quinta-feira, 24 de novembro de 2011

CABEÇA DE POTE...


CABEÇA DE POTE

Muito antes da instalação do transporte com balsa no bairro Barra do Ribeira, existiu um imenso bambuzal na foz do rio que deu seu nome ao vilarejo e no meio deste taquaral viveu um homem apelidado Cabeça de Pote.

Cabeça de Pote construiu seu humilde barraco entre os bambus que margeavam o rio, tirava seu sustento unicamente da pesca. Quando da construção do porto da balsa, o desmatamento das bordas do rio foi completo e a tapera de Cabeça de Pote arrasada. O homem já velho, não teve como construir outra morada e de desgosto enlouqueceu. Em sua insanidade passou a falar sozinho, ora rindo ora chorando, mas sempre rogando pragas nos usuários do novo meio de transporte, aos quais culpava pela perda do seu antigo lar.

Com o passar do tempo Cabeça de Pote foi definhando lentamente. Sem amigos, sem família, comendo dos restos que conseguia encontrar, morando num barraco de pau a pique, na mais negra miséria veio a falecer.

Após a morte de Cabeça de Pote um fato insólito começou a ocorrer no local. Nas noites com neblina muitas pessoas enxergavam um vulto gesticulando próximo ao atracadouro da balsa, no caminho que segue para Icapara. Na chegada do transporte, o porto estava deserto.

Naquela época a travessia era escassa, de duas a quatro vezes por dia e quem perdia a última balsa, das dezoito horas, tinha que pernoitar a beira rio. Transporte para o bairro Porto do Ribeira somente após as seis da manhã seguinte.

Conta a lenda urbana e os mais antigos confirmam que era praticamente impossível dormir no porto da balsa. Quando o vivente estava a pegar no sono sentia alguém a cutucar seu corpo, ouvia choro, escutava risos, murmúrios sussurrados ao pé do ouvido, mas ao abrir os olhos estava completamente sozinho. Nem cochilar era possível, bastava um breve desligar da realidade e a assombração recomeçava. Era Cabeça de Pote fazendo sua cobrança, contando sua história, amaldiçoando os desavisados. Os moradores do bairro faziam de tudo para não perderem a última balsa, o medo maior era ficar só na escuridão à espera do alvorecer.

Na atualidade o porto da balsa para a Barra do Ribeira, do lado de quem chega ao bairro possui muitas construções, bares, estacionamento de ônibus de turismo, luz elétrica e as balsas funcionam vinte e quatro horas ininterruptamente. Ninguém pernoita mais do lado de cá do porto, mas os que habitam o local vez por outra ainda ouvem gargalhadas e lamentações. Os mais corajosos afirmam avistar um vulto caminhando na orla do rio e que desaparece na presença de luz. É Cabeça de Pote que inda chora a perda de sua humilde casa. É o Rio Ribeira que jamais esqueceu os bambuzais e junta seu lamento ao pranto do velho pescador que enlouqueceu.

Gastão Ferreira

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