quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

QUEM SERÁ O PRIMEIRO?


GUARDAMENTO MUNICIPAL

Quando a Princesa do Litoral, em sua última visita mensal ao reino notou a faixa, não acreditou. Chamou Josephus, o seu eterno secretário para confirmar:- “Josephus! Afira para mim o que está escrito naquela faixa a entrada da cidade...”

- “SEJAM TODOS BEM VINDOS A INAUGURAÇÃO DO VELÓRIO MUNICIPAL”, diz a mensagem...

- “Meu Bonje! Finalmente um guardamento público. Após 473 anos de espera, meus súditos têm um local para velarem seus mortinhos”

- “Majestade! Ainda bem que seu nome não está na lista.”

- “Que lista Josephus?”

- “Opa! A senhora não ficou sabendo? A ralé vil fez uma lista informando qual a pessoa que seria ideal para a inauguração do velório... O primeiro defunto.”

- “Gentalha! Brincando com coisa tão séria. Tudo bem! Quem foi o indicado para o primeiro guardamento?”

- “Curiosa hem Princesa!”

- “Nãnãnãm... Estou apenas atenta aos acontecimentos do reino, mas quem foi o azarado?”

- “Espie a lista!... Vossa Majestade vai ficar abismada.”

- “Deixe-me ver... Meu Deus! Este aqui não é aquele propenso a chiliques? O lambe ovos de Platão?”

- “Qual? O que roubou a placa de bronze da Fonte? Parece que sim...”

- “O cheira-cheira também ganhou muitos votos...”

- “A senhora tem uma memória privilegiada...”

- “Também, fui criada com caldinho de Manjuba! Olha aqui o nome de um animal em extinção... Tadinho!”

- “Os eleitores estão magoados, repare que os nomes da lista, na maioria são de políticos...”

- “Que povo safado! Na hora que precisam de uma dentadura beijam a mão e agora demonstram desprezo...”

- “É verdade! Mas também tem o vice-versa, são utilizados pelos candidatos e depois descartados...”

- “O Zé Povinho está se vingando, tem gente nesta lista que nem mora na cidade...”

- “Não está enganada Princesa?...”

- “Este aqui é da Ilha Comprida... Este de Pariquera...”

- “É mesmo! Até o Bairro do Icapara está representado...”

- “Que vergonha Josephus! Se aproveitarem da magnífica obra para sacanearem os políticos e afins”

- “Não exagera Alteza! A construção é simplesinha, um velório caiçara...”

- “Pelo preço, julguei ser algo monumental...”

- “Pois é! Calar-te boca...”

- “Afinal, pela vontade do povo, quem inaugurará o necrotério?”

- “O nome que está no final da lista, com 90% dos votos válidos...”

- “Meu Bonje! Eu não acredito... Não acredito... Não acredito no que estou lendo!”

- “Nem eu!”

Gastão Ferreira/Dezembro de 2011

Obs.- É apenas um texto fictício, a lista não existe e nem os personagens citados. O primeiro a ser velado, seja quem for, ficará para a história... Prometo escrever uma matéria a respeito de quem inaugurar o Guardamento Municipal.

sábado, 10 de dezembro de 2011

FAZENDO A DIFERENÇA - Dona Cathia


CATHERINE FOTIADIS


A cidade de Tessalônica foi fundada em 316 a.C. em homenagem a meia-irmã de Alexandre Magno, é a capital do Estado de Macedônia na Grécia. Foi nesta urbe de 2.327 anos onde nasceu em 01/11/1940 Catherine Fotiadis, filha do pintor e retratista Fotios Fotiadis e Fotine Fotiadis.

No final do governo de Getulio Vargas muitas mudanças ocorriam em nosso país e a necessidade de mão de obra qualificada era imensa. Foi como imigrante que a família Fotiadis deixou a Europa no navio “Provence” com destino ao Brasil. Catherine, então com catorze anos, desembarcou com seus pais e sua irmã Zoi no porto de Santos em 1954.

Catherine concluíra parte dos estudos secundários na Grécia e aprendeu o idioma português no Colégio Santa Inez, pertencente às Irmãs Salesianas, no bairro Bom Retiro, São Paulo capital. Formou-se Técnica em Nutrição e Alimentação, pela Cati de Campinas. Casou-se com Osvaldo Leri e teve três filhos, Lúcia Cristina Leri Barreiros, Jorge Leri e Alexandra Leri. Os netos Breno e Victor, filhos de Lúcia. Natasha, Dani e Wilson, filhos de Jorge e Milena, filha de Alexandra.

Em 20/01/1979, separada e tentando refazer a vida, chegou a Iguape (Ilha Comprida) com três malas e três filhos. O primeiro trabalho foi numa imobiliária, depois foi Governanta de Hotelaria no Hotel Maré Alta, recém inaugurado. Como funcionária concursada da Prefeitura de Iguape, prestou serviço em diversos departamentos, foi nutricionista da Escola Agrícola, Coordenadora da Merenda Escolar do município, professora do Mobral, deu cursos de Nutrição e Alimentação nos sítios rurais, voltados para o aproveitamento dos produtos de subsistência cultivados pelos pequenos agricultores e foi à pessoa encarregada de reformatar o “Centro Cultural” da cidade na gestão do prefeito Zelão.

No ano de 1990, Catherine deu vida ao que é hoje o Departamento de Cultura e Turismo. Dividia um prédio velho com a Banda Municipal, alguns quadros de pintores regionais e pequeno acervo de artesanato. Mudou o departamento para a Praça da Matriz, onde é hoje a Caixa Econômica Federal.

Autodidata, encarou o novo desafio e venceu. Em pouco tempo muitas novidades; Concursos de Poesia, Contos, Artesanato, Exposições, Biblioteca, Desfile de Modas, Informações Turísticas e um vasto acervo de documentos históricos movimentavam a cidade. Conhecedora da nossa cultura, dona Catherine cativava os turistas com nossas lendas caiçaras. Escritores, pintores e poetas utilizavam o recinto para palestras. Em 1992 foi a primeira vez que a tradição iguapense se apresentou, fora da área urbana do município, com o “Arraial de Iguape” no SESC Pompéia, mostrando aos paulistanos a Reiada, o Fandango, Comidas e doces típicos da nossa região. Nascia ali o embrião do “Revelando São Paulo”, já sob o comando de Toninho Macedo.

As tradições de Iguape começaram a ser apreciadas fora da comunidade e chegavam convites para a apresentação de nosso Turismo e Folclore nos salões de eventos do Banco do Brasil (Agencias Santo Amaro e Praça da Sé), clube da Caixa Econômica Federal em Interlagos, São Paulo capital. Encontro Internacional de Turismo em Foz de Iguaçu, onde o governo chinês ventilou um intercambio nesta área com o município de Iguape e que não foi aceito por nossas autoridades da época.

Catherine fez parceria com a ONG SOS Mata Atlântica, através da coordenadora Nadja Peixoto para a realização de um curso de “Guia de Turismo Mirim”. Convidou Toninho e Gérson Fontes, que moravam no Icapara, a darem cursos de teatro amador nas escolas da cidade (1994), foi o inicio da fase das revelações artísticas nas artes cênicas e que marcou profundamente nosso meio cultural.

Feito o ninho e chocado os ovos de ouro, começou a ciumeira e a briga pelo feudo Turismo. A politicagem venceu... Dona Cathia, como é chamada carinhosamente por seus amigos foi para o ostracismo e trabalhou num quartinho sem janelas até a sua aposentadoria, que ocorreu no ano de 2000. O existir, esta coisa misteriosa, ainda reservava muitas surpresas a recém aposentada. Os filhos criados, casados, os netos chegando e a Vida que até aquele momento tinha sido uma madrasta, de repente da uma reviravolta inesperada.

De lá para cá, dona Cathia foi presidente por três gestões da Casa da Amizade do Rotary, foi coordenadora por doze anos da Pastoral da Saúde da paróquia Nossa Senhora das Neves, conseguiu autorização para levar anualmente, durante o “Revelando São Paulo/Iguape”, a imagem de Nossa Senhora Aparecida Peregrina em visitação as capelas dos sítios distantes e hoje é Ministra da Eucaristia. Fez muitos cursos na Pró-Vida, percorreu o Brasil de norte a sul, conheceu quase todos os países da Europa, viajou pelo Oriente Médio, visitou a cidade de Petra na Jordânia, roubou uma pedrinha das Pirâmides do Egito, rezou dentro do Santo Sepulcro em Jerusalém... Viveu!

Antes que alguém me pergunte como ela conseguiu realizar seu sonho de conhecer praticamente todo o planeta, se era apenas mais uma pobre aposentada da municipalidade? Eu esclareço... Não! Ela não roubou ninguém, não superfaturou artistas, não aceitou propina, não vendeu patrimônio público, não pediu notas frias... Ela, alguns anos após se aposentar, se tornou herdeira universal dos bens da irmã Zoi Fotiadis que morreu solteira. Dividiu o espolio entre os filhos e sabedora que daqui nada se leva, usa a sua parte para viajar pelo mundo até que o dinheiro acabe.

Esta é parte da história de Catherine Fotiadis, uma mulher que nasceu nas terras do reino de Alexandre o Conquistador. A mulher que chegou a Iguape com três malas e três filhos. Como seu longínquo antepassado, ela é também uma Conquistadora. Conquistou o respeito e a amizade do povo de Iguape, assistiu com alegria a colheita dos frutos da árvore que ela plantou e regou com amor e desprendimento. Uma mulher em paz com si mesma, uma pessoa honesta e simples, nunca dependeu de aplausos para fazer o bem à cidade que a adotou como filha... Alguém que trabalhou arduamente para criar e educar sua prole. Alguém que ganhou um presente inesperado na hora certa. Uma pessoa que escolheu Iguape para reconstruir seus sonhos e conseguiu. Alguém que faz a diferença!... Vida longa a dona Cathia.

Gastão Ferreira/2012

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

UM OLHAR SOBRE O PASSADO


JAGUARITIRA (O morro da Onça)

Nossa terra é antiga, há quinze mil anos os formadores de sambaquis andaram neste solo, deixando a marca de sua presença em dezenas de Ostreiros espalhados por nosso município... Eles simplesmente desapareceram da história e ninguém sabe se foram absorvidos ou destruídos pelos diversos povos indígenas que vagavam nômades pela região. Sabemos da presença dos autóctones pelas diversas urnas funerárias encontradas nos sítios arqueológicos.

Milhares de ameríndios ocorriam à nossa província durante a piracema e por aqui moqueavam o pescado. Os Incas nos visitavam através do Caminho do Peabiru, uma via que ligava os Andes ao Oceano Atlântico, mais precisamente Cuzco no Peru, ao litoral na altura da Capitania de São Vicente. Em terras brasileiras era chamada Trilha dos Tupiniquins, um ramal que saindo de São Vicente, passava por Iguape, Cananéia, seguindo para Santa Catarina.

Maratayama (Ilha Comprida) e Iguape são habitadas ininterruptamente há milênios. Nós pisamos neste chão, esquecidos de sua grandiosidade. Desconhecemos as lendas, as rivalidades, os sonhos e as derrotas. Ignoramos os ódios, as paixões tecidas na trama dos devaneios dos que aqui amaram e viveram.

Quando espio a pedra em formato de Onça (Jaguaritira), que sentada na montanha espreita a cidade, meu pensamento voa para aquele passado longínquo e recrio na imaginação o momento da chegada, a montagem das ocas, a formação da taba, o bulício dos curiosos curumins em sua primeira visita ao mar, os cercos as Tainhas, a caça ao Tapir, a Anta, ao Tatu, a Capivara. A algazarra dos Bugios, os bandos de pássaros sobre o lagamar, a água cristalina da fonte, as árvores frutíferas, as danças, as festas, os reencontros.

Nosso solo guarda a memória dos séculos, convivemos com fantasmas milenares, nossa história é real e se perde nas brumas do tempo. Não temos noção do sagrado desta terra abençoada, chão cultivado por mão esquecidas, mas que nos legaram a mandioca, o araçá, a pitanga, o butiá... Terra de turistas incas, terra das lendas. Generosa mãe que jamais negou o alimento ao visitante... Mãe rapinada, saqueada, mal amada pelos aproveitadores sempre a espreita de negociatas, mãe difamada pela ganância de quem devia protegê-la, mãe sempre perdoando, mãe gentil, nossa Iguape!

Terra dos deuses ancestrais, terra de Tupã, de Anhangá, do Curupira e Boitatá, lar dos formadores de sambaquis, dos índios coletores, morada dos senhores de engenho, abrigo dos pescadores caiçaras, residência do Bom Jesus... Iguape, Princesa do Litoral Sul, no alto da montanha dorme uma Onça de pedra sonhando com um mundo que desconhecemos; - Teu passado!

Gastão Ferreira/2011