domingo, 16 de outubro de 2011

Uma história real...


BARRA DO FURADO...

Sexta Feira Santa, dia em que Nosso Senhor visitou o inferno, dia em que o capeta manda no mundo, dia em que o mal ronda pelos caminhos tentando os servos de Deus... Nesse dia, dizem os antigos, o melhor é ficar em casa, jejuar, não comer carne e nem ingerir bebidas alcoólicas, rezar e se arrepender dos muitos pecados praticados.

Seu Raimundo nascido no bairro de Peropava conseguira realizar seu sonho, montar um entreposto, nome bonito para um local que vendia de tudo, desde galinha caipira a Tainha salgada em Iguape. Naquele final de século XIX, a religião era levada a sério e nenhum bar ou açougue funcionavam durante a Semana Santa. As crianças não brincavam e as pessoas não cantavam, as janelas permaneciam fechadas em sinal de luto profundo e de respeito às dores sofridas pelo Salvador.

Com a vendinha fechada, seu Raimundo juntou a família e resolveu visitar os parentes em Peropava. Naquele tempo não existiam estradas na região e o único caminho para chegar ao bairro rural era o Rio Ribeira de Iguape. Também não existiam veículos automotores, nem bicicletas, nem ônibus, nem avião. O meio de locomoção era o barco, a lancha, o navio. Os muito ricos possuíam charretes, porém não havia passagens para que tal veículo transitasse fora dos limites da cidade.

Na canoa da família colocou os mantimentos, a esposa, os dois filhos, o cachorro e tomaram o rumo de destino, seis horas remando para chegar ao término da viagem. Frente ao bairro dos Engenhos existia um canal, na verdade uma vala, chamado no linguajar caiçara de Furado, que unia o Rio Peropava ao Rio Ribeira e encurtava o percurso em duas horas. O problema era que o tal Furado só dava passagem durante a maré cheia, pois na vazante se transformava em um lamaçal.

Seu Raimundo, na pressa de rever os parentes adentrou pelo Furado e após uma hora remando, a maré vazou e o Furado secou. Mutucas, pernilongos e mosquito pólvora fizeram a festa. Seu Raimundo soltou o primeiro palavrão. Dona Cotinha avisou; -“ Mundinho! Mais respeito. Hoje é Sexta Feira da Paixão!”As crianças abriram um berreiro, o cachorro latia desconsolado, dona Cotinha se coçava e seu Raimundo já estava arrependido de ter saído de casa justamente na data fatídica, não se conteve e exclamou;- “ Nem o Diabo é capaz de tirar a gente desse atoleiro!”

Mal acabou de pronunciar tais palavras, pareceu que o tempo parou. Nenhum trinar de pássaros, nenhuma brisa, nenhum barulho. Só o silêncio, numa calmaria anterior a Criação quando o mundo estava sendo sonhado na mente de Deus e nada ainda existia... De repente tudo explode em sons. Dona Cotinha se benze, os filhos se abraçam buscando mútua proteção, o cachorro gane baixinho e um vendaval surgido do nada arremessa a canoa no meio do matagal, vários metros longe da margem do Furado... Uma gargalhada infernal e o tempo retornou como se nada acontecera.

Seu Raimundo aprendeu a lição, nunca mais durante sua longa vida saiu de casa numa Sexta Feira Santa, pois é nesse dia que o Diabo está solto e nunca se sabe o que ele pode aprontar.

Gastão Ferreira/2011

Observação- História verídica ocorrida em Iguape e transmitida de geração a geração pela tradição oral.

Um comentário:

sonia regina d rocha disse...

Bom meu querido eu só tenho a lamentar, tudo isso estu te aponhando pode contar comigo se vc precisar d qualquer coisa é só falr abrços..sua aiga Regina