segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma história...


A HISTÓRIA DE BELLA...

O existir é algo maravilhoso, um milagre chamado Vida que ocorre entre o primeiro choro e o último suspiro. Nesse breve espaço de tempo tudo pode ocorrer. Cada ser humano é um personagem nesse palco mortal e bilhões de historietas são encenadas diariamente. Cada biografia com suas nuances, seus dramas, suas tragédias, suas comedias, nenhuma igual à outra. O palco Terra é o cenário e a criatividade é o limite de toda a criatividade.

Desde a mais remota antiguidade a Vida semeia contos e lendas. Fábulas sobre deuses e demônios, Zeus, Atenas, Apolo, Ulisses, Aquiles, Rômulo e Remo, Ícaro, Minotauro, a Esfinge, a Quimera, Vampiros e Lobisomens. Através do tempo mitos são criados e destruídos. Impérios aparecem e morrem! Isto se chama impermanência, uma palavra bonita para o que não sobrevive para sempre.

Quando Bella nasceu, seus pais nem desconfiaram qual a peça de teatro que se escondia por trás de tão lindo bebê. Seus cabelos loiros e os brilhantes olhos azuis chamavam a atenção, talvez porque na região pouquíssimas pessoas tinham essas características eslavas -“ Que coisinha fofa! Que belezinha! Qual o nome da princesinha?”

Na pequena cidade onde Bella cresceu, todos admiravam sua beleza, sua fina educação, sua bondade, sua alma caridosa, mas do que ninguém desconfiava era que Bella guardava um terrível segredo. Um mistério que a diferenciava de todos os habitantes do local. Bella tinha um probleminha! Bella não era perfeita! Bella era diferente! Nunca existiu alguém como Bella.

Algo que chamava a atenção era a inteligência inata, a facilidade em aprender qualquer coisa, Bella era superdotada, aos quinze anos falava, lia e escrevia em doze idiomas, além de entender de física quântica, agronomia, psicologia, química e outras dezenas de ramos da ciência. Assim que concluiu os estudos básicos, ganhou uma bolsa de estudo, sua família era extremamente pobre e ficou feliz em ter uma filha formada em uma Faculdade. Bella foi viver numa cidade grande e com ela seguiu o terrível segredo.

Aos vinte e dois anos, formada em Medicina, prestava serviço num grande hospital e foi nesta clínica que conheceu Paulo, o grande e único amor de sua vida. Paulo também era médico. Classe media alta, o casal tinha uma vida cercada do que havia de melhor, o melhor carro, o melhor condomínio, uma bela casa de praia. Boa filha, nunca se esquecia dos pais e sempre que podia ia visitá-los. Foi na volta de numa dessas visitas que o carro sofreu uma pane e o casal parou o veículo no acostamento da rodovia.

Os três garotos desceram do automóvel e sem dizerem uma palavra mataram Paulo e Bella. Colocaram os corpos na porta mala e posteriormente enterraram a beira mar. Os cartões de créditos foram usados por algum tempo, o carro vendido para um desmanche e pelo que consta o crime continua insolúvel até os dias de hoje.

Assim é a Vida, esse enigma impermanente. Essa força misteriosa que dá brilho as estrelas, que fez de um pequeno planeta azul, um palco onde são representados bilhões de textos e foi nesse mundo chamado Terra que Bella, a garota loira e de olhos azuis, com um terrível segredo que a acompanhou desde o berço, representou seu personagem.

Gastão Ferreira/2011

Observação; - O terrível segredo era nada mais, nada menos... Bem! Bella já morreu... Deixa pra lá o tal segredo.

sábado, 22 de outubro de 2011

Sem carapuça/Ficção


ANO 2.061 DC OU 50 DB

Escrevo no ano de 50 db (Ano 50 depois de Bete), moro num porão e espero que esse texto encontre leitor num futuro mais risonho. Eis um resumo histórico do que ocorre na cidade que um dia foi conhecida como a Princesa do Litoral. Depois que os abalos sísmicos dos anos 30 db ( Trinta depois de Bete), varreram do mapa a tal Ilha Comprida que foi tragada pelo mar por um tsunami gigante no litoral do Estado de São Paulo, muitas coisas mudaram. Os sobreviventes da catástrofe montaram um acampamento próximo a Fonte do Senhor, ficaram anos a fio aguardando a ajuda federal através do auxilio Bolsa Casa.

Com o passar dos anos foram informados que a totalidade da ajuda Bolsa Casa fora desviado. Os acampados revoltados com o descaso das autoridades deram inicio a “Grande Grilagem”. Esse movimento foi assim denominado para diferenciar da “Média Grilagem” que ocorreu em Três db (2.011 dc) e desmatou uma área conhecida como Porcina. A Grande Grilagem ocupou a totalidade dos morros que cercam a cidade. Uma grande favela subdividida em vários setores para homenagear animais e figuras proeminentes do passado. Favela da Oncinha, da Capivara, do Tamanduá, da Paquinha, da Formiga, do Cocho, do Berne entre tantas outras.

Os favelados além do Vale Casa, Vale Pão, Vale Água, Vale Mobília, Vale Gás, Vale Transporte, Vale Refeição, Vale Cerveja e Vale Maconha exigiram um novo Vale, o Vale Zona. Os candidatos a cargos eletivos eram favoráveis ao novo Vale, mas os poucos eleitores que pagavam impostos eram contra. O motivo da desavença era que os impostos consumiam 95% dos rendimentos de um trabalhador com carteira assinada e quem produzia não tinha direito a nenhum Vale. Os políticos venceram e a vida mudou completamente.

Nos dias atuais as únicas pessoas que levam uma vida digna são os políticos. Têm segurança vinte e quatro horas, carros blindados, mansões fortificadas, restaurantes próprios para si e familiares, áreas de lazer e shoppings para utilizarem cartões corporativos. Parte da população vive apavorada em casas com grades, dormindo em porões cimentados e se comunicando virtualmente com amigos e familiares. Os bares, pizzarias, praças e ruas, hoje pertencem aos Com Vales, são considerados intocáveis, pois são eles que elegem os mandantes.

Contamos o tempo de muitas maneiras. Estou escrevendo esse relato no ano gregoriano de 2.062 dc, também grifado de 50 db (Cinqüenta depois de Bete), pois foi em tal reinado que as causas da degradação se iniciaram, a bem da verdade podemos recuar vinte anos ab (20 antes de Bete)e encontraremos a raiz do mal.Esta cidade era de uma beleza única, pacata,amena, festeira. A ruína foi silenciosa. Pedintes tomaram conta da área central da cidade espantando os raros turistas, grilagens no entorno da cidade, obras desnecessárias e caras em detrimento de obras essenciais como Maternidade, Velório Público, modernização da Saúde. Falta de segurança e descaso com o tráfico de drogas, tornaram os cidadãos reféns de usuários e bandidos.

A compra de votos ou troca por favores, era o modus operandi de politiqueiros locais, um atraso na vida de quem sonhava com progresso. Com a aceleração dos problemas climáticos e o fatídico tsunami do ano 30 db (2.041 dc)veio o caos. As pessoas que já viviam há décadas sustentadas pelas benesses do governo fizeram novas reivindicações e foram atendidas. Quem trabalhava não tinha direitos e quem vivia dos muitíssimos impostos mandava e desmandava.

Hoje, a sociedade está assim dividida. Temos os políticos e seus asseclas no topo da pirâmide social. Temos os Com Vales, pessoas que não quiseram estudar e nada produzem, mas que sobrevivem como intocáveis e temos os que estudaram e trabalham para sustentar a sociedade dominante. É proibido escrever contra as oligarquias, este texto será colocado numa garrafa de vidro e jogado no mar. É meu legado ao futuro, não sobreviverei a novas torturas, estou velho e cansado. Partirei levando na memória os dias infantis, o verde das nossas matas, a fartura de peixes, os bandos de pássaros enfeitando o céu, o coreto da Praça da Matriz, os banhos na Fonte do Senhor, o vento leste amenizando o calor, a lembrança feliz da criança que fui e da cidade que amei.

Dito Prado/50 db/Iguape

Gastão Ferreira/2011/Iguape

terça-feira, 18 de outubro de 2011

OUTRA HISTÓRIA REAL...


O PALHAÇO FUMAÇA

O neto estava completando quatro anos de vida e a vovó resolveu caprichar na festança. Contratou um famoso pintor que encheu as paredes do salão com desenhos infantis, animais exóticos e bichinhos do nosso folclore. Uma quituteira renomada fez os doces e salgados, muito suco e refrigerantes para os amiguinhos do infante. Música e brincadeiras para a molecadinha presente.

Os convidados escolhidos a dedo, nada de filho de pobre, somente os herdeiros da elite e seus papais. O prefeito com a esposa, alguns empresários, profissionais liberais e a velha nobreza da Princesa do Litoral. Uma festa para ninguém por defeito, um desperdício para alegrar uma criançada sem educação e cheias de fricotes.

No pátio um conjunto tocava música antiga, as madames faziam cara de nuvem e sorrateiramente escondiam nas bolsas, as sobras das diferentes iguarias vindas da cidade grande. Os senhores da sociedade provavam de um uísque importado, complementando a cachaçada com muita cerveja, muita caipirinha, e, muita conversa de alto nível, tipo; - “Você soube da última?”

Na hora dos parabéns reuniram os convidados, os filhotes, os serviçais e as babás no salão todo enfeitado com balões, onde um imenso bolo dava água na boca, só de olhar. Pais e mães encantados com a fina educação de seus rebentos faziam de conta que os filhos nem eram seus, tamanha era a algazarra no recinto. A vovó patrocinadora da festança fez um pequeno discurso e informou a petizada da contratação de um famoso palhaço para alegrar os convivas.

As crianças se agruparam no fundo do salão, os pais na porta de entrada. Entre um grupo e o outro, os doces e o bolo de aniversário. As luzes foram apagadas e o som de uma bandinha preparava o ambiente para a entrada do Palhaço Fumaça... Tcham... Tcham e começam os efeitos especiais. Nuvens de fumaça colorida saem pela porta de um quartinho anexo ao salão, bombas com estrelinhas de papel prateado explodem no ar... Os infantes apavorados se juntam trêmulos e um vulto com uma capa negra pula do quartinho em direção aos pivetes, dando um grande grito; - “Palhaço Fumaça se apresentando!” e retira de supetão a capa negra. Foi o famoso estouro da boiada. As crianças apavoradas e aos berros correram para os pais, derrubando os salgados e doces, caso um anônimo não tivesse segurado o bolo a tempo, o mesmo teria se esborrachado no chão... As luzes foram acesas e dava dó de ver a cara do Palhaço Fumaça que fora confundido com um monstro.

Passado o susto, o show recomeçou. No final deu tudo certo, pois criança é criança e adora uma folia, jamais vou esquecer o Palhaço Fumaça e do acesso de riso que tive ao presenciar o ocorrido... Vida longa ao excelente Palhaço Fumaça.

Gastão Ferreira/2011

domingo, 16 de outubro de 2011

Uma história real...


BARRA DO FURADO...

Sexta Feira Santa, dia em que Nosso Senhor visitou o inferno, dia em que o capeta manda no mundo, dia em que o mal ronda pelos caminhos tentando os servos de Deus... Nesse dia, dizem os antigos, o melhor é ficar em casa, jejuar, não comer carne e nem ingerir bebidas alcoólicas, rezar e se arrepender dos muitos pecados praticados.

Seu Raimundo nascido no bairro de Peropava conseguira realizar seu sonho, montar um entreposto, nome bonito para um local que vendia de tudo, desde galinha caipira a Tainha salgada em Iguape. Naquele final de século XIX, a religião era levada a sério e nenhum bar ou açougue funcionavam durante a Semana Santa. As crianças não brincavam e as pessoas não cantavam, as janelas permaneciam fechadas em sinal de luto profundo e de respeito às dores sofridas pelo Salvador.

Com a vendinha fechada, seu Raimundo juntou a família e resolveu visitar os parentes em Peropava. Naquele tempo não existiam estradas na região e o único caminho para chegar ao bairro rural era o Rio Ribeira de Iguape. Também não existiam veículos automotores, nem bicicletas, nem ônibus, nem avião. O meio de locomoção era o barco, a lancha, o navio. Os muito ricos possuíam charretes, porém não havia passagens para que tal veículo transitasse fora dos limites da cidade.

Na canoa da família colocou os mantimentos, a esposa, os dois filhos, o cachorro e tomaram o rumo de destino, seis horas remando para chegar ao término da viagem. Frente ao bairro dos Engenhos existia um canal, na verdade uma vala, chamado no linguajar caiçara de Furado, que unia o Rio Peropava ao Rio Ribeira e encurtava o percurso em duas horas. O problema era que o tal Furado só dava passagem durante a maré cheia, pois na vazante se transformava em um lamaçal.

Seu Raimundo, na pressa de rever os parentes adentrou pelo Furado e após uma hora remando, a maré vazou e o Furado secou. Mutucas, pernilongos e mosquito pólvora fizeram a festa. Seu Raimundo soltou o primeiro palavrão. Dona Cotinha avisou; -“ Mundinho! Mais respeito. Hoje é Sexta Feira da Paixão!”As crianças abriram um berreiro, o cachorro latia desconsolado, dona Cotinha se coçava e seu Raimundo já estava arrependido de ter saído de casa justamente na data fatídica, não se conteve e exclamou;- “ Nem o Diabo é capaz de tirar a gente desse atoleiro!”

Mal acabou de pronunciar tais palavras, pareceu que o tempo parou. Nenhum trinar de pássaros, nenhuma brisa, nenhum barulho. Só o silêncio, numa calmaria anterior a Criação quando o mundo estava sendo sonhado na mente de Deus e nada ainda existia... De repente tudo explode em sons. Dona Cotinha se benze, os filhos se abraçam buscando mútua proteção, o cachorro gane baixinho e um vendaval surgido do nada arremessa a canoa no meio do matagal, vários metros longe da margem do Furado... Uma gargalhada infernal e o tempo retornou como se nada acontecera.

Seu Raimundo aprendeu a lição, nunca mais durante sua longa vida saiu de casa numa Sexta Feira Santa, pois é nesse dia que o Diabo está solto e nunca se sabe o que ele pode aprontar.

Gastão Ferreira/2011

Observação- História verídica ocorrida em Iguape e transmitida de geração a geração pela tradição oral.

sábado, 15 de outubro de 2011

REFLEXÃO...


PROCISSÃO DOS MORTOS

Quatro horas da manhã... Véspera do Dia de Finados. Sentado em um banco na Praça da Matriz, aprecio a paisagem noturna. Uma leve sonolência e a neblina se dispersa. Ocorre uma sutil mudança, vozes e vultos do passado se materializam. Meninos mortos, se esquecidos da carne, correm envolta de um coreto a muito desaparecido. Um Capitão do Mato chicoteia o escravo fujão. Beatas de negras vestes e negros pensamentos apontam à sinhazinha que abandonou pai e mãe por um amor desesperado... Não foi feliz! A fome falou tão alto que ela voltou com um filho bastardo... Ela causou vergonha ao Coronel sem quartel, que guardou seu ouro, seu tesouro, não para o neto espúrio, essas moedas ficaram para Nosso Senhor e quem sabe comprarão seu lugar no Céu!

As autoridades, os mandões do passado, com as mãos vazias do que foi rapinado, solicitam votos aos assassinos da moral, aos antigos comparsas das empreitas sombrias... Continuam corrompendo as sombras e buscando o apoio necessário a novas vilanias... Um homem com um punhal cravado no peito pede justiça e mostra seu secreto matador... Adolescentes drogados agridem as flores e pisam a grama do jardim. A procissão anual dos mortos contorna a praça. Com suas vestes rotas e velas, não apagadas pelo vento, entoam cânticos pedindo a salvação... Param frente à igreja e exigem remissão. O assassino deposita a arma do crime, o ladrão o que roubou... O político jura que não prevaricou e que o dinheiro desviado foi bem aplicado, mas não confessa o pecado e ainda aponta como safado quem o delatou.

Os seresteiros, os que desviavam as donzelas com falsas promessas, agora carentes de amor solicitam compaixão. Na praça as almas que outrora se compraziam na vingança, na maledicência, na hipocrisia, pedem por luz, repouso e jamais por perdão. A noiva que enlouqueceu ao se saber traída e se enforcou, mostra as marcas da corda em volta de sua garganta e exige retratação. Os criminosos, os venais, os perjuros, os homicidas e todo aquele que se aproveitou de cargos públicos em favor da corrupção, entoam ladainhas aos Santos de sua devoção.

Na praça um murmúrio de vozes invisíveis, algo estranho no ar, um leve arrepio pedindo atenção... Um clarão desce do alto e cerca os fantasmas do passado. São as crianças mortas pela fome, pelo abandono, pelas doenças, pela desnutrição, pelo descaso, pelos psicopatas e que se acercaram da multidão. Frente à igreja pedem pelos assassinos, corruptos e ladrões, mas as portas não se abrem não! Um forte vento sopra apagando as velas, a neblina se dissipa, o coreto sumiu dando lugar a uma cruz de pedra, símbolo do muito que temos que sofrer por não reagir aos desmandos, à falta de honestidade, a falta de amor pela cidade que é nosso abrigo. Embora vivos, somos parte da procissão dos mortos. Dos mortos de sonhos, dos mortos de progresso e da esperança, não temos voz.

A procissão anual dos mortos, sempre as vésperas do Dia de Finados deixou no ar desejos de mudanças, uma vontade de ser bom, esperança de compartilhar a vida sem ofender aos semelhantes, de viver do próprio suor, de aplainar caminhos... Somos feitos de pó e ao pó voltaremos. O que é do mundo fica no mundo, os tais bens materiais, mas nossa alma imortal leva consigo a vivência dos sonhos, das picuinhas, das maldades.

Não quero encontrar fechada a porta do templo, quero paz dentro de mim. Sentado em um banco na Praça da Matriz aprecio a paisagem. Sou apenas um personagem nesse palco vida, sou um voto, uma sombra, um grito de socorro no silêncio da manhã, que nada me responde.

Gastão Ferreira/Iguape/2011