus! Uma multidão com nariz de palhaço despedindo-se do ano que termina... Há quanto tempo não via gente tão feliz!” - “São professores que ainda não receberam o sofrido salário que estão seguindo em passeata em direção ao Paço Real, minha Princesa...” Informou Josephus. - “Nem tudo é perfeito na vida, meu amigo! A rainha tem tantos problemas sérios para solucionar, quem sabe esqueceu momentaneamente de pagar aos mestres...” - “E também se esqueceu de pagar os fornecedores... Está vendo aquela fila Majestade? São cobradores de dívidas desesperados em busca de pagamento de antigos débitos...” - “Pobre filha! Ser honesto nunca foi fácil...” - “Rárárárá....” - “Está rindo do quê? Você acha que a Rainha não é honesta, Josephus?” - “Nem pensar! Jamais passou pela governança de seu vetusto reino uma pessoa tão íntegra, ética, transparente, sensível ao clamor público como essa que nos deixa...” - “Concordo plenamente! Jamais o prédio do Correio Velho foi tão mimado, abraçado, fogueteado como nesse reinado que termina...” - “É verdade! Pena que continua a ruína de sempre...” - “Josephus, Josephus! O que importa é a intenção...” - “Espero que Vossa Majestade não adoeça! Saiba que desde a semana natalina até o final do ano na Unidade Mística só funciona a emergência...” - “Finalmente uma boa notícia, nada como um povo saudável que não necessita de médicos a toda a hora... Minha filha foi uma guerreira, está aí a Repaginação da Beira do Valo para provar...” - “Qual a Repaginação? Aquela que está cheia de rachaduras?” - “Detalhes, Josephus! Detalhes... Viu o magnífico Velório Municipal? Que obra fantástica! Ficará para a história...” - “É verdade Majestade! Pena que não tem cadeiras para os familiares sentar e velarem seus mortos...” - “Detalhes, Josephus! Detalhes... A primeira mulher a me representar na longa história desse reino...” - “A plebe espera que também seja a última...” - “Que palavreado é esse? Preconceito contra uma liderança forte, sensível, feminina?” - “Nada disso, Alteza! É que mais uma igual e Iguape nunca mais se levanta...” - “Que bom! Assistirei sentada a chegada do futuro...” - “Só por Deus! A senhora é fã de carteirinha da rainha...” - “Sou sim! Já governei e sei o fardo que representa... Cobrar honestidade de cada assessor... Zelar pelo patrimônio comum... Manter a cidade limpa... Não permitir politicagem... Tratar com dignidade quem deu um voto de confiança... Essa menina foi tudo de bom!” - “É verdade! Algumas pessoas pensam igual à senhora... Agora tudo passou, vamos aguardar a posse de Coração Vermelho e torcer por mudanças... Vou guardar as malas e arrumar uma condução para a Ilha Comprida, afim de que Vossa Majestade possa curtir a passagem do final de ano assistindo a um grande show...” - “Nem tudo é perfeito, Josephus!... Detalhes, detalhes.” Gastão Ferreira/2012

domingo, 2 de dezembro de 2012

Conto macabro...

MARIA MADALENA... Meu nome é Maria Madalena, o mesmo nome da melhor amiga de Nosso Senhor... Quando eu era uma garotinha ganhei duas bonecas, uma chamava-se Maria e a outra Madalena. Algo que nunca contei é que elas se detestavam. Maria começou por arrancar o cabelo da Madá, alguns dias depois Madalena quebrou as perninhas de Maria e no final da desavença restou um monte de cacos despedaçados. Faz um bom tempo que estou nessa sala, hoje conversarei com um psicólogo... Coisas estranhas aconteceram na escola, na verdade nem sei de nada! Semana passada um garoto desapareceu, acho que foi sequestrado... Encontraram o coitado no mato, pernas quebradas, escalpelado, sem os dois bracinhos. Meu primeiro e único animal de estimação foi um cão chamado Satã, um nome terrível para alguém que dormia aos pés de minha cama... Cortaram o rabo de Satã, depois as orelhas e também as patinhas. Morreu olhando para mim e eu acabara de completar quatro aninhos. Escutei vovó contar a uma tia que quem fez a judiação com o Satã foi eu... Que mentira! Ainda bem que vovó caiu da escada e morreu. Finou-se olhando dentro dos meus olhos... Fui à igreja rezar e na volta encontrei mamãe desesperada; - “Que bom que você não estava em casa Madalena, aconteceu uma coisa horrível... Vovó Matilde tombou da escada, bateu com a cabeça e faleceu sem ninguém para socorrê-la... Você tão criança ficaria traumatizada para o resto da vida se tivesse presenciado a queda... Pobre mamãe!” Tia Glória, a tia fofoqueira, que ficava dando atenção às falsas acusações de vovó ficou desconfiada, fomos tomar um lanche e ela me crivou de perguntas... Chorei e ela foi ao banheiro buscar um papel toalha para secar minhas lágrimas, quando voltou mal acabou de tomar o seu suco de laranja, caiu durinha... O suco continha veneno para ratos! A lanchonete foi multada e fecharam suas portas, a família ganhou uma fortuna de indenização. Juca, o garoto esquartejado, não era meu amigo... É verdade que sempre conversávamos, dizia que era meu namorado, queria um beijo, pegar na minha mão... Sou uma menina correta, rezo muito, quero ir para o céu... Jamais cometi um pecado... Conheço o local onde encontraram o corpo mutilado do Juca. É o mesmo onde enterraram os pedaços de meu amado cãozinho Satã e o vidro com o veneno de ratos. Fui a última pessoa a ver Juca com vida. No recreio ele tentou me beijar, levou um tapa na cara... Na saída da escola me acompanhou, pediu desculpas... Contei que eu tinha um segredo... Conhecia um lugar secreto na mata onde havia uma pequena cachoeira... Quis conhecer, pediu, por favor! Suplicou. O matagal fica bem atrás de minha casa, é meu refugio, o local onde escondo meus brinquedos velhos, a navalha que encontrei nos pertences de vovô Honório, uma faca bem afiada, cordas, tesouras, restos dos remédios de mamãe, seus medicamentos para insônia... Passatempos de menina! Como os meninos são curiosos! Meu nome é Maria Madalena, o mesmo nome da melhor amiga de Nosso Senhor, juro que sou incapaz de cometer um deslize... Li que ela foi uma pecadora, arrependeu-se, está junto de Deus... Tenho dez anos e uma longa vida pela frente, não será um psicólogo que desvendará meus poucos segredos, alias, nem sei o que faço aqui a esperá-lo, ele não virá! Quando passei frente a sua casa notei que um desconhecido mexia no freio de seu carro, com tanta subida e descida, acho que ele sofrerá um acidente fatal, coitado do psicólogo! Tão moço e tão preocupado comigo. M. Madalena Gastão Ferreira/2012

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Feliz aniversário Iguape (474 anos)

MAIS UM ANIVERSÁRIO – (474 ANOS) A Princesa do Litoral não cabia em si de contente; -“Não vejo a hora de adentrar a cidade, Josephus! Alem de mim, só Matusalém passou dos quatrocentos anos.” - “Sua festa será inesquecível Majestade! Será o coroamento de uma gestão marcada por grandes e admiráveis obras.” Disse Josephus. - “É verdade caro secretário! A repaginação da Orla do Valo, o novo Estádio de Esportes, o necrotério, a reforma do Correio Velho, a limpeza do manguezal, a Casa do Pedinte Feliz, a maternidade, a reforma da Fonte do Senhor, o fantástico e moderno monumento na Praça da Matriz...” - “Gente honesta é outra coisa!” Concluiu Josephus. - “Sim! Todos estão com uma mão atrás outra na frente... Um bom exemplo a ser seguido por todo aquele que se aproveita de cargos comissionados para enriquecimento ilícito... Estou contente! Minha representante está saindo de mãos limpas.” Proferiu a Princesa. - “Com certeza! Se honestidade tem nome e sobrenome é devido à probidade dessa moça...” Rematou Josephus. - “Repara Josephus! Estão construindo um Metrô na Vila Garcez...” - “É a nova galeria de águas Majestade! Estrutura moderna para aguentar o peso dos caminhões...” - “Nada como o progresso! Esse povinho deve estar rico. Note a quantidade de sacos de lixo empilhados na calçada... Se todo o dia jogam tantas sobras na rua é sinal de que estão gastando adoidado...” Comentou Sua Majestade. - “Realmente e pelo visto não param de reformarem suas moradias, veja Princesa! Quanto entulho.” - “Espia Josephus! Um pedinte com celular e notebook...” - “Pelo jeito a grana está correndo solta na cidade...” - “Sabe Princesa! Ouvi comentários que as crianças das escolas estão comendo do bom e melhor. Nada de lanches, só self-service... Coisa de primeiro mundo!” - “Que boa notícia! Criança bem alimentada estuda melhor...” - “Também estão vindo de taxi para o colégio, parece que ocorreu um pequeno problema com os ônibus escolares...” - “Eta mulher porreta essa minha filha! Pena que não quis concorrer novamente...” Disse emocionada a Princesa. - “É mesmo! O que é bom, dura pouco. Ela merece um longo e digno descanso... Como trabalhou essa criatura! Dizem que fazia hora extra diariamente e não cobrava dos contribuintes...” - “Um exemplo! Todos sentirão grande falta dessa pessoa tão íntegra, honesta, ética, educada e gentil... Eu a comparo a Madre Tereza de Calcutá!” Falou a Princesa do Litoral. - “É verdade! Dá para notar a cara de tristeza dos cidadãos... Parece aqueles a quem o salário atrasou!” - “Rarará... Imagina Josephus! Atrasar salários... Que bobagem!” - “Majestade! Acho que sua festa de aniversário não vai ocorrer... A Praça está completamente vazia!” - “Eu entendo Josephus! É o povo entristecido com o final do mandato de minha filha... Para não perder o passeio vamos passar na casa dela e deixar um abraço de agradecimento por tudo o que fez de bom por minha cidade...” Falou a Princesa com lágrimas nos olhos. - “Vamos sim Majestade! Vamos desejar do fundo do coração que ela receba em dobro tudo o que fez...” - “Com certeza receberá! O Bonje não esquece.” Concluiu a Princesa do Litoral. E assim mais um aniversário, esse dos 474 anos, passou... Que no próximo aja festa, alegria, risos e muitos bons motivos de comemoração. Gastão Ferreira/2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

XEQUE-MATE...

SATIM & SATUM... O bicho homem desde o inicio dos tempos se compraz em dar nome aos bois. Adão se divertia adoidado no paraíso; - “Aquele animal vou chamar de macaco! Não parece um macaco?”... Ficou meses nessa folia, mal acordava e já saia a dar mil apelidos à bicharada, também não tinha nada à fazer! Depois que foi expulso do Éden passou um bom tempo aprendendo coisas banais... Inventar tijolos para erguer uma casa. Cortar lenha, sem machado, para fazer uma fogueira. Pescar sem anzol, bolar armadilhas para apanhar caça... Uma canseira de dar dó, isso sem contar a obrigação de povoar o mundo, aguentar as brigas dos filhos e as crises existenciais de Eva, codinome “minha ex-costela”. Os descendentes de Adão mantiveram o costume e até hoje continuam a dar nomes e mais nomes a tudo e a todos. Sem nome ninguém sobrevive. Difícil é arrumar uma alcunha nova, parece que todos os apelidos já foram dados. Depois que inventaram as duplas caipiras, a coisa só piorou, aja criatividade! Ateu & Atoa, Cosme & Damião, Joio & Trigo, Papai & Noel, Erótico & Herético, Branco & Negrão, Alceu & Alçado, Cheiroso & Cheirado, Tom & Gerry, Nei & Béte, Almir & Oncinha, Santo & Pecador, Caim & Abel, Satim & Satum... Satim & Satum eram gêmeos idênticos, o que os diferenciava era uma pequena anomalia genética em um dedo do pé de Satim. Foi um grande erro de Seu Agenor ter dado esse nome as inocentes crianças, pois os nomes lembravam Satã, o pai de todos os demônios. Estapeavam-se desde o berço, se odiavam feito Cocho e Berne. O que um fazia o outro destruía e ajam foguetes para tantas maldades! Dona Minervina, uma mulher piedosa e mãe da dupla, nunca se conformou; - “Do mesmo pai! Da mesma mãe! Onde foi que eu errei, meu Bonje?” Na verdade foram as amizades que desencaminharam os pimpolhos. Satim era coleguinha de Junior, um moleque sem caráter, sem vergonha e sem eiras e beiras, que ensinou ao amigo todas as maldades possíveis e impossíveis. Satum era amigão de Atanásio, filho do sacristão Bento de Ogum, um amor de criança. Jamais falou um palavrão, gostava de cães e gatos, defensor dos oprimidos e da Mãe Natureza, um eco-chato de nascença... Quanta diferença! Com o passar do tempo as coisas pioraram. Satum foi estudar fora e Satim permaneceu no vilarejo tomando banho no riacho, roubando peças sacras, quebrando vidraças e perseguindo desafetos. Satum voltou doutor e casado com a maravilhosa Estrela, uma ex-atriz pornô arrependida. Quando Satim viu a bela cunhada, foi amor à primeira vista; - “Essa gata vai ser minha! Custe o que custar.” Seu Agenor e Dona Minervina estavam felizes da vida. A briga entre os filhos era coisa de crianças, agora eram amigos e Satim não saía da casa do irmão. Quando Estrela engravidou, Satim mostrou-se mais contente do que Satum e quando o bebê nasceu soltou foguetes. Satum se babava pelo filhote. Um dia deu uma geral no neném e descobriu que a cria não era sua, havia uma pequena anomalia genética num dedinho do pé, a marca de Satim! Fez o certo. Chamou linda Estrela e Satim, armou o maior barraco e foi embora para a cidade grande viver sua vida de doutor. Satim é um bom pai, assumiu o filho, juntou-se com a bela Estrela, ex-atriz pornô e vivem infelizes. Estrela voltou à antiga atividade as escondidas, apanha do marido, mas trás uma boa grana a cada escapadela. Não sei qual a moral dessa história! Só sei que a vida é igual a um jogo de xadrez em que não passamos de simples peças descartáveis. Os Peões vão à luta, os Cavalos saltam, os Bispos são poderosos, as Torres vigiam, a Rainha pode tudo e o Rei morre... Xeque-mate! Fim. Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

“O LIVRO DOS PIRATAS DA BARRA” - (12/12/2012) Os primeiros arcanos a relatarem o final dos tempos foram; - “O Calendário Maia”, sistema de calendários e almanaques distintos, usados pela Civilização Maia da meso-América pré-colombiana, datado do século VI a.C. onde a deidade Itzamna deu o conhecimento aos Maias ancestrais... “Os Livros Sibilinos”, que são uma declaração do oráculo de Cumas e continham todo o conhecimento do futuro, comprados da Sibila por Tarquínio, o Soberbo entre 535 a.C – 496 a.C ... “As Centúrias”, escritas por Nostradamus e que contém as previsões feitas por Michel de Nostredame (1503-1566)...” O Livro dos Piratas da Barra” manuscrito que prediz o futuro da cidade de Iguape, litoral sul do Estado de São Paulo, Brasil, encontrado no início do século XVII na Jureia. Foi seu Ditinho Caiçara, morador do bairro de Icapara, dono de um alambique e inventor da aguardente conhecida como Caa-chaça, quem encontrou no ano de 1630, junto a um tesouro pirata, o famoso manuscrito. Reuniu- se com os poderosos da época, isso é, um caçador de índios fujões, um vigário, um comerciante de secos e molhados, um minerador autônomo, um sargento de milícias, um representante da corte portuguesa, uma cartomante e um barqueiro, leu o manuscrito e o trancou em uma pequena arca, distribuindo nove chaves aos presentes no encontro secreto, eis o porquê de se dizer que o segredo foi trancado a nove chaves e que o fim do mundo chegará do Icapara. O que se sabe, não oficialmente, é que o livro conta o futuro de uma cidade que terá o nome de Iguape. Na época em que foi escrito, tal cidade não existia. Pelo que consta ninguém descobriu se o autor estava em transe, em contato com Tupã, ou, fumado um baseado. “Os Livros Sibilinos” são considerados o máximo em revelações do futuro, tanto é assim, que estão guardados no Vaticano e a proibição de consultá-los se mantém, mas, são tidos como simples panfletos se comparados ao “O Livro dos Piratas da Barra”. À Sibila de Cumas, o Oráculo descreveu o formidável futuro do incipiente Império Romano, suas lutas, suas conquistas, seu legado a humanidade... Os Piratas relatam tintim por tintim mil maracutaias, politicagem, sacanagens entre nobres e pobres, a luta entre o joio e o trigo, entre brancos e negrões, a rapinagem sem consequência de bens públicos, os conchavos politiqueiros, a chegada da dengue, o inicio e o fim de uma cidade que nasceu para dar certo e permaneceu estagnada no tempo. Os descendentes dos nove que ficaram com as chaves da arca, onde foi trancafiado o manuscrito, sempre se dão bem na vida. Sabem qual o terreno a ser grilado sem problemas, qual placa de bronze ou estátua sacra roubar, o nome do futuro prefeito, das autoridades, dos mandachuvas... São aqueles que mamam descaradamente nas tetas magras do erário municipal e atravancam o progresso. A cada quatro anos se reúnem e reveem seus objetivos consultando o manuscrito. Esse segredo passado de geração em geração é tão bem guardado que ninguém desconfia, se bem que toda a população sabe que são sempre as mesmas moscas a rodearem o velho bolo. A última reunião dos detentores das chaves foi gravada, dois amigos disputavam o mesmo cargo na nova administração e viraram inimigos e implodiram o esquema secular. O que se sabe apavorou a população! O grupo vendeu suas propriedades e está dando adeus a cidade. O livro dos piratas é claro e conciso em 12/12/2012 tudo termina! Os livros Sibilinos, as Centúrias e o Calendário Maia concordam e confirmam que o fim chegará através do Icapara. Salve-se quem puder! Gastão Ferreira/2012

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A origem do mito

A ORIGEM DO MITO... CRÔNICAS DE PINDAÍBA 1 – A ARCA DE NÃOÉ Nãoé despertou apavorado, pela centésima vez tivera o mesmo pesadelo. Tupã lhe aparecia em meio a raios e trovões e lhe ordenava construir uma ygara (jangada em Tupi-guarani) a qual salvaria da extinção alguns elementos da região. - Será que dormi novamente torrado? Não é possível acontecer logo comigo uma coisa dessas! Talvez meu nome atraia esses pesadelos! Como eu gostaria que minha alcunha fosse Ary Oswald, Magnólio, Agenor, Benedito ou até mesmo um inofensivo José... Mas não! Meu pai me colocou esse nome ridículo de Nãoé... Agora esse tal Tupã que não me deixa dormir sossegado, gritando a noite toda no meu sonho; - Nãoé! Construa uma ygara. Os tempos chegaram! A terra será alagada, tudo surucará. Salve pelo menos alguns de meus fiéis, amados, honestos, puros e dedicados filhos. Nãoé! Salve-os. Salve-os! Nãoé, sem querer querendo, contou seu sonho no bar do Dito Pelado e logo todo o povoado ficou sabedor. Formou-se uma multidão implorando uma vaga na ygara de Nãoé. Nãoé até que gostou do puxa-saquismo do povão e de improviso tascou um discurso; - “Meu povo do Valo Grande e minha póva do Valo Pequeno notem vocês que pelo reduzido tamanho da igara, ela não poderá levar a todos nessa jornada de salvação. Tupã foi claro e preciso, falou e disse; - “Só os meus fieis, os puros, os honestos e dedicados serão salvos do nefando perigo.” Todo o fofoqueiro, mensaleiro, nepotista, fdp, cuidadores da vida alheia, condenados por improbidade ou não, puxa sacos de carteirinha carimbada ou não, e, o escambau a quatro ou a cinco, eu, não levo! Eu não levo! Não levo.” O local ficou quase vazio. Um grupo de crentes que orava pelo final dos tempos, pediu vaga. Nãoé foi categórico; - “Crentes? Nem pensar. Não entram na minha ygara nem que Jeová tussa! Vocês não vivem dizendo que já estão salvos? Então, que palhaçada é essa? Só posso salvar os nãos salvos, os do mundo. Por favor! Parem com o histerismo. E, nada de pragas e traumas. Entendido? Ou, querem que eu desenhe?” Um grupo GLS solicitou agasalho... “GLS? Não posso! Se for levar toda a fauna da região a ygara afunda. Por favor! Segurem a franga. Por favor! Por favor. Cada um no seu quadrado.” O pessoal da terceira idade, digo, da melhor idade implorou uma vaguinha; - “O que é isso meus veios? Vocês estão no fim da picada, deem lugar para os jovens que terão um futuro garantido e depois não posso perder tempo fazendo sopinhas e papinhas para menininhos e menininhas decréptas. Eu hein!” Assim foram descartados todos os que o procuravam um lugar na ygara. Políticos, apolíticos, ateus, ameus, anossos, atôas, são e aleijados, santos e pecadores. Os habitantes do lugarejo estavam inconformados, prontos para linchar Nãoé, quando se formou a maior tempestade já vista... O céu escureceu... Raios e trovões... Pedras de gelo de cinco quilos... Vendaval e vendavinhos... O mundo ficou surdo e mudo perante o dantesco rebuliço, o toró começou. Tudo estava sendo alagado. As mansões, os casebres, as casas de cômodos e incômodos, as casas de tolerância e intolerância, os bares e botecos, as igrejas, as mesquitas e sinagogas, os terreiros de vodu e candomblé, em fim, o pequeno e insignificante vilarejo sem nome, pelo jeito jamais teria um nome, pois tudo estava sendo destruído. Os poucos que sobreviviam em cima das árvores, mas que logo pereceriam afogados, ainda notaram a ygara que flutuava nas águas revoltas, levando entre todas as criaturas vivas que habitavam o local, apenas Bilú, Margareth, Nolinho, Nãoé e um cachorro sarnento que jamais entendeu porque foi salvo. A Ygara vagou por oitenta noites e setenta e nove dias. Aportou em um local aprazível, um sitio cercado de verdes montanhas e um imenso e majestoso rio. Esse lugar, num futuro muito distante ficará conhecido como o fantástico e inacreditável reino de Pindaíba. Nãoé e os sobreviventes foram os primeiros a descobri-lo e habitá-lo. Gastão Ferreira/2009 2. ICAPARA Nãoé abandonou a ygara e imediatamente começou a erguer um povoado. Lembram que aportaram na localidade alem de Nãoé, um tal Bilú, Nolinho, Margareth e um cachorro sarnento? Nessa fase da vida, Nãoé já era um ancião, estava na melhor idade e nem se importou quando Nolinho e Bilú iniciaram uma aproximação, digamos mais íntima, com Margareth. Era uma graça de se ver... O melhor peixe, a maior banana da terra, o maracujá mais suculento, o Mico Leão mais bem moqueado, tudo era dado em sinal de amor à Margareth, que começou a engordar, engordar e não mais parou de engordar. Nãoé educadamente interferiu e acabou com o insipiente namorico; - Parem de alimentar essa mulher! Parece uma porca de gorda. Daqui pra frente só deem água da fonte e casadinho de manjuba. Se ela iniciar um regime, eu libero a indiada para vocês. Foi só Nãoé dar a notícia e Bilú e Nolinho ficaram ouriçados; - “Cadê? Cadê as índias?” - “Estão construindo um Sambaqui nas cercanias!” Disse Nãoé. - “Nossa! Vamos ter uma escola de samba no pedaço.” Falou uma deslumbrada e loira Margareth. - “Que escola de samba menina?” Perguntou Nãoé. - “Ué! Se tiver samba aqui, então tem uma escola de samba por perto.” Explicou Margareth. - “Aí meus neurônios!” Exclamou Nãoé. De comum acordo e também porque era muito trabalhoso construir um imenso e moderno povoado para apenas quatro pessoas, resolveram conhecer o local onde estava situada a tribo indígena. Caminharam... Caminharam... Caminharam uns doze quilômetros e avistaram as malocas. Nãoé ordenou:- “Aqui para!” Margareth, a dourada, exclamou boquiaberta; - “Que lindo nome! Icapara.” - “Quem colocou esse nome nesse belo e bucólico lugarejo?” Perguntou Nãoé. - “O senhor seu Nãoé! O senhor acabou de dizer Icapara.” - “Não, minha linda leitoa oxigenada! Eu disse, aqui para, mas podemos chamar esse aprazível local de Icapara. Tem tudo a ver com esse cheiro de mato, essas plantações de mandioca e esses índios peladões.” Chegaram os selvagens e cercaram os quatro caras pálidas. Após o estágio de reconhecimento, isso é, apalpa aqui, cheira ali, enfia o dedo lá, alá e acolá, começou a confraternização... Tudo prato típico, Bugio no espeto, Tainha na folha de bananeira, Quati grelhado, Parati e Paramim na brasa, suco de Maracujá, Araçá e Butiá na Cataia. Foi a maior festança. Margareth matou todas as suas fomes, só não transou com o cacique por respeito as suas cinco ferozes e ciumentas esposas. Nolinho e Bilú se aproveitaram tanto da Cataia quanto das belas, selvagens e nuas índias tropicais, aprendendo muitas sacanagens com elas. Foram convidados a se radicarem no local. Nãoé ganhou uma maloca só para si. Margareth ficou para lá e para cá, indo de oca em oca. Bilù e Nolinho se amocozaram na maloca dos solteiros e ninguém nunca soube o que aconteceu por lá. Nove meses após a chegada da gangue, digo, do grupo de Nãoé, Margareth teve dois lindos curumins. As vinte índias solteiras que cuidavam de Nolinho e Bilù continuaram solteiras, mas cada uma teve seu neném branquélo. Assim começou a mistura étnica chamada Caiçara. Foi em Icapara que tudo teve início e segundo o livro dos Piratas da Barra, será de lá que chegará o fim. Gastão Ferreira/2009 3. A DESCOBERTA DE PINDAÍBA “Os Últimos Filhos de Tupã dos Últimos Dias” estavam por aqui com os icaparanos que só pensavam em festas, festinhas e festões. Com a criação do polo turístico, de gente e gentinha entrando e saindo da vila, até os animais silvestres desapareceram, temerosos de virarem espetinho de gato assim que botassem a cara no povoado. Meio quilo de Mico Leão Dourado custava mais caro do que ova de Tainha em peixaria, e, um insignificante Tapir valia o preço de um bezerro desmamado. “Os Últimos...”, Que equivaliam aos crentes do futuro, diziam que não eram do mundo. O povinho ateu e atôa sorriam e comentavam; - “Pode ser que eles não sejam do mundo, mas as filhas são!” e ripa na chulipa. Esses atos e ditos obsceno constrangiam sobremaneira os “Últimos...”, os quais partiram para os finalmente. Fizeram uma reunião no terreiro (?) de Tupã e após o sacrifício de um Jacu preto (suas galinhas de macumba da época), tomaram diversas decisões. Venderiam seus bens móveis e imóveis. Os móveis eram os escravos porque se moviam seu burro! E, os imóveis os inúmeros prédios comerciais onde ocorriam as orgias, as bacanais, as cachaçada homéricas que tanto ofendiam a moral dos crentes, mas como dindim é dindim, nunca reclamaram diretamente dos inquilinos que pagavam aluguéis absurdos pelos lupanares. Como todo o idiota sabe, dinheiro é dinheiro. “Os Últimos...”, pediram horrores para venderem as espeluncas, os comerciantes que não tinham essa grana toda resolveram apelar para o agiota de plantão, um tal João Qualquer Coisa. Tinha esse apelido porque comprava qualquer coisa na “bacia das almas”, dava uns enfeites e vendia dez vezes mais caro. O povo ignorante como só pode ser um morador da roça, não concordava com o que “Os Últimos...” estavam fazendo e começou um quebra barraco bonito de se ver. Tacaram fogo nas propriedades e em vários irmãos da seita... Muita gente foi ao encontro de Tupã antecipadamente. Na verdade foram tantos os exterminados que até o nome tiveram de alterar. “Os Últimos Filhos de Tupã dos Últimos Dias” passaram a se chamarem de “ Os Últimos dos Últimos Filhos de Tupã dos Últimos Dias”. No final do entrevero, “Os Últimos dos Últimos...” foram expulsos daquela Sodoma caipira abaixo de porrete e só com a roupa do corpo, pois, quem tudo quer! Tudo perde. Embrenharam-se na mata e como não possuíam bússola, perderam-se. Foram atacados por terríveis onças pintadas e oncinhas não pintadas, jaguatiricas, lobos guarás, macaco prego, macaco aranha, macaco formiga, macaco tamanduá. Todos esses bichos eles mataram de letra e praticamente acabaram com suas raças, sofreram mesmo foi no bico de mutucas, pernilongos e mosquito pólvora. Nessa andança, o povo de Tupã, foi dar (?) no Pé da Serra, Itatins, Jipuvura, Mumuna, Quatinga, ou seja, em qualquer estância aonde chegavam eles davam, e, como davam. Dava canseira, cabeçadas e com os burros n’água... Resolveram invocar Tupã e pedir seus conselhos. Seguiram o sagrado ritual, após muito cauim, uhásca e canábis, sentiram a presença do puro, benevolente e clemente Tupã, que amorosamente aconselhou seus filhos: - “Bando de cretinos, fdp, perdedores do cacete! Como tiveram a ousadia de abandonarem o local onde eu tinha tudo de graça e começarem a andar pelo meio da mata sem um guia, um mateiro? Meu Deus! Sem um mísero mapa. Olhem aqui seus bostinhas! Tão vendo aquela trilha ali? Pois é! Vão seguindo a dita cuja que todos vocês irão dar em Pindaíba. E, nunca mais me incomodem para fazerem perguntas ridículas, para isso tem mãe de santo, cartomante, terreiro de macumba, o escambau! Entenderam-me? Tão pensando que eu sou o que? Um moleque de recados? Um candidato a algum cargo necessitando de votos, que tem que aturar tudo de vocês? Eu sou Tupã! Eu sou Tupã... Tu... Pã.” “Os Últimos dos Últimos...”, apavorados e gratos pela infinita bondade de Tupã, pegaram a estradinha e tomaram o rumo sul. Aquela coisa de sempre, caminhar, caminhar, caminhar... Comer, comer, comer... Fazer coco, beber, beber, dormir, dormir, dormir e dormir que ninguém é de ferro... Ah! Eventualmente e na moita fazer mais um “Último Zinho” Após dias e dias nesse tédio tedioso... Matar onça, esgoelar macacos, correr de cobra venenosa e se estapear constantemente espantando borrachudos, chegaram a um sitio maravilhoso. Montanhas com todas as tonalidades de verde, bichos correndo por toda a parte, um rio magnífico, um lagamar deslumbrante, onde botos, robalos, tainhas e paratis saltavam a flor da água. Era a imagem do paraíso, o local mais belo jamais contemplado por olhos humanos. A dadivosa Natureza parecia sussurrar; - “Bem vindos! Bem vindos! Cuidem de mim e eu os tornarei felizes. Venham meus filhos! Fartem-se em minhas árvores frutíferas, saciem a sede nas fontes cristalinas dos montes, durmam sob esse céu estrelado, se embalem nas cantigas do mar. Bem vindos! Bem vindos! Cuidem de mim! Preservem-me.” “Os Últimos dos Últimos...” estavam encantados, logo encontraram um ninho de nhambus. Pegaram os ovos e o casal de aves e sacrificaram a Tupã, em agradecimento ao fim da jornada. Quem teve o dom de ver, viu!... A primeira lágrima de dor rolou da face da divina Natureza, seus filhos os pássaros choraram com ela... Até hoje Pindaíba paga o preço do descaso com suas belezas naturais... Bem vindo a Pindaíba! Gastão Ferreira/2009

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Zelite...

ZELITE... Quando Euzébio casou, o senhor Conde fez questão de mostrar sua fortuna, afinal Binho não casaria com qualquer uma e sim com a mais prendada das criaturas, Sintya Ramires de Albuquerque Lins, filha do ilustre comendador Ramires Lins, um homem que se fez sozinho... A vida é cheia de surpresas e Mirinho, apelido carinhoso do Comendador, na infância foi de uma pobreza extrema, catador de latinhas, engraxate, menino de recados, pistoleiro de aluguel, posseiro, trambiqueiro. Mau caráter que encontrou na politicagem o trampolim do sucesso. Sintya era um produto de primeira. Na meninice um horror, mas como o dinheiro compra tudo, papai deu um jeito e após a adolescência surgiu uma linda mulher siliconada, dentes implantados, peruca loira importada da Suécia e lindas lentes de contato azuis. Conseguiu permissão para a troca de nome, de Marcolina Lins passou a Sintya Ramires de Albuquerque Lins, a dondoca mais cobiçada pelos caça-dotes da cidade. Papai também comprou um diploma universitário, a garota era um tanto burrinha e jamais saiu do curso básico, agora era uma jornalista muito aplaudida, papai adquiriu um espaço no prestigiado jornal de Lander Vopes e semanalmente a dondoca dá dicas de pratos exóticos. Euzébio, um mequetrefe de primeira nunca necessitou trabalhar, papai Conde o mimoseava com carros, motos, lanchas e o último presente foi um helicóptero. O boy é seu único filho e herdeiro universal. O casamento com a bela Sintya mereceu a mais requintada festa da cidade. O terno de Binho era um Armani e o vestido da noiva confeccionado na Inglaterra, um cantor de sucesso entoou a Ave Maria, um bispo oficiou o casamento e cada convidado recebeu uma lembrancinha do fabuloso evento. Os convidados eram da fina flor da sociedade endinheirada. Muitos comerciantes e profissionais liberais não receberam o convite para as bodas, eram apenas flores e não finas-flores da Zelite local. Após o casório, a festança. As dondocas dondocavam, os políticos politicavam, os comes e bebes de primeira eram consumidas com avidez, as conversas giravam em torno de viagens internacionais e das muitas fofocas que permeiam a vida de quem não tem nada de útil para fazer. Quando o Senhor Conde estava a agradecer a presença de todos, eis que adentrou o recinto um Oficial da Justiça e deu voz de prisão a Leandrinho, filho de um casal famosíssimo na localidade, por não pagamento de pensão alimentícia. A mãe de Drinho fez o maior escândalo, um quebra barraco para ninguém por defeito, um escarcéu que ficará na história e fez questão de acompanhar o mimado pimpolho até a delegacia, se propondo a quitar a dívida na hora. Pois não é que deu um cheque sem fundos! Que vergonha. O Senhor Conde e o Comendador Ramires Lins cortaram relações com os pais de Leandrinho, pois não passavam de falsos ricos, aqueles que comem ovas de Tainha e espalham que degustam caviar... Os que não foram convidados por não merecerem a companhia de gente tão ilustre estão rindo e deram graças por não participarem da baixaria da elite, pois é! Zelite que se presa sempre apronta. Gastão Ferreira/2012

domingo, 11 de novembro de 2012

O SONHO DE GAYA Faz-de-conta era um mundo imaginário. Gaya sua deusa nutriz, a Natureza personificada, que ordenou o caos e deu forma a vida planetária. Na solidão da eternidade Gaya sonhou. Retirou de uma negra caixa muitas figuras, personagens de suas fantasias. Catou o pó das estrelas, forjou um imenso globo girando em torno de um sol vivificante. Conhecedora dos elementos associou dois átomos de hidrogênio a um de oxigênio e criou a água, assim começou a vida e a estranha história de Faz-de-conta. Quando um macaco desceu do alto das árvores e descobriu a planície, Gaya sonhou o homem. Retirou de sua caixa os reis, os soldados, os feiticeiros, a multidão dos pobres, os poucos nobres e cada personagem vinha com seu próprio destino já traçado. No início eram demônios sedentos de poder, depois heróis a procura de um destino glorioso, homens comuns cultivando campos e alimentando multidões. Sacerdotes queimando incenso na compra do divino, guerras devastadoras, incêndios, calamidades... Gaya acordou! Fora um sonho que se transformara em pesadelo. Destruiu sua criação, abandonou Faz-de-conta e se refugiou no universo infinito. O que Gaya nunca imaginou foi que alguns humanos sobreviveram em cavernas sombrias, descobriram como se reproduzir e recriaram o sonho de Gaya. Muitos séculos se passaram, os homens eram persistentes, criaram cidades, fundaram reinos, formaram nações. Com muita paciência desvendaram os segredos da vida, inventaram máquinas, dominaram a tecnologia, conquistaram as estrelas e se apossaram dos céus. A nave espacial pousou silenciosamente em um verdejante planeta nos confins da bilionésima galáxia visitada. Os instrumentos indicaram vida inteligente. A mulher de formas perfeitas, jovem, dormia em um abandono de silêncios, quando acordou era refém de autômatos dos quais ignorava o controle. Estava presa dentro de um globo de energias desconhecidas. A espaçonave retornou a Faz-de-conta, Gaya reconheceu sua própria criação. Levada a presença das autoridades, passou fome, sede e frio. Desconhecia a linguagem dos captores e levou tempo a aprendê-la. Contou em minúcias a sua história, na qual não acreditaram; - Era uma espiã de um mundo desconhecido, uma provável inimiga... Foi torturada. Acorrentada nos porões do palácio imperial, reconheceu que os homens fugiram de seu controle, transformaram-se em deuses e que ela era apenas mais uma entre milhares de seus iguais que andavam entre as estrelas do céu... Nesse instante entre a descoberta e o espanto, Gaya chorou! Nunca mais estaria só. Gastão Ferreira/2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

DONA VIRIDIANA Dona Viridiana possuía profundas raízes, sua linhagem se perdia no tempo. Descendente de um flibusteiro aprisionado pelos guaranis no Costão da Jureia na época do descobrimento e de uma índia apaixonada que em troca de um tesouro enterrado na praia libertou o pirata da escravidão por amor. Jupira, a indígena, posteriormente casou-se com um jovem e valente português degredado. Com o ouro herdado do pirata comprou um marido e uma posição social de relevo na incipiente freguesia do Icapara. Com o segundo marido, o primeiro fora o corsário, teve um filho e uma filha, Ricardo e Mafalda. Ricardo aumentou o capital da família, se embrenhou nas matas arrebanhando indígenas nas Entradas e Bandeiras, não deixou descendente e Mafalda foi sua única herdeira. Mafalda casou-se com um Capitão-mor, um sacripanta e posseiro muito estimado na corte e agente secreto de El Rei de Portugal. O amigo rei vendeu-lhe a peso de ouro um título de nobreza e Mafalda passou a ser a Senhora Baronesa. Com a morte do fidalgo na famosa invasão de São Vicente pelos icaparanos, Mafalda e a filha Amanda, imensamente rica e prepotente, se mudaram de mala e cuia para a recém-formada Vila de Iguape. Amanda não herdou o título de nobreza nem necessitava, abastada o suficiente para comprar quem bem lhe provesse, perdidamente apaixonada por um jovem pároco, doou uma fortuna aos cofres sagrados. Quase na penúria e com uma filha bastarda, no final da existência possuía de seu, a casa senhorial de eiras e beiras, um sitio não longe da cidade, tocado por mãos escravas. O padre foi chamado ao Vaticano e foi elevado ao cardinalato, um príncipe entre príncipes, nunca reconheceu a filha de nome Leonor que teve com Amanda e nem as outras que trouxe ao mundo com diversas amantes. Leonor foi bisavó de Viridiana, comeu o pão que o diabo amassou, com a libertação da escravatura o sitio cultivado por cativos foi abandonado e Leonor foi à luta, não vendeu a casa de eiras e beiras e muitos quartos. Montou uma pousada e vez por outra mantinha encontros íntimos com os hospedes mais abonados. O passatempo lhe rendia altos dividendos, casou-se com um caixeiro-viajante e como o caixeiro viajava muito, entre uma viajem e outra nasceu Roberval, fruto de um amor clandestino com um rico proprietário de navios mercantes. Roberval herdou do pai a honestidade e o gosto por negócios escusos. Agiota, politiqueiro e pilantra enriqueceu da noite para o dia, seu nome virou nome de logradouro público, sua filha Anita se casou com o velho mais rico da cidade. Anita foi mãe de Viridiana, era uma mulher que sabia das coisas, em sua casa só entrava a fina flor da sociedade e Viridiana desde a mais tenra idade teve a quem puxar. Foi criada no luxo, uma menina petulante que escarrava nas domesticas e serviçais. Uma guria arrogante que se achava a dona dos menos favorecidos pela fortuna. Viridiana nunca casou. A ralé a julgava riquíssima e a pose confirmava sua origem nobre. Criada entre mimos e regalias, com rapapés e elogios, a sua elegância a transformava em uma bela adolescente. Nem bem entrou na maturidade a fantasia dançou e Viridiana caiu na real; - Uma mulher de cabelos pixaim, profundas olheiras, ranzinza e mal amada. Vivendo das poucas rendas e das passadas glórias. Achava-se tão rica que comprava amigos e tão birrenta que sua melhor amiga era a sua manicure. Um dia Viridiana acordou no vazio, no vazio de sonhos, no vazio de amigos, possuía profundas raízes, suas origens se perdiam no tempo... Jupira uma índia safada que se aproveitara de um pirata prisioneiro para enriquecer, Mafalda a nobre Baronesa que trocou a honestidade pela ganância, Amanda a que tudo perdeu por amor, Leonor a prostituta que recuperou os bens da família, Roberval o agiota que virou nome de rua, Anita a que deu o golpe do baú e Viridiana a que não viveu... Pobre Dona Viridiana, tão rica... Tão pobre! Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Mafalda & Bofalda...

AS FADAS... Na floresta a notícia correu feito pólvora, os habitantes estavam horrorizados, pela primeira vez na história as fadas entraram em guerra entre si; - O motivo, Zuter! Zuter, o fauno, possuía uma varinha mágica que era o sonho de consumo das aprendizes de feiticeiras, bruxas, ogros, gnomos, sílfides e fadas. Quem caia sob o encanto de seu bastão jamais se esquecia do ocorrido e muitas criaturas choravam no escuro das cavernas carentes de seu dom maravilhoso. As fadas, seres inocentes e sem malícias, costumavam se reunir numa pequena clareira do bosque para dançarem e cantarem; eram pudicas e castas. No evento discutiam seus probleminhas e por vezes bebiam do néctar das flores. Zuter, o fauno, conhecedor de tudo o que não presta, aproveitou-se da pureza das fadas e adicionou o suco de cogumelos alucinógenos ao néctar e o alegre convescote se transformou em orgia desenfreada. Mafalda, amiga intima de Bofalda, brigou feio com a colega e o motivo foi à varinha mágica de Zuter. Algumas fadas tomaram o partido de Mafalda, outras de Bofalda e teve inicio uma guerra nunca imaginada nem pela mais perversa das bruxas. Zuter se encontrava secretamente com Mafalda, Bofalda, Nefalda, Pafalda, Zefalda e muitas outras faldas e cada uma delas se achava a única na vida sentimental do fauno. Zuter era parente de vovó Nachel que não era uma fada e que lhe dava o maior apoio. Apesar de nunca ter experimentado o encanto da varinha mágica de Zuter, vovó Nachel fazia a maior propaganda da mesma, criando assim certa curiosidade sobre a varinha. Nachel era a confidente de Zuter, babava-se com suas histórias sórdidas e pervertidas. Uma noite após uma festa de arromba, deu com a língua nos dentes e contou sem querer querendo as diversas sacanagens do parente a uma Sílfide sirigaita. A Sílfide espalhou a história e foi assim que Mafalda ficou sabendo do envolvimento de Bofalda com Zuter. Mafalda procurou o auxilio das trevas a fim de conquistar definitivamente o amor de Zuter e as trevas espalharam a escuridão na floresta. A tristeza alastrou-se, os animais não encontravam suas tocas, os pássaros não achavam seus ninhos, os cães perdiam o faro, os filhotes se desgarravam dos pais e partiam para a prostituição, as drogas e bebedeiras. A vida na floresta estava insuportável... Quem não era cocho era berne, ou seja, quem não era partidário de Mafalda era de Bofalda. O assunto nos encontros sempre se resumia na famigerada desavença entre as fadas e todos estavam saturados com as picuinhas íntimas decorrentes das paixonites entre Zuter e suas adoradoras... A guerra tinha que ter um fim! Cidália, a rainha das fadas, finalmente foi informada do que ocorria no escurinho de seu reino encantado. Como era imune aos encantos da varinha mágica de Zuter, se bem que os fofoqueiros de plantão informam que num passado remoto também ela arrastou as asinhas pelo fauno, fez valer sua vontade soberana e simplesmente expulsou Zuter para outra freguesia. O reino voltou à pasmaceira de sempre... Mafalda fez as pazes com Bofalda e compartilham segredinhos. As feiticeiras voltaram a preparar suas poções, os gnomos a trabalharem feito escravos, os ogros a comerem criancinhas desatentas, os pássaros a cantarem e os rios a correrem para o mar. A única a lembrar do ocorrido é Mafalda, quando enche a cara se põe a falar sobre a varinha mágica de Zuter e chora de saudade... Assim se confirma o ditado popular; - Amor de trica fica! Gastão Ferreira/2012

domingo, 28 de outubro de 2012

Zuter, o Corvo...

ZUTER, O CORVO...



 Na idade das fábulas um primo em décimo grau de Zeus foi expulso do Olimpo e exilado próximo a uma grande ilha, seu nome; - Zuter!
 O motivo da exclusão estava ligado ao uso excessivo de Néctar e Ambrosia misturada a canabis, ópio, cocaína, crake, saquê, uísque, tequila e cachaça.

Zuter era belo como só pode ser um descendente dos deuses olímpicos, mas sua alma era negra como as asas da mais negra gralha, entre os imortais era conhecido como Zuter, o Corvo!

 Na realidade Zuter era um tarado, um abusado que transou com a Medusa e não se transformou em pedra. Teve casos com a Esfinge, a Górgona, um Centauro, um Sátiro e com diversos heróis que compartilharam de seus porres homéricos.

 Nenhum escritor, dramaturgo, poeta, vate ou doido varrido ousou contar a verdadeira história de Zuter, o expatriado do Olimpo. Em principio por temerem a ira de Zeus e seus mortíferos raios, pois revelar os podres dos poderosos sempre foi fatal a um reles mortal, depois por puro medo das fogueiras da Santa Inquisição medieval. Assim a lenda de Zuter, o Corvo, seguiu para o esquecimento até o dia em que um pergaminho foi encontrado na Caverna do Ódio e o mito reviveu.

A tradução foi demorada e controversa, pois Junica, a Purpurina-má, um gay perverso que odiava a quem matasse a cobra e não lhe mostrasse pessoalmente o pau, não aceitou a versão oficial julgando que se tratava de sua própria biografia. Quando o rei Corrupto-I foi destronado e Junica finalmente perdeu o cargo de “A bostinha cheirosa” e foi rodar bolsinha em outra freguesia, a história de Zuter foi revelada ao mundo.

 A irmã lésbica dos Três Porquinhos teve um surto e arranjou um amante pela primeira vez na vida, Dina Hipopótamo começou a sério um regime, vovó Nachel passou meses bebendo água e quase pirou, Dito Cheira-cheira descobriu o aroma das flores e virou Beija-flor, as Garotas do Mal viraram crentes e as Meninas do Bem se entregaram a mais deslava orgia e tudo isso ocorreu após a leitura da terrível saga de Zuter, o Corvo.

 O manuscrito ficou conhecido como “A maldição do Corvo”, pois a todos que conheceram seu conteúdo algo de muito estranho ocorreu. Zé Machão leu e na mesma hora saiu em desabalada carreira pelas ruas gritando; - “Meu nome é Leila!... Me comam... Me comam!”. Dona Benvinda, uma rica anciã de noventa e seis anos, abandonou seu Ventura após um abençoado casamento de mais de setenta anos e se juntou a Mequetrefe, um garoto de quinze anos usuário de drogas e foi muito infeliz. Dona Margot, a francesa, deu tudo o que tinha aos pobres e foi morar embaixo de uma ponte, pegou uma pneumonia e desencarnou prematuramente. Um jovem e honesto político perdeu o mandato e desapareceu por oito anos sem deixar saudades. Alguém muito conhecido caiu de uma moto parada e quase perdeu a perna. Um menino recém-alfabetizado ao ler, a muito custo o manuscrito, criou barba na mesma hora e fugiu com um circo que visitava o povoado.

 Os cidadãos se reuniram e pela primeira vez na vida não soltaram foguetes, simplesmente imploraram ao poder constituído que todas as cópias do nefando manuscrito fossem destruídas e o original colocado numa garrafa hermeticamente vedada e lançada ao mar... Assim foi feito segundo a vontade do povo e até hoje não entendi o porquê de jogarem no mar o tal pergaminho, coisa de loucos, acho eu!

O que ninguém sabe é que uma única cópia sobreviveu. Junica a Maldita escondeu uma reprodução do texto original para futura vingança... Quem viver lerá! A lenda de Zuter, o Corvo definitivamente ainda não morreu.

Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Visitas...

A NUVEM BABACA... As nuvens são seres estranhos, por vezes se juntam em grandes rebanhos formando curiosos desenhos no céu. Outras vezes se mostram solitárias e ficam horas espiando as pessoas e os animais. Choram com facilidade e suas lágrimas alagam ruas e cidades. Meu cunhado Paulo foi adotado por uma nuvenzinha desde o berço... Sua mãe se esqueceu de fechar a cortina do quarto e uma pequena nuvem solitária se encantou pelo pimpolho; - “Que criança linda! Vou segui-lo por toda a vida.” disse a acanhada nuvem babaca e jamais olvidou a promessa. Essa paixão, com o passar do tempo, transformou-se em um incômodo. Onde estava o guri sempre chovia... Choveu no seu primeiro aniversário e em todos os outros eventos ao ar livre dos quais participou. O fato foi comprovado diversas vezes... Calorão e muito sol nas praias de Tramandaí! Bastava Paulo chegar e era o maior aguaceiro... Três meses sem chuva em Iguape! Paulo chegou... Chuva! Os presentes de aniversários de Paulinho eram sempre os mesmos, capas de chuva, galochas, guarda-chuvas... A única coisa boa em tudo isso é que o garoto recebia muitos convites para visitar lugares áridos. Bem antes de completar quinze anos conhecia todo o nordeste brasileiro, o deserto de Atacama no Chile e parte da África. A parte ruim dessa história é que não era bem visto em campeonatos esportivos, corridas de carros, feiras livres e demais ocorrências que necessitassem de sol para terem sucesso. Jamais assistiu a um grenal, a uma missa campal, a uma procissão, nunca desfilou na Semana da Pátria ou na Semana Farroupilha... Paulo adora pescar e recentemente recebi sua visita... Tarde de sol! Fomos curtir uma praia em Ilha Comprida, por precaução ficamos sob um guarda-sol para que a nefanda nuvem não o encontrasse, o céu estava azul e minha irmã aproveitava ao máximo a água tépida daquele mar sem fim, bastou meu cunhado sair da segurança do guarda-sol e a nuvenzinha babaca que o segue, o avistou; - “É ele! É ele! O meu guri...” e quase se desmanchou de tanto chorar.Resultado! Chuvisco, frio e chuva... Acabou o passeio. Saíram com chuva do Rio Grande do Sul em busca do sol de Iguape onde não chovia há três meses. No sul o tempo clareou... Muito sol, muito calor... Em Iguape garoa e frio! Ao voltarem encontraram chuva no sul e Iguape amanheceu com um céu límpido, pois é a tal nuvenzinha babaca os seguiu e mais uma vez essa estranha história foi comprovada, mesmo assim passearam bastante, subiram no Morro do Cristo, visitaram a Fonte do Senhor, curtiram o Centro Histórico, tomaram parte na procissão de Nossa Senhora das Neves, perambularam na Beira do Valo, apreciaram nossos pontos turísticos e prometeram solenemente voltarem para conhecer a Juréia e nossos bairros rurais... Com nuvem babaca ou sem nuvem agradeço a visita... Voltem sempre! Fiz questão de que bebessem da água da Fonte para garantir o retorno... Kkkk. Gastão Ferreira/2012 Gastão Ferreira/2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ao novo Rei...

PRÓXIMO CAPÍTULO Quando chegou ao fim o nefasto reinado de Mãos Limpas a meiga, educada, honesta e trabalhadora rainha seguiu para o esquecimento e um novo rei, apelidado de Coração Vermelho, foi coroado. Após sangrentas batalhas entre os três concorrentes ao trono, muita difamação, bandeiradas e trocas de fogos de artifícios, Ribas-I foi coroado vencedor. A plebe vil foi cevada durante dois meses por todos os candidatos, esse ritual é tão arraigado que se transformou em tradição e ninguém ousa contestá-lo. Churrascos e bebidas a vontade engordaram o povo, promessas de melhorias e juras de eterno amor encantaram a população. Um jovem e riquíssimo príncipe, filho adotivo da rainha, nem sequer convidou a velha mãe para participar de suas palestras perante os súditos, aparentemente a honrada soberana já estava destronada há muito. Era o príncipe quem mandava e desmandava no reino em constante decadência, seus seguidores buscavam a continuidade e tudo era válido para a obtenção do intento. Na noite em que Coração Vermelho foi aclamado o novo soberano o povo correu a lhe prestar vassalagem... Coisas estranhas aconteceram. Pela primeira vez na vida uma dondoca da velha nobreza provou ao lado da plebe um churrasquinho de gato, o esforço valia a pena, quem sabe fosse notada por algum poderoso da nova corte e o rei informado de sua aparente humildade. No reino, aqueles que possuíam condução própria, durante os muitos entreveros entre as diversas facções inimigas escondiam as bandeiras símbolos de cada postulante ao trono em suas casas. Mal saia a decisão, a flâmula do vencedor era alçada da carruagem e mostrada em passeata a fim de confirmar que seu proprietário era amigo do rei desde a infância, esquecidos das fotos em que sorriam abraçados aos concorrentes. Novos tempos se aproximam! Oxalá as promessas sejam cumpridas, que os novos senhores mantenham a humildade no trato com o povo, trabalhem em beneficio da comunidade, mostrem serviço e que o rei escolha entre pessoas capazes seus auxiliares... Não há necessidade de revanchismo, pois toda a corte de Mãos Limpas seguirá para o esquecimento em definitivo... Seus conselheiros colherão do mal que semearam... A escuridão moral e ética passou... Que o reinado de Coração Vermelho seja o inicio de uma nova era de prosperidade... Salve o novo rei! Viva Ribas-I. Gastão Ferreira

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Outra lenda urbana

A MULHER DE PRETO... Meu pai não gosta que seus filhos participem de comícios; -“ Pura perda de tempo! Um falar mal da vida alheia que não leva a nada. Um perigo essa mania de ficar caminhando a noite pelas ruas desertas da cidade, perguntem à sua avó o que aconteceu com nosso primo Dito Mandinga quando resolveu assistir a todos os comícios em uma única noite...” Nunca devemos duvidar, diz minha sensata avó, muitas coisas acontecem entre a Fonte do Senhor e a Passarela, entre o Mar Pequeno e o Porto do Ribeira... Assim Dona Maricota começa mais uma lenda urbana; - “Meu sobrinho Dito Mandinga, aquele que quase foi raptado por um disco voador no Morro do Pinheiro, o mesmo que foi atacado por um Lobisomem no Caminho do Porto, ele pode confirmar que assistir a três comícios numa mesma noite pode se transformar num pesadelo... Vamos aos fatos!” A noite estava esplêndida! Céu estrelado, vento leste soprando e rojões chamando o povo para muitos comícios, Dito Mandinga, jovem pescador de vinte anos dirigiu-se ao Canto do Morro a fim de prestar atenção nas propostas de Sir Ney, um dos candidatos ao cargo de prefeito. Entre as barraquinhas de milho verde, pipoca, doces e salgados, cerveja em lata, batidas e sucos, churrasquinhos e tapioca, notou que uma garota o olhava com interesse... Longos cabelos negros, vestido longo, pele alva de quem não toma sol com frequência... “Uma serracimana” pensou Dito. Tentou uma aproximação, mas no entrevero da multidão acabou não encontrando a moça. Por um bom tempo a procurou, a rapariga havia desaparecido sem deixar rastro... Dito resolveu assistir a outro comício. Próximo a Passarela do Rocio, Antony Rios mostrava ao que veio, o povo atento aplaudia e os vendedores de picolé, xurrus, pamonhas, raspadinha, água de coco e batidas faziam a festa... Dito deu de cara com a garota de longos cabelos negros, dessa vez notou que seus olhos eram tristes, a garota como que assustada fugiu entre a multidão e depois de muita procura em vão, Dito um tanto desgostoso se dirigiu ao último comício no Porto do Ribeira. Mandinga seguiu pela avenida principal, aquela que tem três nomes diferentes... No comício do “estrangeiro”, assim chamado porque o candidato não era do Brasil e sim da França, Dito reencontra a moça de olhar tristonho. Era muita coincidência! Pelo jeito tinham algo em comum, ambos gostavam de comícios, dessa vez nem notou a oferta de caipirinha, espetinho de frango, linguiça na brasa e quentão, foi direto na rapariga sem dar tempo para uma nova fuga. Dito, que em cada comício provava dos comes e bebes, a essa altura do percurso já estava para lá de Cananéia, ou seja, torrado! Com aquele jeitinho tão caiçara de ser se ofereceu para mostrar a Orla do Valo à menina “de fora”... A garota era deveras diferente, quase não falava... Foram andando pela nova ciclovia e no escurinho da paisagem Dito, sem querer querendo, pegou na mão da acompanhante... A mão era gelada! Nesse momento ouve uma transformação... A moça virou a cabeça em direção à água e puxou com terrível força Dita Mandinga para a beira d’água, o vento parou de soprar e Dito horrorizado notou uma tremenda transformação na acompanhante... Seu belo rosto era uma caveira e a veste longa cobria um esqueleto de frágeis ossos brancos... Era a Morte tentando levar Dito Mandinga consigo. Dito a muito custo conseguiu se desvencilhar, aprendeu a lição e nunca mais assistiu a três comícios numa mesma noite, concluiu vovó Maricota com aquele ar misterioso de quem sabe de muitas coisas e guarda segredos desconhecidos de bicho que vira homem, mulheres sereias que atraem quem passa depois da meia-noite pela Orla do Mangue, cachorros que pedem informação a passantes de dentro da escuridão... Muitas coisas acontecem após o escurecer entre a Fonte do Senhor e a Passarela, entre o Mar Pequeno e o Porto do Ribeira... Todo o cuidado é pouco! Vamos dormir que amanhã é outro Dia. Gastão Ferreira/2012

Coisas nossas...

DONA PERERÉCA A mata está em festa, chegou a hora da escolha do novo rei e dos representantes do povo da floresta. A comadre Onça, esperta e matreira, promete a construção de uma ponte ligando diretamente o rio à floresta, é muito ovacionada, isso é, jogam ovos podres no felídeo. O Tatu anuncia que um túnel é a única solução para evitar acidentes com o constante vai e vem no matagal. O Bicho Preguiça promete um teleférico, alegando que todos os animais têm o direito de curtir a magnífica paisagem vista do alto da montanha. O Macaco investe na diversão, muito som e discotecas para a rapaziada. Os candidatos à coroa prometem o paraíso. De todos os habitantes quem mais se diverte com o evento é Dona Pereréca. Não perde comes e bebes... Pereréca bêbada não tem dono, diz um ditado popular. Alguns dos candidatos fazem questão de colocarem seus adesivos, ao vivo e a cores, na Dona Pereréca. Bem antes da grande disputa surgiram comentários negativos envolvendo as Pererécas, a família é grande e nunca se sabe quem é parente de quem. Dona Pereréca na atual disputa já ganhou moto, uma reforma na moradia e muito dindim, pois Pereréca que se presa não faz nada grátis para ninguém. Quem trabalha de graça é o compadre Burro e quem acredita em promessas é o compadre Coelho, que vira chaveiro. O Quero-quero vive de pedir favores e sempre indeciso não sabe em quem votar. O Pardal, como sempre encima do muro, no final vai aderir ao vencedor. O Bem-te-vi não perde comício e comenta tudo o que vê. Na floresta sempre foi assim, nunca deram sossego a Dona Pereréca, não seria nessa disputa que um costume tão arraigado desapareceria. Nas eleições anteriores famílias foram desfeitas, escândalos abafados e concorrentes se aproveitaram das jovens e fogosas Pererécas para ferrarem com adversários. A estirpe das Pererécas é antiga e a linhagem não corre risco de extinção... Atualmente as Pereréquinhas são mais desinibidas, sentem orgulho do que fazem e ficam horrorizadas ao saberem que antigamente se prendiam as Pererécas sapecas. Os Gaviões agradecem, as Cobras têm botes certeiros e os Veados nem ligam, são herbívoros... A floresta um dia aprenderá a valorizar a incansável Dona Pereréca, sem ela a mata é triste, os pássaros não cantam, os lobos não uivam, os peixes desaparecem e o sol não brilha. Vida longa à Dona Pereréca e ao futuro rei. Gastão Ferreira/2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Toninho das Virtudes...

ENTREVISTA NA RÁDIO... A rádio oficial resolveu entrevistar ao vivo os edis de uma pequena cidade. O entrevistado de hoje é Sua Excelência, o nobre vereador Toninho das Virtudes, quem faz as perguntas é Dinho da Viúva, dono da emissora; - “Vossa Excelência foi fotografado na recente exposição de Pinturas e Grafites do município... Um querido ouvinte gostaria de saber desde quando o senhor é amante do belo?” - “Meu caro da Viúva, primeiramente quero deixar claro que eu sou muito macho e não admito suspeitas sobre minha opção sexual... Digo e afirmo que não conheço o Belo, nunca conversei com o Belo e não sou amante desse mequetrefe...” disse colérico o representante do povo. - “Calma nobre vereador! Estou me referindo as Belas Artes...” balbuciou Dinho da Viúva. - “E por acaso o senhor acha que eu conheço alguma sirigaita chamada Belas Artes? Respeite a minha Excelência! Não sou daqueles que não perdoam nem gente da própria família. Sou casado com dona Vesúvia há vinte anos e somos felizes...” gritou indignado o vereador. - “Vamos saltar essa parte sórdida! Outro atento ouvinte quer saber qual a sua opinião sobre o prédio histórico tombado, Correio do Velho... Vossa Excelência é a favor ou contra uma reforma definitiva do mesmo?” inquiriu o jornalista. - “Totalmente favorável! Aliás, sou a favor de várias reformas em todos os velhos prédios da cidade... Parece que tem uma cabeça de burro enterrada no Correio do Velho... Já deram um abraço de despedida, choraram, gritaram, soltaram foguetes, fizeram teatro e nada... Nem uma porta foi colocada e ninguém explica para onde foi o dinheiro tão anunciado e nunca utilizado...” desabafou o vereador. - “Vereador o senhor tem ideia de onde foi parar o dinheiro?” - “Que dinheiro?” - “O dinheiro que chegou para reformar o Correio do Velho...” - “Não sei de nenhum dinheiro!...” - “Vossa Excelência acabou de informar que nem uma porta foi colocada e o dinheiro sumiu...” - “Meu caro entrevistador, não distorça as minhas palavras... Cidadão! Eu afirmei que o dinheiro ninguém viu e não viu mesmo! Ele não chegou ao município...” - “Como não chegou! Sua liberação mereceu até nota no jornal mais lido da cidade...” disse Dinho da Viúva, mostrando o jornal ao entrevistado. - “Problema do jornal! Eu hein!” - “Vamos encerrar a entrevista... O senhor gostaria de mandar um recado aos nossos ouvintes?” - “Caros ouvintes, amigas e amigos admiradores de meu árduo trabalho em benefício de nossa querida cidade, conto com vocês! Na próxima eleição quero continuar contribuindo com a moralidade, a ética, a transparência no trato da coisa pública... Chega de impunidade... Chega de sacanagem... Seu voto é muito importante, votem no trabalho, na experiência, na dignidade... Votem em mim! Toninho das Virtudes... Obrigado!” Gastão Ferreira/2012

sábado, 15 de setembro de 2012

É mentira... É mentira...

O DESPERTAR... Dito Berne era o retrato de nossa amada cidade. Manjuba seu prato predileto, encantava-se com foguetes, participava de procissões, se esbaldava em diversos blocos carnavalescos e em época de campanha eleitoral não perdia comícios. Foi devido a um comício que sofreu um leve derrame cerebral. Os candidatos se esmeravam na letra das músicas de campanha, pois era nas letras que eles falavam de seus planos, das futuras realizações e pediam voto ao eleitor. Dito, crédulo como só pode ser um eleitor iguapense, prestava atenção nas propostas majoritárias e de repente passa um carro de som cantarolando; É mentira... É mentira... É mentira... É mentira... O mundo de Dito Berne apagou. Os familiares imediatamente chamaram uma ambulância e Dito foi levado a Pariquera, cidade onde nascem todos os filhos adotivos de Iguape, entrou em coma profundo e assim permaneceu por três anos. Acordou no ano de 2015, saudável e saudoso de sua querida cidade, seu irmão, Beto Berne, foi buscá-lo no hospital. No caminho de volta ao lar a conversa era amena. Ficou sabendo do casamento do irmão e do nascimento do sobrinho; - “Parto normal?” perguntou Dito. - “Sim, o novo e moderno hospital construído no Rocio dispõe de uma excelente maternidade!” disse o irmão. - “Ora, veja só! Então finalmente temos uma Saúde de primeiro mundo...” murmurou Dito Berne. - “O hospital é imenso... Na verdade estamos com falta de pessoal especializado, tem até mesmo uma ala para recuperação de drogados...” informou Beto Berne. - “Nem tudo pode ser perfeito, não vejo a hora de passar pela Barragem, aí sim acreditarei que estou em casa...” disse Dito Berne com o olhar saudoso. - “Agora temos uma moderna ponte, a Ponte Tigrinho, ligando o centro da cidade ao bairro do Rocio... Está situada entre o Porto da Balsa e o Mario Ferros...” informou Beto. - “Mano Betico! Acho que você errou o caminho... Vejo lá na frente muitos edifícios...” falou preocupado Dito Berne. - “São as novas edificações de dez andares e todas possuem elevadores panorâmicos... Os turistas pagam para desfrutar da belíssima paisagem vista do alto dos prédios...” informou orgulhoso Beto Berne. - “Meu Bonje! Estou ficando louco. Estou vendo um disco voador!...” gritou angustiado Dito Berne. - “Calma maninho! Aquilo é o bondinho do teleférico...” riu Beto Berne. - “Que beleza! Então o candidato a vereador cumpriu a palavra?” indagou Dito. - “Todos os vencedores cumpriram o prometido...” informou Beto. - “Realmente estou assombrado e olha que eu não botava fé nas propostas... Recordo que assisti a quatro comícios e estava um tanto indeciso... Lembro-me de três candidatos, o garotão que prometia que “chegou a hora e a vez da mulher iguapense”, o que traria cursos profissionalizantes e um moderno hospital e outro que garantia uma devassa geral nas contas públicas, exílio perpétuo aos pilantras e a chegada do progresso... Afinal quem venceu?” perguntou Dito Berne. Nesse exato momento quando Dito Berne finalmente descobriria qual o candidato ficha-limpa, ético, honesto, trabalhador que conquistara o mandato, um grupo de jovens frequentadores de Opens-bar fecharam a pista exigindo a proibição de a velharada andar no centro histórico... Centenas de pedintes com cartazes “nóis é gente e quer respeito”, entraram em atrito e sobrou pancadaria. Dito Berne comentou com o irmão; - “Nem precisa me dizer quem venceu... Iguape é única e eu amo esta cidade... Só em Iguape mesmo! Meu bonje! Estou em casa.” Gastão Ferreira/2012

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Boa viagem

RITUAIS FÚNEBRES... A longa jornada evolutiva do homem sobre o planeta Terra se perde nas entranhas do tempo. A ideia de uma parte imaterial do ser humano sobreviver à morte criou os rituais fúnebres. Os paleontólogos encontraram junto aos esqueletos do Homem de Neandertal (300.000 a 29.000 A.C.)ornamentos, em covas cuidadosamente escavadas, decoradas com flores e outros motivos simbólicos, uma evidência de crença na vida após a morte. A mumificação, especialmente em pessoas mais proeminentes, era comuns entre os Incas e os egípcios, ambos os povos acreditavam na reencarnação. Os Maias enterravam seus mortos em imensos palácios e criam em três planos no cosmo; A terra, o céu e o submundo. A cremação é outro dos processos mais antigos praticados pelo homem. Entre os gregos e os romanos somente os criminosos, os assassinos, os suicidas, as pessoas fulminadas por raios (Uma “maldição” de Zeus/Júpiter) e crianças falecidas antes de nascerem os dentes eram enterradas. No Japão a cremação foi adotada com o advento do Budismo em 552 D.C. As cremações mais antigas datam de 60.000 anos em Nova Gales do Sul (Austrália), junto ao lago Mungo, tal prática é comum, nos dias atuais na Índia. O sepultamento foi adotado pelos cristãos após o papado ratificar o dogma da Ressurreição dos Mortos no juízo final. Na Europa, os sepultamentos dentro das igrejas eram comuns até a chegada da Peste Negra quando as igrejas não comportavam mais tantos corpos e os cemitérios foram instituídos. No Brasil colonial e imperial os sepultamentos dentro das igrejas existiram até o ano de 1820 quando foi proibido, momento em que construíram os primeiros cemitérios. Até então somente negros escravos e indigentes eram enterrados fora das igrejas. Os homens livres eram sepultados nas paredes laterais e subsolo nas igrejas, por isso o tamanho de uma cidade era medido pela quantidade de igrejas que possuía, pois as igrejas faziam o papel de cemitério. O homem primitivo possuía uma vaga ideia do alem túmulo, pouquíssimas pessoas desacreditavam da continuação do ser. Todos os povos que cultuavam algum deus ou deuses acreditavam no há de vir... Assim os Indús com seus ciclos carmicos de contínuas reencarnações partiam e voltavam do Amavarti, os Nórdicos do Walhalla, os Maias do Metmal, os Japoneses do Yomi, os Incas do Uru Pacha, os Islâmicos do Jannah, os Sumerianos do Ki Gal, os Hebreus do Sheol, os Chineses do Diyu, os Celtas do Annwn, os Astecas do Mictlan, os Babilônios do Kurnugia, os Budistas di Nakara, os Cristãos do paraíso ou inferno, os Egípcios do Amenti e os Gregos dos Campos Elíseos ou do Hades. O povo egípcio tinha verdadeira fascinação pelo o que ocorria com o Ka (espírito) após a morte física, possuía rituais específicos contido no Livro dos Mortos para salvá-lo dos tormentos eternos. Os Gregos acreditavam que as almas dos recém-mortos eram transportadas por Caronte, o Barqueiro do Hades, para a outra margem dos rios Estige e Aqueronte, rios que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Tudo o que nasce morre, um dia partiremos para o mundo espiritual. Quem não crê parte certo de que morreu para sempre... Quem acredita espera estar junto a seu Criador orando e louvando. E, tem muitos que querem retornar a matéria e aprender muitas e muitas coisas que desconhecem... Façam suas escolhas e Boa Viagem rumo à eternidade. Gastão Ferreira/2012

O temível Conde Phat...

UM PASSO ALEM DO JARDIM... Marisol era uma garota privilegiada. Como não ser feliz se vivia em uma cidade tombada, com o patrimônio histórico e artístico totalmente preservado? Indagava a seu cãozinho Junior Sapeca e o cachorro abanava o rabo e fazia-lhe mil festinhas. Seu pai, o poderoso e nobre Conde Phat, era cuidadoso com seu feudo. As casas coloniais pintadas gratuitamente nas cores originais, calçadas de pedras seculares com seus encaixes perfeitos, evitando tombos e quedas... Nunca ninguém teve a coragem de perguntar ao nobre e ranzinza Conde Phat como ele sabia qual a cor original dos prédios antigos, a fotografia colorida foi inventada no século XX e as casas preservadas são do século XVII... Eu hein! Um dos passatempos prediletos de Marisol era brincar no grande jardim público, conhecido como a Fonte do Senhor, o local era deveras aprazível, com suas águas cristalinas, lago com muitas espécies de peixes nativos, estátuas, quiosques, onde se respirava parte da história da cidade... Seu riquíssimo tio, o senhor Iphan, que metia o nariz em tudo que fosse relacionado com patrimônio histórico, lhe contara que muitas das árvores do grande jardim foram transplantadas diretamente da velha Praça da Matriz para a Fonte do Senhor. Na antiga Praça existiu um orto florestal com plantas exóticas. Prometeu levar a sobrinha para conhecer todas as árvores, pois elas possuíam uma placa indicando o país de origem. A cidade contava com cinco chafarizes públicos e a menina Marisol acompanhava a escrava encarregada de buscar a água. Muitas vezes a fila era tão longa que ficavam horas na espera da vez. Nesse local se sabia das novidades e das fofocas; - “Nhá Gardina, muié do coroné Aristides, bateu de cinta na sinhazinha Mathilde onti à noitinha... Nhanhá suspirou ao ver da janela o garboso mancebo Othoniel... Hi, aí tem dente de cuelho!” Marisol foi proibida de assistir aos açoites dos escravos no pelourinho, era muito infantil e poderia não entender o porquê das autoridades gostarem tanto de espancar os cativos, no burgo existiam cinco pelourinhos e aja chicotada... Pela manhã acordava cedinho, o mais tardar às seis horas, também como dormir com o festival de sinos badalando enlouquecidos, era três igrejas, bem próximas uma das outras, competindo na barulheira. Antes do café matinal acompanhava sua mãe à missa, na volta tomavam o desjejum, pois a senhora sua mãe comungava e se confessava diariamente... A menina Marisol não entendia o porquê de tanta confissão. Sua genitora era uma alma pura e humilde. Espancava a criadagem, mas surrar escravos não era pecado e sim uma forma de educá-los. A cidade em que Marisol cresceu era muito rica, possuía um grande porto, tirando a elite que sempre viveu de nariz empinado e fazendo cara de nojo para com os pobres, as pessoas eram hospitaleiras e festeiras... Uma localidade para ninguém por defeitos. A história de Marisol data do final do século XIX, a cidade cresceu, a escravidão acabou. O progresso fugiu e o tempo levou para o esquecimento todos os sonhos... Para alem do jardim, os fantasmas do senhor Conde Phat e de seu irmão, o senhor Iphan ainda tentam dominar a cidade com promessas invisíveis. A um passo alem do jardim a realidade é outra, os antigos casarões desmoronam, os pelourinhos desapareceram, os chafarizes foram para o lixo... A parte boa dessa história é que nhanhá Mathilde fugiu com o garboso mancebo Othoniel e foram felizes para sempre. Gastão Ferreira/2012

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Dito Barbeiro...

O ESPELHO E O TEMPO Esse espelho é o meu instrumento de trabalho. Há mais de setenta anos ele conhece o meu rosto. Meu nome é Benedicto Pereira, o Dito Barbeiro da Praça da Basílica... Aqui cheguei em 1957 vindo de Registro para substituir um colega por oito dias e fiquei em definitivo. Foram quatro horas de Registro a Iguape e o ônibus era da empresa Litoral Sul Paulista, cidade pequena com ruas de terra, praticamente uma ilha. A única entrada por terra ligava o bairro do Rocio a Pariquera. Todos os caminhos eram aquáticos. Não havia a barragem nem passagens para os bairros rurais de Jairê, Mumuna, Peropava, Pé da Serra, Icapara e Barra do Ribeira, estrada para São Paulo nem pensar. Lembro que a periferia terminava na Rua Ana Cândida, depois, casas só no Porto do Ribeira. Presenciei o surucar do Valo Grande, em uma única noite a água desapareceu com dezenas de moradias. Uma tragédia! Mais de vinte metros das margens desmoronaram e as pessoas perderam tudo o que possuíam. Não cheguei a conhecer o chafariz nem o coreto que ficavam atrás da Igreja Matriz, mas lembro do belíssimo chafariz frente ao Fórum atual, também não conheci o Pelourinho. Quando cheguei a Iguape o prefeito era Casimiro Teixeira, os quinze prefeitos que o sucederam foram meus fregueses. Minto! Dona Bete nunca cortou o cabelo comigo. Por meu salão passaram padres, os bispos Dom Aparecido e Dom Luiz, o bispo de Santos, pastores, pais de santo, gente de todas as religiões, pessoas de perto e de longe, a fina flor da sociedade, ricos e pobres, loucos, pedintes, romeiros. A todos tratei com o devido respeito e consideração. Seus comentários, se os houve, foram esquecidos. Tem vezes que me olho nesse espelho tempo e me vejo jovem. Um rapaz de 21 anos em busca de um sonho. Alguém que confiou no trabalho honesto do dia a dia para ganhar o merecido pão. Há 55 anos Iguape era bem diferente, duas farmácias, a Bom Jesus e a Colombo... Três padarias, a do Miguel Ribeiro, a padaria do Patrício e a de Munitor Cardoso, muitas lojas e todas conhecidas pelo nome dos proprietários, Casa Evaristo, Horacio de Andrade, Gasparino Costa, Bento Neto, Dito Santana e outras. Quatro clubes, o Primavera, o 55, o Supimpa, O Peniche do Porto. Dois cinemas, O Cine Jó no Sobrado dos Toledos era dos padres, o Cine Lamar era do Nenê da Luz. No porto da balsa, lado do Rocio, existia apenas o Bar do João Flora e algumas casas. Fora os pouquíssimos caminhões, o transporte era feito por pequenos barcos e canoas. Não existiam estradas e a cidade terminava no Porto do Ribeira. A Santa Casa e sua maternidade atendiam aos doentes e as gestantes, os romeiros chegavam de pau-de-arara e os cavalos eram proibidos de entrarem na cidade, ficavam aguardando seus donos nos pastos do Rocio. A energia elétrica, fornecida por um gerador, só era ligada das 18 às 24 horas. Era depois da meia noite que começavam as serenatas. Os carnavais foram inesquecíveis, as festas marcavam profundamente... São Benedito, Trindade, Santos Reis, Espírito Santo eram aguardadas com ansiedade e o grande programa era passear na Fonte do Senhor nos finais de semana. As crianças brincavam, os jovens namoravam e as famílias faziam seus piqueniques pondo as novidades em dia. Nas fábricas Palmito Caiçara e Palmito Peniche, moças e rapazes trabalhavam em turnos, mais de duzentas pessoas tinham emprego fixo. Da Serraria Maneco Rocha, que lidava com Caxeta e esteiras de Pirí, muitas famílias tiravam o sustento diário. A Marinha Mercante, a Marinha de Guerra, a Policia Militar, a Prefeitura Municipal davam empregos aos mais instruídos. A pesca era farta e a produtividade na área rural garantia a sobrevivência da população. Esta foi a Iguape de minha mocidade, uma cidade ordeira, sem pedintes, sem drogas, sem assaltos. Gente pobre, mas de uma alegria contagiante, os romeiros ficavam nas casas dos conhecidos de outras Festas. O povo era extremamente gentil, igual à hoje, não perdiam uma oportunidade de contar uma boa história e fazer amizade. O passeio em volta da Praça da Matriz era o programa favorito a uma saudável paquera. Moças caminhando num sentido, rapazes em outro, o famoso “footing” e foi assim que conheci Ruth Ribeiro, o amor de toda uma vida... Namoramos por quatro anos, casamos e vieram os filhos Edson Ribeiro Pereira e Marli Ribeiro Pereira, ambos professores e formados em nível superior. Temos quatro netos, os filhos de Edson, a neta Milena é formada em odontologia, Mayara estuda medicina veterinária e Edson Junior cursa engenharia. O filho de Marli, meu neto Rodrigo, será o mais novo dentista da família. Quem me entrevistou, perguntou se minha vida valeu a pena? Qual o recado a ser mandado? Nenhum recado! Eu respondi... Trabalho desde os dez anos de idade, sou um homem que estudou até a quarta série do primário, alguém que sempre trabalhou honestamente como barbeiro, alguém que conheceu muitas autoridades, juízes, delegados, doutores, religiosos graduados, pessoas ricas e pessoas sem posses, a todos atendi sem distinção... Realizei meus sonhos, digo que fui alem do que ousei sonhar. Tenho uma família da qual me orgulho, bons filhos e excelentes netos, mas nada disso teria ocorrido se numa tardinha na Praça da Matriz, uma mocinha linda, tão sonhadora quanto eu, com estrelas nos olhos, que por cinquenta anos compartilha minha vida, chamada Ruth Ribeiro não tivesse me aceitado como esposo. A essa amiga, essa companheira, essa metade de mim, essa terna luz que me ilumina, eu agradeço toda a felicidade alcançada. Esse espelho é o meu instrumento de trabalho. Há mais de setenta anos ele conhece o meu rosto... Conhece cada ruga com que o tempo me presenteou, partilhou das minhas poucas dores e das muitas alegrias... Sorriu ao jovem sonhador e ainda sorri ao velho companheiro de trabalho. Ele sabe o quanto sou grato ao Criador e o quanto sou feliz... Obrigado. Gastão Ferreira/2012

sábado, 8 de setembro de 2012

Apenas uma tradução...

COISAS DE PINDAÍBA... Para os que desconhecem nossas lendas... Pindaíba foi um reino situado na Amazônia legal, um pedaço do Paraíso que tinha tudo para dar certo, água em abundancia, montanhas verdejantes, um povo hospitaleiro que adorava debochar de si mesmo e que sabia que a vida é apenas um pequeno sopro na imensidão do universo... Lendas de Pindaíba são textos encontrados numa antiga caverna e escritos em Nheengatú (a língua boa) a linguagem coloquial dos silvícolas brasileiros, também conhecida como Língua Geral. Os escritos originais foram traduzidos e publicados em (www.gastaodesouzaferreira.blogspot.com) onde poderão ser consultados a qualquer hora pelos interessados nessa antiga civilização desaparecida no tempo. Abaixo mais um texto traduzido; “Foi no império de Imbethsilda-I que as sombras da impunidade dominaram o fantástico Reino de Pindaíba. Há muito as forças do mal rondavam a aprazível localidade, mas os nove Cavaleiros Guardiões, mantenedores da ética e da moralidade combatiam sem trégua o temível monstro. Imbethsilda-I foi coroada rainha por seus próprios méritos, advinda da comunidade dos Guardiões, sempre se mostrara atuante e honesta. Mal assentada no trono, escolheu pessoalmente seus conselheiros íntimos, pajens e o Bobo da Corte. Até hoje permanece a dúvida! Ela sabia ou não que a maioria dos integrantes de sua corte pessoal estava mancomunada com a escuridão? Tadinha da Imbethsilda-I! Foi um período de sofrimento para os habitantes do reino. Saúde deficitária, falta de emprego, prostituição infantil, assassinatos, aumento no tráfico de drogas e invasão de pedintes, marcaram profundamente sua triste passagem pelo trono de nossos ancestrais. Os nove Cavaleiros Guardiões fecharam os olhos aos desmandos da rainha e sua corte de farsantes. Nunca na longa história do reino um seleto grupo de súditos foi nomeado para altos cargos com rendas tão elevadas. A justificativa era que tais pessoas possuíam dotes especiais tinham douto saber e outras invencionices nunca comprovadas. No reino a pobreza era endêmica, apesar dos belos palacetes, reluzentes carruagens e fogosos corcéis Honda e Yamaha, os súditos se trocavam por qualquer bugiganga, uma dentadura, um churrasco, uma lata de cerveja, uma carícia mais ousada, um tapinha carinhoso nas costas, um subemprego para um filho ou parente... Esse era o costume ancestral, essa era uma das razões pelo entrave do progresso. O reino sobreviveu à falta de transparência, a ganância, a imoralidade administrativa. A diferença das outras vezes em que o reino foi sacudido pelo vendaval da politicagem é que os reis foram depostos e execrados publicamente. Desta vez as sombras da mediocridade e pilantragem alastraram suas negras raízes entre a juventude... Chegou a hora de Imbethsilda-I passar a coroa ao seu sucessor legal. Três nobres cavaleiros disputam o trono de Pindaíba, à saber; - O Cavaleiro Jacaré, cognominado O Jovem... O Cavaleiro Coelho, conhecido como ex-guardião mor da moralidade pública... Por último o Cavaleiro Elefante, apelidado O Estrangeiro... Todos são fãs do Jogo do Bicho e com doutorado nos obscuros caminhos da política regional. A rainha escafedeu-se nas entranhas do Palácio Real. Mimoseou suas princesas com belas mansões, pagas a vista e sem choro. Enquanto as magníficas obras de sua administração racham e desmoronam antes da inauguração, os canais aquáticos se tornam inavegáveis, as crianças nascem em solo estranho, a soberana, com sua estranha mania de guardar seu ouro em seu piano, continua a manipular os menos esclarecidos com acenos e beijinhos de dentro de sua luxuosa carruagem. Os duelos verbais entre os três cavaleiros pretendentes ao trono ajuntam multidões e mechem com o imaginário popular... Rojões são detonados dia e noite... Visitas em horas indesejadas irritam as donas de casa... Som altíssimo nas ruas... Estandartes nas estreitas calçadas enervam os transeuntes... Retratos de desconhecidos entulham a maioria das caixas de correspondência. Alem dos três pretendentes ao trono, perto de cento e sessenta cidadãos da mais fina origem e ilibado conhecimento, disputam entre si os nove cargos de Veneráveis Guardiões. Pindaíba aguarda com ansiedade e certa curiosidade, o fim das baixarias verbais entre os pretensos Nobres Guardiões, o fim da era das trevas se aproxima e o começo de um novo ciclo, onde a transparência, o bom senso e a civilidade governarão o destino do reino está chegando... Oxalá dê certo dessa vez!” OBSERVAÇÃO NECESSÁRIA - Texto extraído aleatoriamente das “Crônicas de Pindaíba”, Nheengatú é uma língua extinta e de difícil tradução... Aguardem pacientemente a revelação de novos acontecimentos... Qual dos nobres cavaleiros conquistou a coroa? O que aconteceu com a Rainha? Quem são os novos nove Guardiões da moralidade e da ética? Também eu estou curioso para saber... Vamos aguardar! Gastão Ferreira/2012

Uma fábula a mais...

O COVIL DOS SUPER-HERÓIS......... Existe um local, junto ao famoso “Farol do Bagre Solitário”, onde vez ou outra se reúnem os velhos super-heróis. É apenas um ponto de encontro e nada mais. Um esconderijo para matar a saudade, tomar uma cerveja, provar uma carne assada, uma asinha de frango e outros petiscos... Ontem foi noite de reunião. Zorro, de óculos escuros, chicote sado masoquista e capa preta, estacionou sua moto “Silver” frente ao estabelecimento. Uma decadente Mulher Maravilha de barriga um tanto saliente e peitos caidaços, veio a seu encontro; - “Quem bom vê-lo amigo Zorro! Tonto não veio com você?” - “Você não está sabendo? Nosso caso teve um fim inesperado... Fui traído e o tonto do Tonto fugiu para Subauma com o bisneto de Jerônimo, o herói do sertão... Cachorro!” Tocha Humana e Mandrake sentaram a mesma mesa, a mesa dos mágicos. Tocha, envolto em algumas ataduras, reclamava da vida; -“ Velho companheiro de aventuras! Semana passada joguei álcool no corpo inteiro... Toquei fogo, veja o resultado! Estou todo queimado... Creio que perdi meus super poderes.” - “Envelhecemos Tocha! Eu também já não consigo esconder uma espada por completo... Estou tentado a fazer tal mágica com pepinos.” queixou-se Mandrake. Na mesa das super mulheres, entre outras, Sherra, Munhrá, Mulher Invisível, Super-moça, Mulher-gato, Mulher-jaguatirica e Narda, a ex-musa de Mandrake fofocavam; -“ Espero que a irmã do Hulk não dê as caras por aqui” disse Jane, a viúva de Tarzan dos Macacos. - “Por que querida? Ela é tão simpática.” sibilou a Mulher-serpente. - “E também muito sensível! Na última reunião estragou a festa.” lamentou a Mulher-pantera. - “Quem esperava pela passagem de um carro de som eleitoral frente ao Covil! Todos sabem que ao ouvir gritar o número 45 ela se transforma na Garota-aerbag e sobra peitada para quem está próximo...” explicou a Mulher-relâmpago. - “Realmente, alem de quebrar inúmeras garrafas, ela nocauteou umas cinco pessoas...” lembrou Mulher-cascavel. Nesse momento Batman adentrou o recinto, Robin quase careca e alguns fios grisalhos, com uma mini capa roxa cravejada de lantejoulas, um short um tanto justinho para a idade e meia máscara negra, deu uma bela mancada, chamou Batman de Clark Kent e o tempo fechou; - “Meu nome é Bruce Wayne e não é porque você está com Mal de Alzaimer que vou permitir que me confundisse com aquele farsante do Super-homem... Ouviu Júnior?” Estava armada a confusão, três identidades secretas reveladas sem mais nem menos em poucos segundos. Lanterna Verde comentou com Lanterna Vermelha a mancada de Batman; - “Bem que eu desconfiava que a identidade secreta de Robin, o ex-menino prodígio, fosse o Júnior...” - “Quem é Júnior?” perguntou Lanterna Vermelha. - “Aquele tiozinho que fez um pacto com o Senhor das Trevas para obter super poderes...” informou Lanterna Verde. - “São tantos tiozinhos na cidade! Tem velhinho sacana se achando tiozinho até no Face book... Não conheço nenhum tiozinho chamado Júnior...” disse Lanterna Vermelha. - “Aquele que... (sussurrou algo no ouvido de Lanterna Vermelha)... E que... (mais sussurros)... E que ganhou o título de Rainha dos Seguranças no carnaval e... ” - “Quer parar de cuspir no meu ouvido! Esqueceu que fiquei surdo devido a um rojão desgovernado que me atingiu no comício do...” gritou Lanterna Vermelha. - “Quer dizer que sua identidade secreta é Dito Taquara, o único a ser atingido por um foguete durante o comício do...” falou Lanterna Verde. - “Hein! Não estou ouvindo nada. Estou surdo já disse...” choramingou Lanterna Vermelha. Nesse momento tão esperado, em que a máscara de Robin cairia definitivamente, um grupo de jovens supermaus entrou no recinto e tentou acabar com a festa; - “Aí velharada! Vocês já eram... A cidade agora é dos jovens... Chega de coroas tentando impor valores ultrapassados... Ética, justiça, moralidade! Que vão se catar... Chegou a nossa vêis, nóis tem morau de sobra... Aí cambada! Vamo dá um cacete nessas múmias e mostrá à força jovem...” Não foi dessa vez que os Jovens do Mal obtiveram a vitória, na verdade levaram a maior surra. Os velhos super heróis não permitiram que os valores se invertessem... Os super-nóias apanharam prá cacete e talvez tenham aprendido que o respeito, a honra, a verdade, a honestidade e a experiência não podem ser posta de lado quando se quer progresso e um mundo melhor. Capitão America/Iguape/2012 Gastão Ferreira/2012

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Uma história banal...

A ESPERTA CATRINA... Catrina nasceu com nome de furacão, desde o prézinho mostrou ao que veio. Jamais dividiu sua merenda com algum colega, preferia o escambo ou simplesmente a grana; - “Jujú esse lanche está uma delícia! Quer trocar por sua caneta de tinta vermelha? Vendo ele por dois Reais.” Seu sonho era ser num futuro longínquo diretora de escola municipal no colégio frente a sua casa; -“Não vou me matar de estudar para ganhar uma mereça! Nem fazer concurso com cartas marcadas... Todos dizem que ser diretora de escola municipal será a profissão do futuro... Ordenado de marajá, auxílio transporte para quem mora a uma quadra do educandário, cesta básica, uma sala com ar condicionado. Já estou fazendo as amizades certas, ontem emprestei cinco Reais ao Joca, filho do vereador Tigrinho... Nunca se sabe! Se Joca seguir os passos do pai poderá ser prefeito da cidade...” A vida nem sempre é o que sonhamos. O existir é o que é; - Uma viagem dentro do tempo... Catrina perdeu os pais e foi viver com uma tia na zona rural... Parou de estudar, aprendeu a plantar legumes e sobreviveu para novos sonhos. Semi alfabetizada, descolou um emprego como cobradora de ônibus. Conheceu muitas pessoas e fez muitos favores aos passageiros. Sem estudo, sem um curso profissionalizante, não poderia prestar nenhum concurso público, nem o ensino básico concluíra e a única saída era a política. Os políticos eram os mandantes na pequena cidade, faziam o que queriam, não davam a mínima para a opinião pública, ganhavam dinheiro a rodo, se comportavam como cidadãos acima de qualquer suspeita e a única exigência para tanto, era que soubessem assinar o próprio nome... Coisa estranha! Dos que deviam entender de leis, de projetos, de economia e turismo, nada era pedido em conhecimento específico... Acreditavam que aprenderiam com a vida, ou com os colegas mais experientes. Catrina se candidatou... Quem não ficaria encantado com a história da pequena órfã! Caiu nas graças do povão; - “Veja meu filho! A jovem Catrina, sem eiras e nem beiras, está indo a luta e você fica por aí fumando maconha.”, “Vá se ferrar seu bêbado safado!” respondia educadamente o filho drogado. Catrina conquistou seu primeiro mandato como representante do povo, aprendeu rápido o osso dourado do ofício e nunca mais largou as fartas tetas do erário público... Com o tempo participou de todas as maracutaias possíveis, todos tinham o rabo preso com ela... Na verdade Catrina era um arquivo vivo da lambança geral. Os muito pobres e que trocavam o progresso pela paga de uma conta atrasada, uma dose de pinga, uma corrida de táxi, tinham em Catrina uma fonte perpétua de pequenos favores. Na verdade ela estava se lixando para os problemas da população, sabia que se fossem solucionados ela seria desnecessária como representante dos oprimidos, a situação carente devia ser mantida custasse o que custasse. Um dia a casa cai, diz o ditado... Demorou, mas um dia a casa de Catrina caiu... A polícia federal fechou o cerco, os comparsas se escafederam, os puxam sacos sumiram... Na mansão foram encontrados dólares, euros, barras de ouro e muitas joias. Geladeiras velhas, gavetas e até o piano da sala servia como esconderijo da grana surrupiada... Sem curso superior foi engaiolada como pessoa comum... Adeus Catrina! Não falei que a vida é uma viagem através do tempo? Na prisão Catrina recebeu a visita de Joca, aquele garoto filho do Tigrinho, a quem ela emprestara cinco Reais jamais devolvidos. Joca não seguiu os passos do pai, entrou para o fascinante mundo das drogas e ficou milionário... Estava tentado a explorar novos mercados, emprestar dinheiro a juros aos mais necessitados, abrir pontos de vendas em outras cidades. Propôs a Catrina uma sociedade... Pagaria um bom advogado que a livrasse da prisão e com a experiência de Catrina na manipulação dos menos favorecidos ficariam riquíssimos. Os corpos de Catrina e Joca foram encontrados na mata, mãos amarradas, marcas de tortura, ossos quebrados... O jornal noticiou que foi uma guerra entre quadrilhas de traficantes... Na pequena cidade ninguém acreditou como também não acreditam que uma pessoa que se diz honesta, com um salário razoável, possa comprar fazendas, mansões, pontos comerciais, casas e apartamentos em outras cidades. A vida é apenas uma pequena viagem através do tempo, chegamos de mãos vazias e de mãos vazias partimos... Definitivamente; - Adeus Catrina! Gastão Ferreira/2012